DESCRÉDITO TOTAL
Por Eduardo Louro
Este governo tem vindo em passo acelerado a construir o seu descrédito e, com ele, a descrença final do país.
A imagem cordial, de sinceridade e de verdade do primeiro-ministro, sobrepunha-se à de um governante sem rasgo e sem entusiasmo. E uma campanha mediática bem orquestrada pela intelligentsia liberal, aliada à completa ausência de oposição, ia permitindo ao governo resistir à degradação de uma prática política sempre em contramão com os compromissos eleitorais. O entusiasmo inicial de um governo constituído por gente nova, maioritariamente vinda de fora de uma classe política gasta e desacreditada, foi desaparecendo à medida que insuficiências, incapacidades e contradições foram revelando a impreparação de quase toda essa gente.
Ontem, com as nomeações para a EDP – as mais descaradas de que há memória, a confirmar o pagamento de favores que já se percebera com a Caixa Geral de Depósitos, no final do Verão – o governo não mostrou apenas que nada o distingue de todos os que o antecederam. Mostrou que não também não tem vergonha nem qualquer respeito pelo país que deveria servir. Pagando favores – pessoais e partidários, velhos e novos -, aprofundando a promiscuidade entre a política e a economia, o governo, com estas nomeações, conseguiu a proeza de gozar com todo o país distribuindo chorudas avenças por gente que acusa os portugueses de serem uma corja de improdutivos gastadores e de calões incompetentes que vive acima das suas possibilidades. O governo gozou com os portugueses ao distribuir tachos por golden poli-reformados que se acham acima de tudo e de todos, legítimos detentores de direitos que negam a todos os outros e que lhes permitem levitar acima dos problemas do país, a maioria dos quais criados por eles próprios.
Ontem, ao nono dia do ano, o governo diz que não é possível atingir o défice do orçamento aprovado há um mês e determinado pela troika. Que os 4,5% previstos subirão para 5,4 (já vi estes números referidos – e comentados - em vários órgãos de comunicação social - até na Antena 1, com comentário a propósito de Nicolau Santos - como respeitantes a 2011, mas não: referem-se ao orçamento para 2012), impondo-se novas e mais medidas de austeridade conforme, pelo que veio hoje a público, já consta de um documento do ministro das finanças distribuído no conselho de ministros de 19 de Dezembro.
As explicações são as mais disparatadas, e vão do pagamento de pensões do fundo adquirido à banca para maquilhar o défice do ano passado ao do de dívidas dos hospitais. Sem nexo, como facilmente se percebe, e a queimar o crédito do único ministro que, por mérito e pelo estilo, se ia salvando!
A verdade é que, como o Relatório de Inverno do Banco de Portugal hoje publicado revela, está aí uma “contracção sem precedentes” na economia portuguesa. Prevê uma recessão de 3,1%, contra os 2,2 do orçamento! E a verdade é que esta é a esperada confirmação da falência da receita, a confirmação do ciclo vicioso da austeridade que gera recessão que gera austeridade…
É o descrédito da política, o descrédito do governo, o descrédito do seu responsável máximo, e o do seu ministro mais credível: o descrédito total!