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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

FUTEBOLÊS#138 AUTO-GOLO

Por Eduardo Louro

 

O golo é o sal do futebol, costuma dizer-se em futebolês. Não importa quem o mete!

Se na cozinha não importa quem põe o sal – se o cozinheiro, se o ajudante ou mesmo se já na mesa, com cada um a servir-se à sua medida… a auto-salgar-se -, nos golos também não importa assim tanto quem os marca. É preciso é que contem!

Como o que importa é ganhar - e elas contam é lá dentro - não importa muito como é que lá vão parar. Mas sejamos francos, se há coisas contranatura, o auto-golo é uma delas!

Os dois objectivos básicos de qualquer jogador são marcar golos na baliza adversária e evitá-los na própria. É isto que é natural, como um preto de carapinha e um branco de cabeleira loura, do velho anúncio ao Restaurador Olex!

Se procurássemos a melhor ilustração para a anti-natureza do auto-golo encontrá-la-íamos certamente no golo que ditou a última derrota do Real Madrid, no seu último jogo, com o Granada. Isso mesmo: derrota por 1-0, com auto-golo de Cristiano Ronaldo. Depois de há tanto tempo a carregar a equipa às costas, de tantos e tantos jogos a marcar golos que valem vitórias para as suas equipas, chega-lhe também a vez de marcar na sua própria baliza!

O auto-golo é o tiro no pé. Mas com arma de grande calibre! E não acontece apenas dentro das quatro linhas, no jogo jogado. É até mais frequente por fora: mesmo onde menos se espera, a exemplo do que sucedeu com o nosso melhor jogador.

O Porto, o Porto de Pinto da Costa, do Papa, por definição infalível, distraiu-se e falhou o cumprimento dos regulamentos da Liga num jogo da Taça da Liga: um auto-golo. Mas um auto-golo estranho que, antes de os penalizar a eles próprios, parece estar a penalizar a Federação Portuguesa de Futebol. Parece que em vez de entrar na baliza do Porto entrou na da Federação, pelo que se vai percebendo. Porque, ao contrário do que sucedeu exactamente pela mesma infracção – utilização dos mesmos jogadores nas equipas A e B num intervalo de tempo inferior às 72 horas estabelecidas nos regulamentos – com outros clubes, designadamente o Braga, ainda não lhe aplicou a correspondente sanção.

Esta é, de resto, matéria farta em auto-golos. Como se não bastasse aquele auto-golo, com a Federação a tomar-lhe a dores, anónimos (quem serão?) denunciam-lhe a utilização ilegal de cinco jogadores do Benfica. Mesmo estando regulamentado que não se investigam denúncias anónimas, mesmo sendo a denúncia inócua, por referir jogadores exclusivamente e apenas utilizados na equipa A, o Conselho de Disciplina da Federação abriu processos disciplinares e remeteu-os à Liga. Que, depois, evidentemente, os arquivou! Mais um auto-golo!

Ou terão desta vez sido dois, mesmo que na mesma baliza?

FUTEBOLÊS#137 JOGAR DE CADEIRINHA

Por Eduardo Louro

 

Ao contrário de muitas outras modalidades não se pratica futebol em cadeira. Pratica-se futebol em cadeira de rodas, mas não está, nem de perto nem de longe, tão divulgado como no basket ou no atletismo. Pode mesmo dizer-se que futebol em cadeira só na playstation, como dizia Jorge Jesus noutros tempos, a propósito de outros jogos e de outros locais…

Jogar de cadeirinha tem, no entanto, mesmo a ver com essa imagem de conforto e de tranquilidade que vem da cadeira. Ou da cadeirinha!

Imaginemos então alguém comodamente sentado numa(s) cadeira(s), instalada(s) algures no campo de jogo, no rectângulo, donde se levanta tranquilamente para, de tempos a tempos, intervir no jogo. Agora, que já imaginamos a cena, vamos definir o local de instalação das cadeiras.

À frente? Na zona de ataque, no último terço?

Não! Não pode ser, arriscava-se a estar permanentemente em fora de jogo…

No meio do campo? Na zona central do terreno?

Não! Facilmente se percebe que naquela zona onde tudo se disputa, onde – dizem – se ganham os jogos, onde a densidade populacional é superior à de Macau e a vida corre numa agitação que nem uma entrada de metro à hora de ponta, dificilmente se consegue espaço para colocar uma cadeira. E imaginar alguém lá sentado sem cair logo da cadeira só em ficção!

Só sobra a defesa, pois claro!

Aí está. Só os defesas, os centrais – porque os laterais têm uma vida que é um inferno, num sob e desce constante, sem tempo para se coçar quanto mais para se sentar - podem jogar de cadeirinha!

Mas não são eles que decidem jogar de cadeirinha. Se fossem, claro, não queriam outra vida. Não havia defesa central que não jogasse de cadeirinha. Dependem de terceiros para jogar de cadeirinha: de colegas ou de adversários. Mais de adversários, e muitas vezes mesmo do treinador adversário.

Vamos por partes: uma defesa pode jogar de cadeirinha porque à sua frente, os seus colegas de meio campo – os centro campistas – fazem todo o trabalho, varrem o campo todo e não permitem que adversário nenhum se aproxime sequer da zona de conforto (já que a expressão está na moda) onde os seus colegas tranquilamente gozam dos rendimentos (do seu trabalho). Mas também pode jogar de cadeirinha porque o adversário se perde em equívocos tácticos, não incumbindo ninguém de perturbar aquela tranquilidade. Ou porque, nas mesmas circunstâncias - equívocos tácticos – decide chegar à baliza adversária pela via mais rápida – pontapé para a frente – mas nem por isso a mais eficaz. Do conforto da sua cadeirinha, de frente para a bola, limitam-se a acompanhá-la levantando-se apenas para a recolher ou despachar para o outro lado. Ou ainda porque, preocupando-se apenas em defender, não há sequer maneira de a bola sair do seu próprio meio campo!

Não joga de cadeirinha quem quer, mesmo que o adversário lhe permitas essas condições. É preciso saber. É preciso ter classe…

Há tipos que são demasiado frenéticos para jogar de cadeirinha. Mesmo que queiram não são capazes… Alguém imagina o Bruno Alves a jogar de cadeirinha? Com a fruta que distribui nuca teria tempo para estar sentado…

FUTEBOLÊS#137 PRESSING

Por Eduardo Louro

 

O futebolês volta a um anglicismo. Pressing não é apenas um anglicismo, é também uma importação do basquetebol.

Foi na modalidade da bola ao cesto que o pressing nasceu, tornando-se, mais tarde, num conceito básico estratégico do futebol. Pressing é o adjectivo que não tem a ver com o substantivo press (imprensa), mas com o verbo to press (premir; pressionar) O pressing traduz-se, assim e em sentido literal, em pressão.

Pressão é coisa que não falta no futebol, como se sabe. Pressão sobre os dirigentes, pressão sobre os treinadores, pressão sobre os jogadores, sobre os árbitros… E apenas para falar de agentes com intervenção directa no fenómeno!

Mas é outra a pressão a que o pressing se refere. É à pressão sobre a bola. Ou, já que a bola em si mesma é imune a pressões - segue o seu destino sem se incomodar com o que quer que seja, e sem dar confiança a ninguém, muito senhora do seu nariz - pressão sobre o jogador que a dirige ou que a transporta.

A pressão – alta ou baixa – é sempre pressão sobre o jogador que toca na bola, no sentido de o impedir de pensar ou executar, pressionando-o directamente ou tapando-lhe as linhas de passe, e tem como objectivo prioritário fazer com que a perca. Depois, bom …depois, outros valores se levantam. Há quem faça disso um fim em sim mesmo e quem faça disso o princípio de tudo. Há quem apenas se interesse em fazer perder a bola ao adversário para o impedir de construir o que quer que seja. Diria que são uns invejosos: como não sabem jogar à bola não deixam jogar os que sabem. É feio!

É feio ser invejoso, mas também é feio o jogo assim…

Mas há quem tenha boas intenções, ideias nobres. Há quem faça isso para retirar a bola a quem não sabe o que fazer com ela e, uma vez com ela na sua posse, desate a tratá-la como ela merece e só eles sabem. E se a perdem logo voltam ao pressing para a recuperar, e assim sucessivamente, durante os 90 minutos de cada jogo. São as equipas que fazem da posse de bola uma filosofia de jogo e da qualidade do trato uma cultura. São os gentlemen da bola, que ela reconhece como ninguém!

Como uma mesma atitude revela uma diferença de comportamento abissal. Uns, invejosos, querem roubar a bola, não para jogar, mas apenas para que os outros o não possam fazer: se a gente não joga, vocês também não! Outros, roubam-na para lhe dar – a ela, bola, e a nós amantes do jogo – o melhor!

Estamos a falar do Barcelona ou da selecção espanhola? 

Não, exclusivamente. Embora estejam aí os melhores exemplos do que se fala, todas as grandes equipas recorrem ao pressing para recuperar a bola porque sabem que só com ela, só tendo-a, podem expressar a superioridade dos seus argumentos.

FUTEBOLÊS#136 REMATE À FIGURA

Por Eduardo Louro

 

Um remate é um remate. É o ponto final, a conclusão, o fim da linha. É arrumar com a coisa, e arrumar a coisa. Para remate desta conversa, num jogo – qualquer que seja, mas o futebolês trata do futebol – o remate é a conclusão de uma jogada de ataque. Em fim de linha - conclusão mesmo - e não em interruptus, antes de chegar ao fim!

O remate é o clímax da jogada. Mas só se não for pífio, se não for de pólvora seca. Não tem obrigatoriamente de dar em golo – pode finar-se numa grande defesa do guarda-redes, a rasar a trave ou o poste ou, ainda com mais frisson, a acertar mesmo num desses ferros – mas não pode ser um acto falhado, como o remate para as nuvens, ou para a bancada, o remate que quase sai pela linha lateral - quando não é por aí que sai mesmo – o remate que não chega a sê-lo e se fica pelas orelhas da bola – outra bela expressão do futebolês – ou o remate à figura, que hoje aqui nos traz.

O remate à figura, também chamado por remate ao boneco, que não é exactamente a mesma coisa de tiro ao boneco – isso foi o que se passou esta última quarta-feira em Glasgow - é o remate que, forte ou fraquinho, não importa, leva a bola direitinha ao guarda-redes, que não precisa de se mexer para a recolher ou para simplesmente levar com ela. Claro que há guarda-redes que têm mérito nisso: sabem posicionar-se na baliza, sempre na linha da bola, como que adivinhando a sua trajectória. Se há guarda-redes que tornam defesas fáceis em vistosas – defesas para a fotografia, como se diz em futebolês - há os que fazem o contrário: transformam defesas difíceis em fáceis, chegam lá antes de a bola, deixando a ilusão que o remate saiu à figura quando, afinal, foi a figura que saiu ao remate.

Poderia pensar-se que o remate à figura, ou ao boneco, seria o remate contra aqueles bonecos colados e alinhados que se vêm nos treinos, mas não é. Se assim fosse nunca havia remates à figura nos jogos, porque esses bonecos só servem para os treinos. E servem para pouco; treinar a marcação de livres com uma barreira artificial, constituída de bonecos, que nem saltam nem se mexem e que estão sempre à distância regulamentar de nove metros e quinze, só dá para a preparação dos jogos contra o Sporting: aquela defesa mais parece mesmo de bonecos… Fixos e inamovíveis!

Pronto: lá voltou a conversa a fugir para o Sporting. E estava a falar de defesa, que nem sequer é por onde as coisas vão pior, como se pode ver pela tabela classificativa nesta altura, que me preocupa seriamente: até porque nãos sei se descem os dois se os três últimos. Onde as coisas vão mesmo mal é nos golos marcados: pior, só o Marítimo!

Rematam pouco porque, como se viu, rematar é concluir e no Sporting há pouca coisa para concluir. Quando rematam fazem-no para as nuvens, nas orelhas da bola ou á figura. Quando marcam um golito é uma festa …Festa rija, com uma comemoração inovadora, cheia de entusiasmo, de dedo em riste ali no meio, entre o anelar e o indicador!

 

Classificação (Jornada nº 9)

 

POS.

CLUBE

CASA

FORA

GLOBAL

GOLOS

MEDIA

PTS

 

 

 

 

J

V

E

D

J

V

E

D

J

V

E

D

GM

GS

GM

GS

 

 

 

 

1

Porto

4

4

0

0

4

2

2

0

8

6

2

0

22

5

2,8

0,6

20

 

 

 

2

Benfica

4

3

1

0

4

3

1

0

8

6

2

0

22

6

2,8

0,8

20

 

 

 

3

Braga

4

3

1

0

4

2

1

1

8

5

2

1

20

11

2,5

1,4

17

 

 

 

4

P. Ferreira

4

1

2

1

5

2

3

0

9

3

5

1

11

7

1,2

0,8

14

 

 

 

5

Rio Ave

4

1

2

1

4

3

0

1

8

4

2

2

10

9

1,3

1,1

14

 

 

 

6

V.Guimarães

5

1

2

2

4

2

0

2

9

3

2

4

8

16

0,9

1,8

11

 

 

 

7

V.Setúbal

4

2

1

1

4

0

3

1

8

2

4

2

7

11

0,9

1,4

10

 

 

 

8

Estoril

4

1

1

2

4

1

2

1

8

2

3

3

13

13

1,6

1,6

9

 

 

 

9

G.Vicente

5

1

2

2

4

1

1

2

9

2

3

4

7

12

0,8

1,3

9

 

 

 

10

Académica

4

0

2

2

4

1

3

0

8

1

5

2

9

10

1,1

1,3

8

 

 

 

11

Nacional

4

0

2

2

5

2

0

3

9

2

2

5

14

20

1,6

2,2

8

 

 

 

12

Marítimo

4

0

2

2

4

2

0

2

8

2

2

4

4

13

0,5

1,6

8

 

 

 

13

Olhanense

4

1

1

2

4

0

3

1

8

1

4

3

12

14

1,5

1,8

7

 

 

 

14

Sporting

4

1

2

1

4

0

2

2

8

1

4

3

6

9

0,8

1,1

7

 

 

 

15

Moreirense

4

1

0

3

4

0

3

1

8

1

3

4

10

12

1,3

1,5

6

 

 

 

16

Beira-Mar

4

0

3

1

4

1

0

3

8

1

3

4

11

18

1,4

2,3

6

 

FUTEBOLÊS#135 MOVIMENTOS DE ROTURA

Por Eduardo Louro

 

O jogo, o jogo de futebol como a vida, precisa em muitas circunstâncias de romper com o status quo, de pedradas no charco, de agitar as águas… São como revoluções que alteram equilíbrios e introduzem novas dinâmicas que abrem novos caminhos!

É aí que o futebolês vai buscar os movimentos de rotura: exactamente movimentos que rompem os equilíbrios estabelecidos, que geram perturbações na equipa adversária, que agitam o jogo. São movimentos surpreendentes, que espalham a surpresa e o pânico na defesa adversária.

É a desmarcação perfeita a responder a uma solicitação de um passe inesperado. Aí está: surpreendente! Longo, a virar subitamente o flanco, ou curto, mas preciso a rasgar a defesa. A desequilibrar, a romper…

É o que o Sporting não consegue fazer no jogo, no campo. Como não consegue movimentos de rotura no jogo jogado - como se diz em futebolês – tenta-os do lado de fora do jogo para romper com um fado que tem já a marca do destino. E para isso vai sucessivamente ensaiando movimentos de rotura com treinadores e dirigentes, imolando-os no fogo em que se vai também consumindo, mas também com a sua identidade e a sua história.

O Sporting não rompe só com treinadores, directores e administradores, rompe com a história e com a própria alma. Rompe com uma história de aposta na formação, e com o orgulho na sua Academia quando, no primeiro jogo de seu novo treinador – único treinador estrangeiro no futebol nacional, também uma rotura - apresenta um onze com um jogador da formação, com um português: o guarda-redes Rui Patrício. Que mantém apenas porque, ao contrário do objectivo óbvio da sua administração, não conseguiu vendê-lo no Verão passado!

Quando os movimentos de rotura são estes, e não os que no relvado surpreendem e desequilibram adversários, os treinadores passam e os maus resultados ficam. São já sete jogos consecutivos sem ganhar, estão batidos todos os recordes… O Sporting, à beira de se concluir o primeiro terço do campeonato, está ao nível da linha de água… E a treze pontos daqueles com que diz querer ombrear!

Há muito que há fortes movimentos de rotura em Alvalade...

 

FUTEBOLÊS#134 LIGAR

Por Eduardo Louro

 

Desta vez o futebolês fixa-se num simples verbo: ligar. Com várias aplicações, mas sempre à volta do mesmo!

A equipa não está ligada, ou não consegue ligar o jogo ou mesmo manter a equipa ligada ao jogo ou voltar a ligar-se ao jogo – que é a mesma coisa - são expressões do futebolês à volta do verbo ligar. Mas não mais do que estas: não ligar ao jogo, por exemplo, já não é futebolês!

Quando a equipa não liga ao jogo, como tantas vezes acontece, deixando toda a gente à beira de um ataque de nervos – por exemplo, o Porto não ligou nada ao jogo com uma equipa de nome Santa Eulália, do passado fim-de-semana para a Taça, e o Vítor Pereira passou-se – o futebolês não se preocupa. Se o resultado der para o torto, o que não foi o caso do Porto – um miserável 1-0 ao tal Santa Eulália, mas ganhou – então lá vêm os tomba-gigantes, a estória de David e Golias e mais umas tantas frases feitas. Mas nada que o futebolês tenha criado!

Não estar ligada, ou não conseguir ligar o jogo - ou o inverso, na afirmativa - é a mesma coisa mas dita de forma diferentes. Não assim tão diferentes, mas diferentes!

Se a equipa não está ela própria ligada, com os diferentes sectores – a defesa, o meio campo e o ataque - a comunicarem fluentemente entre si, ligados que nem elos de uma corrente, não consegue ligar o jogo. O jogo não resulta fluente, consistente, harmonioso e consequente. Pelo contrário, surge como que curto circuitado, aos repelões, sem bola - porque perdida muito rapidamente – e sem nexo, causal ou qualquer outro.

A caixa que comanda a ligação - da equipa e do jogo – é o meio campo – talvez por isso há quem lhe chame o coração da equipa - onde cada peça é como um interruptor. O pivô ou os pivôs – pode ser um ou dois, o 6 ou o 6 e 8 – asseguram a ligação na primeira fase de construção, e o 10 a ligação à segunda fase, a decisiva.

É porque as coisas funcionam assim que o Benfica não está a funcionar. Com as saídas em simultâneo do Javi (6) e do Witsel (8) e com Aimar e Carlos Martins (os dois 10) permanentemente de fora, a equipa não tem sequer interruptores. E sem interruptores não há como ligar a equipa e, se a equipa não está ligada, não consegue ligar o jogo. Bem pode Jorge Jesus ir ao baú cheio de alas para procurar interruptores… Não resulta, como já se viu! E não se vê como é que, assim, Luís Filipe Vieira irá conseguir pagar a promessa dos três campeonatos em quatro anos, já para não falar de uma competição europeia…

Já no Sporting as coisas são diferentes. O Sá Pinto, provavelmente chamado ao comando por fazer faísca com facilidade, nunca conseguiu que a equipa ligasse o jogo, e rapidamente virou passado. O Oceano pegou na equipa, mas continuou desligada, sem fio de jogo. E no entanto os interruptores estão lá, o que não funciona são os próprios circuitos. Acreditam que os engenheiros (electrotécnicos) belgas sejam melhores que os portugueses, mas não é o que se diz por aí…

Manter a equipa ligada ao jogo é outra coisa bem diferente. Tem a ver com a reacção à marcha do resultado, que é preciso não deixar desnivelar.

Quando o resultado começa a pesar – dois, três, quatro – a equipa tende a desligar do jogo, a ficar cada vez mais longe da possibilidade de discutir o resultado. Às vezes basta um golo para trazer de volta a equipa, para a voltar a ligar ao jogo. Para lhe dar a ilusão e a crença de que ainda é possível. E por vezes surgem reviravoltas espectaculares, como sucedeu na semana passada na Alemanha, onde a selecção da Suécia, depois de estar a perder por 4-0, desatou a marcar e ficou de tal forma ligada ao jogo que só parou no último segundo, mesmo a tempo de chegar ao espectacular 4-4 final!

FUTEBOLÊS#133 BLOCO BAIXO OU AUTOCARRO?

Por Eduardo Louro

 

Bloco baixo: poderá parecer linguagem de construção civil mas não é. Aplica-se ao futebol e é mesmo futebolês!

Diz-se a propósito da postura de uma equipa em campo. Ou da forma como dispõe os jogadores em campo. Refere-se, no caso, à colocação dos jogadores na zona de protecção da sua área, no resguardo da sua baliza.

Antigamente, antes da explosão do futebolês como língua erudita dos especialistas das coisas da bola, dizia-se simplesmente que uma equipa estava a jogar à defesa e… fé em Deus. Defendia com onze – porque não podia jogar com mais – sempre de frente para a bola, sempre atrás da linha da bola, como também é fino dizer-se. Agora é mais erudito dizer que a equipa se apresenta com um bloco baixo: dizer exactamente a mesma coisa mas com mais classe. Acima de tudo com mais fair-play, sem achincalhar a equipa.

Para isso, para achincalhar, surgiu uma nova expressão: autocarro! Usa-se no futebolês popular, que já não diz que a equipa se apresenta num bloco baixo, nem sequer que vem jogar à defesa mas, de forma bem mais acintosa, que a equipa estacionou o autocarro!

Creio não estar errado – se o estiver, desde já as minhas desculpas – que é Mourinho o pai desta expressão. Pela minha parte não tenho dúvidas que foi da boca dele que a ouvi pela primeira vez. Substituindo uma expressão elegante como é o bloco baixo, e sendo, pelo contrário, achincalhante e acintosa, não admira que tenha mesmo sido criada por José Mourinho. Por ter sido a ele que a ouvi pela primeira vez e por ser tão ajustada à sua própria personalidade, é para mim indiscutível que é Mourinho o pai do autocarro!

Era então treinador do Chelsea, em pleno processo de dilatação do ego – um processo que apenas teve paralelo no da dilatação do fígado daqueles patos franceses para produzir o foie gras -, na altura em que se intitulou de special one, e deve tê-la usado para justificar um fracasso qualquer. Quem julgasse que o Mourinho tinha descoberto esta expressão numa célebre noite em que jogou com o Inter em Barcelona só podia estar distraído ou, de todo, não o conhecer.

Mal imaginava ele, na altura, que um dia haveria de vir a treinar uma equipa italiana e provar do seu próprio veneno… Na realidade sentiu-lhe o sabor. Se puxarmos pela memória lembrar-nos-emos que sentiu sempre a necessidade de justificar esse autocarro com o árbitro, como também não podia deixar de ser. Foi obrigado a isso porque o árbitro lhe expulsou um jogador - justificou. Mesmo que toda a gente tivesse dado pelo autocarro, lá bem estacionado, desde que o árbitro apitou mas para dar início ao jogo!

Mal imaginaria ainda que seria o seu Chelsea, anos mais tarde e então nas mãos de um treinador italiano, a repetir, no mesmo local e nas mesmas condições - meias-finais da Champions - o mesmo autocarro. Só que sem a desculpa de um a menos!

Ironicamente a história repetiu-se: os autocarros cumpriram a missão e ambos chegaram  à final, ambos encontraram o Bayern, e ambos acabaram por se sagrar campeões europeus. O Inter pela terceira vez, quarenta e cinco anos depois, e o Chelsea pela primeira!

 

FUTEBOLÊS#132 ARMA SECRETA

Por Eduardo Louro

 

Arma secreta é uma das mais conhecidas expressões do futebolês e enquadra-se nas expressões de origem bélica que tantas vezes são exportadas para outros domínios. Cada equipa joga com as armas que tem, diz-se frequentemente para justificar aquelas atitudes que mais chocam com o fair-play a que, normalmente, recorrem as equipas com menos recursos.

Na realidade cada equipa joga com os jogadores que tem. E as que os têm de menor valia tentam compensar isso com uma série de malandrices: umas, malandrices de anti-jogo, outras, apenas malandrices estratégicas, um bocado de jogo do gato e do rato. Mas chamam-lhe armas!

A arma secreta não é, claro, nada mais que um jogador. Um jogador que fica escondido, que não entra de início para, a dada altura do jogo entrar em campo e surpreender. Surpreender tudo e todos, revolucionar o jogo e decidir o resultado!

Por incrível que pareça, é normalmente grande a tentação – quer de treinadores quer de adeptos – de acabar com as armas secretas. Parecendo que toda a gente estaria interessada um preservar e guardar bem guardadinha a arma secreta, a verdade não é bem essa. A gula e a ambição desmedida são as grandes inimigas da arma secreta. Os adeptos pensam assim: se este tipo entra e resolve, tem de entrar logo no início para resolver o jogo sem correr riscos; se é este que resolve que sentido faz estar lá outro que não adianta nem atrasa? O treinador não pensa bem assim, mas pensa que, se este tipo entrou e resolveu merece ser titular da próxima vez. E pensa mesmo que se não lhe der a titularidade ele poderá perder o estímulo.

A própria arma secreta é auto-destrutiva. O próprio jogador raramente se sente bem na pele de arma secreta. Acha também que merece ser titular e, se não lhe for entregue, passa a reclamá-la.

Com tantos inimigos é natural que a arma secreta seja uma espécie em vias de extinção. E a verdade é que é. Já lá vai o tempo em que praticamente todas as principais equipas tinham uma arma secreta. Quem se der ao trabalho de puxar pela memória vai lembrar-se de muitas: o César Brito, no Benfica, o Juary, no Porto já lá vai uns anitos. Mais recentemente, em 2005, lembramo-nos do Pedro Mantorras, a verdadeira arma secreta de um título tão gostoso quanto improvável. Mais recentemente ainda, na última época, o James, no Porto e o Carrillo no Sporting, foram armas secretas. Inevitavelmente, deixaram de o ser: o James por responsabilidade dos adeptos; o Carrillo não se sabe porquê… Talvez porque no Sporting a arma secreta já não seja jogador, é treinador. Por isso é que muda tanto, para estar sempre a surpreender o adversário. O que se está a passar nesta altura não tem nada a ver com qualquer tipo de dificuldade em convencer alguém a vir treinar a equipa nos próximos seis meses. Tem apenas a ver com a dificuldade em encontrar alguém verdadeiramente capaz de surpreender: uma arma secreta!

Na selecção nacional também há uma arma secreta: o Varela. Também está em extinção mas não é por qualquer daquelas razões. Nem os adeptos acham que deva jogar de início, nem o Paulo Bento tem problema nenhum em mantê-lo no banco, nem ele próprio acha que mereceria ser titular. Simplesmente esgotou as pilhas!

 

FUTEBOLÊS#131 BOLA QUE QUEIMA

Por Eduardo Louro

 

A bola é, como se sabe, o elemento fundamental do jogo. Podem faltar jogadores, como ainda não há muito se viu para as bandas de Leiria, que não deixa de haver jogo. Mas, se faltar a bola, é que nada feito…

É por ela que toda a gente corre e luta, é a bola que toda a gente quer possuir. E, no entanto - coisas do futebolês -, diz-se que às vezes queima!

E não é exactamente porque seja uma brasa, como aquela ideia de toda a gente a querer possuir poderá sugerir. A bola, por mais desejada que seja, nunca é uma brasa. Mas pode ser factor de desconforto: queimar!

Diz-se que a bola queima quando uma equipa está descrente, sem confiança. Quando os jogadores não se entendem em equipa, porque lhes falta uma ideia de jogo, porque lhes faltam os automatismos, porque desconfiam uns dos outros. Porque não confiam na liderança nem a liderança confia neles…

Daí que ninguém queira ter a bola, como se ela lhes queime os pés. Quem a recebe quer libertar-se dela o mais rapidamente possível, porque nem tem confiança para se aventurar numa relação mais longa e estável. Porque tem medo de falhar. Não a liberta rapidamente e com critério – o que é quase sempre uma boa decisão – para a endossar a um colega que lhe dê o melhor seguimento. Fá-lo apenas e só por medo, para endossar a outro não a bola mas a responsabilidade!

O melhor exemplo disto é o Sporting. O Sporting do Sá Pinto, que já era!

Os jogadores não têm a mínima ideia do que fazer dentro do campo. Nem com a bola nem sem a bola. Quando a não têm nota-se-lhes um certo alívio, a angústia chega-lhes logo com a bola, como se a bola fosse dois em um.

Acharam os dirigentes do Sporting que resolveriam o problema correndo com o Sá Pinto - essa lenda viva de sportinguismo com que, há poucos meses, prometiam amanhãs que cantam - sem perceberem que, antes de a bola queimar os pés dos jogadores, já eles a tinham posto a queimar as mãos e a cabeça do treinador que um dia a Juve Leo impôs a Godinho Lopes. É que o Sá Pinto garantiu, na época passada, o  contrato que agora tanto jeito lhe dará, jogando à Beira-Mar ou à Rio Ave (sem qualquer menosprezo para estas agremiações): todos à defesa e à espera de um contra-ataque que pudesse dar um golo.

Godinho Lopes e a sua equipa, sempre com a mania das grandezas – candidatos ao título e tal… - acharam que aquilo não era à Sporting. Afinal tinha um treinador à Sporting mas que não jogava à Sporting… Jogava à Gil Vicente! E obrigaram Sá Pinto a mudar para uma estratégia de jogo compaginável com a grandeza do Sporting, que rapidamente se revelou uma impossibilidade. Como se isso não funcionasse acharam que ele não sabia sequer escolher a equipa e passaram eles próprios a impor-lhe o onze. “Não percebes nada disto, hoje jogam fulano, beltrano e sicrano”!  “Sim senhor, têm toda a razão, eu é que andava distraído”

Acham que há milagres, é o que é!

No Benfica não é muito frequente que a bola queime, mas às vezes acontece. Não foi o caso do jogo desta semana com o Barcelona: tiveram-na tão pouco tempo que nunca daria para queimar. Antes que pudesse queimar já a rapaziada do Barcelona lha havia tirado. A esses é que a bola nunca queima. Se queimasse não havia unidade de queimados que lhes valesse…

A quem também a bola não queima é ao James. Que grande golo aos novos milionários da bola, a dar os três pontos e mais um milhão ao Porto!

FUTEBOLÊS#130 JOGADOR ADAPTADO

Por Eduardo Louro

 

Creio que nunca se falou tanto em adaptação como nos últimos tempos, a propósito de jogadores adaptados.

A adaptação é um processo de convergência com uma nova realidade, de ajustamento físico e mental a um novo meio envolvente. Todos nós, perante uma mudança das condições que nos envolvem, entramos em processos de adaptação. Se mudamos de emprego, temos certamente um processo de adaptação pela frente. Se mudamos de casa não podemos fugir à adaptação a um novo local, a novos vizinhos e até a novas rotinas.

Depois desses múltiplos processos de adaptação passamos a estar adaptados. Adaptados ao novo emprego, à nova casa, aos novos vizinhos…

Os jogadores de futebol também passam por processos de mudança deste tipo, e até com uma frequência bem superior à dos comuns mortais que não fazem de uma bola forma de vida. A mobilidade profissional de um jogador – como de qualquer outro profissional – de futebol é incomparavelmente superior à de qualquer outra actividade.

E no entanto, em futebolês, um jogador adaptado não é um jogador que acabou de passar por um processo de adaptação a um novo clube, a um novo treinador ou a novos colegas. Um jogador adaptado é tão simplesmente um jogador reconvertido. Um jogador de meio campo adaptado a defesa central, um defesa central adaptado a lateral ou um defesa central adaptado a trinco ou a pivô defensivo. Mas o que está mesmo na moda é adaptar alas a defesas laterais!

Estas adaptações resultam de circunstâncias muito diversas. Umas vezes de uma simples coincidência, ou de um acaso, outras de insuficiências de planeamento, outras ainda de insuperáveis dificuldades financeiras que obrigam quem não tem cão a caçar com gato e, finalmente, outras de razões que ninguém consegue entender. E, quando assim é, chamamos-lhe teimosia!

Basta lembrarmo-nos do que Vítor Pereira fez na época passada com o Maicon a lateral direito. Ninguém percebeu. Só podia ser teimosia…

Mas é o Benfica o campeão das adaptações. Sem recuar muito no tempo – e para não ir à mais extraordinária (no sentido de rara, mas também de invulgar eficácia) que me vem à memória quando, há 40 anos atrás, Hagan transformou um dos mais velozes extremos direitos de sempre, Nené, num ponta de lança que, sem sujar os calções, andou mais de uma década a marcar golos de toda a maneira e feitio – lembramo-nos do Miguel, que o Chalana, do dia para a noite, pegando num ala direito mediano, transformou num lateral direito do melhor que chegou a haver por esse mundo fora. E, no Benfica, é Jorge Jesus o mestre das adaptações!

Tudo começou com Coentrão, um rapaz que jogava lá à frente, quando jogava. Porque na maioria das vezes não jogava. Andava mesmo perdido, de Saragoça para Vila do Conde, sem se adaptar nem servir em lado nenhum. De repente, sem lateral esquerdo – uma velha maldição deixada no Benfica, não por Bella Gutman, mas por Lello, esse brasileiro que era uma espécie de Maxi (também ele adaptado, ainda antes da era Jesus) da esquerda e que partiu sem ninguém perceber porquê – o mestre da táctica lança-o a lateral esquerdo. Foi um sucesso e rendeu logo 30 milhões de euros, que o Jorge Jesus transformou num crédito pessoal inesgotável. Ao ponto de nunca mais querer outra vida que fazer adaptações!

Desatou a comprar avançados, à dúzia, só para ter motivo para os adaptar às outras posições de que, assim, com aquela política de aquisições, a equipa ficava carenciada. O mais badalado foi Melgarejo, ou a Melga para facilitar as coisas, um jovem avançado com inegáveis potencialidades que Jesus teimou fazer lateral esquerdo. Nesta altura do campeonato já dá para ver que ainda não conseguiu fazer dele um lateral esquerdo. Mas já conseguiu fazer dele um jogador medíocre, que nada acrescenta à equipa: aquela ala esquerda, com Nolito e Melga, é verdadeiramente assustadora!

Com a inesperada partida de Witsel e Javi Garcia o Jesus esfregou as mãos: aí estavam mais duas oportunidades para o seu dedo milagroso. Matic iria fazer de Javi Garcia, numa adaptação esperada mas, para poder ir mais além, decidiu esquecer-se que Carlos Martins existe e adaptar o ainda inadaptado Enzo Perez a Witsel.

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