A agenda do dia está marcada por duas notícias "configurantes" de censura: o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto à volta do Populismo, do Brexit, de Trump e de Le Pen, na Universidade Nova de Lisboa e a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de fazer recolher todos os exemplares do livro "Eu e os políticos", de José António Saraiva.
Quando escrevi "configurantes" quis dizer que "podem" configurar censura. Podem, e muita gente - mais no primeiro caso, naturamente - está exactamente e denunciá-la. De resto é esse o único ponto de contacto entre os dois casos, é isso justamente que os junta.
Pessoalmente tenho grande admiração e respeito pela dimensão intelectual do palestrante, mesmo que nenhuma simpatia pelas ideias que perfilha. A sua capacidade intelectual é estimulante para o debate - sigo sempre que posso a interessante conversa que mantém semanalmente na Antena 1, com Rúben de Carvalho - mas o debate pressupõe contraditório. Sem parte contrária não há nem debate, nem estímulo... Há - ou pode haver - outra coisa qualquer. Que poderá ter desencadeado outra coisa qualquer, eventualmente cheia de coisas condenáveis, mas que não é censura. Arranjem-lhe outro nome, censura é outra coisa!
Também, quando o Tribunal da Relação de Lisboa manda recolher todos os exemplares do livro do José António Saraiva, e retirar das novas edições os dois párágrafos que considerou "uma evidente invasão da zona da vida privada da requerente, e nesta, parcialmente, na sua esfera íntima”, - a requerente é Fernanda Câncio - não é de censura que se trata mas tão só, como os próprios os juízes salientaram, pôr "na balança a liberdade de expressão e o direito à privacidade". É um confronto de liberdades. E de direitos!
O grupo PSA (Peugeot/Citröen) adquiriu a General Motors Europa (Opel - Vauxhall para os britânicos, que têm que ser sempre diferentes, não lhes basta conduzir pela esquerda) e tornou-se no segundo construtor do competente sector automóvel da Europa.
Quer isto dizer que é português o líder do segundo construtor automóvel europeu. O mesmo que estava indigitado para a administração da Caixa Geral de Depósitos do famigerado António Domingues. O BCE, sem que o tivesse mandado estudar, como fez aos outros, rejeitou seu nome - em comum, entre automóveis e bancos, só vejo as emissões de co2 -, a política rejeitou o de António Domingues e Carlos Tavares lá ficou disponível para ir às compras.
E, com a carteira cheia, ou sem grandes problemas de plafond no cartão de crédito, foi... gastar... 2,2 mil milhões de euros, ao que se diz!
Não é a primeira vez que grupo francês vái às compras à América. Já no mesmo no finalzinho da década de 70 tinha comprado o negóco europeu da Chrysler. E não correu lá muito bem. Mas os tempos são outros. E a Opel também...
Muito difícil, este jogo do Benfica em Santa Maria da Feira. Esperavam-se dificuldades, mas não tantas como as que o jogo apresentou. Pelo campo, que é sempre difícil, a que a chuva trouxe ainda mais dificuldades, e pela própria equipa do Feirense, muito bem trabalhada pelo seu jovem treinador. Nuno Manta é certamente mais um valor a despontar no futebol nacional, na linha de Marco Silva, e de mais um ou dois que por cá vamos tendo oportunidade de apreciar.
Comecemos por aí, para dizer que, à parte a motivação extra que sempre representa defrontar o Benfica, os jogadores do Feirense correram como poucos, jogaram no campo todo, raramente se remetendo à exclusiva defesa da sua área, e fizeram tudo isso com grande qualidade, individual e colectiva.
A equipa do Feirense tornou o desafio num jogo selvagem, completamente indomável. Um jogo que nunca se deixou controlar, porque só se consegue controlar um jogo depois de controlar o adversário. E o Feirense nunca se deixou controlar, mesmo com o Benfica a ter a bola em na sua posse durante dois terços do tempo de jogo.
Se a tudo isto juntarmos, mais uma vez, as muitas ausências - desta feita faltaram o maior desiquilibrador (Nelson Semedo), o maior equilibtrador (Fejsa) e o de maior classe (Jonas), que só entrou na parte final - temos o quadro completo das enormes dificuldades que hoje o Benfica encontrou.
Na primeira parte nem o Benfica foi superior ao Feirense, nem teve muito mais oportunidades de golo. Ao contrário do adversário o Benfica proveitou, com o golo de Pizzi já perto do intervalo, uma das duas ou três oportunidades que criou.
Na segunda parte, à excepção de cerca de 10 minutos ali pelo meio, a superioridade do Benfica foi clara, mesmo que nunca lograsse o domínio absoluto do jogo. O Feirense não dispôs de mais que uma oportunidade de golo, naquele canto que levou a bola até ao pé esquerdo do Ederson, que só a segurou depois de já a ter procurado dentro da baliza, enquanto o Benfica despediçou uma enorme séria de oportunidades claras. Três ou quatro, só à conta de Mitroglou.
Se a primeira parte deu ao jogo o golo de que se fez a vitória, a segunda deu-lhe os argumentos para a justificar.
O que se não justifica, não se aceita, nem se desculpa, é o comportamento de alguns adeptos que estavam atrás da baliza do Feirense na primeira parte. Envergonha-nos a todos, Envergonha-me a mim!
Volto ao tema da semana passada, porque não perdeu actualidade. Pelo contrário, ganhou ainda mais, com o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais à data dos acontecimentos a dizer, no Parlamento, tudo e o seu contrário, e a meter os pés pelas mãos. Depois de ter começado por dizer que a publicação das estatísticas das transferências para as offshores era da responsabilidade da Autoridade Tributária, e não dele, Paulo Núncio, Secretário de Estado, acabou a referir que tomou a decisão de não as publicar para, nas suas próprias palavras, "não beneficiar o infractor". Trapalhada mais trapalhona não há!
Esta é de resto uma trapalhada com muito de pescada: antes de o ser já o era.
Quando foi chamado por Paulo Portas para o governo de Passos Coelho, Paulo Núncio ganhava a vida a tratar da vida das offshores. Quando saiu do governo regressou, naturalmente, ao seu modo de vida. Pelo meio, no governo, dificultou-lhes a vida, deixando de publicar a informação dos montantes que levavam do país, e deixando fechados numa gaveta durante anos – tantos quantos durou a sua missão no governo – sem resposta, os pedidos de despacho dos serviços da Autoridade Tributária para a respectiva publicação. Porque, veja-se bem, publicá-las seria ajudar os fraudulentos…
Se a isto juntarmos a famosa lista VIP, que o senhor também começou por desmentir, criada para que gente importante, e certamente de bem, não fosse sequer incomodada com uma consulta ao seu cadastro fiscal, percebemos a verdadeira dimensão de quanto o país deve ao Senhor Núncio, como a Senhora Cristas anunciou.
Até parecia que o calendário estava um mês adiantado. Ontem, 1 de Março, só se falou de mentiras...
Começou com as mentiras e trapalhadas de Paulo Núncio - a quem, por sentença de Cristas, o país tanto deve - no Parlamento, e acabou com as de Carlos Costa, o ainda governador do Banco de Portugal, que a reportagem da SIC mostrou ao país. Nada que não se soubesse já, dirão. Mas... assim? Com tudo documentadinho, preto no branco?
Pronto, agora que já sabemos, podemos continuar a fingir que não sabemos que o Sr Carlos Costa foi lá posto para aquilo mesmo: para (não) fazer o que (não) fez. Ele vai continuar a fingir que é o governador do Banco de Portugal, com idoneidade para dar e vender no sistema bancário. O poder político vai continuar a fingir que está a reestruturar o sistema financeiro. E os poder judicial vai fingir que não viu nem ouviu nada... Ou - sabe-se lá? - vai acrescentar o Sr Carlos Costa à lista de arguídos da Operação Marquês...
Sabemos que o marketing recorre muitas vezes ao revivalismo para relançar produtos e marcas decadentes. São muitas e variadas as experiências, e partem sempre da mesma base: o ícon. Se os produtos ou as marcas não tiverem sido suficientemente icónicos não passam na prova de ressurreição.
Vemos isso na indústria da moda, mas vêmo-lo de maneira particularmente flagrante, e com muito sucesso, na indústria automóvel. A Wolkswagen - provavelmente a menos bem sucedida de todas - como não tinha uma marca associada ao modelo, recriou o Carocha (designação popular baseada na forma, e nunca designação oficial do modelo, susceptível de fazer vida de marca) no New Beatle. A FIAT foi e continua a ser bem sucedida com a sigla 500, como a Citroen começa a sê-lo com a DS, mesmo sem recriar o fabuloso Boca de Sapo. A BMW fez diferente, e aproveitou a sua "excursão" à British Leyland para de lá trazer o Mini, transformá-lo em marca e no maior sucesso comercial de todos. E naquele que provavelmente mais rompe com o conceito de nicho de mercado normalmente associado ao fenómeno.
Não imaginaríamos que o marketing tentasse fazer o mesmo na novíssima e revolucionária indústria dos smart phones. Mas foi por aí que a finlandesa Nokia se lançou para renascer das cinzas. Varrida da face da terra pela revolução digital nas comunicações móveis, aquela que era a bandeira da Finlândia, prepara-se para ressuscitar agarrada ao ícon que foi o seu 3310.
A princípio estranha-se. Teclado é coisa de que muita gente já nem se lembra. Depois percebe-se que não lhe falta nada. E por fim a cor faz o resto... Não tenho grandes dúvidas que estamos perante o mais intressante e arriscado desafio do "marketing revivalista". E muito poucas que houvesse outra forma de trazer uma vez mais a Nokia de volta.