É mais um dos ditos temas fracturantes, e está na ordem do dia. Nos próximos dias começam a chegar à Assembleia da República propostas e projectos para legislar sobre a eutanásia. Sim. É disso que estamos a falar, mesmo que com muitos nomes diferentes.
Há muito que o assunto vem e vai, sempre com grande turbulência. Mas nunca sem passar disso, depois de vir e de agitar as hostes, volta para o esquecimento e tudo fica na mesma.
Agora parece que não. Parece que finalmente a classe política entende que o assunto está suficientemente discutido na sociedade. Que o assunto está socialmente maduro!
Provavelmente estará, mesmo que este seja um terreno minado pelos mais radicais fundamentalismos.
Não me parece que haja assunto mais íntimo que dispor da própria vida. A intimidade é o núcleo central do “eu”, e o mais recôndito espaço de dignidade de cada um.
Em qualquer momento da sua vida, qualquer um pode decidir não querer viver mais. Mas nem em todos os momentos da sua vida tem capacidade para executar as suas decisões. Quando está desligado de tudo o que o faz sentir-se vivo, quando a vida se limita a uma prisão construída pela medicina no seu próprio corpo, ninguém consegue, por si, executar a sua decisão. Precisa de uma ajuda que, como sempre que se precisa de ajuda, não gosta que lhe seja negada.
O Estado - nós todos - temos que entender esta dimensão da vida que é escolher morrer. Que não tem nada a ver com matar!
É aqui, e só aqui, que o Estado tem que intervir. É aqui, e só aqui, que a lei faz sentido. Cabe à lei, nesta matéria, apenas assegurar que é severamente punido matar quem não quer morrer. Que, mesmo que pareça, não é nada pouco!
De vez em quando a Igreja Católica sai-se com cada uma... Bom, com o actual Cardeal Patriarca não é bem de vez em quando. O Cardeal Mauel Clemente, em particular desde que veio do Porto para Lisboa para tomar conta do mais alto lugar da Igreja em Portugal, é ao contrário: de vez em quando não diz disparates. A regra tem sido, como se diz na gíria, mesmo que totalmente fora de moda, e hoje politicamente incorrecto, "cada tiro cada melro". Ou, "cada cavadela cada minhoca", que as minhocas ainda não estão ao nível dos pássaros.
Eu sei que não se deve dar conselhos a tão eminentes figuras, mas aconselhava-lhe algum recato. E um bocadinho de bom senso. Para livrar a sua Igreja de coisas do diabo!
Ontem foi dia de regresso ao espaço. À hora dos telejornais em Portugal, e mais de duas horas depois do previsto, por causa do vento - não é só no Estoril que o vento faz das suas -, o Falcon Heavy, assim se chama o foguetão da Space X, a empresa que o multi-milionário Elon Musk - mais conhecido por ser o homem da Tesla - criou para dar vida ao turismo espacial, disparou céu acima, a caminho da órbita de Marte, com um bonito Tesla vermelho cereja a bordo. Precisamente o do próprio Musk, um magnífico exempler do roadster da marca.
Diz-se - toda a gente diz, mesmo os entendidos da matéria, ou que por isso se fazem passar - que se trata de uma da maiores proezas ha história aero-espacial. Dizem tratar-se do mais poderoso foguetão de sempre - parece que não, que o Saturn V da NASA, usado na operação Apolo, que haveria de levar o homem à lua, estava uns furos (peso, altura e potência) acima - capaz de levar tudo e mais alguma coisa para o espaço, e dizem que é o início de uma nova era espacial, que nos levará de regresso à Lua e finalmente a Marte, onde dentro de pouco tempo muitos de nós estaremos a passar férias. Ou um fim-de-semana que seja.
A mim, que não percebo nada destas coisas do espaço, parece-me mais uma gigantesca campanha publicitária, ao som de Space Oddity, de David Bowie. Cara, muito cara, como todas as campanhas verdadeiramente gigantescas!
Passando os olhos - com os dois bem abertos, não mais - pelas notícias dos jornais, parei. Não consegui passar ao lado e seguir em frente. Dizia: "menina de 11 anos deu á luz, e o pai do bebé é o irmão de 14 anos".
Não podia ter sido em Portugal. Isso teria dado capa nos jornais todos e teria sido abertura em todos os telejornais. Onde terá acontecido, interroguei-me, sem grande vontade de procurar pormenores. No profundo terceiro mundo. Talvez na Índia, donde já nos habituamos às maiores aberrações neste domínio...
Percebi que me estava a entregar a estes pensamentos para, por repugnância, evitar entregar-me à notícia. Mas tinha de saber onde uma coisa destas poderia ter acontecido. Fui ver.
Aconteceu em Espanha. Em Múrcia. Estava tudo dito. Não precisava de saber mais. A partir daí, dizer que tinha acontecido numa família de imigrantes, era redundante.
É impressionante a faciidade de certos países desenvolvidos em recriar dentro de portas modelos infra-humanos dos mais desgraçados países do terceiro mundo. Espanha, e a região de Múrcia em particular, são disso o maior exemplo. Sabem como poucos replicar a mais indigna miséria humana, como se museus vivos do horror estivessem a criar.
Para além do anunciado frio em todo o país, mais cortante pelo vento no Estoril ou mais amenizado pelo calor, em Lisboa, este foi um fim-de-semana de rankings, matéria muito apreciada cá pela paróquia. Não se discutiu outra coisa, nem nenhum jornal lhe passou ao lado. Por isso não resisti a trazer aqui "O romance do ranking", que o José Gabriel publicou no Aventar.
Com a devida vénia:
" “Estou muito satisfeito com as vossas notas, todos têm positiva na classificação final do ano”, dizia, aos seus alunos, o professor de Filosofia. Estes sorriam, satisfeitos.
“Então vamos todos a exame e fazer um figurão”, garantiam, felizes. “Ah, isso é que não pode ser; o Colégio só leva a exame o Bernardo. Ele tem, de longe, a melhor nota de todos vós.” ” E- e então e nós, o que fazemos? Não é justo!”, espantavam-se os 24 alunos restantes, indignados com a situação que se desenhava. “Vocês anulam a matrícula e vão ali à Escola Pública inscrever- se como autopropostos.” Apesar da revolta dos alunos e, depois, dos seus pais, foi isso que aconteceu. E foi assim que o Colégio de Sta. Miquelina obteve, mais uma vez, um dos primeiros lugares do ranking promovido pelo ME e patrocinado pela imprensa “de referência”. Há quem ache o método cruel – “canalha”, chamava-lhe um pai – mas a verdade é que o colégio não estava só. Todos os primeiros 15 classificados daquela disciplina tinham levado a exame apenas um aluno…
(Qualquer semelhança com factos reais não é pura coincidência…)"
Não há como não começar pelo resultado deste Benfica-Rio Ave que abriu a jornada 21, hoje, na Luz. Bem composta, mas não cheia. Mesmo assim, num dia de chuva e frio, e no fim de uma semana não muito mobilizadora, 54 mil benfiquistas disseram "presente". Chegaram a assobiar, mas passou... Tem a ver com o resultado, por onde ia começar, e donde já estava a fugir.
O resultado, o 5-1 final, não espelha as dificuldades por que o Benfica passou no jogo. E no entanto é curto, muito curto mesmo, para o que se passou no jogo. O Benfica podia perfeitamente ter marcado o dobro dos golos. Pois é, o futebol tem destas coisas... E os resultados, às vezes, também têm duas caras.
Os campeões nacionais entraram bem no jogo. Entraram forte, pressionantes, com o seu futebol dinãmico e envolvente. Normalmente entradas destas dão em golo. Hoje não deu, e na primeira vez que o Rio Ave chegou à area encarnada, à beira dos 10 minutos de jogo, marcou. Jardel cedeu um canto desnecessariamente. Do canto resultou um ressalto, aproveitado com classe pelo Geraldes, que entrou pela atordoada defesa benfiquista e centrou bem para a cabeça de Guedes pôr a bola dentro da baliza do Varela, que não pareceu nada que tivesse feito tudo para o evitar.
Logo a seguir o João Novais rematou ao poste direito de Varela, e o Benfica desapareceu do jogo, e só regressou à entrada para o último quarto de hora. Pelo meio, o Rio Ave controlou o jogo, com os jogadores do Benfica a teimarem em dar espaço aos dois jogadores-maravilha da equipa adversária, os já referidos Geraldes e João Novais. E o árbitro - miserável arbitragem de um árbitro (Manuel Oliveira) que normalmente aparece por "encomenda" nos jogos do Benfica - e o VAR (que, como se sabe, tem servido apenas para deixar cair a sílaba do meio da "verdade" desportiva) deixaram de marcar um penalti a favor do Benfica.
Não foi feliz, o "regresso" do Benfica ao jogo. Coincidiu com a lesão de Salvio, mais uma. E foi então já com Rafa que a equipa partiu para cima da baliza do regressado Cássio que, como se sabe, tem história feita nos jogos com o Benfica. E com Zivkovic que, tendo entrado de início - a segunda experiência, depois do João Carvalho, para as funções que Krovinovic desempenhava com sucesso até se ter lesionanado, há duas semanas -, ainda se não tinha visto.
Foi um sufoco, e as oportunidades de golo sucediam-se, sempre em vão. Mas nem assim o Rio Ave era um adversário submetido. Sempre a pressionar a primeira zona de construção do Benfica e, sempre que podia, lá trocava a bola com propósito e classe, pelo menos sempre que ela passava pelos pés daqueles dois.
A segunda parte arrancou no mesmo ritmo. Mas também com o esperado golo do Benfica, por Jardel. Mas de forma inesperada, num canto. O oitavo, depois dos anteriores terem sido desperantes... Depois... Bem, depois, e especialmente depois do segundo (Pizzi) foi um festival de futebol benfiquista. Deu em mais três golos (Jonas, como não podia deixar de ser, depois Rúben Dias, o seu primeiro, e de novo num canto, e finalmente Raul, que já substituira Jonas), mas podia ter dado mais quatro ou cinco.
As oportunidades criadas e a qualidade de jogo exibido justificavam-nos. Mas o futebol do Rio Ave não os merecia!
O Ministério Público arquivou o processo que envolvia Mário Centeno, que o DIAP confessou ter aberto por notícias vindas a público nos jornais. Os jornais - quase todos, ou todos menos o mesmo (ou os mesmos) -, hoje, dão conta da notícia, como o "desfecho óbvio de um processo que nunca devia ter existido".
A Procuradoria Geral Distrital de Lisboa escreveu na nota de arquivamento que "realizado o inquérito, recolhida a prova documental e pessoal necessária ao apuramento dos factos, o MP concluiu pela não verificação do crime de obtenção de vantagem indevida ou qualquer outro, uma vez que as circunstâncias concretas eram suscetíveis de configurar a adequação social e política própria da previsão legal". E explicou que "o MP no DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal] de Lisboa ordenou a instauração de processo-crime na sequência da publicação nos órgãos de comunicação social de notícias sobre a solicitação de bilhetes para assistência a jogo de futebol no dia 1.04.2017 em tribuna presidencial".
Ou seja, confessou que anda a reboque da comunicação social. De alguma comunicação social. Da mesma. Poderia não ter grande mal se o fizesse nas profundezas do silêncio, se andasse só atrás dela, sem que a alimentasse.
Mas não. Fizeram-se buscas no Ministério das Finanças perante câmaras de televisão, fotógrafos e repórteres. Jogou-se à lama o nome do mais prestigiado dos ministros, conspurcou-se a imagem do país e, no fim... nada se passa. Os mesmos jornais, e as mesmas televisões continuam a fazer as mesmas notícias, na maior das impunidades. E a fazer mal por simplesmente quererem fazer mal!
As últimas notícias que nos chegam da Justiça, incluindo a “Operação Lex” que tomou conta do espaço mediático desta semana, dizem-nos que os ricos e poderosos já não lhe escapam pelo simples facto de o serem. Entre eles – não sei se ricos, mas sei que poderosos - os seus próprios agentes, os seus pares. A Polícia prende polícias, e o Ministério Público investiga e acusa governantes e ex-governantes, líderes empresariais e da alta finança, do país e do estrangeiro, altos dirigentes desportivos, magistrados e procuradores…
No caso que domina a semana estão envolvidos, para além um procurador, um oficial de justiça e advogados, dois juízes desembargadores, por acaso com recente relação conjugal. Ela, em vésperas de ser promovida da Relação para o Supremo Tribunal de Justiça e ele, na mesma calha, figura mediática de primeiro plano.
A presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Manuela Paupério, entrevistada no DN, defendia a classe, como lhe compete, dizendo com absoluta naturalidade que se trata de casos muito pontuais, que não podem permitir qualquer tipo de generalização, rematando com a afirmação que estava há 30 anos na magistratura e era a primeira vez que via uma coisa destas.
Poderia lá estar há muitos mais anos e afirmar a mesma coisa. Porque a questão é se estas coisas sempre aconteceram, mas só agora é que a Justiça as vê; ou se estas coisas não aconteciam de todo no passado, e se são as actuais personagens do poder que, de tanto o exacerbarem, se expõem agora mais, e às mais variadas tentações.
Não sabemos a resposta. Como também não sabemos por que é que, agora, as câmaras de uma televisão, e os jornalistas de um jornal, chegam sempre primeiro às residências e demais locais de busca, que os agentes e portadores do respectivo mandato judicial.
Evidentemente que precisamos de estar informados sobre os resultados da actuação da Justiça. Mas assistir em directo à execução de um mandato judicial, ou acedermos aos processos pelas televisões e pelas primeiras páginas dos jornais, não é isso. É outra coisa qualquer… Que nem é aceitável, nem nos deve dar maior tranquilidade.
Vista assim, a encher a capa, parece uma notícia. Uma notícia de primeira página, e bem gorda. Mas não é. É um simples auxiliar de memória. Uma espécie lembrete.