Presidenciais. E agora?

Os resultados de ontem não surpreenderam. A pontinha de surpresa só pode caber na expressão da votação em Seguro, ultrapassando os 31%, quando as sondagens se ficavam à volta dos 20. Os 23,5% de Ventura, se bem que também ligeiramente acima dos resultados das sondagens, são perfeitamente naturais. É essa a expressão actual da extrema direita.
Quer isto dizer que as sondagens andaram sempre certas. Bom, sempre, não. A Intercampus só andou por lá perto na sondagem final, à boca das urnas. Antes, durante a campanha eleitoral, nunca nada bateu certo com as outras.
As sondagens - mas também a percepção que temos, valha lá o que valer - revelam que é grande a taxa de rejeição a Ventura, apesar de todo um percurso de normalização da personagem. Perante os diferentes cenários para a segunda volta, todas as sondagens indicavam que Ventura perderia para todos os hipotéticos adversários. Se não estou em erro, a maior diferença era mesmo registada no confronto com Seguro.
Desconfio que não seja tanto assim, e que as próximas sondagens, que entretanto começarão a surgir para a segunda volta, apontarão para resultados bem mais apertados do que as anteriores sondagens (secundárias) sugeriam.
O espaço político natural de António José Seguro, incluindo-lhe a esquerda, não valerá neste momento muito mais 35% do eleitorado, traduzindo-se em cerca de 2 milhões e 100 mil votos.
O de Ventura, como já acima me atravessei, não vai além dos 25%. O "fenómeno" Ventura bateu no tecto. Perdeu 111 mil votos em relação às legislativas de Maio. Dos 1.437.881 votos que então lhe valeram 60 deputados, e a segunda maior representação parlamentar, Ventura recolheu agora 1 326 644 votos.
Não se pode normalmente fazer comparações entre eleições diferentes. Menos ainda quando se colocam em perspectiva eleições de cariz eminentemente pessoal com as de cariz partidário. No caso de André Ventura são a mesma coisa. O Chega é Ventura, nas legislativas e nas autárquicas; e Ventura é o Chega nas presidenciais. E por isso não dúvida que Ventura, por si e pelo fenómeno que representa, já não está a crescer.
O que não quer dizer que não possa crescer. E muito menos que não vá crescer nesta segunda volta. Vai inevitavelmente, e só não se sabe até onde. Porque a partir daqui entra uma dinâmica em funcionamento. Chame-se-lhe dinâmica de poder, de oportunidade, ou outra coisa qualquer. É um boost que, uma vez activado, vai somar-se ao seu peso específico e determinar o novo valor facial de Ventura.
Ao deixar fugir-lhe a boca para a verdade, Cotrim de Figueiredo anunciou apoiá-lo na segunda volta. Isto não quererá dizer que os seus 900 mil votos corram direitinhos para Ventura; mas não custa muito admitir que a grande maioria deles siga esse caminho.
Montenegro veio dizer que a sua área política perdeu e, não estando representada nesta segunda volta, não tem em quem votar. A leitura directa destas palavras é que, entre o democrata e um anti-democrata, não há escolha. Há abstenção, ou voto branco.
Também se sabe que não é assim, e que os 637 mil que votaram na calamitosa candidatura de Marques Mendes irão na sua maioria votar na segunda volta. São os fiéis do partido, mas a maioria não votará em branco.
Seria provável que a maioria dos quase 700 mil votos em Gouveia e Melo pudesse reverter agora a favor de Seguro. Mesmo que também o almirante achasse ainda cedo para decidir entre o apoio a um democrata e ficar calado, é do destino da maioria destes votos que Seguro fica a depender para assegurar os 800 mil que hoje lhe faltam para derrotar Ventura.