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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

JARDINEIROS DA PAISAGEM

Por Luís Fialho de Almeida

 

Qualquer acto criativo é, ou deverá ser, gratificante. Criar com sentido estético é ainda mais gratificante. Acompanhar a evolução de um gomo floral até ao esplendor da flor e o desenvolvimento do fruto até à colheita, pode, igualmente, ser um acto estético e até poético. Sendo ainda mais abrangente e quase bizarro podemos citar Fernando Pessoa ou o seu heterónimo Álvaro de Campos – “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”

 “O agricultor é um jardineiro da paisagem” – é uma frase que ouvi de alguém e que adopto em plenitude. Também na paisagem qualquer intervenção, designadamente na agricultura, poderá ter o mesmo sentido estético.

Podemos captar a visão dos vinhedos do Vale do Douro entre Abril e Novembro; da floresta de folha caduca no final de Outono; da diversidade policromática das colinas do Oeste na Primavera; das searas verdes polvilhadas de chaparros entre Fevereiro e Maio no Alentejo; dos campos de arroz em socalcos, nas encostas de alguns países da Ásia, entre muitos outros exemplos que se poderiam citar, e deles ter a sensação de fascínio pelo belo, o qual pode ser potenciado se, ao mesmo cenário, lhe juntarmos a luz rasante do amanhecer ou do entardecer.

Durante todo o ano podemos visitar galerias de arte ou assistir a concertos, mas também podemos circular fora das auto-estradas, a velocidades reduzidas, e captar outras harmonias e outras estéticas. As férias, ou as interrupções forçadas na tirania laboral, poderão servir para outro tipo de higienização do espírito.

 Viaja-se por necessidade profissional ou por evasão. Quando viajamos, estamos mais atentos às diferenças e contrastes; ficamos predispostos a captar o que, eventualmente, no quotidiano nos escapa por assumida rotina e nos cega por indiferença.

A paisagem é um sem fim de evocações e ao percorre-la, por vezes, confrontamo-nos com contrastes que nos surpreendem e emocionam.

Recordo o percurso fatigante que fiz, por diversas vezes, entre Madrid e Saragoça, habitualmente entre Julho e Setembro, não raro com o desconforto das temperaturas a rondar os 40º e de um cenário de campos secos e desarborizados. Certa vez, já de regresso, num fim de tarde e perante uma trovoada daquelas de fim do mundo, procurei refúgio na cidade de Calatayud onde, bem próximo, descobriria o Monasterio de Piedra, um verdadeiro oásis, com um parque natural de visita obrigatória (foto ao lado).

Na manhã seguinte retomei a viagem: com a atmosfera lavada e fresca; uma alvorada luminosa, raiada de vermelhos e azuis; os campos lavrados e húmidos das fortes chuvadas do dia anterior, eram agora castanhos e avermelhados, entremeados de restolhos de amarelo dourado, numa tela de cores e numa surpreendente policromia de cambiantes que me reconciliou com o percurso. Agora, sempre que volto a passar e o pintor tenha alterado as cores e tonalidades, sou mais tolerante e contemplativo.

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