QUEM PARTE E REPARTE...
Por Eduardo Louro
O CDS apresentou esta semana uma proposta dita de regulação dos vencimentos no sector público.
O princípio, se bem percebi, resumia-se em dois pontos:
i) O vencimento de qualquer cargo do sector público estaria limitado ao do titular do órgão nomeador;
ii) Nenhum cargo poderia ter um vencimento acima do do Presidente da República.
Parecia claro e simples: quem nomeia sabe qual o seu vencimento, logo… Sem nenhuma dúvida, ninguém poderia ganhar mais que Presidente do República!
Logo no dia seguinte surgia uma notícia a que não foi atribuída importância nenhuma: Cavaco Silva optou por manter as suas duas reformas e recusar o vencimento de Presidente da República!
Não é o que está em causa mas, evidentemente, o novo/velho Presidente apenas exerceu esta opção porque, só agora – depois de todos os pacotes de austeridade –, os titulares de cargos públicos são obrigados a abdicar da acumulação dos múltiplos vencimentos que açambarcavam. Agora já só podem acumular pensões: pensões como as do Banco de Portugal – uma das que agora ajudam Cavaco a sustentar a sua pobre mulher – com pensões como as do exercício das múltiplas funções políticas – deputado, autarca, coordenador de uma coisa qualquer – cujo direito, como todos sabemos, foi adquirido após toda uma vida de trabalho, como a da senhora que agora, coitada, vive à custa do marido. Depois de uma vida inteira a trabalhar aquém e além-mar!
Às vezes bastou ser nomeado para, automaticamente, se adquirir o direito a uma pensão, mas não é disso que estamos a falar. Como diria a outra, isso agora não interessa para nada!
Voltando ao ponto: Cavaco estilhaçou a proposta do CDS!
Como é que o vencimento do Presidente da República pode servir de tecto se é logo o próprio a ganhar mais que ele?
É que Cavaco, e com toda a naturalidade – está mais que provado que sabe fazer contas, ou não fosse ele Professor de Economia – escolheu a fatia maior. Já que a tanto foi obrigado, escolheu ganhar mais que o Presidente da República!
Agora estão a ver: como é que a proposta do CDS pode chegar a algum lado quando é logo o Presidente da República a ganhar mais que o Presidente da República?
Não resisto a citar Medeiros Ferreira: “Há algo de errado nisto. Mas o quê?”