Os funcionários públicos já começaram a receber os seus novos vencimentos. Bem, o vencimento é o velho, está lá é uma taxa nova!
Já percebem o que a crise dói! E logo no fim-de-semana das eleições…
À medida que vão começando a saber quantificar o sacrifício, quanto é que lhes toca em rifa, vão também sabendo que há quem fique de fora. Uns porque foram aumentados no último mês do ano passado. E com retroactivos desde o início do ano: passou-se com os quadros superiores da Segurança Social e veio ao conhecimento público há duas ou três semanas!
Outros porque foram aumentados ao abrigo de um acordo de empresa: veio hoje a público e passa-se na EPAL!
Dos primeiros, na Segurança Social, não tivemos mais notícias. O assunto morreu! Os aumentos é que não. Esses mantêm-se bem vivos!
Já os revelados hoje, na EPAL, morreram mesmo. Porque, ao contrário da Segurança Social, apenas tocavam a trabalhadores? Não. Nada disso…
Apenas porque hoje conhecemos um novo ministro, na circunstância ministra, e logo daquelas que não brinca em serviço: “mandei regredir essa medida”! Alto e para o baile!
Vejam bem: foi preciso aumentar o vencimento de uma ou duas dúzias de trabalhadores da EPAL para ficarmos a saber que o governo tem uma Ministra do Ambiente. Chama-se Dulce Pássaro e deu-se finalmente a conhecer: tem 57 anos, é casada e mãe de dois filhos!
Embora às vezes possa parecer, isto não tem nada a ver com tortura. Nem com nada de psicológico!
Não significa isto que, para o chicoteado, a coisa não represente um castigo sério. Mas nada que se compare com coisas que ainda se vêem por esse mundo fora, ainda cheio de chicotes e de chicoteadas. Ou mesmo com o que se passa para aí com uns jogos meio esquisitos ligados a um tal Marquês de Sade!
Chicotada psicológica é a expressão que o futebolês encontrou e consagrou para se referir ao despedimento – que, curiosamente, também prefere chamar de afastamento: no futebol as pessoas não são despedidas, são afastadas como se sofressem de um mal altamente contagioso – do treinador. Quando os resultados não aparecem, seja lá pelo que for, quem paga é o treinador. Torna-se rapidamente numa figura peçonhenta que há que afastar quanto antes, na esperança de que chegue outro que vire tudo de pernas para o ar. Que ponha os jogadores a correr, que transforme jogadores medíocres em grandes craques e derrotas em vitórias. Como se fosse o rei Midas!
Às vezes até resulta. Mas só raras vezes!
Tratando-se de um despedimento, mesmo que tratado por afastamento, e sendo o treinador o sujeito passivo, evidentemente que quem despede – o sujeito activo – é o patrão. Seja lá quem for!
É o presidente – não o que se vai agora eleger – o do clube! Mas também pode ser o patrão da equipa. Quantas vezes são os jogadores – este ou aquele – a afastar o treinador. Ou os adeptos que, apesar de se limitarem a pagar uma quota que não dá nem para pagar a água do duche dos jogadores no fim de cada jogo, se acham sempre os donos do clube. E, portanto, o patrão que pode despedir.
Tem-se visto de tudo: quando o Luís Filipe Vieira afastou Fernando Santos, não foi ele. Foram os adeptos do Benfica que, apesar de benfiquista, nunca lhe perdoaram que antes tivesse andado pelo inimigo. Pelo Porto, onde atingiria o cognome de engenheiro do penta, e pelo Sporting, onde teve a sorte de quase todos os outros. Achavam que o Camacho era o D. Sebastião e deu no que deu…
Aprendeu o presidente do Benfica. Ao ponto deste ano ter sabido segurar o Jesus!
No Porto … bem, no Porto manda Pinto da Costa e pronto! Manda e manda-os embora quando lhe apetece. Aqui há uns anitos foram três numa só época. Depois veio o Jesualdo e, por muito que o pessoal não gostasse dele, lá o aguentou uns 4 anos. Enquanto ganhou, claro. Logo que, pela primeira vez, não ganhou…
Mas onde a chicotada psicológica atinge o rubro – ironia das ironias: atinge o rubro atingindo o verde – é no Sporting. E aí não há dúvidas: desde Sousa Sintra que, esse sim, não deixava os seus créditos por mãos alheias (foi Robson, Carlos Queirós, então ainda dentro do prazo de validade, e sei lá mais quem), que quem manda são os adeptos. É um clube diferente, como bem sabemos!
Bem diferente: umas vezes é a malta mais nova da Juve Leo a fazer o trabalho. Outras é o pessoal mais maduro! Por isso é que as coisas dão para o torto: às vezes uns afastam o que outros querem manter para sempre: forever!
Mas a provar que diferente mais diferente não há, aí está a chicotada no próprio presidente. Pois é, agora afastaram o José Eduardo Bettencourt. Que não só não resistiu à sua falta de jeito para estas coisas da bola – três treinadores e cinco responsáveis pelo futebol em apenas ano e meio, transformou o melhor jogador dos últimos (largos) anos numa maçã podre e, depois, num profissional muito competente e multiplicou os tiros no pé – mas, principalmente, não resistiu à vocação de presidente adepto.
É condenável, a violência. Tudo deveria acontecer, apenas e só, no domínio do combate das ideias. O problema é quando elas não comparecem a jogo, e são substituídas pela mentira organizada, pela provocação e pelo insulto. O problema é quando o espaço que deveria ser o do combate de ideias, é substituído pelo da chafurdice imunda. Aí o combate não tem regras. Aí mandam os porcos.
O que ontem aconteceu em Setúbal é condenável. Foi condenado por todos os candidatos, à excepção, ao que se disse, de Marcelo. E foi amplamente divulgado pela comunicação social. Arremesso de pedras, dizem uns. De objectos, dizem outros. A diferença poderá não importar muito, mas é diferente.
Como diferente foi o eco dado pela mesma comunicação social à violência intimidatória sobre os próprios jornalistas, que aconteceu em Guimarães. Houve carros amassados e com vidros partidos. Mas não houve violência, apenas hostilização a jornalistas. A própria reportagem da RTP no local limitou-se à imperceptível nota final que, à chegada ao carro, não tinham pára-brisas. Sem uma imagem, se calhar porque também já não tinham câmara.
O Chega, a campanha, os capangas e os portugueses de bem de Ventura que se movimentam nas malhas do crime não geram violência. Apenas hostilidade!
A comunicação social sempre lhe achou graça. Deu-lhe palco e colo, e trouxe-o até aqui.
Lembro-me como se fosse hoje do assalto ao Santa Maria. Foi há 60 anos!
Lembro-me de todos lá em casa colados ao rádio a ouvir as notícias que nos queriam dar. Que o paquete tinha sido tomado por piratas. Tinha cinco anos, e não percebia que não era um acto de pirataria, mas apenas o primeiro grande acto de revolta contra o regime fascista de Salazar e do Estado Novo com projecção internacional. A primeira vez que, sob o comando de ex-capitão Henrique Galvão, pequeno de corpo mas gigante de coragem, portugueses diziam ao mundo que não estavam conformados com a ditadura que os oprimia há já longos 34 anos.
O que então não percebia mesmo era como era possível tomar de assalto um barco. Imaginava uma enorme passadeira estendia sobre o mar, e achava de uma grande coragem atravessá-la para chegar ao barco e trepar depois aquela altura toda até entrarem no navio. E não me imaginava, sessenta anos depois, a evocar um acontecimento que seria um dos maiores golpes desferidos contra o regime.
Há um ano atrás, em Fevereiro de 2010, por altura da apresentação da candidatura de Fernando Nobre, escrevi isto e isto!
Para quem não leu, nem esteja disposto a perder tempo a fazê-lo agora, direi apenas classifiquei então a notícia da candidatura de Fernando Nobre de uma excelente notícia. Excelente notícia por duas razões fundamentais: pela esperança na regeneração da política, ou na forma de fazer política, e pela contribuição para o exercício da cidadania!
Numa vida política excessivamente partidarizada, diria mesmo que sufocada pelos partidos que vivem de e para clientelas, surgir um homem com o prestígio pessoal de Fernando Nobre à margem dos partidos e mesmo contra eles, disponível para mostrar que ainda há cidadãos dispostos a dedicar-se à causa pública por exclusiva responsabilidade de cidadania, não podia deixar de ser uma excelente notícia.
Passado todo este tempo, e passada esta campanha eleitoral, tenho que declarar o meu desencanto. Sou dos que ficaram absolutamente desapontados com o desempenho do candidato Fernando Nobre, como se tem podido nas Frases de Campanha que por aqui tenho trazido.
Não está em causa a sua seriedade, evidentemente. Nem o seu empenho. Apenas juntou à falta de capacidade (e de um mínimo jeito que seja) para a intervenção política os piores tiques dos políticos profissionais. À falta de clarividência e de clareza política os equívocos do jogo político convencional. À confusão nas ideias a intermitência no discurso. E à falta de naturalidade e de presença um quixotismo muitas vezes bacoco!
Foi mau de mais para que fosse possível confirmar aquela excelente notícia. Afinal há sempre notícias que não se confirmam. Mas quando isso acontece com as boas … temos mais pena!
Foi em condições muito difíceis que o Benfica chegou a Leiria para disputar esta meia final da Taça da Liga, como é igualmente difícil o cenário que se avizinha para os próximos jogos, no campeonato e na Taça de Portugal. A pandemia, que aterroriza o mundo, e em particular o nosso país, e que no futebol, como, bem, disse ontem o presidente do Sporting, se transformou numa questão de azar, atingiu fortemente toda a equipa, roubando-lhe sete jogadores dos habituais titulares, e espalhando-se por todo o staf técnico.
Tem razão o presidente do Sporting. A pandemia, no futebol nacional, é uma questão de azar. E como o azar de uns é a sorte de outros... A do Porto, por exemplo, que na sexta-feira passada jogou com jogadores livres de covid que, no dia seguinte, estavam infectados. E, por sorte, os que mais precisavam de descansar. Por azar, os sete jogadores do Benfica e os elementos da equipa técnica que participaram nesse jogo, ficaram depois infectados. Por sorte e azar os laboratório que a Liga seleccionou para efectuar os testes é o que é, e dirigido por quem é.
Às dificuldades de uma semana sem treinar, de ter que se apresentar sem sete titulares, com uma defesa toda remendada, com jogadores que nunca tinham jogado juntos, e com uma equipa técnica reduzida ao treinador principal, somavam-se as de defrontar a equipa que melhor futebol tem apresentado em Portugal, a mais mecanizada de todas, e a de processos de jogo mais consolidados.
Tarefa complicada, pois. Para minimizar os problemas da defesa, Jorge Jesus, que prefere Todibo (vá lá perceber-se por quê, até porque esteve o tempo todo a tentar corrigi-lo) a Ferro, que até já jogou muitas vezes com o capitão Jardel, acrescentou-lhe Weigl. E a coisa até parecia funcionar, porque o alemão está a atravessar um bom momento, e a confirmar finalmente que tem condições para ser, no Benfica, o grande jogador que promete ser.
No arranque da partida o Braga quis confirmar as suas próprias qualidades e as dificuldades do Benfica. Entrou a querer mandar no jogo, e nos primeiros (sete) minutos fez parecer que o conseguia. Foi sol de pouca dura, como é próprio da altura. A partir daí o Benfica tomou conta do jogo, e virou o feitiço contra o feiticeiro.
Era o Benfica que jogava e que criava oportunidades. O Braga resignava-se a espreitar o contra-ataque, em que por duas vezes criou situações de perigo para a baliza de Helton Leite. Só que, na sequência de um livre curto, à beira da meia hora, chegou ao golo. Ricardo Horta recebeu a bola sem marcação e cruzou-a para a área e... primeira falha da defesa do Benfica. Falha no posicionamento e falha na marcação. O Braga colocou três jogadores no sítio onde a bola iria cair, sem nenhum defesa a marcá-los. Dois em posição de fora de jogo, e o terceiro, Abel Ruiz, colocado em jogo por Todibo, que ficou para trás.
O Benfica reagiu bem, e o Braga continuou a defender bem, o que não impedia no entanto que as oportunidades de golo continuassem a surgir. A mais clara acabou num excelente remate de Darwin, devolvido pelo poste. As outras iam sendo resolvidas por São Matheus, que em vez de se dedicar aos evangelhos dedicou-se aos milagres. O empate acabaria por surgir já muito perto do final da primeira parte, num penalti (aleluia!) claro, convertido com classe por Pizzi.
Do mal, o menos.
A segunda parte foi de nível bem inferior. Logo de entrada Matheus fez mais um milagre, ao evitar novo golo de Pizzi. E pouco depois, mais do mesmo. Quase a papel químico do primeiro, o Braga voltou a marcar. Canto da esquerda, Helton Leite desfaz o cruzamento com uma palmada e a bola foi parar direitinha aos melhores pés do Braga. Esses, de Ricardo Horta que, sem parecer, é dos melhores entre os melhores jogadores do nosso futebol. E claro, novo erro de marcação e de posicionamento. com os mesmos autores. É novamente Todibo que coloca em jogo David Carmo, adiantado a Jardel, que bem se esforçou, ainda raspou com a cabeça na bola, mas não consegui evitar que o defesa bracarense lhe acertasse em cheio.
Estava-se em cima do primeiro quarto de hora, com muito tempo ainda para que o Benfica reagisse. Jorge jesus deu então início às substituições. Três de uma vez. Uma para trocar o infeliz (ou incompetente, saber jogar a bola é muito curto para um central, confirmou-se hoje) Todibo por Ferro. Outra para tirar Rafa (por Pedrinho) que estava a ser, como é geralmente, o maior desequilibrado. E outra para trocar Seferovic por Everton, deixando Darwin sozinho na frente de ataque. Taarabt, esse, continuou lá. A fazer o que sempre faz. Nada. À espera de ser trocado por Chiquinho, de igual rendimento.
E o muito tempo que faltava foi passando, com a defesa do Braga a chegar perfeitamente para as encomendas.
E assim acabou um jogo em que não ganhou quem jogou mais. Não ganhou quem mais oportunidades de golo criou. Nem talvez tenha ganho quem mais quis ganhar, porque não se viu falta de vontade nos jogadores do Benfica. Nem ganhou quem mais atacou. Ganhou quem melhor defendeu!
Foi a defesa do Braga que ganhou e a do Benfica que perdeu. A defesa bracarense ganhou todas as bolas altas na sua área. A defesa remendada do Benfica não ganhou nenhuma. O guarda-redes do Braga fez quatro ou cinco defesas de golo. O do Benfica fez uma, e já em cima dos noventa minutos.
Por isso se percebe que o título não tem nada a ver com o jogo. Nem com o Benfica ter perdido o hábito de ganhar a Taça da Liga. Tem a ver com o resto!
Joe Biden toma hoje posse como 46º presidente dos Estados Unidos da América, colocando finalmente termo à mais negra presidência da ainda maior potência mundial.
Trump, o primeiro presidente americano a não comparecer na tomada de posse do seu sucessor, vai embora. Provavelmente não regressará. Porque não mais conseguirá voltar a recolher votos para isso, e porque o impeachmente em curso, que já não foi a tempo de lhe retirar esta presidência, fará provavelmente o seu curso e impedi-lo-á de voltar a candidatar-se. Poderá até estar polticamente morto, mas o que fez e o que representa, o que designa de trumpismo, não morreu e não será hoje enterrado.
Podemos ser levados a pensar que a América inicia hoje uma nova era. Que o que se inicia hoje, como qualquer início, é sempre o fim do que antecedeu. Temo que não seja!
“I want you to know that the movement we started is only just beginning" - disse Trump na despedida. Não quer que este seja o fim, mas o princípio. Como dissera aos assaltantes do Capitólio, há duas semanas: "we love you".
São muitos os sinais preocupantes. Entre eles está o afastamento de 12 membros da Guarda Nacional da gigantesca operação de segurança para a tomada de posse de hoje, depois de investigação do FBI, identificados como membros de organizações de extrema direita apostadas em manter o trumpismo vivo e activo.
A campanha eleitoral está a chegar ao fim. Ou ao intervalo, quem sabe?
Pela minha parte creio mesmo que está a chegar ao fim… Não há volta a dar-lhe!
É um destino há muito traçado!
Traçado pela História e traçado por todos nós, que fazemos a História. Ou que a não sabemos desfazer…
Esta, como de resto vem sendo comum a todas as campanhas eleitorais – provando, também elas, que a nossa democracia se afunda mais depressa que o submarino do Coelho Tiririca – uma campanha em que toda a gente bateu. Porque grande é o deserto de ideias. E pequeno o respeito pela sanidade mental dos cidadãos eleitores, sempre vistos (se calhar com alguma razão!!!) como atrasados mentais. Porque muita é a demagogia e pouca a importância dada a tudo o que importa. E por mais uma catrefada de coisas sem jeito nenhum e uma ninharia de coisas com pouco jeito, como as Frases da Campanha, por exemplo, ilustram.
Tenho por isso que reduzir o balanço da campanha ao seu único mérito: conseguiu explicar-me uma coisa que eu – deficiência minha, reconheço – por mais voltas que desse, não conseguia entender.
Eu não conseguia perceber o que é que o Presidente Cavaco tinha andado a fazer estes anos todos do seu primeiro mandato. Tinha dado por ele duas vezes: sempre no início do Verão – não, não foi quando ele “carregava o jipe” com os diplomas todos que levava para férias! Foi quando se lhe deparou um grande problema nos Açores, verdadeiramente o maior problema nacional destes últimos cinco anos; e, logo no Verão seguinte, quando teve de enfrentar a mais vil campanha de espionagem de que há memória, desencadeada pelo governo inimigo da sua República, que pôs em causa a segurança do seu computador e a própria independência nacional.
Agora, que estou a avivar a memória, a relembrar estes dois mega acontecimentos históricos que marcarão para sempre o legado de Cavaco, acabo por me ver obrigado a reconhecer que dei por ele poucas vezes – é certo – mas, caramba, o que importa é a qualidade. Não é a quantidade!
Mas mesmo assim, e até admitindo que pudesse haver aqui um pouco de má vontade da minha parte, eu continuava com grande dificuldade em perceber muito bem o que ele tinha andado a fazer. As poucas, mesmo que boas, a mim não me chegavam! Não fosse esta campanha eleitoral e aí ficaria eu para sempre devedor (de reconhecimento, claro) do nosso Presidente. Sentir-me-ia um ingrato para o resto da vida!
Mas também não há nisto nada de surpreendente. Afinal uma campanha para uma reeleição serve mesmo para isso! Para avaliar o desempenho e, depois nas eleições, premiá-lo ou penalizá-lo. Básico em democracia, mesmo em Portugal!
Como Cavaco não se tem cansado de nos avisar, o país está á beira da explosão. Portugal é hoje um autêntico barril de pólvora que se não pode dar ao luxo de dispensar a experiência, o conhecimento, a credibilidade, o equilíbrio e o bom senso de que é ele o único fiel depositário. Numa situação destas não se pode arriscar no desconhecido. Não é tempo para fazer experiências. Belém não pode ser um laboratório cheio de tubos de ensaio mas um banco de conhecimento maduro e testado. Onde ninguém se engane e onde não hajam dúvidas!
E foi aí que percebi que Cavaco, afinal, não se limitou no seu mandato àqueles dois fogachos. Não. Foi todo um trabalho diário incansavelmente desenvolvido ao longo de todos estes cinco anos para, precisamente, chegarmos a este ponto.
Pois é! Cavaco empenhou-se em permitir que o governo conduzisse o país até aqui, à beira da explosão – nas suas próprias palavras – para que, agora e aqui chegados, não nos baste elegê-lo. Seja necessário aclamá-lo para aí com 70% dos votos!
Enfim… mas eu que tenho cá esta irreprimível má vontade, fico a pensar que ainda bem que só há dois mandatos… Mas por que é que não há apenas um?
Os dias, mesmo quando correm todos iguais, não são todos iguais. São curtos e cinzentos no Inverno e longos e luminosos no Verão. Sucedem-se no calendário sem que nada os distinga!
Mas nunca são todos iguais… Os dias são o que são, não têm identidade. Somos nós que lha damos, pelo que nos recordam e pelo que nos marcam!
O sol dá-lhes o brilho que as nuvens logo lhes roubam. E o calor que foge da chuva e do frio. Mas é a memória, a nossa memória, que faz a identidade de cada dia. O frio ou a chuva e o sol ou o calor mexem com a nossa disposição – versão light do nosso estado de alma –, com a forma como, logo pela manhã, encaramos mais um dia que temos para agarrar. Mas é a nossa memória que talha a marca que timbra os nossos dias. E que faz com que nalguns se nos tolham os movimentos e se nos arrefeça a alma… Que alguns, por mais que brilhe o sol, nunca deixem de ser cinzentos e frios. De reflexão, de memórias e de muita saudade!
Não, os dias não são todos iguais. Hoje é um dia diferente dos outros. Diferente, muito diferente do de ontem. Diferente do de amanhã!
Como canta o Rui Veloso: “… para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar…”
Percebeu-se desde que foi anunciado que o actual confinamento era a brincar. Talvez pelas mesmas razões que a abertura dada para o Natal, que todos os partidos, e não só o governo, promoveram, mesmo que dias depois reclamassem contra a decisão. Mas não seria de esperar que os portugueses brincassem tanto com ele.
O que aconteceu no fim de semana, com os paredões das praias apinhados de gente, e as esplanadas cheias que nem um ovo com serviço ao postigo, como se não tivessem visto filas de ambulâncias à entrada dos hospitais, como se o país com mais infecções diárias da Europa, e o segundo do mundo, não fosse o nosso e fosse outro qualquer num outro recanto do planeta, é, no entanto e infelizmente, mais que de gente a brincar com o fogo. É mais que de gente ignorante e irresponsável, é de gente feita apenas de umbigo, indiferente a tudo o que se passa à volta e a qualquer noção de comunidade. É gente desprezível que despreza toda a gente!
E quando assim é, quando assim somos, bem podemos culpar governos e instituições... Podemos até culpá-los por sermos assim...