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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

EXPLOSÃO CONTROLADA

Por Eduardo Louro

 

A bomba armadilhada – a imagem que há dias aqui trouxe para caracterizar o sarilho em que Pedro Passos Coelho se meteu com aquele convite a Fernando Nobre – acabou por explodir em ambiente de explosão controlada às mãos da nova Assembleia da República, para o efeito transformada numa espécie de brigada de minas e armadilhas.

Chamo-lhe explosão porque a bomba existia, estava lá, e explodiu mesmo. Não há dúvida que o que parece é – esta é uma velha verdade da política – e a humilhação – as coisas têm de ser chamadas pelos nomes – a que Fernando Nobre se sujeitou, com duas tentativas derrotadas de eleição, é uma derrota política de Pedro Passos Coelho, mais do que do PSD que, como ficou demonstrado, não estava absoluta e totalmente entusiasmado com o compromisso público do seu líder. Mas esta era uma explosão anunciada que, como todas as explosões anunciadas, permite limitar os danos: a derrota, afinal, existe pelas simples razão de parecer que existe!

Na realidade não há sequer derrota nenhuma de Pedros Passos Coelho. Neste episódio, apesar da opinião contrária de todos os analistas oficiais e comentadores do regime, Passos ganhou em toda a linha. Porque, conforme já aqui perspectivava na semana passada, teve oportunidade de aparecer aos olhos dos portugueses como um homem sério e cumpridor. Em quem se pode confiar porque não trai os seus compromissos. Mas também mostrou que não é oportunista, nem daqueles que não olham a meios para atingir fins.

E isto sempre foi muito valorizado no processo de avaliação política. Mas hoje é-o mais ainda: nesta altura, em que acabamos de chegar de um trajecto de seis anos com um primeiro-ministro que lidou muito mal com todos estes fundamentais traços de carácter, e em que a credibilidade e a confiança nos políticos bateu no fundo, os portugueses valorizam-no ainda mais.

Tudo isto credibiliza ainda aquela ideia de mudança que Pedro Passos Coelho quer associar a si próprio. A mudança em que os portugueses têm de acreditar para poderem estar com o governo nestes, pelo menos, dois anos dramáticos que aí vêm. Mas também a mudança na forma de fazer política, de comunicar e de se relacionar com os eleitores.

Ora o que é isto se não uma vitória?

Mas poderemos ainda, embora já claramente no domínio especulativo, admitir que Passos Coelho estava, neste processo, refém da sua palavra e claramente consciente do sarilho em que, fosse por que razão fosse, bem cedo se meteu. Que tinha já nítida a noção que o exercício da presidência do parlamento poderia tornar Fernando Nobre em alguém, a prazo, muito incómodo para si, para o partido e até mesmo para o país.

Fernando Nobre, ao recusar abrir uma escapatória para Passos e insistir em levar a sua odisseia até ao fim, cometeu suicídio político. Ora, à luz daquela tese, isto é não ou não é uma vitória?

Quando as coisas correm bem correm mesmo bem. E esta foi uma explosão que correu bem!

O estado de graça – que os analistas encartados dizem que este governo não irá ter – faz-se também deste tipo de coisas…

 

UMA CADEIRA CARA

Por Eduardo Louro

 

Diz-se que o Chelsea de Abramovich convenceu o André Villas-Boas a seguir as pisadas de Mourinho. Parece que terá bastado oferecer-lhe um salário anual de 5 milhões de euros para ele se dispusesse a levar a cadeira de sonho do Dragão para Stamford Bridge. Sem dela se levantar...

Pinto da Costa é que garante que a cadeira vale 15 milhões: em euros, bem menos em libras!

O Porto de Pinto da Costa agora até já em cadeiras faz milhões.

Mas nem sempre tudo lhe corre bem: agora tem 15 milhões mas não tem treinador.

Desta vez errou quando não acreditou suficientemente em Domingos! Houve ali um tempito, quando o calendário vira e se começa a ser tempo de mexer nas pedras que vão fazer a nova época, em que as coisas não lhe estavam a correr muito bem. Pinto da Costa deixou-o então cair – o Braga até desinvestiu na sua equipa cedendo um conjunto de jogadores – e convenceu o seu amigo Salvador que o Leonardo Jardim é que era.

Recordo o que aqui escrevi em Fevereiro passado, a propósito da demissão de Leonardo Jardim do Beira-Mar:

No final da passada semana começaram a surgir notícias que davam conta do envolvimento do FC Porto. Que Pinto da Costa, bem à sua maneira, classificava de imbecilidades.

Dizia-se que, também bem à sua maneira, o teria contratado já para a eventualidade do André Vilas Boas sair. Para a hipótese de chegar uma proposta do estrangeiro que o levasse da sua tal cadeira de sonho. Com um plano B, bem à Pinto da Costa: se o rapaz não fosse levado a deixar a sua cadeira de sonho, o destino temporário do madeirense seria Braga.

Uma viagem de Aveiro ao Porto com escala em Braga!”

Ao abandonar Domingos Paciência enganou-se - ele também se engana, não as acerta todas – e mandou-o para os braços do Sporting. Dois meses depois, em Abril, como aqui também então dei nota, já o tinha percebido.

Agora Pinto da Costa vai ter que chatear o António Salvador, sem que se livre de lhe ter de entregar umas migalhitas do que vai receber do Chelsea. A contragosto, porque não era isso que estava no guião! No guião, o madeirense faria o tirocínio em Braga e chegaria ao Dragão já sem cueiros, porque a massa não é a mesma do Villas-Boas!

Aqui há uns cinco anos aconteceu qualquer coisa de semelhante com o Boavista e um tal de Jesualdo Ferreira, que este mesmo António Salvador tinha despachado de Braga. No meio de tudo isto quem tem mesmo azar é Domingos. Ai se ele pudesse voltar atrás…

EXPERIÊNCIA POLÍTICA

Por Eduardo Louro

 

Os comentadores oficiais do regime falam frequentemente de renovação política. Da necessidade de renovar a classe política, de refrescar o ambiente político, da abertura à sociedade civil e até da crise de vocações para a política que, por sua vez, faz pouco para cativar gente nova.

No entanto, sempre que alguém chega a vida política vindo directamente da chamada sociedade civil e respondendo afirmativamente ao apelo da cidadania, a coisa muda de figura. São normalmente mal recebidos, mesmo com alguma hostilidade. E quanto mais fugirem aos estereótipos instituídos mais hostilizados são.

Recordo-me da forma como, por exemplo, esta classe altamente influente, recebeu a candidatura de Fernando Nobre à presidência da República. É certo que, como eu próprio oportunamente aqui reconheci, a realidade viria mais tarde a dar-lhes alguma razão: a campanha de Fernando Nobre viria a confirmar a sua inaptidão política mas, mais importante que isso, viria a revelar grande falta de substância e a provocar o desapontamento de muitos cidadãos. Mas a verdade é que os comentadores oficiais chumbaram-no muito antes de prestar provas: por fugir ao estereotipo ou por preconceito!

Está a acontecer o mesmo com o novo governo: aí estão eles - que vivem paredes meias com a classe política que tem segurado o poder nas últimas décadas (mais parece, muitas vezes, viverem dela para ela) – a acusar a maioria dos novos ministros de falta de experiencia política. Não lhes importa muito se é gente que tem uma carreira e uma profissão, se é gente tecnicamente competente e profissionalmente capaz. Não lhes importa muito se é gente com condições para fazer a renovação de uma classe política desacreditada, uma lufada de ar fresco numa cena política bafienta. Não, o que para esta gente importa é a sua falta de experiência política!

Ainda bem que lhes falta experiência, porque dos que têm muita experiência estamos todos fartos. Menos os comentadores do regime, a maioria deles com muita experiência política! De mais!

Futebolês #80 MÍSTICA

Eduardo Louro

 

Mística – que aqui veio à baila no último número - é, talvez a par de sistema – que por aqui aparecerá numa das próximas edições - um dos conceitos do futebolês mais difícil de definir. Mas comecemos por tentar!

E comecemos por esclarecer que é uma palavra do género feminino: nada a ver, portanto, com místico. Não tem nada a ver com o sobrenatural, com qualquer aproximação a Deus. Embora tenha tudo a ver com aproximação, talvez o primeiro ponto de partida para perceber a mística. Também nada tem a ver com o sentido de fusão da alma com Deus, bem caro ao misticismo. Embora também tenha tudo a ver com fusão. Também e ainda nada tem a ver com a comunhão, esse ritual católico também envolto de misticismo. Embora também tenha tudo a ver com comunhão!

A mística é pois aproximação: aproximação a um ideal e a uma representação. E fusão: fusão de vontades e sentimentos. E comunhão de interesses, de objectivos, de sonhos e de ideais. É uma chama que alimenta paixões e se transforma numa força colectiva capaz de vencer dificuldades e barreiras. É um dínamo que carrega vontades e liberta sinergias capazes de fazer das fraquezas forças! A mística é a força que vem não se sabe bem de onde mas que enfrenta a adversidade com tal determinação que tudo supera. É uma cultura e uma crença, ou se calhar uma cultura de crença!

A mística amamenta vitórias - e por isso é tão reclamada – mas também se alimenta delas. Sem vitórias morre!

Foi o que aconteceu no Benfica (salvou-se o nome, aproveitado para uma linda revista) - a casa onde nasceu e que fez sua durante décadas – e pluribuns unum – desapareceu! Não que tenha morrido, mas vegeta em estado de coma há longos anos! Alguns dizem que desde aquela fatídica e longínqua assembleia-geral que pôs fim ao exclusivo lusitano na equipa.

Todos percebemos hoje que aquela decisão de abrir a equipa a estrangeiros seria incontornável. Naquela altura ou alguns (poucos) anos depois, mas ainda bem antes da chamada lei Bosman dos anos noventa. Mas lembrarmo-nos hoje que o primeiro estrangeiro do Benfica, logo a seguir a essa assembleia-geral, foi um tal Jorge Gomes – um brasileiro que jogava no Boavista – ajuda-nos a perceber a realidade actual do Benfica, que apresenta, com cada vez mais frequência, equipas sem um único português. E, logicamente, sem um único representante na selecção nacional!

A mística cultiva-se e passa de geração em geração, pela mão dos mais velhos e dos mais carismáticos, como o facho olímpico. No Benfica teima-se em não preservar gente para transportar a mística, para a levar, como o facho olímpico, até à mão seguinte como numa estafeta. Sem jogadores portugueses não há quem a transporte. Com as dezenas de jogadores estrangeiros que todos os anos chegam ao Benfica não há sequer quem a receba!

É neste quadro que assistimos a este degradante episódio do Nuno Gomes: o jogador que ainda segurava um facho - já com pouca chama, é certo – um dos poucos portugueses, com 12 anos de casa e o último jogador símbolo do Benfica. Que entende que tem condições para, aos 35 anos, jogar mais uma época, o que gostaria de fazer na equipa do clube da sua vida. E que - números são números – nas escassas oportunidades que Jorge Jesus lhe deu na época passada foi o mais produtivo jogador da equipa!

É grave que o treinador do Benfica não faça ideia do que é isso da mística e que, por essa ignorância, nem se farte de trazer dezenas de sul-americanos e espanhóis nem se incomode em expulsar Nuno Gomes do Benfica. Mais grave é que o deixem fazer isso, que alinhem nessa loucura de alimentar as filas de chegadas ao aeroporto (agora alguns até ficam detidos no SEF) e que, já que não o possam obrigar a incluir Nuno Gomes no plantel, não saibam tratar do assunto com a dignidade e o profissionalismo exigíveis. A gestão do Benfica não só não soube contrariar a insensata decisão do seu treinador como não soube geri-la. E, com isso, deu o último golpe na moribunda mística benfiquista. A mensagem que ficou para todos os jogadores foi clara: vejam o exemplo do Nuno, o capitão com 12 anos a viver, a sentir e a comungar e partilhar os sonhos e os ideais do Benfica, vejam o que lhe fizemos. É isso que vos está reservado!

Depois admiram-se de haver jogadores que preferem outro destino. E fecham os olhos e tapam os ouvidos quando jogadores que saíram desse outro e outrora destino falam da mística que por lá reina!

Mas isso da mística não interessa nada. O que importa é Artur Morais, Daniel Wass, Leo Kanu, Enzo Perez, Nemanja Matic, Bruno César, Nuno Coelho, Nolito, Rodrigo Mora, Tiago Terroso, André Almeida, Urretavizcaya, Miguel Rosa, Nelson Oliveira, David Simão, Rodrigo, Garay, Dedé, Ansaldi, Lorenzo Melgarejo (o tal que ficou retido no SEF, porque pensava que vinha de férias, e que diz que vem substituir Cardoso, que não sabe que vai embora), Danilo... Ufa!

É isto que, pelos vistos, faz a felicidade de Jesus. Espero que o fantasma de Nuno Gomes não o persiga toda a época… Se der para tanto!

O NOVO GOVERNO

Por Eduardo Louro

 

                                               

    

 

Aí está o novo governo! Um novo governo que também é um governo novo (de gente nova) e com algumas, ou mesmo muitas, surpresas. Escolhi quatro – e não sei se lhes chame surpresas se polémicas: estas quatro!

Começo pelas senhoras – primeiro as senhoras, que são apenas duas – e por Assunção Cristas. Não que seja exactamente uma surpresa, porque sabendo-se que faz parte do núcleo duro de Paulo Portas seria de esperar que o líder a requisitasse para o governo. Também o facto de ser claramente uma estrela em ascensão, com reconhecidos méritos patenteados particularmente no Parlamento, diluirá o factor surpresa. Mas surpresa mesmo é a pasta que lhe calhou em sorte: uma pasta de mixed feelings que leva a agricultura à cabeça (terá sido a fórmula encontrada para satisfazer a reivindicação de Paulo Portas) que acaba por congregar todos os sectores mais desprotegidos da nossa actividade económica.

Passando aos cavalheiros surge Paulo Macedo: um nome de que se vinha falando pelo que, também aqui, a surpresa/polémica vem agarrada à pasta. Ninguém se lembraria do quadro do BCP (agora administrador) que teve uma passagem marcante pela Direcção Geral dos Impostos para o Ministério da Saúde, mas são mesmos os resultados aí obtidos que acabam por justificar esta escolha de Passos Coelho. Está fora dos lóbis que se movimentam nesta área e tem um rótulo de reformador, e só isso já basta para esbater a eventual polémica.

Álvaro Santos Pereira é mesmo uma surpresa: uma surpresa no mega Ministério da Economia que poderá vir a ser polémica. É o segundo mais jovem, depois de Assunção Cristas, e um académico – muito prestigiado e, sem dúvida, um dos grandes talentos do país - fora, como tantos outros (vem de Vancouver, no Canadá) que tem dado a cara por opções económicas altamente polémicas. Por ele, por exemplo, a tal major reduction da Taxa Social Única que tanta polémica levantou na campanha eleitoral e que a tudo se prestou, é mesmo substancial: 10 ou 15 pontos! Há mais, muitas mais opções polémicas: basta esperar para ver!

Por último, Vítor Gaspar, talvez o menos conhecido de todos para o grande público, mas também de méritos indiscutíveis. Chega com dois handicaps que, curiosamente, abordei aqui em dois dos últimos textos sobre a constituição do governo: o primeiro terá a ver com o facto de não ter sido primeira escolha (Vítor Bento, o nome que aqui se adiantara, não aceitou), e o segundo com a falta de peso político, o tal factor que também aqui apresentei como determinante. Nada que, a meu ver, seja agora relevante. Para além de inquestionável competência Vítor Gaspar goza de grande prestígio pessoal e profissional em Bruxelas: na Comissão Europeia e no Banco Central Europeu. E conhece como poucos aqueles corredores. Nas actuais circunstâncias do país e da governação esta é uma mais valia que ultrapassa, em muito, o handicap da sua leveza política.

Para além das suas características individuais, e do brilhantismo de cada um, estas são também caras que acentuam o lado liberal deste governo. Para o bem e para o mal, goste-se ou não!

 

"COPIANÇO"

Por Eduardo Louro

 

Foi a notícia dos últimos dois dias e talvez a notícia da semana, batendo aos pontos a da saga do próximo governo. Ontem tomou conta do espaço mediático: jornais, rádios, televisões, blogosfera e redes sociais pouco mais fizeram que dar eco da indignação geral e das ondas de choque que a notícia provocou.

Também eu fiquei chocado com as notícias do copianço geral dos 137 alunos do CEJ. Mas, confesso desde já, com as notícias! Por isso, ontem não me pronunciei e optei por deixar passar algum tempo para que a poeira assentasse. De facto este episódio e as suas sucessivas narrativas são um bom exemplo de como se faz comunicação e opinião neste nosso país.

Num teste de Investigação Criminal e Gestão de Inquérito (ICGI), os alunos do Centro de Estudo Judiciários (CEJ), teriam copiado. A notícia começou a circular em moldes inequívocos: até as respostas erradas eram exactamente iguais, o que teria levado a directora do curso, porque já não haveria tempo para repetir a prova, a correr toda a gente com 10, numa escala de 0 a 20.

O resto já toda a gente conhece: desde a reacção do Bastonário da Ordem dos Advogados, à dos sindicatos das magistraturas, dos mais diversos agentes às das próprias estruturas do CEJ e até de ex-Presidentes da República. Multiplicaram-se por toda a parte as acusações de fraude e de desonestidade daqueles que, dentro de pouco tempo, serão responsáveis pela aplicação da justiça e as conclusões de que este seria o paradigma da Justiça: incompetência, desonestidade e, the last not the least, perante a incapacidade crónica de encontrar os culpados, lavar as mãos como Pilatos atribuindo nota 10 a todos os alunos, tenham ou não copiado.

Dentre as páginas de jornais, as horas de rádio e de televisão, os inúmeros posts na blogosfera e as centenas de comentários saliento aqui uma entrevista de Mário Crespo ao sociólogo Boaventura Sousa Santos na SIC Notícias. Confesso que, pese o respeito que aquele jornalista me merece, não sou grande apreciador do seu estilo desgraçadista e exuberantemente opinativo sempre misturado com um assinalável espírito reverencial pouco compaginável com a sua exuberância. Adianto ainda que, tanto quanto sei, o sociólogo Boaventura Sousa Santos, por razões que se poderão muito bem justificar mas que eu não entendo bem, tem responsabilidades pedagógicas no SEJ: conhecedor privilegiado, portanto, do que por lá se passa.

Nesse espaço informativo, enquanto o sociólogo não descolava da vox populi sobre a matéria, e acentuava a necessidade de todo o processo de selecção e formação daqueles futuros magistrados escolher os melhores entre os melhores, sempre com a cumplicidade bem expressa do jornalista, que dissertava sobre as passagens administrativas dos tempos do PREC, acentuando o carácter baldista da formação dos magistrados e enfatizando a nota 10 como forma de assegurar a passagem toda aquela gente incompetente e impreparada.

Ora bem, o que acontece é que aqueles137 alunos do CEJ – ou a sua grande maioria, porque há uma pequena quota para pessoas já profissionalizadas – chegaram ali depois de passarem por sucessivas e exigentes provas de avaliação que deixaram pelo caminho largas centenas de candidatos. O que acontece é que aqueles são mesmo os melhores de entre todos os que um dia ambicionaram fazer uma carreira na magistratura e que ali discutem, palmo a palmo, a melhor nota. A nota que os acompanhará ao longo da carreira e que marcará o seu futuro, para quem, como é evidente, um 10 é uma penalização severa: ali, eles disputam os 16 e os 17, e só não disputam os 18 e os 19 porque essas são, ali, notas proibidas. E, isto, embora devesse, poderá Mário Crespo não saber. Mas Boaventura Sousa Santos sabe-o!

E o que ainda acontece é que o teste em causa era do tipo americano (de resposta múltipla, assinalada por cruzinhas) onde, como é evidente, não é sério dizer que as respostas erradas eram todas iguais. Porque as respostas estão lá, todas iguais: certas e erradas. Como, mais uma vez, Mário Crespo, embora devesse, poderia não saber e Boaventura Sousa Santos bem saberia.

Não estou, obviamente, a fazer a apologia do copianço. Muito menos a sancionar a decisão da direcção do SEJ de resolver o problema com um 10 colectivo. Não é a solução desse problema que me preocupa. O que me preocupa é a forma ligeira e irresponsável como os media tratam as coisas, a maneira fácil, irresponsável e populista de fazer informação. E, nisto, a Justiça tem sido sempre um alvo fácil. É também por isto que a Justiça está no estado em que está!

CLIVAGENS

Por Eduardo Louro

 

“Se eu fosse deputado votaria no candidato que o partido mais votado apresentasse para candidato à presidência da Assembleia da República” – referiu António Costa no Quadratura do Círculo, da SIC Notícias!

E disse mais. Disse que essa é a tradição da democracia portuguesa que deverá ser respeitada. E que o anúncio prévio da escolha do PSD - antes das eleições - é razão para reforçar essa tradição e nunca para a trair!

António Costa costuma dizer coisas relevantes, mesmo que pela negativa, como ainda agora se viu com a negação da sua candidatura à liderança do PS. E é relevante que o tenha dito pouco depois de a Comissão Política do PS anunciar que votaria contra a candidatura de Fernando Nobre. E quando o CDS à margem – melhor, na margem – do Acordo Político e Programático reafirmou igualmente a sua oposição à candidatura apresentada pelo PSD.

 

SINAIS

Por Eduardo Louro

 

Pedro Passos Coelho não levanta o véu sobre a constituição do governo – volto a tirar-lhe o chapéu pela forma como soube conduzir todo este processo, e levanto-o tão mais alto quanto sei que também lá está Paulo Portas – mas vai-se preocupando em deixar alguns sinais.

São sinais essencialmente destinados ao exterior, o que se compreende. Privilegiou um jornal de referência - o Financial Times – concentrando a comunicação em duas notícias, ambas centradas na questão financeira e, dentro dela, na independência. O objectivo era, claramente, passar uma mensagem de empenhamento no rigor e na independência do controlo das contas públicas, que é como quem diz na implementação das medidas do memorando da troika. E as duas notícias são (i) que o ministro das finanças é um independente e (ii) que vai criar a tal entidade de controlo e monitorização das contas constituída por independentes, incluindo dois estrangeiros!

Sobre a primeira tenho algumas dúvidas que um ministro das finanças independente seja, apenas e só por isso, uma grande notícia. Mais importante que ser independente é que tenha grande peso político, para além, evidentemente, de competência específica. O ministro das finanças tem que ser uma voz respeitada e incontestada, e isso só está ao alcance de pessoas com, mais que grande prestígio, grande peso político específico. Que, normalmente, não se encontra por aí em independentes. Provavelmente olhamos à volta e apenas encontramos Eduardo Catroga, que não é tão independente quanto isso!

Acredito que a segunda seja uma boa notícia para o exterior, e que a integração de personalidades estrangeiras lhes tenha soado a música. A mim, como de resto já aqui manifestei, parece-me uma coisa meia disparatada. Porque torna-se difícil entender que, quando é necessário reduzir o Estado, extinguir institutos e organismos públicos, a primeira notícia seja a criação de mais um organismo. Mas também porque é difícil de entender que um governo que se prepara para tomar posse esteja logo à partida a deixar a mensagem que, em contas, é de tanta confiança como o anterior. Que esteja a desconfiar dele próprio não é seguramente o melhor dos sinais. E, finalmente, porque também não se entende a necessidade de uma entidade de controlo e monitorização das contas – com estrangeiros e tudo – quando a própria troika o fará. E cá estará a fazê-lo trimestralmente. A não ser que se esteja a destinar a esse órgão o papel de interlocutor da troika: o que seria a todos os títulos lamentável, porque isso terá que ser função inalienável do ministério das finanças!

Podem ter sido sinais importantes, do ponto de vista de comunicação, em particular para o exterior. Mas para nós, que nos preocupamos com o que é e não com o que parece que é, não são sinais positivos.

Já é um sinal positivo perceber, como hoje já percebemos, a solução do problema chamado Fernando Nobre, ontem aqui trazido. A solução de insistir na sua candidatura à presidência da Assembleia, mesmo contra o parceiro de coligação, é um sinal de que Pedro Passos Coelho é cumpridor. Que é homem de palavra, o que é sempre um sinal positivo, tão mais positivo quanto maiores forem os riscos que corre. E se são grandes os riscos que vai correr… Mas Fernando Nobre, como referi no texto anterior, não lhe deixou escapatória!

E é mais um sinal positivo que seja já hoje claro que está completamente fora de causa a solução manhosa de o integrar no governo.

 

 
 

BOMBA ARMADILHADA

Por Eduardo Louro

 

Percebeu-se desde logo que o convite de Pedros Passos Coelho a Fernando Nobre iria dar num grande sarilho. Foi logo à partida considerado como o primeiro dos tiros no pé do quase primeiro-ministro – muitos nem foram tiros nem atingiram nenhum pé – e foi, à medida que a campanha ia avançando, perdendo gás.

A própria evolução da campanha, acompanhando o processo afirmativo de Passos Coelho, encarregou-se de diluir o problema. Dobrado o 5 de Junho, e posto em marcha o processo negocial da formação de governo, o nome de Fernando Nobre volta à ribalta, ao centro da discussão política.

Porque o CDS sempre afirmou que não apoiaria a sua candidatura à presidência da Assembleia da República e porque essa eleição se faz por voto secreto. Insistir em respeitar o compromisso em má hora estabelecido com Fernando Nobre iria directamente chocar com os equilíbrios que há que estabelecer com o parceiro de coligação. Levar até ao fim este compromisso poderia corresponder a um bem perigoso braço de ferro, com grandes riscos de uma grande trapalhada logo no arranque da legislatura, pois nada garante que, com voto secreto e no PSD – onde, como se sabe, tudo pode sempre acontecer – a maior bancada do parlamento não se viesse a dividir e a colocar em causa o sucesso da eleição. Uma legislatura que terá de ser tratada com pinças, que não pode correr riscos e que tem tudo incluindo a história, contra si, não pode arrancar no meio de tamanha turbulência!

Como se vê, muito facilmente Fernando Nobre se transformou numa bomba política de grande capacidade de devastação. Aqui está uma bomba armadilhada que vai exigir mil cuidados para não rebentar nas mãos de ninguém.

Como se sabe hoje mesmo terá sido comunicado ao Presidente da República que os acordos políticos que suportam a constituição do governo estão alcançados. Faltam meras formalidades - como a aprovação pelas estruturas dos dois partidos – pelo que será de supor que a solução está encontrada. Resta saber se a bomba está efectivamente desmantelada. É que o único mecanismo eficaz e seguro de assegurar o êxito dessa operação está nas mãos do próprio Fernando Nobre e, tanto quanto se sabe, ele não se fez à tarefa. Cabia-lhe, penso eu, perceber tudo isto e, aos ouvidos de Passos Coelho ou através de comunicação pública, dizer que, por razões pessoais, blá blá blá, blá, não se candidata à presidência do parlamento. Não o fez e, mesmo que o faça agora, já vem tarde!

Não sei se Fernando Nobre dará ou não um bom ministro. Admito até que tenha condições para ser um grande ministro da área social, eventualmente mesmo um trunfo para essa área. E acharia lamentável que fosse uma opção queimada à partida: que, caso esteja nas cogitações para integrar o governo, fique marcado por um estigma que, mais tarde ou mais cedo, lhe irá barrar a carreira! Como lamentável seria ver Passos Coelho acusado de o pôr no governo apenas para resolver o problema que criou…

 

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