Hoje, o mais velho dos meus netos rapazes - o Vasco, de 7 anos -, acordou com vontade de dar uma volta de bicicleta. Escolhemos as duas que nos pareceram em melhores condições para a condição de cada um, e lá fomos. Não, afinal ambas precisavam de uns retoques, e uma até de uma câmara de ar.
Nada que não se resolvesse rapidamente num estabelecimento aqui ao lado. Lá estávamos a observar o andamento das coisas, sob o som ambiente saído da emissão de uma estação de rádio, que não consegui identificar. Umas músicas que não me captaram a atenção e, logo depois, a voz da locutora: "sabem que dia é hoje"? - perguntava ao auditório. Que obviamente não respondeu. Respondeu ela: "pois é, é 25 de Novembro - falta exactamente um mês para o Natal". E prosseguiu, falando quaisquer coisas de prendas a que não consegui prestar atenção.
Ficara preso naquela do 25 Novembro ser o dia em que falta um mês para o Natal.
Também acho que - apesar de tudo, e de haver quem o queira para substituir o 25 de Abril - é isso!
Talvez uma boa maneira de assinalar mais um aniversário do 25 de Novembro seja homenagear Ramalho Eanes. Já o inverso é mais discutível, homenagear Ramalho Eanes para comemorar o 25 de Novembro poderá não ser uma grande ideia.
Eanes é, indiscutivelmente, uma das principais figuras da História da democracia. Mais, na minha opinião, por ter estado à hora certa no sítio certo do que por qualquer outro motivo. A História é assim mesmo, e quando é feita de sucessivas enxurradas de acontecimentos, incontrolados e incontroláveis como aconteceu em Portugal, é pródiga em heróis mais ou menos acidentais.
Do 25 de Abril ao 25 de Novembro e daí à Presidência da República foi uma enxurrada. Os 10 anos de Presidência não fogem muito disso, ou não tivesse sido eleito pela direita e reeleito pela esquerda. E apesar disso, e do elevado grau de dificuldade dos dois mandatos, em especial do primeiro, foram cumpridos quase que em regime de serviços mínimos, a coberto de um ar esfíngico tornado cortina impenetrável. Para além da esfinge nada se via, nada se percebia…
Não me esqueço da sensação estranha que me provocou a entrevista de despedida de Belém, nos primeiros dias de 1986, nas vésperas da passagem do testemunho a Mário Soares. Não me recordo de muitos pormenores, nem sequer do entrevistador, mas tenho tão presente como se fosse hoje aquela minha sensação de incredibilidade: mas foi esta personagem que ocupou o lugar mais alto do Estado durante dez anos? Como foi possível esconder tanto vazio durante tanto tempo?
Nessa altura, se bem nos lembramos, já tinha inspirado um partido político que se tornara, de imediato, na terceira força política e na grande pedrada no charco da política portuguesa. Ouvi-o hoje comentar as indefinições e indecisões que marcaram (e mataram) o PRD com a linear explicação de que não tinha condições para liderar um partido político. Não tinha de facto, como bem tínhamos percebido naquela entrevista em que, pela primeira vez, deixara cair a cortina por de trás da esfinge…
Ramalho Eanes percebeu isso ainda a tempo de aproveitar em pleno a sua condição de ex-presidente para se valorizar. E a verdade é que ganhou a substância que não tinha, e conquistou como ex-presidente a relevância nacional que não tivera como presidente. Que hoje gere com a mesma eficácia com que no passado geriu a sua esfinge de presidente. Mas sem cortina!
Nem sei o que é mais preocupante: se a demissão do CEO da OpenAI; se o regresso, quatro dias depois, do mesmo Sam Altman ao mesmo cargo. Triunfal. Apoteótico.
Não tenho grandes dúvidas que na Inteligência Artificial estejam a ser dados passos muito largos para o desconhecido. E, se é comum a Humanidade temer o desconhecido, desta vez receio seriamente que lá cheguemos sem sequer ter tempo para ter medo.
Confesso que depois das escutas do apito dourado, que reduziram a criatura que escrevia em jornais, e se dizia por isso jornalista, a mero escroque, não mais ouvi falar do personagem. Pensava eu que alguma vergonha e o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas o teriam mandado para outras paragens e dedicar-se a outraslides!
Mas não, ontem reapareceu na RTP Informação. Isso: na estação pública que todos pagamos, como comentador de futebol em mais um dos inúmeros programas que o canal dedica à discussão enviesada das coisas da bola.
António Tavares Teles está de volta, pela mão da RTP e dos mesmos do costume. Reabilitado, como se nunca nada tivesse acontecido. E isso quer dizer muita coisa... E não apenas que neste país não há vergonha!
O Benfica regressou hoje às exibições que têm sido regra esta época, regredindo claramente em relação ao jogo de Atenas e ficando muito aquém do último jogo, com o Sporting, para a Taça.
É inadmissível que, com um treinador que já vai na quinta época, e mais uma série de novos em cima dos mesmos jogadores da época passada, o objectivo seja atingir o nível exibicional da última época. E não é inadmissível apenas por esse tal nível não ter chegado para ganhar nada, é porque, à quinta época e com mais – muito mais – meios ao treinador tem que se exigir ir além do que já foi. Ficar no mesmo sítio não faz sentido, ficar aquém – e tão aquém, como é o caso – é simplesmente absurdo!
Ganhou – e aproveitou do empate do Porto – porque, ao contrário da equipa, o Matic já está ao nível da época passada, mas não mereceu ganhar. Nunca conseguiu superiorizar-se claramente a um Braga que, ao contrário do que se diz, não vinha de quatro derrotas consecutivas - porque houve uma interrupção nas competições e porque no último jogo, para a Taça, ganhara em Olhão -, mas não está propriamente em alta. E nem se pode dizer que tenha apresentado na Luz uma estratégia doarco-da-velha. Fez aquilo, mas em bem feito, que faz grande parte das equipas quando jogam com o Benfica - bloco baixo, linhas juntas, espaços tapados e transições rápidas - cujo antídoto, como se sabe, passa por uma mistura de mobilidade, velocidade, intensidade, qualidade de passe e de desmarcação. Que faltou claramente ao Benfica, porque parece que há jogadores que sabem mas não querem, outros que querem mas não sabem e ainda outros que querem mas não podem!
E porque há até jogadores que o não são. Desapareceram e deles restam apenas os seus fantasmas. O Rodrigo teve o seu Alcácer Quibir há dois anos atrás, em S. Petersburgo, às mãos – mãos, pés, joelhos… - do Bruno Alves, e não há manhã de nevoeiro que o devolva. O Lima foi César quando chegou o ano passado à Luz: chegou, viu e venceu, tornou-se na sensação da época e marcou (na Liga) mais golos que o Cardozo, dando muitas mais soluções à equipa. Desapareceu no final da época, foi de férias e não mais regressou...
E porque há as lesões. Não há um único jogo sem que jogadores se lesionem. No último foi Rúben Amorim, que estava a parecer ser a chave de alguns problemas; hoje foi Siqueira, que estava a ser um problema, confirmando que a coisa não se fica apenas por fantasmas. Há ainda maldições, e a maldição do defesa esquerdo continua aí.
Tão penoso quanto ver hoje o Lima e o Rodrigo é o discurso de Paulo Fonseca. Agora até de medicina põem o homem a falar… É por isso que não diz coisa com coisa (essa do Nacional ser a besta negra do Porto é digna de compêndio), que a maldição aperta (não há maior maldição que aquela assobiadela final), e que já há fantasmas à solta. O que logo em Setembro era umtetradado por adquirido já só vale um pontinho. Não vai correr bem, não vai não!
Não houve desta vez secose molhados, e os (10 mil?) polícias manifestantes rebentaram com o cordão policial. E irromperam pelas escadarias de S. Bento, mas foi Mário Soares, mais acima, na Aula Magna, quem rebentou com as portas...
“Portugal é uma espécie de milagre económico. […] É um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” - diz hoje Paul Krugman, (antigo) prémio Nobel da Economia, em entrevista ao “Jornal de Negócios”, de que faz primeira página.
É precisamente isto que há muito venho dizendo a amigos, ou a parceiros de conversa, sempre que ela - a conversa - resvala para a situação do país, da economia e da sociedade portuguesa em geral. Eu, que não acredito em milagres, falo mais de mistério. Mas fico um pouco como os espanhóis com as bruxas: "no lo creo, pero que las hay las hay".
É certo que Portugal é um país muito desigual, e que a percepção do país varia muito conforme a bolha a partir da qual o olhamos. À nossa volta vemos com mais nitidez o que está na bolha que integramos do que nas outras, e isso precipita percepções diferentes. Uns tendem a tomar a sua bolha pelo todo. Outros tendem a ignorá-la, para ver o todo nas outras.
Mas que, num país pobre, que se afasta dada vez mais dos indicadores de desenvolvimento das sociedades mais robustas, que mantém inalteráveis a estrutura e o paradigma da sua economia, em que o salário médio cada vez se encosta mais ao mínimo, em que as bolsas de pobreza crescem aceleradamente, a exigir cada vez maior intervenção subsidiária do Estado, e que esgota espectáculos, enche restaurantes, esgota hotéis e programas de férias, e viabiliza a abertura de cada vez mais e maiores superfícies comerciais, há algo de profundamente misterioso, disso não há dúvida.
Um dos meus amigos com quem converso frequentemente sobre estas coisas chama-lhe simplesmente economia paralela. É certo que a economia paralela faz milagres - em Espanha fez até o "milagre" de funcionar, durante décadas, com taxas de desemprego superiores a de 20% - mas os mistérios são mais difíceis de explicar.
As nomeações da rapaziada continuam. Técnico especialista ou assessor, não há dia sem novidades!
Desta vez é oDespacho nº 14730/2013do Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Paulo Lopes da Silva Monteiro, publicado no Diário da República do passado dia 4: “designo como técnico - especialista João Melo de Castro Ulrich para realizar estudos e trabalhos técnicos no âmbito dasrespectivas habilitações e qualificações profissionaisno meu gabinete”.
Claro que os termos do despacho chamam a atenção: o Secretário de Estadodesigna o rapaz “técnico especialista". Para quê? Pois, "para realizar estudos e trabalhos técnicos no âmbito das respectivas habilitações e qualificações profissionais”. Para que não haja, nem nunca possa haver, a mínima desadequação entre as qualificações e o posto de trabalho. Notachoé normalmente assim... Dá sempre com o testo! Acrescento que o rapaz é jurista, pelo que a sua função será a de realizar estudos e trabalhos jurídicos…
Mas o nome do rapaz não lhe fica atrás!
Desconfio que o papá Fernando passará agora a sujeitar-se a alguma continência verbal. De outra forma melhor seria que tivesse arranjado um lugar para o menino lá no BPI…
A selecção nacional de futebol concluiu ontem a fase de apuramento para o Euro 2024 culminando, com a vitória (2-0, com golos de Bruno Fernandes e Ricardo Horta) em Alvalade sobre a Islândia, num inédito apuramento plenamente vitorioso. Dez jogos, dez vitórias. E com o maior número de golos marcados (37), e o menor de sofridos (2), de sempre!
E, se não sempre, na imensa maioria dos dez jogos, com exibições de alto nível. Poderá dizer-se que o grupo era acessível. Que não encontrou adversários de grande porte, mas também isso depende do patamar que a selecção portuguesa atingiu no panorama do futebol mundial. Durante décadas o apuramento para uma fase final de uma grande competição de futebol era inacessível. Depois passou a esporádico - 1966, 1984 (curiosamente com participações entusiasmantes), 1986 (desastrada) e 1996.
A partir daí só falhou o Mundial de 1998, em França. E, com maior ou menor dificuldade no apuramento, e maior (Euro 2000, 2004 e 2012 - 2016 foi o do inédito título, mas não foi especialmente brilhante - e Mundial de 2006), ou menor brilho (Mundial de 2002 e de 2014) nas fases finais, esteve sempre presente nos maiores palcos do futebol mundial.
Este período que lançou a selecção portuguesa para o grupo das selecções obrigatórias nas fases finais iniciou-se com Humberto Coelho, e a magnífica equipa de 2000. Por razões nunca esclarecidas, mas que se lêem bem nas entrelinhas daquilo que é o futebol em Portugal, foi substituído por António Oliveira, no fiasco de 2002. A partir daí sucederam-se reinados mais ou menos longos. Primeiro o longo reinado de Scolari, depois os mais curtos de Carlos Queiroz e Paulo Bento, até ao longo de Fernando Santos.
As gerações de grandes jogadores portugueses iam-se sucedendo, à volta de Cristiano Ronaldo - que tem hoje colegas na equipa que ainda não eram nascidos quando ele começou -, à medida, cada vez mais evidente, que se falhavam grandes selecções, daquelas que são sempre favoritas a ganhar o que disputem, e que deixam o perfume do bom futebol espalhado por onde quer que passem. Com Fernando Santos vieram os títulos - o Europeu de 2016, e a primeira das edições da Taça das Nações - mas nunca a afirmação de uma selecção ao nível da qualidade dos jogadores portugueses, sobejamente exibida nas equipas que integravam, nos maiores clubes do mundo.
Fernando Santos aprisionava o (crescente) talento dos jogadores e era ele próprio refém. Refém da forma como ganhou o Campeonato da Europa, em França. E ... de Cristiano Ronaldo. Incapaz de se libertar de um sem se libertar do outro.
Quando o tentou, quando forçou, acabou.
Chegou Roberto Martinez e logo se percebeu por que lado tinha partido a corda que, em desespero, Fernando Santos puxara. Deslocou-se de imediato a Riad e essa mensagem de vassalagem não augurava qualquer mudança.
A vantagem do treinador espanhol, para além da de rapidamente "se fazer português", foi não estar refém de França. Com isso conseguiu libertar os jogadores, formar um grupo, e fazer desta selecção uma equipa capaz de soltar o talento imenso dos jogadores que a compõem. E de, mesmo a jogar muitas vezes com dez, surgir na Alemanha, no início do próximo Verão, com a condição de candidata a campeã europeia.