NÃO BASTA FUGIR DA FOTOGRAFIA
Por Eduardo Louro
Alberto João Jardim pretende que as eleições do próximo domingo, na Madeira, sirvam para dar uma sova ao governo e ao poder político de Lisboa. Ao dizer isto, Jardim não está, apenas e mais uma vez, a exorbitar do seu estilo truculento, populista e demagógico para acicatar ânimos e mobilizar votos que lhe minguem os prejuízos. Ao dizer isto está também a pretender inverter o sentido destas eleições, incutindo no eleitorado a ideia de que elas se destinam a julgar o governo da república e aquela gentalha de Lisboa e não a sua acção e a do seu governo. Está pôr-se de fora, e só não digo a desresponsabilizar-se porque, para isso, seria necessário que ele fosse responsável. E não é, porque não passa mesmo de irresponsável!
Esta inversão do ónus, em que Jardim é especialista, já seria suficiente para desvirtuar os resultados eleitorais do próximo domingo. Se juntarmos o que há décadas se passa na Madeira – o défice democrático, o Jornal da Madeira, o caciquismo, etc. – sobejarão razões para desconfiarmos do que venham a ser esses resultados. Se nada disto é exactamente novo e substancialmente distinto de anteriores processos eleitorais, acresce agora e ainda outra e decisiva razão para fazer destas eleições as mais mentirosas de sempre, e esta da responsabilidade do governo nacional. Ao deixar na gaveta o programa de resgate financeiro da RAM, e permitir que as eleições se realizem sem que os madeirenses saibam exactamente o que os espera, sem conhecer a factura da governação irresponsável de Jardim, o PSD, o governo e Passos Coelho estão a contribuir activamente para que estas eleições sejam, não só as mais fraudulentas de sempre, mas também as mais perigosas para o futuro desta região autónoma.
É que, se todos sabemos que Jardim não terá condições para governar a partir da próxima segunda-feira – em primeiro lugar porque não haverá dinheiro, e Jardim não sabe governar sem dinheiro, sem muito dinheiro e, em segundo, porque, depois de esconder a dívida como escondeu, não têm mínimas condições de negociação com quem quer que seja, em Lisboa ou em Bruxelas – os madeirenses poderão sempre argumentar que foram enganados. E, aí, por Lisboa, já nunca por Jardim! E pelos inimigos da Madeira, essa entidade criada por Jardim á luz dos manuais de Salazar, que transforma os que o contestem em inimigos da Madeira, como Salazar os transformava em inimigos de Portugal.
Passos Coelho não quis ser visto ao lado de Jardim. Mas só isso, nada mais. Não se quis comprometer, mas acabou comprometido! Não basta fugir da fotografia!