CO-ADOPÇÃO
Convidada: Clarisse Louro *
A Assembleia da República aprovou na passada sexta-feira a co-adopção, lei que permite a extensão da adopção ao cônjuge homossexual e que, sem qualquer dúvida, abre as portas à adopção plena por casais homossexuais, colocando Portugal - o quinto país a aprová-la - na vanguarda mundial nesta que é uma das matérias fracturantes nas sociedades actuais.
Irei eventualmente desiludir quem pudesse já estar à espera que eu começasse por manifestar e defender a minha posição nesta questão. Mas aviso desde já que não é isso que me move. Estou mais interessada em reflectir sobre a maneira como me pareceu que a sociedade portuguesa se alheou deste debate. E é por aí que vou, se não se importam…
Lembro-me do debate da legalização do casamento entre homossexuais. Lembro-me de um debate aceso e lembro-me que os que se lhe opunham acabavam por, de certa maneira, lhe relativizar a importância para projectar a da adopção. Diziam que a legalização do casamento entre homossexuais era apenas um passo para a adopção. E que esse sim, seria o problema…
Isto passou-se há pouco mais de três anos. Se era um passo e esse o problema, a co-adopção é agora o passo decisivo e final. E no entanto não se percebeu que o debate tivesse sido vivo, que tivesse atravessado a sociedade portuguesa, nem sequer que tivesse deixado para trás quaisquer fracturas.
É certo que houve algum esboço de debate, mas limitou-se praticamente à blogosfera. E mesmo aí apenas pela mão de meia dúzia de fundamentalistas de direita, com a utilização de argumentação primária – “estão a dar dois pais ou duas mães a crianças que têm direito a uma família”, ou “uma família nunca são dois pais ou duas mães”, ou, menos aceitável ainda, “que essas crianças correm o risco de, chegadas à adolescência, serem seduzidas pelos pais” – facilmente rebatível por quem estava do outro lado. Há dezenas de milhares de crianças que, pelas mais diversas razões perdem o pai ou a mãe, e que não são criadas em família convencional. E nunca ninguém poderá dizer que, para uma criança, qualquer coisa seja preferível a ser criada por uma mãe e uma avó, ou por um tio e um irmão mais velho…
Mas a verdade é que, fora desse nicho, a sociedade portuguesa passou ao lado deste debate. O que permite duas ou três
leituras: ou a sociedade portuguesa cresceu de tal forma nestes últimos três anos que atingiu já a maturidade cívica das sociedades mais desenvolvidas da vanguarda mundial, e este é, por isso, um tema pacífico, que não merece grande discussão; ou a sociedade portuguesa está tão debilitada, de tão massacrada por este processo de destruição que atravessa o país, que já não tem reserva moral para este tipo de debate; ou mesmo que a pressa foi tanta que o debate não chegou verdadeiramente a ser lançado.
Confesso que me inclino mais para as duas últimas. Mas poderei estar enganada!
Gostaria, muito, de estar enganada. Para que a aprovação desta lei possa representar o real alargamento do campo de oportunidades para tantas e tantas crianças para quem só adopção rima com projecto de vida. Que não se esgota na própria adopção, na família – convencional ou nem por isso - mas que passa, decididamente, pela forma como a sociedade, depois, a aceita. E as aceite. A elas, a essas crianças, porque são elas, e não os homossexuais nem os seus lóbis, que têm de ser o princípio e o fim desta lei!
* Publicado hoje no Jornal de Leiria