"Inevitável"
Pode dizer-se que era inevitável, embora "inevitável" seja precisamente o menos adequado dos adjectivos. Era inevitável que o terrorismo islâmico fizesse com mais morte - 23 mortos, por enquanto - esta prova de vida que acaba de fazer em Bruxelas, com sucessivas explosões no aeroporto e em duas estações de metro. No coração da capital da Europa, nas barbas do centro do poder europeu...
Não que fosse inevitável em razão da retaliação terrorista pela captura, há apenas quatro dias, justamente em Bruxelas, do dito cérebro dos ataques de 13 de Novembro, em Paris. De resto, nessa lógica, ouviu-se já hoje, em diversas circunstâncias, que "as autoridades estavam a contar " com este acontecimento. Quando se diz que "as autoridades estavam a contar " está a querer dizer-se que era inevitável que acontecesse. Mas a verdade é que, dizer-se que "as autoridades estavam a contar" que acontecesse, deveria ter por consequência evitar justamente que acontecesse. Estar a contar que aconteça, e deixar acontecer, é que não. É inacção!
Pode até acontecer que os ataques terroristas de hoje em Bruxelas não tenham nada a ver com uma Europa paralizada, encurralada num beco sem saída, sem capacidade de resposta para coisa nenhuma. Podem até ter apenas a ver com a realidade belga, com múltiplas fronteiras, bairros de emigrantes muito fechados, guetizados, de onde saem muitos jovens para as fileiras do daesh - a Bélgica é, percentualmente, o país com mais cidadãos nacionais alistados no autodenominado Estado Islâmico - e um débil sistema policial e de contra-terrorismo, que como sistema simpelsmente não funciona. Mas a imagem que fica dos ataques terroristas de hoje é a de um império que já nem a sua capital consegue defender.