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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #97 SORTEIO

Por Eduardo Louro

O futebolês também se faz de termos correntes da nossa língua como este: sorteio. Que tem a ver com sorte, às vezes com sorte e azar, e que tanto serve de instrumento de marketing, e mesmo de comunicação – então em tempos de crise como este não há mãos a medir, seja para ajudar a vender qualquer coisita ou pura e simplesmente para enganar os mais incautos – como instrumento de receita para qualquer iniciativa, das mais nobres às mais obscuras, ou ainda como instrumento de alimentação de fantasias excêntricas de milhões de pessoas a sonhar com milhões. Só que em futebolês não tem o mesmo significado: limita-se à arrumação dos jogos numa competição, o sorteio dos jogos para os campeonatos nacionais, para as diferentes taças, para as competições de clubes e de selecções da UEFA e da FIFA. Que têm a ver com sorte – basta ver, por exemplo, como muita gente fala das suas expectativas de êxito com a sorte nos sorteios – mas também com muita manipulação de interesses. Sempre financeiros, como não poderia deixar de ser!

No campeonato nacional os três grandes não se podem defrontar nas cinco primeiras jornadas: não vindo daí mal ao mundo não deixa de ser uma manipulação! Já nas provas da UEFA, quer de clubes quer de selecções, e nas de selecções da FIFA, a coisa pia mais fino: os sorteios são completamente manipulados para favorecer os mais fortes, com a história dos potes e dos cabeças de série, que evitam caprichos da sorte e, com eles, indesejáveis processos de canibalização dos mais fortes.

Ainda agora, neste sorteio do derradeiro play-off de apuramento dos mais atrasados na corrida à fase final do Euro 2012, para onde a nossa selecção se deixou cair, se viu que os designados cabeças de série se não podiam defrontar, sem que ninguém tivesse percebido muito bem por que razão, por exemplo, a Irlanda ficou com esse estatuto em desfavor da Turquia. Pela parte que nos toca veremos se justificamos esse estatuto quando, daqui por um mês, tivermos que nos haver com a Bósnia!

Não fosse o futebol um jogo com forte dose de imprevisibilidade – afinal aquilo que o torna no mais apaixonante dos jogos – e seriam sempre os mesmos a ganhar. Quer dizer, aqueles que teriam por principal missão defender o jogo, são os que mais agridem a sua principal fonte de vida: precisamente essa ideia mítica de que são onze contra onze, que a bola é redonda e que, no fim, qualquer um pode ganhar. Um paradoxo que o dinheiro ajuda a explicar!

Em Portugal, a prova onde o sorteio é mais flagrantemente manipulado é a Taça da Liga – chamo-lhe assim porque, com os patrocinadores a mudarem todos anos, só mesmo assim poderá ser conhecida – onde não é possível evitar a presença de pelo menos um dos grandes na final. Não fosse a tal imprevisibilidade, e também algum facilitismo circunstancial de algum desses grandes, e o desígnio do sorteio ditaria mesmo uma final vedada a intrusos. É que, doutra forma, não haveria nem patrocinadores nem espectadores!

A UEFA é o mais descarado manipulador de sorteios, quer na milionária Liga dos Campeões quer na pobre Liga Europa, porque o truque é o mesmo. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que uma equipa de um clube que não integre o grupo dos tubarões passar da fase de grupos! Longe vai o tempo da Taça dos Campeões Europeus, disputada apenas pelos campeões de cada país que se defrontavam em regime de sorteio puro!

As grandes potências europeias do futebol – Espanha, Inglaterra, Itália e Alemanha – asseguram logo quatro representantes cada. Passa-se ao sorteio e as equipas são arrumadas em quatro potes: no pote 1, os multimilionários, no 2, os ricos, que vêm a seguir, no 3, os pobres e, no 4, os bobos da festa, constituindo-se cada grupo por um de cada pote. Apurando-se os dois primeiros, está-se mesmo a ver que possibilidades restam para os pobres e para os bobos da festa!

Segue-se o sorteio do calendário que estabelece a ordem dos jogos. Que, para que nada corra mal, é também manipulado tratando de, na fase decisiva do calendário da prova – o último jogo da primeira volta e o primeiro da segunda – agendar os dois jogos consecutivos entre o milionário e o bobo da festa. Ou seja, se alguma coisa estiver a correr menos bem ao milionário – veja-se o caso actual do Manchester United, do grupo do Benfica, com apenas 2 pontos à entrada do último jogo da primeira volta, que terá agora oportunidade de fazer seis nos dois jogos com o bobo que veio da Roménia – é-lhe dada a oportunidade dar uma sacudidela na crise e de embalar para o lugar que desde sempre lhe está reservado.

Passada esta fase, e apurados naturalmente o milionário e o rico, por esta ordem, segue-se a fase dos jogos de eliminação directa. À sorte? Qual quê, sempre o milionário contra o rico!

Excepcionalmente – a excepção que confirma a regra – os sortilégios do futebol pregam uma partida a esta gente. Aconteceu uma única vez - em 2004 – e deu numa irrepetível final entre o Mónaco e o Porto. Que o Porto soube aproveitar bem e Mourinho melhor! Em 2004, quando até a  Grécia foi campeã da Europa, à nossa custa.

Se, como se diz, a sorte dá muito trabalho, estes sorteios dão ainda mais!

 

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