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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

PORQUE ISTO, AFINAL, ANDA TUDO LIGADO

Por Eduardo Louro

 

Porque isto anda tudo ligado, quando os pobres e a miséria não páram de aumentar e a caridadezinha volta a ser moda, não resisti a trazer aqui este texto do Luís Manuel Cunha publicado no Jornal de Barcelos e no Aventar:

 

"Em Santa Comba Dão pretendia-se lançar uma marca de vinhos chamada Memórias de Salazar. O nome não foi autorizado sem que se perceba muito bem porquê. O facto é que, a marca do tintol nunca veio tão a propósito, arrastando consigo uma infinidade de recordações e de reminiscências de tempos que se julgavam para sempre desaparecidos.
Lembro-me ainda muito bem. No mundo da minha infância e por esta altura em que “a estrela de Belém corre pelos céus à procura da manjedoura e das palhinhas”, “não havia conto de Natal, não havia lenda infantil, não havia fábula natalícia que não trouxesse consigo, sempre disponíveis, os pobrezinhos”. A tradução narrativa de um mundo a preto e branco mas bem real, um mundo frio e famélico, tristemente alumiado pela luz da candeia que, no meio do casebre, projectava uma palidez esfomeada de um tempo disperso, “algures entre o apito da fábrica e o chiar da charrua”. Era a “casa portuguesa” salazarenta, documentada nos livros da escola primária e plasmada na imagem de capa do lavrador caseiro desgraçadamente feliz, de sachola ao ombro, regressando a casa, escancarada pela mulher desgrenhadamente feia, rodeada de filhos ranhosos e sujos pendurados nas saias. Depois, a broaembrulhada num caldo de couves e o terço murmurado maquinalmente sob o olhar protector de uma imagem da virgem de Fátima, como agradecimento ao Senhor por tamanha dádiva. Ao Senhor e a Salazar. Era o tempo do “pão e vinho sobre a mesa” e da disponibilidade de abrir a porta a quem a ela batesse, para se “sentar à mesa com a gente”. Só que, à porta dos pobrezinhos, ninguém batia.
Era um mundo de diminutivos e de diminuídos” do catecismo do Estado Novo e da Igreja Católica que, na ficção piedosa da padralhada debochada e rubicunda, entendia que o sofrimento e a miséria eram condições sine qua non se lhes abriria, aos pobres, o reino dos céus. Por esta altura, a beatada em peso, o professor e o padre derretiam-se em homilias da necessidade de ajuda ao pobrezinho. Que vivia “tristemente sentado nos degraus da igreja” ou “pacatamente esfomeado às portas das casas”. Era uma obra de caridade ajudar os pobrezinhos, dizia-se. “Minha senhora, está ali um pobrezinho a pedir esmola”. “Maria, dá qualquer coisa ao pobrezinho”. E a Maria dava. E o pobrezinho lá ia, reverente e agradecido. “Que Deus Nosso Senhor o ajude. Seja pelas alminhas de quem lá tem”. Havia um ou outro pobrezinho com mais sorte, abrindo-se-lhe as portas onanistas dos seminários, por influência de alguma tia velha junto do senhor prior, que era o representante de Deus na terra. Outros acabavam a criados de servir, agradecendo reverentemente os restos que sobravam das mesas dos seus senhores e que, não raramente, repartiam com os cães. Muitos deles, analfabetos e embrutecidos pelo álcool, viviam no terror de incomodar a autoridade ou a caridade que lhes matava a fome. Era o esplendor do salazarismo, antes que a emigração da década de 60 espalhasse o analfabetismo escravo dos portugueses pelos bidonvilles da periferia das principais cidades francesas.
Alguns dos meus leitores mais jovens espantar-se-ão com este retrato de um país que lhes parecerá surrealista. Infelizmente, é bem real. E trazê-lo hoje aqui é recordar que a história, dizem, se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. E o que o Gaspar e o Passos nos dão hojenão passa de uma farsa. Uma farsa salazarista com a conivência de um presidente da República absolutamente inócuo e senil. Quando hoje se lê que mais de doze mil crianças vão para a escola com fome, não é mais que o retrato actual da miséria salazarista. Quando se sabe que há pessoas que vasculham caixotes de lixo à procura de restos de comida com que possam matar a fome, não é outra coisa senão o regresso dos pobrezinhos da minha infância. Que agora, envergonhados, interiorizam essa miséria e alimentam-se dela.

Escrevia Clara Ferreira Alves que “numa sociedade com graves desigualdades e herdeira de uma sociedade salazarista e colonial, de senhores e servos, de relações de potestade assentes sobre a escravidão e a ignorância, a subserviência interiorizou-se e ficou um traço de carácter”.
Pois é… Esta sociedade de eunucos tem feito da subserviência um traço do seu carácter. E, como cantava Zeca Afonso, os eunucos “não matam os tiranos, pedem mais”. Até um dia…"

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