RATINGS & IRONIAS
Por Eduardo Louro
Passos Coelho - e já antes o governo, através do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros – acaba de fazer uma festa a propósito de uma revisão do rating da dívida da República. Que é a recompensa aos portugueses. Que é a prova de que este é o caminho certo. Mas que não podemos embandeirar em arco, porque isso só tem verdadeiro significado se nos mantivermos fiéis ao caminho traçado. Ao nosso destino, acrescentaria eu!
Mas então o que é que se passou? O que é que motiva ou justifica tantos foguetes?
Já não somos lixo?
Já temos um rating de gente grande?
Já podemos ir à vontade aos mercados, como gente séria e respeitável?
Já não corremos o risco de nos chamarem caloteiros, aí numa esquina qualquer?
Nada disso!
A Standard & Poor´s manteve a classificação de lixo, a notação BB que utiliza para investimentos de alto risco. E naturalmente pouco recomendáveis. O que a Standard & Poor´s anunciou hoje foi isso mesmo, que manteve a notação absolutamente inalterada. Mas que alterou a sua perspectiva: o outlook, como eles dizem!
Passaram de um outlook negativo para um estável. Quer dizer, antes achavam que era lixo mas ainda podia piorar; agora acham que é o mesmo lixo e que por aí se vai manter. Que daí não vamos sair…
Dirão agora os mais optimistas, aqueles que vêm sempre o copo meio cheio: “Bem, pode não ser bom, mas também já não é mau que essas agências pensem agora que, para pior, isto não vai”!
Lamento desiludi-los, mas a Standard & Poor´s também explicou por que é que fez tão significativa alteração. Por que é que hoje já pode achar que o lixo é estável quando ainda ontem achava que o lixo ainda podia piorar. Uma simples justificação: porque os ministros das finanças da União decidiram apoiar o alargamento dos prazos que Portugal e a Irlanda terão para pagar os seus resgates.
Quer dizer, à Standard & Poor´s essa coisa do "mais tempo" diz alguma coisa. Não diz grande coisa, mas…
Pois é. Admito que algum dos leitores já esteja a esboçar um sorrisinho… É realmente irónico: quem sempre fez finca-pé, que "mais tempo" é que nem pensar… Ainda ontem o inimputável Vítor Gaspar (peço desculpa, mas já não consigo tratá-lo sem aquele adjectivo) fazia aquela figurinha sobre os quinze anos pedidos pela Irlanda …
No meio de tanta desgraça, sem nada a que se agarrar, Passos Coelho corre atrás da primeira cana de foguete que vê. E quer que festejemos com ele… Ridículo!
O inimputável é, apesar de tudo, um bocadinho mais esperto: vejam lá se o ouviram dizer alguma coisa?