A CRISE POLÍTICA IV
Por Eduardo Louro
A sessão parlamentar de ontem, que desembocou na demissão do governo, sugere-me três reflexões sobre o futuro próximo. A primeira vai logo direitinha para a dignidade da Assembleia da Republica (AR) e, como casa da democracia que é, para a própria dignidade da actividade política!
Uma tarde inteira – pelo menos cinco horas – para chegar onde chegou não dignifica a AR nem a maneira como se faz política em Portugal. Muito menos, evidentemente, os políticos! O tom do(s) discurso(s) - as mesmas coisas repetidas por toda a gente sem uma única novidade -arrastou-se penosamente durante horas a fio num evidente sinal de ineficiência e de desperdício. Porque o resultado estava à vista. Tão à vista que nem sei se será assim tão condenável que Sócrates – bem sei que o comandante é o último a abandonar e que são os ratos os primeiros a fugir – tenha abandonado os trabalhos logo no início! Abandono que, obviamente, em nada dignificou a instituição parlamentar e a democracia. Que também não o dignificou a ele próprio, mas isso já nem sequer tem importância nenhuma!
Quanto maior é a crise maior é a importância das instituições. Quanto mais fortes e prestigiadas forem as instituições maiores são as possibilidades de êxito no combate às crises e, naturalmente, maior é a confiança no sucesso. Ontem, mais uma vez, a AR não nos deu razões de confiança!
A segunda vai direitinha para Sócrates.
Mercê de uma personalidade política invulgar, Sócrates foi o governo e o governo foi Sócrates – perdoe-me Doutor Fernando Teixeira dos Santos, mas o senhor não passou, nuns momentos do cordeiro pascal a sacrificar e, noutros, do bobo da corte, papeis que, infelizmente, acabou por fazer por merecer – e, nessa qualidade, o responsável pela desgraça em que o país se encontra.
Mas, mercê dessa mesma personalidade, Sócrates fez do PS o Partido de Sócrates. Secou tudo à volta e condenou o partido – que vai renovar-lhe a liderança por números dignos do seu amigo Chavez ou dos manos Castro – a levá-lo a uma derrota eleitoral seguramente histórica. Não é a dimensão dessa derrota que acho preocupante. Deveras preocupantes são as suas consequências na composição do próximo parlamento e na correspondente capacidade para gerar efectivas soluções governativas!
Sócrates personalizou a liderança do PS como nenhum outro líder antes. Basta lembrar que foi com Mário Soares – indiscutivelmente o seu mais carismático líder – que o partido teve os seus mais fortes períodos de debate interno, com sucessivas dissidências: à esquerda e à direita. Lembrarmo-nos do PS de Mário Soares - contestado pelas mais variadas tendências (renovadores, ex-secretariado e até Francisco Salgado Zenha) e olharmos para este PS acrítico e acéfalo, cegamente enfileirado atrás de um líder perdido e sem rumo, ajuda-nos a perceber que não é menos preocupante o estado a que Sócrates conduziu também o partido.
E isto leva-me à terceira reflexão. Temo que seja este o perfil das lideranças moldadas nas jotas. Temo que, já com sucessivas gerações afastadas da política, não nos restem alternativas que não gente nascida, criada e educada nas estruturas das juventudes partidárias. Gente experimentada na intriga e nos jogos de interesse mas sem cultura de trabalho e de responsabilidade e sem experiência de vida. Gente que cresceu a colar cartazes em vez de crescer na escola e que, chegada a altura, obtém um canudo num domingo qualquer de uma qualquer universidade manhosa!