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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Alverca 1-Benfica 2

E Alverca tão perto da Amadora ...

O relvado de Alverca também não está assim tão longe do da Amadora. Para além disso, do mau relvado, o campo está minado. De resto isto está mesmo tudo minado... Bem fez o Bruno Lage em falar seco com a Sport TV, o VAR informal deste futebol cá do burgo. O VAR paralelo. Eles sabem tão bem o que fazem que até recearam que ele não comparecesse na conferência de imprensa. Fez quase tudo mal em Alverca mas, isso, fez bem.

O Benfica entrou no jogo com quatro alterações, relativamente ao jogo da passada quarta-feira. Inevitável a ausência de Akturkoglu, que já saiu, a ditar a entrada de Schjelderup no onze inicial. Depois, o Samuel regressou à baliza (e de que maneira!), saindo Trubin, Tomás Araújo, no lugar de António Silva, e Ivanovic na frente, no de Pavlidis. Barreiro manteve-se ali atrás do ponta de lança, vá lá perceber-se por quê.

E entrou bem. Logo aos 5 minutos, cinco minutos de domínio absoluto, na primeira oportunidade, Schjelderup marcou. E o golo mudou alguma coisa. Em relação aos 5 minutos iniciais mudou tudo. 

O Benfica passou a jogar a ritmo de peladinha, de treino. Um treino de rabia. O que o Benfica passou a fazer foi isso, rabiar o Alverca. A bola circulava de um para outro jogador, ao primeiro, no máximo segundo toque; e os jogadores do Alverca corriam que nem loucos atrás dela ... e dos jogadores adversários. Não havia qualquer objectividade naquele jogo do Benfica; o objectivo esgotava-se na mera posse de bola, em mantê-la simplesmente para a manter. Bola para o lado e para trás. Quando ia para a frente, era para voltar para trás.

Pode chamar-se a isto domínio absoluto do jogo. Não me parece que seja. Até porque, de cada vez que os jogadores do Alverca conseguiam apanhar a bola, de tempos a tempos, o ritmo era outro. Invariavelmente por Chiquinho, regressado à Liga portuguesa depois da aventura inglesa, transitavam rapidamente até à baliza do excelente Samuel. Que teve de mostrar trabalho. E do bom!

Como a defesa do Benfica, com Tomás Araújo sempre em bom nível, e Samuel sempre seguro e tranquilo, dava conta do recado aquilo só era enfadonho. Não era perigoso. 

Com 70% de posse estéril de bola, o Benfica acabou por marcar o segundo golo à terceira oportunidade, já em cima do intervalo, considerando a segunda naquele remate de Rios, em que a bola roçou o poste. Mas para isso foi preciso que o Dedic rompesse com aquele paradigma, ao romper pela área adversária fora, como já nos habituou, e marcar um golo de classe.

Os primeiros minutos da segunda parte apontavam para um jogo diferente. Com o Alverca mais subido, o Benfica ocupava melhor todos os sectores do campo e ficava mais confortável no controlo do jogo.

Só que o árbitro José Bessa, do Porto - claro -, não estava muito virado para aí. Ele, que na primeira parte, quando os jogadores do Alverca desesperados atrás da bola e das canelas dos adversários, só vira razão para amarelar, ainda bem cedo, Dedic, agora apitava a cada sopro dos vermelhos, e desatava a distribuir-lhe amarelos.  

E assim foi correndo a primeira metade da segunda parte. A uma oportunidade do Alverca, negada por uma grande defesa do Samuel, respondia o Benfica com outra, no remate ao poste de Schjelderup. O resto era faltas e amarelos. Oito amarelos e um vermelho para o Benfica. Três, para o Alverca. 

A segunda metade iniciou-se com a expulsão de Dedic. Bruno Lage, prevenindo, tinha retirado Rios, aproveitando para a despedida de Florentino, que já nem regressou com os colegas. Não fez o mesmo com Dedic e, à primeira oportunidade, José Bessa pô-lo na rua. A falta foi estúpida, e desnecessária. E não era para amarelo!

A partir daí o Benfica caiu no caos. O Benfica, com 10, tem que ter condições para jogar com o Alverca. Conseguiu-o com o Fenerbahçe. Se o Farioli, ao que disse, preparou os seus jogadores para jogarem em Alvalade com menos um, por ser esse o paradigma do Sporting, Bruno Lage tem que passar a fazer o mesmo. Porque está tudo armadilhado.

Podemos perceber que os jogadores dentro do campo sintam a inclinação. Mas é muito difícil aceitar uma estratégia com toda a gente a defender dentro da área, com a única preocupação de, sucessivamente, chutar a bola para longe. Sem que as costas folgassem enquanto o pau ia e vinha. Antes entregando sempre a bola ao adversário, logo ali, para ter o pau sempre colado às costas.

Foi assim que o Benfica entrou em sofrimento, nele arrastando os adeptos. Foi assim que sofreu o golo, num lance que começa numa carga sobre Samuel, ignorada pelo tal José Bessa, e ... pelo VAR paralelo. Na ressaca a bola volta a entrar na área, e ia até tranquilamente até às mãos do guarda-redes do Benfica, quando Otamendi, também ele obcecado pelo pontapé para a frente, falhou e deixou a bola mesmo a jeito do Davy Gui autenticamente fuzilar Samuel. Que não merecia ser ele a sofrer o primeiro golo da época do Benfica!

Há 10 anos

 

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Paulo Rangel consegui neste fim de semana sair daquela zona cinzenta, onde tão bem se mexe, para entrar decidida e espalhafatosamente no circo da demogogia e do cinismo político montado por Passos Coelho e Paulo Portas.

Travestido de actor - não poderei dizer de professor porque, como dizia o Joaquim Vieira, na sua vasta experiência universitária, quer a receber quer a dar aulas, nunca viu professores serem aplaudidos no fim da aula, quanto mais no fim de cada frase, acrescentaria eu - Paulo Rangel foi ao tempo de antena do PSD, a que pomposamente chamaram Universidade de Verão, dizer o que Passos Coelho não quer dizer mas quer que seja dito.

Imagem relacionadaNão sei se este Rangel, de Passos, é tão diferente do Rangel de Ferreira Leite quanto são, ou estão, eles um do outro. Sei é que entre o Rangel que discutiu a liderança com Passos e o Rangel às ordens de Passos há diferenças bem evidentes ...

Não sei por quê, mas o outro tinha aspecto mais saudável!

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

Ora aí está! Já se sabia que perante o descalabro que vai ser a venda a qualquer preço do Novo Banco, o governo iria passar a culpa toda para o governador do Banco de Portugal. Como a desgraça está aí, e só faltam dois dias para ser conhecida, Passos Coelho não perdeu tempo a lavar as mãos. Não tem nada a ver com isso. Isso é tudo com o senhor governador...

Nada que o senhor governador não mereça. Mas também nada que deixe ninguém surpreendido!

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

"Temos que trabalhar mais nos treinos" - disse Samaris no final do jogo. Não sei se há neste expressão alguma traição da língua onde o grego dá os primeiros passos, com excelente desenvoltura, diga-se de passagem, porque não estamos nada habituados a que os jogadores de futebol cheguem a Portugal e se esforcem para falar a nossa língua. Também não sei se o tal sms - "mister, desde que foi embora que isto é um descanso" - existiu, e se, tendo existido, tenha sido enviado pelo Samaris.

Mas sei que precisam mesmo de trabalhar mais nos treinos. E melhor. Porque continua sem se ver fio de jogo, continua sem se ver intensidade, continuam sem se ver automatismos... Não se percebe a estratégia, e nem sequer nas bolas paradas se percebe que haja trabalho. E se a equipa não sabe defender - e não sabe - e se é por aí que, dizem os entendidos, se começa o trabalho, então não há mesmo dúvida que é preciso trabalhar mais nos treinos. Mas muito mais!

Mas também precisam de trabalhar mais nos jogos. Têm que correr pelo menos tanto como os adversários, têm de chegar a cada bola pelo menos ao mesmo tempo que o adversário e, fazendo pelo menos isso, têm de meter o pé com, pelo menos, a mesma intensidade do adversário.

E já que começamos com uma declaração, falta também trabalhar isso: a comunicação. O discurso numa equipa como o Benfica não pode ser o mesmo que numa equipa como o Guimarães. Pela simples razão que treinar o Benfica não tem nada a ver com treinar o Guimarães... Porque é o diabo quando se começa a perceber que há ali uma ligação qualquer entre a moleza do discurso e a moleza da atitude da equipa...

E não adianta dizer-se que "sou assim" e "não mudo"... Isso era a cantiga da Gabriela, não sei se se lembram. Essa não é música para os nossos ouvidos. Quando a equipa é prejudicada pelas arbitragens, como foi em Aveiro na semana passada, com um penalti e um golo anulado que dariam os três pontos, e como voltou a ser hoje, com um golo em fora de jogo, que só não levou dois pontos porque não calhou, tem de haver alguma coisa a dizer. Pela simples razão que são essas as regras instaladas no jogo em Portugal, como de resto se vê todos os dias... E, muito provavelmente, agora mais do que nunca...

 

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

Santana Lopes anunciou que não é candidato à Presidência da República. E eu a pensar que só se anunciavam candidaturas...

Pensava mal, já percebi. Tanto que - acredito agora - não será o único a fazê-lo. Seguir-se-ão outros... Espero é que sejam mais sensatos na justificação, para não deixarem a ideia que primeiro respondem a um arrebatador chamamento interior, e só depois caem na real dos seus deveres e das suas responsabilidades... Pelos vistos só agora, depois de um arrebatamento de vários meses, Santana Lopes deu conta dos seus "deveres enquanto Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa" e das suas "responsabilidades profissionais"...

Há pessoas que para se manterem vivas precisam que se fale delas todos os dias... Pedro Santana Lopes é uma delas, pouco se importando que seja para dizer bem ou para dizer mal. É preciso é falem dele. É uma questão de sobrevivência... 

E em sobrevivência é ele especialista. Um dia destes ainda será o presidente nacional da protecção civil, se é que isso existe.

Benfica 3 (perdão: 1) - Fenerbahçe 0

A ironia do destino: Akturkoglu marca golo que derrota Fenerbahçe e coloca Benfica na fase de Liga da Champions

Catedral cheia, cheia de 65 mil, a vibrar para atacar o último degrau de acesso à Champions. A vibrar tanto que até a águia Vitória se assustou, e enrolou o voo.

O Benfica, com a equipa habitual, com Akturkoglu, e com Barreiro - que não foi surpresa no onze, só foi surpresa na exibição, absolutamente fantástica durante toda a primeira  parte -, entrou de mãos dadas com os 65 mil nas bancadas, disposta a saltar para cima do Fenerbahçe para, dali, atacar esse último degrau.

Bruno Lage, que não é realmente grande especialista em comunicação, tinha falado desta ligação entre a equipa e as bancadas da Luz estabelecendo uma dicotomia entre emoção e razão. À emoção vinda das bancadas juntou a equipa a razão trazida para o jogo. E lá se juntaram ambas, razão e emoção, numa noite memorável, e numa das mais categóricas exibições dos últimos tempos.

O Benfica - reconheceu Mourinho, referindo-se à primeira parte do jogo - não foi melhor; foi muito melhor. E foi. Na primeira parte, de forma absolutamente esmagadora. Mas também na segunda, só que sem ser esmagador.

O jogo começou logo com o grito de golo a soltar-se das 65 mil gargantas, a dar o mote para o que seriam aqueles 45 minutos de futebol demolidor, feito de razão e paixão. Bola recuperada em zona adiantada, Pavlidis assiste para a desmarcação e o remate de Barreiro, na cara do golo. Era golo, era golo ... mas Livakovic fez valer a sua enorme categoria para uma defesa incrível.

Não tardaria muito para se voltar a gritar golo, e festejá-lo a preceito. O relógio assinalava 11 minutos e, desta vez, não havia Livakovic que valesse. Canto do lado direito, cobrado por Dahl, com António Silva, bem no centro da área, a desviar de cabeça para Pavlidis desviar para dentro da baliza.

Não valeu Livakovic, mas valeu outro croata - o árbitro Slavko Vincic, que tinha sido anunciado como amigo de Mourinho, que não lhe poupara elogios. Que, depois de ter apontado para o centro do campo, e depois de prolongada espera pela confirmação do golo, se deslocou ao monitor para de lá vir com a decisão de anular o golo, conforme Mourinho se apressara a reclamar. Assinalou um livre indirecto, que tanto poderá querer dizer que, ou houve um fora de jogo (no caso de Barreiro, que não tocou na bola, nem interferiu em coisa nenhuma e, mais ainda, nada provou que estivesse e fora de jogo), ou qualquer falta por "jogo perigoso", que nenhuma imagem valida. 

Portanto, golo anulado só porque sim. Porque Mourinho pediu, e o árbitro é amigo dele. Ao que dizem...

Nada que fizesse o Benfica parar, e muito menos desanimar. Por isso continuou, impávido e racional, a desbaratar a equipa turca. Bastaram mais 11 minutos para a cena se repetir. Desta vez é na magistral cobrança de um livre, na esquerda, que Akturkoglu coloca a bola ao segundo poste, onde surge Barreiro a finalizar com qualidade para o fundo da baliza de Livakovic.

Desta vez foi o próprio árbitro a anular de imediato o golo. Como ninguém viu razão para isso, ela ficou à mercê da imaginação de cada um. E, como se sabe, a imaginação dá para tudo. Dá para dizer que o Barreiro terá empurrado o Brown antes de rematar; ou até que o Otamendi terá bloqueado a acção da defesa de um defesa do Fenerbahçe. 

Portanto, novo golo anulado novamente só porque sim. Desta vez Mourinho nem teve que pedir,  o árbitro é amigo ...

Novamente, o Benfica continuou. A ganhar todos os duelos, a mandar no jogo ... Os jogadores do Fenerbahçe respondiam com faltas duras. Os do Benfica com sucessivas oportunidades para voltar a marcar. Só o conseguiu por uma vez, 11 minutos depois do segundo, e apenas 5 depois de se ter voltado a gritar golo, quando Pavlidis falhou clamorosamente o golo que Akturkoglu lhe tinha oferecido. Ao terceiro golo - que tinha de ser marcado por Akturkoglu, depois de tudo o que se passou não podia ser de outra forma, num grande remate, a concluir uma jogada com créditos a atribuir a Aursenes e a Barreiro  - já não dava para anular ...

O intervalo não chegaria sem mais duas grandes oportunidades de golo, ambas criadas por Barreiro, o jogador mais influente da primeira parte. Uma, desperdiçou ele próprio, a outra foi mais um desperdício de Pavlidis. Chegaria sim com uma das maiores mentiras escritas no resultado!

Na segunda parte o jogo mudou um pouco de tom. O Benfica continuava dominador, mas reduzia a intensidade posta no jogo. Os jogadores da equipa turca aumentaram a agressividade e a dureza, com a complacência do árbitro amigo, em acentuado desnorte. Ainda assim continuou a única equipa a criar oportunidades para alterar o marcador. E só um guarda-redes tinha trabalho - Livakovic. Que, à saída do primeiro quarto de hora, voltaria a fazer uma defesa notável, a negar o golo a António Silva.

A meio da segunda parte Mourinho fez duas substituições (Muldur e Archie Brown por Aydin e John Durán) que deram algum fôlego à sua equipa, permitindo-lhe equilibrar o jogo durante cerca de 10 minutos. Não mais. Valeram-lhe, esses 10 minutos, um remate de cabeça tipo chouriço que levou a bola, caprichosamente, a esbarrar no ângulo superior direito da baliza de Trubin (não fez uma única defesa!), um remate de cabeça de Talisca por cima da barra, e outro, de pé direito, ao lado do poste direito. 

A oito minutos do fim Talisca imitou Florentino, na primeira mão, e fez duas faltas para amarelo em três minutos. Nem um árbitro amigo o salvaria da expulsão, que ditaria o baixar final de braços do Fenerbahçe.

O homem do jogo foi Richard Rios, com um nível exibicional simétrico ao de Barreiro. Enorme na primeira parte, mas caiu bastante na segunda.

No fim fez-se a festa na Luz. Merecidíssima. O Benfica está onde tem que estar. Na Champions, entre os melhores!

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

Não acho piada nenhuma que chamem porta 18 a uma operação policial. Pior ainda quando essa é a porta da minha Catedral... Por onde, dizem, entrariam diariamente bandos de colombianos para fazer negócio... 

Não acho grande piada a que funcionários do meu clube andem envolvidos em negócios com colombianos. Até achava, se não tivessemos a experiência de os ver fugir todos lá mais para cima...

Mas também - confesso - não seria a coisa que mais me preocupasse. Afinal ninguém nunca poderá dizer que está livre de ter um empregado qualquer que se possa dedicar a negócios com colombianos. Também - se calhar, digo eu - ninguém poderá dizer que consegue controlar todas as portas de todas as instalações, mais a mais  quando se trata de uma catedral aberta a tantos fiéis. E infiéis...

Não me choca que só tenhamos tido conta da notícia um mês depois, mesmo que não tenha achado piada nenhuma às primeiras reacções. Um pecado desses, numa catedral destas, deveria chegar de imediato ao conhecimento dos fiéis, mas concedo que até se possam levantar valores mais altos.

O que me choca é que, um mês depois, quando se soube, o presidente do meu clube se venha dizer chocado. Deve ter sido um choque daqueles: um mês depois ainda está em choque... Não admira, conforme ele próprio explica, conhecia o José Carriço - assim se chama o sujeito do negócio colombiano - há muito. Era pessoa de sua confiança, foi o seu motorista durante muito tempo!

E o que verdadeiramente me preocupa é que, no meu clube, um tipo qualquer passe directamente de motorista do presidente a diretor. Aprecio e defendo a mobilidade social, tanto na sociedade como nas organizações. Acho fantásticas aquelas histórias do antigamente, de gente que chegava paquete aos 14 anos e saía presidente da empresa, aos 70.  

Mas, francamente: de motorista do presidente a director do Departamento de Apoio aos Jogadores, faz-me alguma impressão. Preocupa-me mesmo! 

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

Lembro-me do deslumbramento com que, em criança, ouvia os mais velhos narrarem episódios e histórias de vida de há (havia) vinte, trinta anos. O tempo é das coisas mais objectivas, mais facilmente medíveis e por isso das mais absolutas, mas a noção que dele temos é a coisa mais relativa que a vida tem.

Em criança sentimo-nos esmagados pelo tempo. Se temos seis ou sete anos, ouvir falar de vinte remete-nos para uma dimensão avassaladora do tempo. Depois, os anos vão passando e só começamos a dar conta disso quando as nossas próprias recordações começam a comportar essa dimensão do tempo. E quando percebemos que as décadas começam a encurtar de forma quase assustadora: se da primeira pouco damos conta, bem sabemos como a segunda nunca mais passa, parece ela que tem os esmagadores trinta ou quarenta anos do tempo das histórias que ouvíamos. Os vinte anos  nunca mais vêm, mesmo com os dezoito a darem uma boa ajuda. A terceira já é bem mais curta, mas ainda dá - dava, já não sei se dá - para muita e muita coisa, e a terceira talvez esteja na medida. A quarta já tem bem menos de dez anos, e a partir daí os anos passam a meses...

Tudo isto me vem à cabeça neste dia em que me lembro que há cinquenta anos, em convalescença de uma intervenção cirúrgica à garganta, perdi o meu tio mais novo num estúpido - como todos - acidente de viação. Era o meu tio mais novo, e por isso o mais próximo de mim. Mas também o meu ídolo, o meu confidente, o meu amigo. 

Fazia 26 anos nesse 26 de Agosto de 1965. Estava a meio da primeira década a sério, ainda sem tempo para perceber como é traiçoeiro o tempo.

Há cinquenta anos... Há cinquenta anos, ainda a meio das férias grandes, a mais de um mês de entrar para o mundo novo do liceu, morreu o meu tio Manel. Nem sequer fui ao seu funeral... Não que fosse criança - nesse tempo a morte não era escondida às crianças, mas também eu já não queria ser criança. Foi a garganta que não aguentou a dor que vinha do coração!

Há 10 anos

Acredite...: sem olhar pra trás...

Afinal a Comissão Europeia não tem nada a ver com o negócio da venda da TAP. Diz que que não se ocupa de peanuts, que o negócio não é suficientemente grande para lhe merecer atenção. Sardinhas sim, negócios de sardinhas já lhe interessam...

Poderíamos facilmente achar normal que lhes interessasse apenas os grandes negócios. Com um bocadinho de mais esforço poderíamos até achar normal que lhes interessasse sardinhas, e que não se preocupem nada com negócios de aviação. O que não é nada normal é que o Sr David Neeleman não soubesse nada disso, dando-se ao trabalho de engendrar um negócio com o Sr Humberto Pedrosa para enganar quem não precisava de ser enganado.

É já público, e por isso não estou a cometer nenhuma inconfidência - nem sequer a trair a confidencialidade com que, em tempo útil, fui informado da marosca - que os 49% das acções do Sr Neeleman no consórcio Atlantic Gateway, a quem o governo entregou a TAP, valem 95% do investimento e 74,5% dos interesses, seja em dividendos, seja na liquidação. E que o Sr Humberto Pedrosa até não se fez pagar mal para fazer o papel que fez: afinal consegue quintuplicar em interesses o valor do investimento. Com 5% de investimento - que, mesmo assim, foi pedir ao Estado - adquire uma posição que lhe garante 24,5% da empresa de que detém 51% das acções.

Poderia perceber-se que o Sr David Neeleman tanto quis enganar que acabou ele próprio enganado. Poderia, mas é apenas mais uma coisa que é capaz de não ser normal .

Com tanta coisa pouco normal neste "quem engana quem" acabamos por desfiar o novelo. E não é com grande o risco de nos enganarmos que chegamos à conclusão que um "quem" é o governo e o outro somos todos nós. Que o Sr David Neeleman não foi nada enganado, foi simplesmente aconselhado pelo governo a fazer assim. 

 

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