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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

PRIVATIZAR A CGD?

Por Eduardo Louro

 

Assim a jeito do que se passou com o problema da revisão constitucional no Verão passado, Pedro Passos Coelho (PPC) fala agora da privatização da Caixa Geral de Depósitos. Parece-me bem que o resultado irá ser o mesmo: não vai correr bem!

Claro que esta altura é bem diferente da de então. Agora estamos em pleno período pré-eleitoral e faz sentido falar destas coisas. Acresce que é preciso inventar dinheiro e, quando assim é, fala-se de privatizações e de aumento dos impostos. Por pouco tempo, é certo, mas ainda é possível falar destas duas coisas! Já não está longe o dia em que não há que privatizar. E em que, havendo impostos para aumentar - e isso há sempre - não há quem os pague!

Pertenço à velha escola que entende que há posições que o Estado deveria manter sempre que se trate de sectores da actividade que mexam com serviço público, entendendo o serviço público em sentido lato, isto é, alargado a tudo o que sejam serviços essenciais. Em tese, e apenas aí, permitiria ao Estado exercer a verdadeira regulação. E servir de referência de benchmarking!

Mas isto é escola. São teses que, infelizmente, nunca passaram na validação!

Porque nunca veio do Estado qualquer exemplo e, as coisas só não correram mesmo mal na gestão pública quando copiaram as empresas privadas congéneres. O modelo para o benchmarking esteve sempre do outro lado. O Estado apenas serviu para alimentar clientelas, criar e fazer crescer gerações que, de cartão na mão e influências nas costas, estabeleceram redes de interesses em vez de redes de competência.

Daí, e só por isso, que quando se fala de privatizar, ao mata-se eu responda com esfola-se!

E no entanto, se digo sim com palmas e tudo à RTP (há quantos anos deveria ter sido privatizada?) e à TAP, já sou completamente contra privatização da CGD. E especialmente nesta altura. Noutro tempo, noutra conjuntura, discuta-se. Agora, não!

Porque a CGD é precisamente um daqueles casos em que as coisas não têm corrido mal, que o benchmarking com o sector privado ajudou até correr bem. Porque acolhendo clientelas – como todos os outros e aqui até com regras tordesilheanas – os resultados não se têm ressentido disso, talvez porque, neste caso, a boa moeda – que também a há nas clientelas - tenha expulso a má moeda. E porque, como estamos fartos de ver, na hora do aperto (e não só) quando se trata da banca, é à porta do Estado que toda a gente vai bater.

Foi assim com a crise financeira internacional – a verdadeira, não a do Sócrates -, foi assim com o famigerado BPN e foi assim com as trapalhadas do BCP, que acabaram por levar a rapaziada da CGD, com Vara e tudo, para a sua administração. De resto, o episódio que esteve na origem da transferência da administração da CGD para o BCP – e as agora conhecidas vergonhosas e despudoradas condições da saída de Armando Vara – mostram que, no que toca a clientelismo, esta forte ligação entre a banca e o Estado não permite grande desfasamento entre público e privado!

Quero com isto dizer que, ao contrário do que se poderia esperar, hoje em dia não faz assim tanta diferença, e a privatização apenas teria a vantagem de produzir umas massas. Massas que, para reduzir a dívida, seriam pouco mais que uma gota de água. E que, nesta altura, seriam bem curtas!

Vender CGD agora seria um péssimo negócio. A actual conjuntura nacional não só desvaloriza as nossas empresas, e em especial os bancos, como desmobiliza os investidores. Com o banco, a quem a Fitch baixou hoje a notação em dois níveis, para BBB+, desvalorizado, e com os investidores virados para outro lado, a privatização seria ruinosa.

Há sempre aquela história dos pequenos aforradores, mas essa é uma daquelas que se contam para adormecer os meninos…

 

 

QUE AVISO!

Por Eduardo Louro

 

 

Um jornal irlandês – Sunday Independent – endereça, em carta a Portugal, um conselho amigo: Um conselho de amigo para Portugal, chama-lhe! Nada mais sintomático numa altura em que atingimos as taxas de juro que obrigaram a Irlanda a pedir ajuda: à capitulação!

O original da carta está aqui. Uma tradução dirá mais ou menos isto:

 

Querido Portugal, daqui escreve a Irlanda. Sei que não nos conhecemos muito bem, embora tenha ouvido dizer que alguns dos nossos investidores estão por aí a cavalgar a recessão. Podem ficar por aí um tempinho. Não quero parecer intrometido mas tenho lido umas coisas sobre ti nos jornais e acho que posso dar-te um ou outro conselho sobre o que se passa contigo e que vem aí.

A piada que corre é: sabem qual a diferença entre Portugal e Ireland? Cinco letras e seis meses.
Adiante; reparo que estás sob pressão para aceitar um resgate exterior mas os teus políticos afirmam estar determinados a não aceitar. Só, dizem eles, por cima dos seus cadáveres. Na minha experiência, isso significa que está para breve, provavelmente a um Domingo.
Primeiro deixa-me explicar-te um pouco as nuances da língua Inglesa. Devido ao facto de o inglês ser a tua segunda língua, poderás pensar que as palavras “bailout” e “aid” implicam que irás contar com a ajuda dos nossos parceiros comunitários para sair das tuas actuais dificuldades.
O Inglês é a nossa primeira língua e isso foi o que pensámos que “bailout” e “aid” significavam.
Permite que te avise: não só este “bailout”, quando te for inevitavelmente imposto, não te livrará dos teus problemas actuais, como irá prolongá-los por gerações e gerações.
E ainda esperam que fiques grato. Se quiseres procurar a tradução correcta de “bailout”, sugiro que pegues no dicionário de Inglês-Português e procures palavras como: moneylending, usury, subprime mortgage, rip-of (empréstimo, usura, hipoteca, roubo). Assim terás uma tradução correcta do que te vai suceder. Vejo também que vais mudar de governo nos próximos meses. Desculpa ter de sorrir. Sim, coloca uma demão fresquinha de tinta por cima das rachas da vossa economia, e aprecia o perfume enquanto dura. Nós também tivemos um governo novo, aliás até é divertido ao princípio. O novo governo chegará envolto numa leve euforia. Terá prometido todo o tipo de coisas durante a campanha sobre deitar fogo aos capitalistas e assim enquanto a UE sorri benevolamente ante a converseta. Mal tome posse, o novo governo irá à Europa tentar fazer boa figura. Poderás até ganhar umas partidas contra o teu velho inimigo, seja ele quem for, ou atrair visitas de alguns dignitários estrangeiros como o Papa ou isso. Vai haver boas vibrações no ar e toda a gente vai refugiar-se nessa ilusão por um tempo.
Aproveita enquanto puderes, Portugal. Porque assim que a diversão acabar a realidade vai intrometer-se no teu caminho. A única coisa boa disto tudo é que jogar golfe se tornou muito atractivo aqui. Espero que o mesmo suceda por aí e poderemos então combinar um jogo.

 Com amor,·


Irlanda”

 

Obrigado Irlanda, já não nos vens ajudar em nada mas sempre é melhor sabermos com o que podemos contar!

 

MAU FEITIO

    

Por Eduardo Louro

 

A entrevista de Miguel Sousa Tavares (MST) à Presidenta – é assim que gosta de ser tratada – Dilma Roussef, passada na SIC na véspera da sua primeira visita oficial a Portugal e à Europa, teve, para mim, um ponto alto. O entrevistador – personagem que não é conhecido exactamente pelo seu bom feitio – a determinada altura da entrevista, focado na estratégia de combate ao crime organizado no Brasil, referiu o suposto mau feitio da entrevistada. A referência ao seu mau feitio era, na circunstância, aquilo que nós portugueses entendemos como um atributo decisivo para aquele combate: duro - no caso dura, ou mesmo durona –, determinada e implacável!

Dilma fez um silêncio (mais ou menos) prolongado e não conseguiu disfarçar o desconforto. O Miguel Sousa Tavares, afinal como todos os que assistíamos à entrevista deste lado de cá, percebeu que alguma coisa não tinha corrido bem, quando a entrevista até corria solta e na melhor das cordialidades – ele não tinha levado para ali o seu próprio mau feitio –, rapidamente compreendeu que a bronca estaria no mau feitio.

E estava!

Explicaria a Presidenta do país irmão que, no português de lá, mau feitio queria dizer que algo de errado se passava com a sua roupa. Mau feitio tem a ver com problema de costura!

Percebemos, evidentemente, o desconforto. Mesmo sendo uma ex-revolucionária, Dilma é mulher! E é presidenta da república!

Nem sequer coloco a remota hipótese da fama do mau feitio do MST ter chegado ao palácio do Planalto – ao que se diz ele até morre facilmente de amores lá pelas terras de Vera Cruz – e de, prevenida, Dilma Roussef ter reagido já condicionada. Não era necessário tanto para se justificar uma afronta digna de um grave problema diplomático!

O mal entendido seria entretanto e rapidamente esclarecido, acabando afinal por não provocar mais que uma boa rizada, na qual haveria também eu de participar. Mas fiquei a pensar como, afinal, eu entendia aquela interpretação. Como ela me remetia para velhos usos que deste lado de cá demos, em tempos, a esta nossa língua!

Há muito, muito tempo, antes de cá chegar o prête à porter, também era esse o sentido que dávamos ao feitio. Talvez porque então nem sequer tivéssemos direito ao mau feitio ou, quem sabe, porque pobretes mas alegretes!

Pois era. Nesse tempo as mulheres iam às modistas e os homens aos alfaiates, mandar fazer as suas roupas. Levavam-lhes os tecidos – as sedas, os linhos, a fazenda – e pagavam-lhes o feitio!

E aí está como, também por cá, o feitio era o trabalho de confecção da costureira, da modista, como se lhe chamava, e do alfaiate. E, naturalmente, um mau feitio seria mesmo o mau trabalho na confecção do vestuário. Como continua por lá, apesar do pronto-a-vestir!

Enfim, coisas que o mau feitio do acordo ortográfico nunca resolverá!

O DESERTO

Por Eduardo Louro

 

Já aqui referi a personalidade política de Sócrates e a forma como, fazendo-o confundir com o governo e com o partido, foi determinante para o actual estado do país. No estado em que o governo deixou o país e no estado em que o partido o pode vir a deixar, face à forma como hoje condiciona a conjuntura política. Uma personalidade que, se tudo corre bem, funciona como alavanca de sinergias. Mas, se algo corre mal, potencia e sustenta a famosa lei de Murphy!

Com a sua personalidade a secar governo e partido, Sócrates, envolvido em tantos e tão sucessivos escândalos e problemas pessoais – de que os casos Freeport e TVI e a adjacente e colateral operação face oculta são apenas os exemplos mais flagrantes – agravados por essa mesma personalidade – a tal lei de Murphy – facilmente percebemos estes últimos dois anos de governação. E mais facilmente percebemos ainda como ele é apenas parte do problema, sem que possa alguma vez vir a ser parte da solução!

Sócrates - quer dizer: o governo e o partido que o suporta – concentrou todas as energias na defesa da sua pele. Não lhe sobrou, nem poderia sobrar, tempo para o país!

Como para além dele era o deserto, não houve quem pensasse o país, que ficou em piloto automático… E foi assim que, sem capacidade para pensar o país e de antecipar os problemas, eles se foram acumulando, uns atrás dos outros, como uma bola de neve. Aqui chegados, Sócrates utilizou a receita que já seguira perante os seus próprios problemas. Com os mesmos resultados: agravando-os. A lei de Murphy, mais uma vez!

Negando-os sucessivamente, enrolando e distorcendo a realidade na ilusão, e não sei se na convicção, de que a sua imensa capacidade de manipular factos, dados e circunstâncias o levaria, incólume, ao encontro do que esperava ser o seu grande aliado: o tempo! Ele já só queria ganhar tempo, mesmo que não soubesse o que fazer com ele. Sem perceber que o tempo já não estava do seu lado. Que o tempo já só podia agravar os problemas, lançados num galope incontrolado!

A personalidade de Sócrates não lhe permitia delegar a responsabilidade de pensar o país enquanto ele se entregava aos seus múltiplos problemas. Mas também não vemos em quem a poderia delegar.

Em Pedro Silva Pereira? Seria difícil: para ele reservara apenas o papel de fiel escudeiro, um papel que personagens como Sócrates não conseguem dispensar. Sobrava-lhe Teixeira dos Santos. Não era do partido e teria muitas dificuldades, como se percebeu na última e lamentável sessão parlamentar, quando perante a insólita retirada de Sócrates ficou sozinho e isolado. Mas percebeu-se também que não tinha dimensão política para a tarefa. Nem mesmo de carácter e de personalidade, como estes últimos tempos se encarregaram de mostrar à evidência.

Por isso chegamos aqui. E, ainda por isso, não sabemos onde estaremos para chegar. Por isso e por haver tanta gente a não perceber isso!

Porque é por haver tanta gente a não perceber tudo isso que o PS manteve as eleições internas. E que Sócrates foi reeleito por uns obscenos 93,3%, para continuar a ser o grande problema do país.

Oxalá eu esteja enganado!

 

ADEUS, MESTRE!

Por Eduardo Louro

 

 

O Dr Manuel de Oliveira Perpétua deixou-nos hoje! Partiu o Homem e o Mestre que marcou a minha formação!

À falta de palavras deixo aqui um excerto de um texto com que, há cerca de ano e meio, assinalava aquilo que, provavelmente, terá sido a sua última homenagem.

 

“…Estou, no entanto, mais interessado em falar do Homem e do pedagogo que Porto de Mós não poderá nunca esquecer nem cansar de homenagear. Seja em regime de pompa e circunstância, de cerimónia pública, seja num simples registo intimista, como este, que mais não pretende que transmitir aos portomosenses mais novos a admiração, e o respeito profundo, de toda uma geração que teve a rara felicidade de poder aprender, e de se poder formar, com um Homem da dimensão do Dr Manuel Perpétua.

Sou um dos muitos que tiveram esse privilégio! E, hoje, quase 40 anos depois, uns vividos com grandes mestres académicos e outros com grandes profissionais das mais diversas áreas, com grandes colegas e grandes amigos, posso garantir que foi o Homem que mais marcou a minha formação. Na construção do meu edifício de valores, no conhecimento que me abriu novos conhecimentos, na estruturação do meu pensamento, no primado do sentido cultural da vida, na clandestina construção da consciência política…

Quis o acaso que tivesse a felicidade de, no meu processo de construção, encontrar um mestre como o Dr Perpétua. De mais rara felicidade foi, contudo, a oportunidade desse encontro. Andava pelos meus 17 anos, naquele tempo a idade fértil da aprendizagem.

Acredito que o tenha encontrado no tempo certo para aprender com ele uma boa parte do que tinha para nos ensinar. A infância já tinha ficado para trás, com tudo o que de desconforto a escola representa(va) naquela fase. A exigência e a disciplina já não eram uma imposição ditatorial de um espaço assustador e de um tempo escuro. Então, aos 17 anos e nos sexto e sétimo anos do liceu da altura, eram apenas condições naturais de um espaço de conhecimento e de um tempo de aprender a ser homem.

As matérias, as disciplinas, eram interessantes: História, Psicologia e Filosofia. Que ele sabia tornar ainda mais interessantes! Mas, se não tinham interesse nenhum, como era o caso da famigerada Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN, como lhe chamávamos como que antecipando o actual mundo das siglas) ele sabia exactamente como torná-las tão ou mais interessantes que as outras. E passávamos, então, quase todos os meses do ano lectivo aprendendo coisas novas e interessantes. Quase todos, porque, no último, ele dizia: “Bom, agora temos que nos preparar para o exame; toca a estudar o livrinho, porque o exame é feito disto e não do que temos andado a falar”. Pois, é que era proibido falar do que tínhamos andado a falar!

Para quem não viveu esses tempos, não é fácil imaginar a importância do Colégio em Porto de Mós. O Colégio, tal era a excelência, trouxe para Porto de Mós gente de todo o país, de Norte a Sul, das ilhas às então colónias. O que toda essa gente trouxe e levou permanecerá para sempre como património de Porto de Mós. Todavia, património maior ficou com os portomosenses, a quem o Colégio abriu as portas da educação, num tempo em que a educação era privilégio de alguns e não direito de todos. Em que o ensino público secundário estava disponível, para apenas alguns, nas capitais de distrito e pouco mais. E em que os acessos e a mobilidade nada tinham a ver com a actualidade.

O Dr Perpétua fez ensino público num Colégio Particular (como então se dizia, em vez do actual privado). Colégio que se tornaria efectivamente público, na primeira escola pública do ensino secundário em Porto de Mós, em 1973 quando, pela mão da reforma “Veiga Simão”, desencadeada a partir da primavera Marcelista, o Estado adquire aquela magnífica infra-estrutura, hoje um verdadeiro ex-libris da arquitectura em Porto de Mós, dando continuidade à nobre missão do Dr Manuel Perpétua.

Obrigado Dr Perpétua. E continue connosco por mais muitos anos, porque continuamos a precisar de si!”

 

Futebolês #69 SUJAR OS CALÇÕES

Por Eduardo Louro

 

Convém começar por esclarecer que calções são calções, não são cuecas. Por muito que os sportinguistas digam que calções brancos são cuecas - não gostam dos calções brancos com a sua camisola verde e branca, à Celtic de Glasgow – calções, mesmo que brancos, não são cuecas. Por isso sujar os calções nunca terá nada a ver com sujar as cuecas! Uns sujam-se por fora. As outras, por dentro!

Sujar os calções é a expressão que o futebolês consagrou para se referir ao comportamento em campo de um determinado tipo de jogador. Como se percebe os calções sujam-se no chão. Ou porque se cai ou porque se vai à luta no chão pela disputa da bola. Na briga!

Há jogadores brigões e há os que fogem da briga, como na vida, afinal. Há pessoas que brigam por tudo e por nada e há outras que nunca se querem meter em confusões. Todos nós conhecemos os tipos que, invariavelmente, estão onde houver confusão. Onde quer que seja, nasceram para aquilo! E há outro tipo de pessoas que, ao verem sinais de confusão, passam de imediato para o outro lado da rua. Maricas e medricas acabam por ser os epítetos menos acintosos que lhes são dirigidos! Quando não são mesmo acusados de, tal é o medo, sujarem não os calções, mas as cuecas…

Os jogadores que não sujam os calções também não fogem a estes e outros tipos de mimos. Os adeptos gostam sempre mais do jogador brigão, do que corre atrás da bola mesmo quando ela há muito saiu do campo. Mesmo que depois não saiba o que fazer com ela. Daqueles de quem se diz serem capazes de deixar a pele em campo!

E não gostam mesmo nada dos que se poupam de correr atrás de uma bola claramente inalcançável. Dos que não metem o pé onde não é preciso, simplesmente porque acham que não devem meter o nariz onde não são chamados.

Em Portugal o mais famoso, e inevitavelmente o mais odiado, jogador que não sujava os calções dá-se pelo nome de Nené. Um jogador que passeou calções impecavelmente brancos pelos relvados de futebol durante toda a década de 70 e metade da de 80. Que, com a elegância de um modelo na passerelle, começou por se notabilizar na primeira equipa do Benfica, de uma equipa onde ainda brilhava Eusébio – que ainda marcava golos como ninguém - mas onde também marcavam (e muito) jogadores fantásticos como Artur Jorge - também ele pouco dado a sujar os calções – e o malogrado Vítor Batista, como um dos melhores extremos direito da Europa. Depois, evoluindo para um dos melhores pontas de lança do futebol nacional (e europeu) do seu tempo, ao lado de Jordão, Manuel Fernandes e Gomes, passaria a ser brindado com as maiores assobiadelas que alguma vez cruzaram o velhinho Estádio da Luz. E ficou o mito!

Onde é que hoje - que, ao contrário de então, somos uma potência mundial do futebol – temos quatro pontas de lança daquele calibre? Nem um!

O que hoje temos no futebol é gente capaz de sujar tudo. Mesmo que os calções! Que se suja e que não se importa com o que esteja sujo.

Basta olhar para esta semana. Que começou, logo na segunda-feira - sujo mais sujo não há - com uns marginais a atingirem à pedrada o autocarro e o carro do presidente do Benfica, quando regressavam de Paços de Ferreira, onde a equipa acabara de realizar uma partida fantástica marcada pela melhor meia hora de futebol da época e pelos dois golos de Nuno Gomes – outro extraordinário jogador, que não precisa de sujar os calções para atingir o melhor rácio imaginável entre golos e tempo de utilização em jogo.

Que passou pela amplificação de umas inoportunas declarações de Pepe – desconheço a pergunta que suscitou aquela resposta, coisa que é habitual na imprensa desportiva (e não só!): lançam perguntas incendiárias (que logo desaparecem de todos os registos) apenas à procura de respostas mortais (como diria Emídeo Rangel) – a dar umas bicadas em Carlos Queirós. Que, mais sujo ainda - muito mais sujo mesmo – protagonizaria uma reacção lamentável que mais não fez que menorizá-lo ainda mais. E definitivamente sujar-se, sem que nada já o possa lavar!

E que termina com as eleições no Sporting, onde não houve apenas muito jogo sujo. Onde Eduardo Barroso se esqueceu que não era um simples adepto anónimo de rua – ele esquece-se com frequência disto – e, para defender a candidatura que apoia, se declarou nada preocupado se o dinheiro dos russos é sujo. Ele - cirurgião de renome, membro do clã Barroso Soares e candidato a presidente da mesa da assembleia-geral do Sporting Club de Portugal - não se importa que o Sporting se torne num centro de lavagem de dinheiro desde que esse dinheiro lhe permita alimentar o seu cego fervor clubista! E onde um deprimente Paulo Futre, em poucos minutos, transformou um ídolo num monte de uma coisa suja …

A CRISE POLÍTICA V

 

Por Eduardo Louro

 

Nestes dois dias que levamos de crise política vamo-nos apercebendo de um fosso abissal entre a capacidade de comunicação da máquina Sócrates – insisto: que é o governo e que é o PS – e a da oposição, em particular a de Passos Coelho e do PSD.

Não sei, neste momento, medir as consequências desta realidade. Mas não tenho dúvidas que terá consequências nas próximas eleições! Não tenho grandes dúvidas que, em pouco tempo, esta eficácia na comunicação irá levar muita gente a esquecer-se do que realmente nos aconteceu nestes últimos tempos!

É sintomática a incapacidade de resposta de Passos Coelho. A confrangedora falta de eficácia de comunicação – não pega no que deve pegar e muito menos da forma que deveria pegar - permite que Sócrates passeie livre e impunemente a sua tese de gloriosa vitimização assente numa descarada manipulação dos factos e da realidade. E é grave!

É grave porque é mais que um detalhe. É grave porque confirma que Passos Coelho descurou o trabalho de casa. E é grave porque começamos a perceber que este PSD apenas se tem limitado a esperar pela fatalidade do poder. Já começávamos a desconfiar que ideias e programas eram coisa que não abundava por ali. E como sabemos que nada disso surge de geração espontânea…

O cenário é este: Passos Coelho fala pouco e mal! Depois dele apenas Miguel Relvas, cada vez mais a parecer uma picareta falante, e um rapazinho que apareceu na televisão a defender aquela do aumento do IVA que não lembraria a ninguém…

A CRISE POLÍTICA IV

Por Eduardo Louro

 

A sessão parlamentar de ontem, que desembocou na demissão do governo, sugere-me três reflexões sobre o futuro próximo. A primeira vai logo direitinha para a dignidade da Assembleia da Republica (AR) e, como casa da democracia que é, para a própria dignidade da actividade política!

Uma tarde inteira – pelo menos cinco horas – para chegar onde chegou não dignifica a AR nem a maneira como se faz política em Portugal. Muito menos, evidentemente, os políticos! O tom do(s) discurso(s) - as mesmas coisas repetidas por toda a gente sem uma única novidade -arrastou-se penosamente durante horas a fio num evidente sinal de ineficiência e de desperdício. Porque o resultado estava à vista. Tão à vista que nem sei se será assim tão condenável que Sócrates – bem sei que o comandante é o último a abandonar e que são os ratos os primeiros a fugir – tenha abandonado os trabalhos logo no início! Abandono que, obviamente, em nada dignificou a instituição parlamentar e a democracia. Que também não o dignificou a ele próprio, mas isso já nem sequer tem importância nenhuma!

Quanto maior é a crise maior é a importância das instituições. Quanto mais fortes e prestigiadas forem as instituições maiores são as possibilidades de êxito no combate às crises e, naturalmente, maior é a confiança no sucesso. Ontem, mais uma vez, a AR não nos deu razões de confiança!

A segunda vai direitinha para Sócrates.

Mercê de uma personalidade política invulgar, Sócrates foi o governo e o governo foi Sócrates – perdoe-me Doutor Fernando Teixeira dos Santos, mas o senhor não passou, nuns momentos do cordeiro pascal a sacrificar e, noutros, do bobo da corte, papeis que, infelizmente, acabou por fazer por merecer – e, nessa qualidade, o responsável pela desgraça em que o país se encontra.

Mas, mercê dessa mesma personalidade, Sócrates fez do PS o Partido de Sócrates. Secou tudo à volta e condenou o partido – que vai renovar-lhe a liderança por números dignos do seu amigo Chavez ou dos manos Castro – a levá-lo a uma derrota eleitoral seguramente histórica. Não é a dimensão dessa derrota que acho preocupante. Deveras preocupantes são as suas consequências na composição do próximo parlamento e na correspondente capacidade para gerar efectivas soluções governativas!

Sócrates personalizou a liderança do PS como nenhum outro líder antes. Basta lembrar que foi com Mário Soares – indiscutivelmente o seu mais carismático líder – que o partido teve os seus mais fortes períodos de debate interno, com sucessivas dissidências: à esquerda e à direita. Lembrarmo-nos do PS de Mário Soares - contestado pelas mais variadas tendências (renovadores, ex-secretariado e até Francisco Salgado Zenha) e olharmos para este PS acrítico e acéfalo, cegamente enfileirado atrás de um líder perdido e sem rumo, ajuda-nos a perceber que não é menos preocupante o estado a que Sócrates conduziu também o partido.

E isto leva-me à terceira reflexão. Temo que seja este o perfil das lideranças moldadas nas jotas. Temo que, já com sucessivas gerações afastadas da política, não nos restem alternativas que não gente nascida, criada e educada nas estruturas das juventudes partidárias. Gente experimentada na intriga e nos jogos de interesse mas sem cultura de trabalho e de responsabilidade e sem experiência de vida. Gente que cresceu a colar cartazes em vez de crescer na escola e que, chegada a altura, obtém um canudo num domingo qualquer de uma qualquer universidade manhosa!

 

 

A CRISE POLÍTICA III

Por Eduardo Louro

 

O governo está a cair e a crise política a erguer-se. No parlamento – sem Sócrates – vai caindo aos pedaços!

Entretanto, e como se tudo o que já se conhecia não bastasse, veio hoje a saber-se que afinal o défice de 2010 não tem nada a ver com o que foi propagandeado. Que o Eurostat diz que não. Que vai para além dos 8%!

A Grécia já passou por este filme. Todos nos lembramos que a desgraça grega começou pela falsificação das contas. Só nos faltava mais esta, passarmos também por aldrabões das contas. Já estavam aldrabadas com o fundo de pensões da PT e com as receitas de vendas dos imóveis depois arrendados, mas nem isso foi suficiente. Afinal percebemos agora por que é que o governo queria chutar os números do BPN - os tais que não custariam nada ao país - para as contas de 2008. Não percebemos, nem nós nem ninguém, por que raio é que haviam de andar dois anos para trás. Mas percebemos todos que é aldrabice!

Se isto é assim quando o governo ainda não caiu, o que é que aí virá?

Por mim já não tenho dúvidas: só quando este governo estiver morto e enterrado é que nos iremos aperceber da verdadeira dimensão da desgraça! Vamos ter ainda muitas mais surpresas…

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