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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

TEMPO DE NATAL

 Convidada: Clarisse Louro *

 

Entramos oficialmente na época de Natal: as cidades já se iluminaram, os presépios – sem burro nem vaca, conforme as mais recentes emanações do Papa – já enchem as rotundas, esse paradigma do empreendimento autárquico que permanecerá como memória de um certo tempo, as músicas de Natal ecoam pelos centros comerciais e, nas televisões, os poucos anunciantes que ainda sobram afinam a comunicação pelo diapasão natalício.

Dir-se-ia que, em pleno olho do furacão da crise, se tenta, se não exorcizá-la, pelo menos contorná-la, iludi-la ou enganá-la. Dar a ideia que tudo se passa como convém que se passe, que tudo seja como tem de ser.

As autarquias investem na iluminação o dinheiro que não têm porque acreditam - não podem deixar de o fazer – que esse é o último impulso que não podem deixar de dar ao seu comércio local. Que, por sua vez, acreditam que a animação urbana da quadra lhes traz de volta os clientes que há muito deixaram de ver. Os consumidores querem acreditar que toda essa animação - as luzes, os presépios, a música – lhe traz de volta o desaparecido subsídio de natal ou mesmo o ordenado que dantes chegava no fim do mês… E que já não há, porque não há emprego. Ou porque, havendo-o ainda, é o salário que já não é pago!

Assim será ao longo de quase um mês. Depois acordaremos todos para a realidade, percebemos que a dramática crise social que corrói e mata o país, que atirou para o desemprego mais de um milhão de portugueses, que expulsa para longe aqueles a quem caberia garantir o nosso futuro colectivo, que enche as alas de psiquiatria dos hospitais e que atira para o desespero último do suicídio um crescente número de portugueses, ao contrário de nós todos, não se deixa enganar.

Este Natal irá fazer-nos recuar algumas dezenas de anos. Irá remeter-nos ao Natal da minha infância, de uma só prenda que, no sapatinho, fazia os encantos do Natal do menino Jesus. Ao Natal que há muito abandonamos, quando nos venderam um outro, do pai Natal e das múltiplas e infindáveis prendas, criando e expandindo consumo através de uma febre consumista a que se encarregaram de chamar magia. A magia do Natal!

Não foram as pessoas que fizeram esta escolha. Não foram as populações que decidiram passar do Natal do Menino Jesus para o do Pai Natal. Não foram as crianças que quiseram trocar o encanto do Natal pela magia do Natal. Não! Foi este modelo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui que precisou de fazer tudo isso para se sustentar. Este modelo de desenvolvimento que hoje, esgotado e incapaz, não lhes retira apenas as muitas prendas do pai Natal que antes lhe impôs, deixa-lhes mesmo vazia a mesa da consoada!

Até por isso me recuso a aceitar a decisão do Papa de retirar a vaca e o burro do presépio. Vou deixá-los lá, mantendo e passando para as minhas netas a imagem do conforto possível, mesmo que pobre!

 

* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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