Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

BIZARRO

 Convidada: Clarisse Louro *

 

Está aí um orçamento que será, sem dúvida, o mais bizarro de sempre. E nós que pensávamos que nisto de orçamentos e bizarrias já tínhamos visto tudo: longas horas de espera, entregas às prestações, quadros errados, e sei lá mais quê…

É um orçamento que vai dar cabo do que ainda resta da classe média, da economia e do país. É um orçamento que claramente não é meio para coisa nenhuma, mas um fim em si mesmo. Um orçamento que esgota na sua própria existência a sua única razão de ser. Não importa que nada ali faça sentido, que os números não joguem uns com os outros, que nada daquilo seja exequível ou que possa vir a ser declarado inconstitucional. É preciso que haja um orçamento, e um orçamento com os números que façam a vontade à Srª Merkl.

E no entanto é um orçamento sem alternativas: ou ele ou a bancarrota.

Um orçamento que é aprovado em reunião de conselho de ministros pela mesma força política que, fora governo, se lhe opõe. Que, depois de o aprovar no seio do governo, vem contestá-lo como oposição para, com o maior dos descaramentos, vir uns dias depois anunciar que o votará favoravelmente. Com as mais bizarras justificações e com o bizarro compromisso de contribuir para melhorar no parlamento o orçamento que não melhorou no governo.

Com este orçamento a liderança política do país atingiu os limites da esquizofrenia. Não admira que, quando o FMI reconhece que a receita da austeridade falhou, que estava errada, venha o ministro das finanças dizer que não é nada disso, que não passou de um problema de tradução. E que o primeiro-ministro tenha passado pela reunião do euro-grupo da semana passada, no Luxemburgo, sem que se tenha falado da situação do país.

Nem admira que enquanto o país empobrece patrimonial e moralmente, enquanto largas faixas da população engrossam as filas de pobres que estendem a mão à caridade, e jovens que consumiram recursos públicos na sua educação têm que partir - sem, ao contrário do ministro das finanças (!!!), terem a oportunidade de devolver ao país esse investimento -  as elites do poder se entretenham em jogos de propaganda cada vez mais fáceis de desmascarar, mesmo que com cada vez menos imprensa livre e independente para o fazer.

Cantam-se hossanas ao fantástico equilíbrio das contas externas. Que só uma vez acontecera na história da economia portuguesa, em plena segunda guerra mundial. Que as exportações estão a aproximar-se dos 50% do PIB. Mas ninguém diz que isso decorre do empobrecimento do país, que resulta da própria recessão - um PIB cada vez mais pequeno facilita uns indicadores mas prejudica outros - que é conjuntural. Ou que nas exportações pesa cada vez mais a venda do espólio das famílias, das peças de ouro herdadas e conservadas ao longo de gerações e que agora os portugueses vão entregar – não ao prego, como há décadas atrás – mas às milhares de lojas que invadiram o país a comprar os anéis que já levam dedos agarrados.

Bizarro… Esquizofrénico!

 

* Publicado hoje no Jornal de Leiria

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics