Está a decorrer no Tribunal de Leiria a fase de instrução do processo dos incêndios de Pedrogão Grande, em Junho de 2017, com treze os arguidos, entre os quais os presidentes, então em funções, dos três municípios abrangidos: Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande.
Puxamos um bocadinho pela memória e lembramo-nos todos das apregoadas renegociações das PPP rodoviárias do governo de Passos Coelho. E dos anunciados ganhos para o Estado que se festejaram. Mas já não precisamos de puxar tanto pela memória para nos lembramos das responsabilidades de António Costa, e de todos os seus ministros, nas trágicas mortes naquela estrada...
Pois é ... e o Estado falhou.
E vem-nos à memória, não uma frase batida, como canta o Sérgio, mas o que se está a passar na Saúde...
É uma das fotografias mais reproduzidas da História, esta captada pela lente do foto-jornalista Alfred Eisenstaedt para a revista Life, em 1945. E retrata um dos beijos mais icónicos, mesmo o mais famoso dos beijos -se Hollywood der licença -, a assinalar o fim de II Guerra Mundial.
Está hoje no topo da actualidade pela notícia da morte do marinheiro que deixou famoso. Chamava-se George Mendonsa, e era luso-descendente. Mas também o poderia estar pela simples razão que, hoje, nunca teria deixado ninguém famoso.
A guerra tinha acabado. E - contou ele - chegado a Times Square, viu uma enfermeira. E, como tinha bebido um bocado... Foi instintivo... "De repente, um marinheiro agarrou-me"- contaria ela. Porque ela estava vestida de enfermeira, a quem ele estaria agradecido - justificou. Não foi um beijo, foi uma forma de dizer que 'Graças a Deus a guerra terminou'", contou Greta Zimmer Friedman, que morreu há pouco mais de dois anos...
Mais um passo nesta caminhada imaculada que o Benfica iniciou ainda não há mês e meio, com mais uma exibição de excelência, esta noite na Vila das Aves.
Na linha do que vem acontecendo, o Benfica entrou muito forte e marcou cedo. Desta vez, logo aos três minutos, numa fantástica execução de Seferovic. Num jogo que se advinhava de elevado grau de dificuldade, bem percebida por Bruno Lage, como tinha dado a entender nas opções para a deslocação à Turquia, contra um adversário moralizado pela sequência de resultados depois da substituição de José Mota por Augusto Inácio, que joga muito fechado, num campo já de si mais pequeno, marcar cedo poderia ser decisivo.
Durante o quarto de hora seguinte o Benfica continuou a mandar no jogo, e a criar mais uma ou outra oportunidade. Depois, o detentor da Taça de Portugal, começou a discutir mais o jogo no meio campo, a ganhar alguns duelos e a maioira das bolas divididas, e a conseguir soltar os seus dois jogadores mais avançados, sempre muito rápidos, fisicamente fortes e ... com muita matreirice.
Foram 10 a 15 minutos de jogo dividido. Aos 36, Rafa, em mais uma execução fabulosa, faz um golo extraordinário e o Benfica voltou a controlar e a comandar o jogo. Na entrada para a segunda parte o domínio passou a ser avassalador, com o terceiro golo a fugir por três vezes, em menos de 10 minutos. Acabaria por surgir ainda antes de esgotado o primeiro quarto de hora, numa inteligente execução do miúdo Francisco Ferro, a fechar as portas ao resultado quando pareciam abertas as de mais uma goleada. Que só fugiu porque, cinco minutos depois, o autor do terceiro golo viu um justificada expulsão interromper-lhe mais uma exibição de grande categoria.
Com menos um jogador, e com meia hora para jogar, previam-se então as esperadas mas nunca confirmadas dificuldades do Benfica. Acabaram por nem assim chegar, a equipa adaptou-se à nova realidade (Samaris recuou para central), e acabaram ainda assim por lhe pertencer as melhores oportunidades para voltar a marcar.
Não ha dúvidas. Nesta altura a equipa não tem medos. E os adeptos também não, mesmo que saibamos, ou tenhamos de saber, que não é possível ganhar sempre. Não há equipas que ganhem sempre. Um dia isso não irá acontecer. Esperemos é que não seja tão depressa, e que este futebol de sonho se possa prolongar pelos próximos meses. Porque, a jogar assim, até o impossível pode acontecer!
Quando logo pela manhã, bem cedinho, dei uma vista de olhos pelos jornais fiquei com a ideia que este foi um fim-de-semana em que, sem que tivesse acontecido grande coisa, muita coisa aconteceu.
Admito que esta ideia construída assim tão à pressa tenha a ver com a forma como gastei o tempo num fim-de-semana bem generoso, que me abandonou aos pequenos prazeres da vida. E, naturalmente como condição indispensável, com os botões todos no "off". E como nem o Benfica jogava...
Às vezes estamos de tal modo formatados para esponja que, sempre que ostensivamente viramos as costas à actualidade, acabamos capturados num certo complexo de culpa. Depois de "hoje não quero saber de nada do que se está a passar" vamos querer saber tudo o que se passou e parece-nos que não perdemos grande coisa. Mas ficamos desconfiados...
É certamente por isso, por ter ficado desconfiado, que no fim desse passar dos olhos pelos jornais fiquei com essa ideia.
O fim-de-semana começara com o anúncio du uma moção de censura. A apresentação de uma moção de censura ao governo é sempre um acontecimento político relevante, como não pode deixar de ser. A não ser que seja apresentada por Assunção Cristas...
Trata-se de mais uma entrada maldosa de Cristas às penas de Rio. Que nem se queixou, entretido que estava lá com o seu CEN (Conselho Estratégico Nacional), novidade e inovação. E que, tanto quanto deu para me aperceber, correu bem. Pelo menos as hostes vinham animadas, e com o segredo bem guardado de uma certa fezada. Até já dizem que agora é que é!
A remodelação do governo também nunca pode deixar de ser um acontecimento. A não ser que que não toque em nada do que está sob os holofotes da crítica e da contestação... Um remodelação só para substituir ministros premiados nas listas das europeias, é meio pífia.
Pois é. Aconteceu muita coisa. Mas não aconteceu grande coisa... Diz-se que a popularidade de António Costa está nos mínimos da legislatura, e a maioria absoluta há muito que deixou de passar nos sonhos do primeiro-ministro. Que o PSD está a subir nas sondagens. E que, na Aliança de Santana Lopes, há um vice com uns problemas que vêm dos tempos em que foi presidente da Câmara da Covilhã. Que também nunca foi uma Câmara fácil, como nos lembramos...
Se, como diz o povo, que é sempre quem mais sabe destas coisas, o segredo é a alma do negócio, como o negócio é a alma da nossa relação com o Estado, o segredo é a alma da relação entre o Estado e os cidadãos.
Uma relação assim tem tudo para não dar certo. Sabemos bem que a relação perfeita é aquela onde não há segredos. Sempre que queremos demonstrar a solidez de uma relação, seja em que domínio for, não encontramos melhor forma de a expressar que dizer “entre nós não há segredos”.
Tretas. Sabemos que não dizemos isso porque seja rigorosamente verdade. Quando dizemos isso da nossa relação com os nossos filhos, que é excelente porque entre nós não há segredos, sabemos bem que não é assim. Sabemos que nos escondem em segredo tudo o que entendem que não temos nada que saber. Como não é bem assim com a/o nossa/o companheira/o, onde há sempre muita coisa que o melhor, mesmo, é que o outro não saiba. E muito menos com os nossos amigos, se prezarmos os mínimos da prudência. Já a minha avó me dizia em pequenino: “não contes o teu segredo a ninguém, se tens um amigo, o teu amigo, amigos tem”…
Na verdade, quando dizemos que “entre nós não há segredos” não estamos a revelar uma relação perfeita mas, apenas, a puxar do sentido de Estado que há em cada um de nós para a credibilizar. Mais nada!
Com o Estado as coisas não funcionam assim. Já aqui vimos que o Estado e os cidadãos fazem da sua relação um jogo de gato e do rato. Cada um só pensa na maneira mais rápida e mais ágil de enganar o outro e, quando assim é, vale tudo. Ou pelo menos o segredo vale muito!
Talvez seja por isso que, achando o segredo um direito inalienável, valorizemos tanto o(s) segredo(s) de(o) Estado.
Repare-se:
- “Isso não posso revelar, é segredo de Estado”!
- “Pronto, não se fala mais disso”…
Mas se fôr:
- “Isso não posso revelar, a Maria pediu-me segredo”
- “Vá lá, deixa-te disso, conta lá”…
Se algum dos nossos amigos argumenta com o segredo, já sabe que … está feito. Não se safa dali sem se desbocar completamente. Já o homem (que me desculpem as mulheres, mas…) de Estado, quanto mais segredos invocar, mas estadista fica. Quanto mais explorar a sua condição de dono do segredo, mais pose de Estado adquire e mais sentido de Estado exala!
O anúncio da intenção dos principais grupos privados do negócio da saúde romperem os acordos estabelecidos com a ADSE ocupa esta semana o topo da actualidade.
O assunto prestou-se – e presta-se - às mais diversas discussões à volta dos mais diversos temas. Cabem lá quase todos… Mas vou focar-me num pequeno ponto.
É sintomático que, a meio da discussão que esta semana tomou conta do espaço mediático, se tenha ficado a saber que, no regime convencionado, ADSE paga um preço pelas consultas muito abaixo do valor de mercado. A ADSE tem dois regimes de consultas: o convencionado, ou seja as consultas dentro da rede de clínicos contratados, que paga directamente ao prestador do serviço; e o livre, onde o beneficiário escolhe o médico, paga a consulta, e é depois parcialmente reembolsado do valor que a ADSE pagaria se dentro da rede. Pouco, o tal preço que o bastonário da Ordem do Médicos classificou de escandaloso. E que o Professor Manuel Antunes, o conhecido e consagrado cirurgião, num programa televisivo revelou ser de 11 euros por hora de consulta.
Sejamos claros. Não pode haver outra a leitura: os grupos privados apenas aceitaram preços tão “escandalosamente” baixos, como dizem, por terem dado por garantido que facilmente compensariam nos restantes serviços, de mais difícil escrutínio, e provavelmente com grande vantagem, os baixos preços desses actos médicos.
É aquela expressão bem enraizada no espírito português: “uma mão lava a outra…” Só que, neste caso, “as duas não lavam o rosto”…
É isto! Como um pequeno detalhe diz tudo sobre a forma como o Estado tem cuidado das PPP´s. De todas!
O Benfica, este Benfica de Bruno Lage e dos miúdos, foi a Istambul buscar a primeira vitória em solo turco. Mas, mais do que isso, foi ao terreno do Galatasaray resgatar o prestígio perdido, e confirmar que nada do que se está a passar é fruto do acaso.
Bruno Lage optou por deixar em Lisboa três jogadores nucleares da equipa: Grimaldo e Pizzi por óbvia sobrecarga de jogos, e Jonas porque a sua condição física tem que ser gerida com pinças. Já em Istambul optou ainda por poupar André Almeida, que tem participado em todos os jogos ao longo da época, Rafa, que vem de uma lesão e que deve implicar cuidados, e Gabriel, sem tanta carga de jogos acumulada, mas em todos os últimos jogos desta nova era.
No total, seis jogadores sairam da equipa, que apresentou outros tantos, seis, nada menos, miúdos do Seixal. Tudo isto no chamado inferno de Istambul, e perante um adversário recheado de jogadores de grande experiência e com nome no futebol mundial. É obra!
Bruno Lage conhece-os, sabe do que valem. E sabe que não o deixam ficar mal. E não deixaram. Os miúdos foram soberbos. Rúben Dias (já capitão), Ferro, Florentino, Gedson e João Félix jogaram como grandes craques, jogadores feitos. Yuri Ribeiro, o sexto, não atingiu esse patamar, mas não comprometeu. longe disso.
Entraram no jogo sabendo bem o que tinham a fazer, naquele ambiente meio fantástico, meio louco. Sem medo, e com a lição na ponta da língua. E tomaram conta do jogo, passando por cima do decisivo primeiro quarto de hora sempre por cima do jogo. Depois a equipa turca equilibrou e passou até por uma fase de alguma ascendência, definitivamente encerrada com o primeio golo do Benfica, num penalti convertido por Salvio, ia o jogo apenas no minuto 25.
A partir daí, o Benfica controlou sempre o jogo, nunca tendo passado pelo sofrimento que praticamente todas as equipas passam naquele estádio. Iniciou a segunda parte a jogar o futebol de qualidade que tem apresentado, e foi contra a chamada corrente do jogo que, bem cedo, sofreu o golo do empate, mal sofrido, no seguimento de um lançamento lateral.
Nem mesmo chegando ao empate bem cedo, logo aos 10 minutos da segunda parte, e com o inigualável apoio do seu público, o Galatasaray conseguiu empurrar o Benfica para a sua área e limitar-lhe o alcance da sua qualidade de jogo. É certo que o Odysseas salvou o golo do empate, ao minuto 90, com uma defesa espectacular, mas o Benfica, antes e depois do golo da vitória, numa excelente finalização de Seferovic, criou sempre mais oportunidades.
E, quando se esperava o assalto final da equipa turca, foi o Benfica a manter a bola e a fazê-la rodar pelos seus jogadores.
Não foi, nem com tantas alterações na equipa poderia ter sido, uma exibição fantástica, ao nível da elevada fasquia a que estamos habituados. Mas foi suficente para se superiorizar a um adversário que não é nenhuma pêra doce.
Vivem-se dias agitados na Saúde. O Serviço Nacional de Saúde paga agora a factura de anos e anos de desinvestimento, e as greves dos enfermeiros, cirúrgicos e cirúrgicas, deixaram-no em pé de guerra. De guerra é também a imagem das urgências hospitalares, de há bastante tempo a esta parte. Entramos numa urgência de um hospital e ficamos com a ideia que estamos a viver uma catástrofe, com um afluxo de emergência próprio de uma guerra e de uma calamidade nacional semelhante.
Na própria greve dos enfermeiros há quem veja mão de outros interesses, que não os meramente corporativos desta classe profissional, particularmente suscitados pela forma inovadora com tem vindo a ser financiada, mas também pela emergência de sindicatos que desafiam o enquadramento orgânico convencional.
É neste quadro, por acaso ou talvez não, que o anúncio da rotura dos principais grupos privados do negócio da saúde com a ADSE surge, esta semana, no topo da actualidade.
Não será certamente por acaso que, começando por esconder que em causa estava a exigência da devolução de 38 milhões de euros recebidos em excesso em 2015 e 2016, os principais grupos privados de Saúde, uns atrás dos outros, concertadamente, como num cartel, vieram anunciar a intenção de romper com o subsistema de saúde criado para os funcionários públicos, numa posição a que dificilmente deixamos de poder chamar chantagem.
A ADSE foi a primeira alavanca das PPP´s da saúde, com todas as suas vicissitudes, com o melhor e o pior que estas parcerias comportam. No pior está, nestas como noutras PPP´s, a forma como o Estado descura o rigor no seu controlo e, consequentemente, os seus interesses, que são afinal os de nós todos.
Criada em 1963, a ADSE passou de integralmente financiada pelo Estado a integralmente financiada pelos beneficiários, como qualquer seguro de saúde, através do pagamento de um prémio que começou em 0,5% do vencimento dos funcionários no activo (com os reformados isentos) em 1979, fixando-se em 1% logo no ano seguinte por quase 30 anos. Em 2007 passou para 1,5% e os reformados passaram a contribuir com 1% do valor da pensão, para na governação de Passos Coelho passar para 2,5% até se fixar, em 2014, nos actuais 3,5% e sair da esfera do Orçamento do Estado. Só em 2017, contudo, se estruturou e atingiu um estatuto autónomo, com a passagem a Instituto Público que lhe garantiu recursos para passar a exercer o controlo a que os prestadores de serviços não estavam habituados.
É sintomático que, no meio da discussão que esta semana tomou conta do espaço mediático, se tenha ficado a saber que, no regime convencionado, ADSE paga um preço pelas consultas muito abaixo do valor de mercado. É que – e não pode ser outra a leitura – os hospitais privados aceitaram esses preços pela simples razão de darem por garantido que facilmente compensariam nos restantes serviços, de mais difícil escrutínio, e provavelmente com grande vantagem, os baixos preços desses actos médicos.
Porque não há volta a dar, e toda a gente sabe que o sector privado da Saúde ainda – saliento, ainda – não pode dispensar o negócio da ADSE, da mesma forma que, no actual estado das coisas, o país não pode dispensar o funcionamento da parceria, as partes estão condenadas a entenderem-se. Seria bom que aproveitassem para o fazer com a máxima transparência e sem deixar esqueletos nos armários...
O povo diz que "há males que vêm por bem". Os gurus da gestão chama-lhe "transformar ameaças em oportunidades". Chamem-lhe o que quiserem, mas "ponham isso no são". Se forem capazes...