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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O frente a frente

Por Eduardo Louro

   

Passaram no sábado, dia 6, 35 anos sobre o famoso frente a frente televisivo entre Mário Soares e Álvaro Cunhal e a RTP decidiu reproduzi-lo no seu canal Memória.

Tinha sido alertado para essa emissão na véspera, num programa da Antena 1, que há muito sigo (o seu horário, às 19 horas de sexta-feira, tornou-o companhia de viagem no meu regresso a casa das sextas-feiras): o Contraditório, moderado por João Barreiros e com a participação de Carlos Magno, Luís Delgado e Ana Sá Lopes.

O Carlos Magno e o Luís Delgado, rapazes da minha idade, tinham na altura deste debate 20-21 anos de idade, os restantes dois eram então ainda crianças. Os dois primeiros, pela idade e pela intensidade da vivência própria daquele período da nossa vida colectiva, tinham a “obrigação” de conhecer toda a envolvência e o contexto daquele que ficou como o marco do debate político televisivo. Aos outros dois, mais jovens, seria exigível um conhecimento documental mas igualmente rigoroso daquele acontecimento.

Fazer da análise e do comentário político profissão terá de ter algumas exigências. Não se podem ignorar acontecimentos políticos determinantes da nossa história recente e, em especial, daquela que também protagonizamos.

Tudo isto para dizer que achei lamentável que aquelas quatro personalidades tenham abordado aquele acontecimento, a propósito da emissão da RTP Memória, em regime de manifesta ignorância do seu enquadramento. Um deles – o Luís Delgado, de resto num registo que lhe é muito próprio – apressou-se a enquadrar o debate num período eleitoral, sem contudo o identificar. Logo seguido por todos os outros, como também é habitual.

Fora de causa estava, para ele, ter acontecido em Novembro de 1975 porque, acrescentava, “era o que faltava era nessa altura alguém estar preocupado com debates”. Também dizia que, ao contrário do Carlos Magno, não tinha então acompanhado o debate porque, nessa altura, tinha coisas mais interessantes com que se preocupar.

O mesmo Luís Delgado teria outra tirada digna de registo, quando comparou a influência do PCP nos jornais de 1975 ao que se passa hoje com o Bloco de Esquerda, comparando “alhos com bugalhos”. Então, a influência do PCP nos jornais, nos nacionalizados – entenda-se – decorria do “assalto” transversal ao aparelho de estado. A dita influência actual do BE é completamente diferente e decorre de uma certa “moda”, de um certo “politicamente correcto” à la page com os temas da actualidade, geralmente ditos de fracturantes, É uma questão de produto, um produto que hoje tem mercado, e não tem nada a ver com exercício de poder e com controlo da informação, como então sucedeu.

A verdade é que, até que da régie tivesse vindo o ponto de ordem para pôr ordem naquilo, aquilo foi um autêntico regabofe. E um triste espectáculo que nos mostrou como muitas destas pessoas entende que a sua omnipresença no espaço mediático lhes permite um compromisso leviano com a verdade e com o rigor!

Bom. Mas no sábado à noite lá me fixei em frente ao ecran para rever, pela primeira vez, o mais famoso dos frente a frente da política portuguesa que tornou famosa a expressão de Álvaro Cunhal: “olhe que não … olhe que não!”. Que eu recordava ter sido utilizada uma única vez quando, afinal, viria agora a confirmar, foi-o em duas ocasiões.

E recordei um tempo que, parecendo tão perto, está afinal tão longe. Um tempo em que se fumava ali, em frente às câmaras. Em que apenas o fumo que saía dos cigarros denunciava dois entrevistadores (e que jornalistas!) que se limitavam a não interromper aquelas duas figuras, lado a lado em simultâneo num duplo plano muito raro em televisão. Um tempo em que não havia tempo em televisão. Aquilo só acabaria quando toda a gente, telespectadores incluídos, estava cansada. Porque, como disse Álvaro Cunhal, “as pessoas trabalham e amanhã é dia de trabalho”…

E recordei o alto nível do debate político, com análise e sem demagogia. Com sagacidade e sem lugares comuns. E mesmo sem a famosa cassete: Álvaro Cunhal não usava cassete. Criou-a mas para uso de terceiros!

E recordei como se abriram naquele dia as portas do 25 de Novembro. E como a guerra civil esteve tão perto!

E como a descolonização era Angola, Moçambique e Guiné. Nada mais, numa altura em que Timor já estava ocupado pela Indonésia…

Pois é, aquele debate também nos ajuda a entender melhor muito do que se passou depois. Se calhar até muito do que se passa ainda hoje…

2 comentários

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    Eduardo Louro 12.11.2010

    Viva Nuno!
    Agradeço-lhe o seu comentário. Vasto e a tocar em muitos e importantes aspectos!
    Vou apenas deter-me em 3 desses aspectos:
    Em primeiro lugar uma nota para assinalar a grande diferença de nível de politização entre as juventudes francesa e portuguesa desse tempo. Enquanto que a juventude francesa vinha do epicentro do Maio de 68 a portuguesa ia e vinha da guerra colonial. A excepção que apenas confirmava a regra era uma élite universitária de poucos milhares de jovens.
    Uma segunda nota para o que o salazarismo fez de Portugal e dos portugueses: roubou aos portugueses a possibilidade de viverem o mais fabuloso período de desenvolvimento europeu - o pós-guerra. Para a actual realidade, e à luz do século XX, foi como "roubar" o Renascimento a uma qualquer civilização ocidental.
    A terceira e última é uma nota de alguma graça, a prpopósito da qualidade do francês que referiu ser falado pelos "dois protagonistas". É que ainda hoje em Portugal o francês de Mário Soares é objecto de chacota. Brinca-se com o francês dele através de uma expressão que ficou célebre: "Mon ami MiteRan", que dizia em vez de Mon ami MiteRRã, se é que dá para perceber.
    Um abraço
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