Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

FUTEBOLÊS#108 CAMPO INCLINADO

Por Eduardo Louro

 

Longe vão os tempos em que qualquer sítio era bom para jogar à bola. Jogava-se na rua, nas calçadas mais íngremes, no empedrado dos largos das igrejas, numas nesgas de terreno roubados ao mato… Sem qualquer preocupação com a inclinação, com os buracos, com as pedras, com os rasgões – nas calças ou nos joelhos – e, muito menos, com o árbitro. Que pura e simplesmente não era para ali chamado!

Hoje já não há disso. O chamado futebol de rua acabou, e não há autarquia que não tenha para oferecer aos seus munícipes uns quantos campos relvados, mais uns tantos sintéticos e ainda o seu polidesportivo. Sim, que nisso em auto-estradas, ninguém nos leva a palma!

Hoje só se joga à bola a sério e em belíssimos tapetes verdes. Direitinhos, sem buracos nem desníveis … E no entanto muitas vezes mais inclinados que a mais inclinada calçada das nossas terras. Mais inclinados que os acessos aos castelos das nossas vilas e cidades!

Por erro de engenharia ou de topografia? Não, apenas porque há forças que se encarregam de empurrar o jogo num certo lado do campo. Não são forças ocultas, mas são forças de bloqueio: bloqueiam um lado para desbloquear o outro!

É o árbitro – a equipa de arbitragem, para ser mais rigoroso – que dispõe dessa força. Que consegue empurrar uma equipa e mantê-la lá atrás. Lá em baixo! Com grande dificuldade em subir, enquanto a equipa adversária apenas tem que descer e cair-lhe em cima. E, como sabemos, a descer todos os anjos ajudam!

O processo de inclinação do campo é de fácil execução. Começa frequentemente pela expulsão de um jogador e passa, depois, por descobrir umas faltas sempre que a equipa pretenda sair em transição ofensiva. Uns foras de jogo milimétricos também dão jeito. Ajuda, ainda, o recurso ao cartão amarelo e a marcação de uma falta ao mínimo sopro, sempre bem perto da grande área, lá ao fundo.

Não deixa de ser curioso que um dos mais inclinados campos da actualidade seja também o mais verde. Um tapete verde como poucos! Um verde intenso, tão intenso que deixa verde tudo o que por lá passa. Não importa com que cor se lá entre, o certo é que de lá se sai verde!

As botas dos jogadores ficavam verdes. As luvas do guarda-redes, os calções e as camisolas pareciam pinturas alusivas à Primavera, tanto era o verde. Um verde que sujava e que não poderia, por isso, ser obra dos verdes. Dos ecologistas.

Era certamente obra de outros verdes, subitamente dados às artes. De repente apresentavam uma nova tendência, uma variante artística de recuperação da arte rupestre: as pinturas de paredes de nova geração! Uma variante pós-moderna, que recupera para os murais, depois dos motivos políticos do PREC, que atingem o auge na escola MRPP, e dos de protesto da nova vaga dos indignados, a recuperação da temática da caça e da guerra da primitiva arte rupestre!

O entusiasmo foi tal que das paredes passaram para a areia. Não para a variante da escultura, com obras de arte a encherem as nossas praias durante todo o Verão, mas ainda na disciplina da pintura. Pintar a areia era, agora, o último grito da pintura contemporânea!

Um regalo para a vista: onde antes víamos um rectângulo de areia salpicado por uns pequenos canteiros de relva mal semeada, vemos agora um lindo tapete verde que, visto pela televisão, em nada se distingue dos bem cuidados tapetes verdes dos grandes estádios, como o da Luz, sempre tido por referência, como se sabe.

Finalmente, depois de sete anos e outras tantas substituições do relvado, aí estava a solução. Mais que uma solução: uma saída artística que permitiu ainda aperfeiçoar a natural inclinação do campo, que tanto trabalho dera a construir!

Pena que os resultados não acompanhem tamanha inspiração artística. Mas não se pode ter tudo. Não se pode ter artistas plásticos a destilar talento pelas paredes dos balneários e pela areia do campo, talentosos cientistas da basculação hidráulica a queimar neurónios no desenvolvimento das melhores técnicas de inclinação e, ao mesmo tempo, jogadores talentosos, capazes de encher de magia, de classe, de golos e de glória aquele monte de areia de verde pintado!

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics