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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Futebolês #85 AQUISIÇÕES

Por Eduardo Louro

 

Continuamos em tempo de pré-época, em tempo de aquisições!

Não se trata de repetir as contratações de uma das últimas edições (número 79) do futebolês, não obstante serem, obviamente, sinónimos. No futebol há muitas aquisições ou, melhor dito, adquire-se tudo o que se adquire noutra actividade qualquer, quase sempre sem olhar a meios. Contudo, em futebolês, não se adquire outra coisa que não sejam jogadores: aquisições é de jogadores. Como compras, um sinónimo verdadeiro. No futebol tudo se compra – mesmo o que não está à venda – mas em futebolês também as compras, como as aquisições, se referem exclusivamente a jogadores.

Em boa verdade as aquisições têm uma abrangência mais larga que as compras. As aquisições não se esgotam nas compras. Adquirem-se jogadores por compra, mas também por empréstimo. E ainda a custo zero, que é uma transacção inventada pelo futebolês, como uma terceira via: não é compra nem empréstimo. Mas também, por estranho que pareça, por roubo: é verdade, também há aquisições por roubo!

Como as empresas têm uma política de investimentos ou até políticas de compras, também os clubes têm a sua política de aquisições. Estrutura fundamental dessa política é o departamento de prospecção que, em futebolês, se chama scouting.

O Benfica tem uma política de aquisições que passa pelo empréstimo – normalmente com uma cláusula de opção de compra no final –, como foi no ano passado o caso do Salvio e este o do Eduardo, pelo custo zero – como foram os casos do guarda-redes brasileiro Artur Moraes (ex-Braga), e do espanhol Nolito (ex-Barcelona) – mas, fundamentalmente, pela compra no mercado sul-americano, em resultado de aturado trabalho de scouting. Na variante de empréstimos o sucesso do negócio está no valor fixado para a opção de compra. Quem empresta fá-lo por uma de duas razões: ou porque aposta em manter o jogador e apenas o pretende colocar a rodar noutra equipa, ou porque pretende desfazer-se dele mas não o consegue vender. No primeiro caso, evidentemente, cláusula de opção de compra não faz qualquer sentido. No segundo sim. Mas aí o jogador está obviamente desvalorizado, pelo que não faz nenhum sentido negociar o empréstimo sem salvaguardar um baixo valor de compra.

É este o estranho caso do Sálvio. O jogador estava desvalorizado e, no entanto, o Benfica aceitou – embora sempre me tenha parecido que havia por aqui alguma coisa mal explicada – a fixação da opção de compra em 15 milhões de euros. Valorizou o jogador e, depois, era caro!

Um erro, evidentemente. Outros têm sido aqui denunciados!

O Scouting do Benfica tem indiscutivelmente rivalizado com os dos melhores clubes europeus, detectando, identificando e negociando com muitos dos maiores talentos que brotam do lado de lá do Atlântico.

A política de aquisições do Porto é diferente. Passa pela estratégia pessoal de Pinto da Costa que se sobrepõe a qualquer estratégia de gestão do clube. E que, habilmente sem dúvida, ele trata de fazer confundir. Pinto da Costa acha que o seu sucesso não se mede por critérios objectivos de gestão desportiva, acha que, antes de tudo, se mede pelas acções em que faça crer que achincalhou o Benfica!

Nesta estratégia não há competição em livre concorrência. Nem ética de negócio. Vale tudo, como na selva.

O Porto não precisa da tal estrutura de scouting, porque parasita a do Benfica, como Pinto da Costa orgulhosamente sustenta. A Jardel, Deco  e Cristian Rodriguez (que, sendo formalmente diferente, não o são na substância) Alvaro Pereira, Falcao e James Rodriguez juntam-se agora os jovens brasileiros Alex Sandro e Danilo, conforme aqui tinha previsto.

O Benfica identifica os jogadores e inicia as negociações. Depois surge Pinto da Costa e cobre as ofertas: 10 milhões pelo primeiro e 13 pelo segundo, que tinha uma cláusula de rescisão de apenas 6,5 milhões de euros. A partir daqui qualquer um em negociação com o Benfica já sabe que Pinto da Costa aparecerá a cobrir!

A estratégia de Pinto da Costa é projectar-se a si próprio antes de qualquer outra coisa. Á saída de André Vilas-Boas teve como preocupação única safar a sua imagem pessoal de líder sagrado e infalível. O esperto que ninguém consegue enganar. A renovação do contrato de Falcao, antes de ser um grande negócio para o FC Porto – que está por provar e é o mais estranho dos estranhos negócios do futebol – é uma operação de imagem pessoal: um botox. Estas duas aquisições – 23 milhões de euros dificilmente justificáveis – têm como objectivo único projectar a sua imagem num espelho de humilhação do Benfica. Mas para seu desespero o Benfica é demasiado grande! Nunca o humilhará nem o diminuirá. Antes pelo contrário: reforça-o! Porque, desta forma, os benfiquistas perdoam os erros que os responsáveis têm acumulado nas aquisições. Que, mais do que de uma ou outra hesitação que num ou noutro momento possa ter aberto uma ou outra  brecha aproveitada pelo lobo mau – sempre à espera do capuchinho vermelho - resultam da falta de critério. Com compras em massa, em vez de selectivas, muitas dessas aquisições nem sequer chegam a pisar o relvado do Seixal, quanto mais o da Luz!

 

ALPE D`HUEZ

Por Eduardo Louro

 

 

No Alpe d´Huez ganhou o jovem francês – primeira, e muito provavelmente única vitória francesa na prova – Pierre Rolland, líder e provável vencedor do prémio da juventude, mas o espectáculo foi de Alberto Contador, o derrotado de ontem. Contador atacou na penúltima subida – no Telegraph – e, com Andy Shleck – que não acusou o desgaste de ontem – na companhia do nosso Rui Costa, treparam ainda sozinhos o mesmo Galibier de ontem, hoje por outra vertente. Onde Thomas Voeckler foi novamente herói na defesa da sua camisola amarela e Cadel Evans parecia irremediavelmente derrotado.

Na longa descida que se seguiu tudo se reagrupou, iniciando-se a subida final com tudo a zeros. O primeiro a sair, logo no início, seria o jovem francês. Mas o ataque a sério partiria novamente de Contador que foi por ali acima e deixou tudo para trás: espectáculo Contador! Mas o espanhol Sanchez – que se viria a sagrar rei da montanha – fugiu dos manos Shleck e de Evans. Rapidamente alcançou o jovem Rolland que ainda por ali andava e, rebocando-o até lá acima, alcançou Contador e entregou-lhe a vitória.

E pronto: o Tour decide-se no contra-relógio de amanhã, entre Evans e Andy Scleck – agora de amarelo – separados por 57 segundos.

Thomas Voeckler – hoje a imagem do desespero - despiu finalmente o maillot jaune! Que, depois de tanto sangue, suor e lágrimas, já pouco tinha de amarelo!

GUERRA E PAZ

Por Joana Louro *

 

Acabei de chegar a casa depois de um dia de trabalho intenso... Já é tarde e estou cansada! Ligo a televisão num dos canais de noticias, na tentativa de fugir à deprimente programação dos canais abertos no suposto horário nobre, e deixo-a a falar sozinha enquanto preparo qualquer coisa para o jantar, de preferência rápido e saudável! Finalmente os meus primeiros minutos de sossego… Entre o jantar que se cozinha e a mesa que falta pôr, sento-me uns minutos no sofá atenta às notícias e o que o mundo tem para contar.

Pouco menos que deprimente: a crise por cá, por lá e por todo o lado. A Europa, a Alemanha e a Srª Merkel, que tem que perceber que tem de ajudar e que ora percebe ora não percebe. Nem eu, com tantas explicações dadas por tanta gente expedita no verbo que defende uma coisa e o seu contrário. Desisto, estou saturada deste cenário e não quero saber mais...

Acabo de preparar o jantar e ponho a mesa, enquanto recapitulo mentalmente (e involuntariamente!) os doentes que deixei internados no hospital... E detenho-me no Sr. Silva, o doente da cama 5, um doente simpático, que me trata por “menina doutora”, “ menina por carinho e doutora por respeito”, vai dizendo com um sorriso franco na tentativa de justificar a utilização destas duas palavras, numa tão curiosa associação. Tem pouco mais de 70 anos e, depois de uma vida inteira dedicada à agricultura, deveria estar a gozar a sua velhice (com aquela idade eu ainda deverei estar a trabalhar – foge-me o pensamento neste parêntese). Mas não está! Não está porque o corpo está doente, mas sobre tudo porque a mente também! “A minha mente está mais doente que o meu corpo, menina doutora, tantas que são as preocupações”, confessa-me numa voz que me enche o coração. Os dois filhos estão desempregados, eram trabalhadores não qualificados de empresas que a crise e a globalização destruíram. “Mas os meus netos, menina doutora, esses foram para a faculdade e também não têm emprego. E isto como é que se explica? Pensei que estudar era assegurar o futuro deles!”. E para assegurar o futuro e o estudo deles foi vendendo as terras, que tinham sido noutros tempos o sustento da família. “Se pelo menos tivesse as terras, podiam ser cultivadas” pelos netos doutores, faltava-lhe acrescentar ao desabafo...

Quis-lhe explicar que as coisas não seriam assim tão simples e que as opções de outros tempos não foram erradas, que nem tudo tem uma explicação lógica, que a vida e o mundo são bem mais complexos... mas não consegui, afinal o que é que uma menina doutora tem para ensinar a um Sr. Silva. Ofereci-lhe o meu sorriso mais sincero e profundo, o mesmo que esboçava enquanto punha o jantar na mesa.

Depois de jantar ainda fiz uma visita aos meus blogs preferidos, numa nova tentativa de me encontrar com as noticias e o com o mundo... mas era mais do mesmo. Desisto e desligo o computador.

Opto pelo sofá e pelo meu livro dos últimos meses “Guerra e Paz”. Outro mundo, outro tempo... Não melhor, nem mais fácil, simplesmente uma crise diferente... Mas pelo menos serve para desligar!

 

 

* Publicado hoje no Jornal de Leiria

VIVE LE TOUR

 

Por Eduardo Louro

 

Andy Shleck – brilhante – ganhou hoje no Galibier a mais dura etapa dos Alpes e do Tour. Dobradinha dos manos Shleck, já que Frank fez segundo. O australiano Cadel Evans fez, sozinho, todas as despesas da perseguição a Andy – que atacou bem cedo, na penúltima subida - e, com isso, reforçou a sua candidatura à vitória final e afastou Alberto Contador, a grande decepção de hoje. E Thomas Voeckler, o herói improvável deste Tour, foi mesmo heróico na defesa da sua amarela, que mantém presa à pele por 15 segundos.

E amanhã há mais: o mítico Alpe D`Huez na despedida dos Alpes, na véspera do contra-relógio que tudo decidirá.

Ao rubro este Tour! Vive le Tour!

GENTE EXTRAORDINÁRIA X

Por Eduardo Louro

 

Capdevilla chegou hoje a Lisboa para assinar contrato com o Benfica. Chegou hoje, quando a apresentação da equipa aos sócios foi ontem…

É um jovem de 33 anos cuja experiência irá ser muito útil à equipa. Onde não cabem velhos de 34, como Nuno Gomes, cuja experiência, história e ligação ao clube não acrescentam nada que se compare com o apport deste espanhol campeão do mundo!

Jorge Jesus também é gente extraordinária…

O Presidente Cavaco Silva reconfirmou, em Abril passado, na sequência da tomada de posse no seu segundo mandato, Mota Amaral como Chanceler das Ordens Honorificas Nacionais. Sem que se perceba porquê – e no maior dos silêncios – Mota Amaral pediu a demissão. Pelo meio ficara, no passado 10 de Junho, a condecoração de Manuela Ferreira Leite. Na altura ninguém percebeu! Percebeu-se agora: Cavaco nomeou-a em substituição do antigo presidente da Assembleia da República! Quer dizer: vistas curtas!

O Presidente Cavaco é mesmo gente extraordinária: o seu campo de visão esgota-se nos seus amigos!

Macário Correia é um político de toda a vida, a quem se não conheceu outra actividade. Mas é daqueles que, como Cavaco, não quer ser político. Ele está sempre do lado certo, ele sabe tudo enquanto todos os outros são mentecaptos e apresenta sempre as coisas exactamente assim. Desde aquela tirada famosa: “beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro”!

Foi assim nas portagens da Via do Infante (A22). Arrogando-se de sério, coerente, honesto e de ter princípios (Expresso, 30 de Março de 2011) assumia-se como líder do movimento algarvio anti-portagens e, ainda há pouco mais de duas semanas, no jornal i de 30 de Junho, classificava a introdução de portagens como uma medida tonta, esquisita, de quem não tem noção da realidade.

De repente, e sem que percebamos o que se alterou nas últimas duas semanas, Macário mudou de campo. E de opinião, justificando-se com a situação das finanças públicas!

Gente extraordinária esta que agora é que se apercebe da situação das finanças do país. Extraordinária mas séria, coerente, honesta e de  princípios!

FLASHES NUMA SALA DE ESPERA

Por Eduardo Louro

 

Hoje fui a uma consulta médica no hospital. Estava marcada há dois meses (nada mau!), tinha sido confirmada por carta pouco depois da marcação e, no fim-de-semana, tinha recebido por sms um último aviso. Planeei bem a deslocação e, tendo em consideração os imponderáveis do trânsito e do estacionamento, preparei uma almofada de tempo que a prudência aconselha. Resultado: 40 minutos antes da hora estava a entrar no serviço e proceder à confirmação e ao pagamento da consulta!

Tinha um longo período de espera pela frente. Fiz contas: 40 minutos mais, na melhor das hipóteses, meia hora de inevitável atraso dá uma hora e dez minutos! Que fazer com todo esse tempo?

A falta de rotina nestas andanças não ajudava nada. Não tinha comigo um livro, uma revista. Nem sequer o jornal. A loja dos jornais do hospital fica do outro lado – teria de sair e dar uma volta inteira, pelo exterior, ao hospital. Não era opção! Olhei à volta e lá estava, ao canto, a inevitável mesinha coberta de jornais e revistas já amarelecidos, como se tivessem estado ao sol. Não era bom augúrio. Confirmei: aqueles títulos - que não me interessavam minimamente – tinham já alguns dias. Semanas mesmo!

Regressei ao meu ponto de partida, à entrada da sala, donde poderia ouvir o meu nome a sair de uma das portas daqueles gabinetes.

Sentei-me. À minha frente, do outro lado, estava uma senhora com ar rural e aspecto que lhe dava à volta dos 70 anos. Chamou-me a atenção por ter a perna esquerda alongada pela cadeira ao lado, ocupando duas das três cadeiras daquele lugar estratégico da sala. Uma outra mulher de semelhante condição, talvez com menos uns (poucos) anos, acaba de entrar acompanhada pelo marido. Lança um olhar recriminatório sobre aquela perna ali estendida a roubar-lhe um daqueles lugares privilegiados, feitos à sua medida e à do seu marido. A outra finge que não percebe e é o marido que toma a iniciativa de ocupar a única cadeira realmente vaga, obrigando-a a entender. Retira a perna e o oferece o lugar enquanto vai explicando que precisa daquela posição para a perna não inchar, o que leva a nova conviva, enquanto avançava decididamente com o bem preenchido traseiro para a cadeira agora vazia, a fazer aquelas figuras de não … ó …mas deixe-se ficar … E, sem mais intervalos, lançaram-se para uma conversa que não mais despegou. De doenças, claro: uma sempre mais doente que a outra. O marido, visivelmente encantado com a conquista da mulher ali mesmo ao lado, fixava os olhos na televisão e puxava-lhe o braço uma, duas, três vezes: “olha ali aquela cobra na televisão”. Não valia de nada, a mulher não queria saber nem do marido nem da cobra. Aquela conversa é que não largava por nada…

Olho para lado, ali junto ao guichet e vejo duas mulheres a chegar. Bem diferentes das que deixara de observar: ar urbano e relativamente bem-postas. A da frente parece quarentona e seca de carnes: nem bonita nem expressiva – magra, que nem sempre é elegante. A que vem atrás parece-me pouco mais velha e tem um ar balzaquiano: bem cheinha, sem deixar perceber que tinha sido uma moça bonita.

Reparo que se conhecem. E que já não se vêm há muito! Percebo que a conversa chega aos filhos e que sacam dos respectivos telemóveis para se presentearem com as fotografias dos que foram os seus rebentos. De repente aquela voz e aquele sorriso começam a parecer-me familiares: aquele tom de voz e aquelas gargalhadas resgatam uma cara bonita e um sorriso ainda mais bonito daquela figura balzaquiana. Ah! Já sei quem é!

Tinha sido recepcionista numa empresa onde eu trabalhei muitos anos e donde saí há quase vinte. Lembro-me que terá saído um ou dois anos antes. Em resultado, se não estou em erro, de um daqueles romances de trabalho que normalmente dão mau resultado. As duas iam matando saudades e pondo as novidades em dia enquanto eu ia procurando o nome daquele sorriso: Idalina? Não, não me parece… Vieram-me mais três ou quatro nome à cabeça até que, quando ouvia chamar pelo meu – no único sítio onde o poderia ouvir, havia escolhido bem a minha cadeira – se fez luz: Margarida!

Olhei para o relógio e só tinham passado dez minutos da hora marcada. Enquanto me levantava olhei em redor e vi que nem a perna da senhora da frente tinha inchado nem a conversa entre ambas tinha acabado.

Quando saí do gabinete médico a Margarida já lá não estava… Mesmo assim nem sempre é mau não ter um livro à mão!

GOLDEN SHARES

Por Eduardo Louro

 

A União Europeia há muito que pressiona Portugal para acabar com as acções privilegiadas, as chamadas Golden Shares, que o Estado detém nas principais antigas empresas públicas entretanto privatizadas. Os sucessivos governos nacionais, a exemplo dos do resto da União – porque estas acções não são uma particularidade nacional -, foram resistindo a abdicar desses direitos especiais que tanto jeito dão, como ainda há bem pouco se viu no caso da PT, aquando da venda da posição na brasileira VIVO à Telefonica.

Como resistimos a todas as pressões, e até mesmo à sentença do Tribunal Europeu, a União Europeia resolveu o problema incluindo esta medida no memorando da troika. E como memorando da troika é para cumprir… não há nada a reclamar!

Mas há. E muito! Estas acções têm um valor que nada tem a ver com o seu valor de mercado, pela simples razão que não são iguais às outras. E o mercado só atribui valor às outras!

E numa altura em que, mais uma vez, vemos que são sempre os mesmos chamados a pagar a crise. Numa altura em que vemos que não há volta dar e que os governos, sejam eles quais forem, só conhecem o caminho para o nosso bolso. Que de fora ficam sempre os sectores empresarias, e em especial o financeiro. Que cortar na despesa nunca passa de conversa. E que até as privatizações parecem mais viradas para satisfazer outros interesses que os da maxização da receita do Estado, numa altura destas – dizia eu – é muito estranho que o governo não diga nada sobre a estratégia que definiu para alienar essas acções especiais da EDP, da GALP ou da PT.

O facto de se limitar a dizer que vai abdicar delas já começava a ser preocupante. Apesar assunto andar no ar o governo continuou calado. Até que Octávio Teixeira começou a falar do assunto, cada vez mais alto. E aí o silêncio do governo passou a ensurdecedor!

Já ninguém tem dúvidas que o governo se limita a entregar as golden shares aos accionistas de borla. E que está a tentar fazê-lo sem uma única palavra aos contribuintes!

Isto é absolutamente inaceitável. Mas, nas actuais condições, isto é criminoso!

Não importa – nem vale a pena trazer para discussão – se a solução técnica para determinar o valor destas acções preferenciais é fácil ou difícil de encontrar. O que importa é a decisão política: e essa só poderia ser usar estes instrumentos para nos ajudar neste momento dramático da nossa História!

Retirar-lhes os direitos e simplesmente entregá-las pelos valores cotados é um roubo - mais um - que se faz aos contribuintes! O mesmo Octávio Teixeira fala de 800 milhões de euros, precisamente o valor que nos vai ser retirado com o subsídio de Natal. Não faço a mínima ideia da razoabilidade desse valor, mas também não estou por agora preocupado em quantificar o roubo!

SEGURO E NÃO FORMOSO

Por Eduardo Louro

 

Na corrida à liderança do PS - que acaba de entrar na recta final - António José Seguro segue tranquilamente à frente, rumo à vitória. Francisco Assis lá vai fazendo pela vida, mas já nem ele próprio acredita que lá chegue. Vai-se esforçando em lançar uma outra ou ideia, às vezes mesmo uma pedradazita no charco, enquanto, Seguro mas não formoso, o seu adversário se limita a olhar para os botões da máquina, vendo se está tudo no sítio e distribuindo afectos a eito.

É a força da máquina, dizem. Nestas coisas quem não domina a máquina perde, sem apelo nem agravo. É assim no PS, mas é assim em todos os partidos. E com a moda das directas é ainda mais assim!

Nada a opor. Nem nada a fazer: são as regras do jogo!

O problema vem a seguir. Olho para as redes sociais – não há volta a dar, não é preciso espreitar pelo buraco da fechadura, as portas estão todas escancaradas – e reconheço as caras que estão à volta de Seguro: todas as que estiveram na linha da frente na defesa de Sócrates, todas as que vibraram com o líder no congresso de há três meses, todas as que deixaram aquela imagem de seita que de lá saiu. Onde, se bem se lembram e repescando a expressão então utilizada e que aqui trouxe já em diversas ocasiões, Seguro nunca saiu de trás dos arbustos. E onde Assis não se escondeu: sempre ali na tribuna, disponível para todos os encómios ao chefe endeusado…

Olho para trás, mais para trás – dois, três…seis anos - e continuo a ver Seguro sempre lá! No mesmo sítio, atrás dos arbustos, sem ninguém dar por ele! E Assis sempre bem a vista, sempre na primeira linha, a defender o chefe até à derrota final. Na Assembleia da República, um líder parlamentar com a missão impossível de defender o indefensável porque, na verdade, o Sócrates que toda aquela gente cegamente idolatrava, já não tinha defesa. No entanto Assis nunca o abandonou, nem por um só momento!

Se Assis não pode – por muito que até quisesse - largar a pele socratista, Seguro pode ser acusado de tudo – e especialmente de ter hibernado à espera que a oportunidade lhe caísse do céu – excepto de admirador e seguidor de Sócrates. Mandaria a lógica que as expectativas apontassem para que toda aquela gente que até há um mês atrás seguia Sócrates em perfeito delírio, estivesse agora ao lado de quem mais próximo dele sempre esteve. Mas não! Nada disso, justamente o contrário!

E isto diz tudo sobre os partidos que temos e a quem entregamos a chave da democracia.

 

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