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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #63 MARCAÇÕES

Por Eduardo Louro

 

Marcação é seguramente palavra do futebolês com mais homófonas.

Há a marcação do campo, melhor, as marcações do campo – porque marcação do campo era aquilo que nós fazíamos para reservar o aluguer de uma campozito qualquer para as nossas peladas de fim-de-semana – que são as quatro linhas que limitam o espaço do jogo, o meio do campo e as áreas: as grandes e as pequenas. Normalmente só ouvimos falar delas no Inverno, quando chove a bom chover e as quatro linhas mais parecem limitar uma piscina que um campo de futebol. Quando não percebemos porque é que uns tipos andam ali a divertir-se à brava a fazer aquaplaning, é porque as marcações estão visíveis. É esse o critério dos árbitros para interromper ou deixar prosseguir um jogo que toda a gente vê que não é jogo nenhum!

Há ainda a marcação entendida como atitude de vigilância sobre o adversário, mas também a marcação como cobrança. Não a cobrança de dívidas – que está pela hora da morte e é hoje em dia umas das tarefas impossíveis que muitos temos pela frente –, nem sequer a cobrança de impostos – a primeira e mais primitiva função do Estado e, diria eu, a única que este governo sabe levar a peito – mas a cobrança do futebolês: a cobrança das faltas, ou a cobrança dos cantos: a marcação da falta ou a marcação do canto. Ambígua e estranha, como convém em futebolês. Porque o jogador só pode marcar a falta se o árbitro a tiver marcado. Como o canto: o jogador só o poderá marcar depois de o árbitro o ter marcado! Pois é, agora marcar é apenas assinalar…

Naturalmente que o jogador só pode cobrar a falta assinalada pelo árbitro. Assinalada para punir uma falta cometida pelo jogador adversário por excessos cometidos na marcação. Ou seja, para confundir um bocadinho: um jogador marca a falta depois da falta ser marcada pelo árbitro; o árbitro marca a falta depois de um jogador fazer falta ao marcar o jogador adversário.

Às vezes não faz falta o jogador fazer falta. Outras faz mesmo falta o jogador fazer falta, como já vimos aqui na falta cirúrgica.

Mas agora também não faz falta falar da falta para falar da marcação. Porque, como aqui há uns anos (lembram-se?) havia vida para além do défice (haver havia, mas viu-se no que deu!), também há mais marcação para além da marcação da falta.

Até porque há marcação à zona e a marcação homem a homem, por muito pouco jeito que isso dê no futebol feminino. A marcação em cima, que nada tem a ver com a marcação apertada! Pode impor-se uma marcação apertada sem estar sempre em cima do adversário. Sem o deixar respirar. Seguindo-o pelo campo todo, para todo o lado: até para a casa de banho!

Há treinadores que dão ordens desse género: sempre a morder-lhe os calcanhares (e às vezes muitas outras coisas) – “ele tem que sentir a tua respiração”. “Nem um palmo lhe podes dar”!

Deve ter sido isso que, em tempos, o treinador do Benfica dizia ao João Pinto: “marca bem em cima do Paulinho Santos, a um jogador desses não podes dar um palmo”! Depois, enfim e como se sabe, o coitado do Paulinho Santos (só o nome diz tudo!), farto de apanhar com o bafo do malandro do João, foi obrigado a reagir: de uma vez partia-lhe o nariz, da outra os dentes… Só não continuou a partir-lhe mais partes do corpo porque o João Pinto foi para o Sporting e, como se sabe, entre o Porto e o Sporting as marcações são bem mais leves!

A marcação à zona conheceu há uns anos atrás uma nova variante: o autocarro, nome de baptismo atribuído por Mourinho. Um padrinho famoso que mantém com o afilhado uma relação ambígua de amor e ódio. Detesta-o nos outros mas adora-o quando é seu. Como há perto de um ano, quando o utilizou em Barcelona parecendo-lhe uma limousine de alto luxo!

A marcação das faltas também não vive os melhores dias, já para não falar das que são acompanhadas de cartão. Como no Dragão, na semana passada, quando o árbitro despachou o Coentrão. Ou ainda no domingo passado, em Setúbal quando, ao minuto 90, um tal de Cosme Machado tinha marcado 23 faltas ao Benfica e apenas 8 ao Setúbal: o triplo, dá para acreditar?

A marcação de livres, cantos, de bolas paradas em geral é cada vez mais decisiva no futebol actual. O Benfica trabalha bem essas marcações: é raro o jogo em que não lhe rendam pelo menos um golo! A marcação de penaltis é que não é assim tão bem trabalhada. Sabe-se que não é necessário: os árbitros não os marcam. Mas depois, quando para uma qualquer prova secundária lá aparece um árbitro a marcar um ou outro, não se venham queixar…

Vejam o exemplo do Porto: não falha um! É precisamente o contrário do Benfica: os golos de bola parada são todos de penalti. Nem precisam de trabalhar as outras marcações!

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