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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #71 ÚLTIMO TERÇO

Por Eduardo Louro

 

O último terço poderia sugerir alguma analogia com, por exemplo, o último cigarro. Não o último cigarro dos muitos – cada vez mais, acho muito bem! – que diariamente estão a abandonar um vício que já foi moda e símbolo, mas, e recuando a esses mesmos tempos, o último cigarro do condenado à morte. Assim como o último desejo piedosamente concedido a quem já tinha atravessado o corredor da morte ou subido as escadas da forca. Neste caso o último desejo de um crente que, receoso de algumas contas por acertar, substituiria o cigarro por um terço. Ou não se chamasse também contas ao terço!

Saldassem-se contas com terços e não precisaríamos agora desta coisa do FMI ou do FEEF, ou lá o que é! Com os terços que por cá se rezam, e apesar de também aí os tempos serem outros – hoje rezam-se bem menos terços que há trinta anos – éramos bem capazes de rezar para consumo interno e ainda para exportar alguma coisa, para ajudar a equilibrar a balança comercial.

Estamos em sede de futebolês e aqui o terço não é nada que se reze. Em futebolês o terço é cada uma das três partes em que se pode dividir o terreno de jogo: a zona defensiva, a zona intermediária e a zona de ataque. Por esta ordem, seriam o primeiro, o segundo e o último terço.

O último terço é a zona da decisão, por muito que em futebolês de diga que os jogos se decidem no meio campo. Como também se diz que se decidem por pormenores. Isso são tretas do futebolês, que está cheio de ideias feitas! É no último terço que tudo se decide, mesmo que por pormenores: o resto é conversa!

O último terço é assim como que um campo de batalha: é lá que tudo se decide mas, para que isso aconteça, para que lá se possa decidir, é preciso levar até lá toda a logística. E posicionar lá a artilharia, evidentemente! É por isso que aos outros dois terços também o futebolês chama zonas de construção.

Quando se diz que os jogos se decidem no meio campo é claramente um exagero. Alguns, mais cuidadosos com os rigores da linguagem, dizem que se começam a decidir no meio campo. Ou que se começam a ganhar no meio campo! Isto já é mais aceitável: a ambiguidade do verbo começar dá uma ajuda!

Mas então por que é que não se começam a ganhar na defesa? Claro que se começam a ganhar é na defesa. Depois continuam a começar-se no meio campo. Mas sempre a começar, porque acabar, resolver, decidir … isso é lá à frente, no ultimo terço!

Outra coisa bem diferente é perder-se. Tão diferente que é mesmo o antónimo. Por exemplo: o Benfica, no último domingo, perdeu o jogo que deu ao Porto o supremo gozo de fazer a festa precisamente na Luz – sem luz, mas com água – na defesa. Perdeu-o, como em tantas outras vezes, mesmo no guarda-redes. Precisamente onde o Porto começou a ganhá-lo! Ora aí está: enquanto o Benfica o perdeu aí o Porto não o ganhou aí, mas começou aí a ganhá-lo!

Tempos houve em que o futebol português – clubes e selecções – não atingia o último terço. Ficava-se pela construção, mas não construía nada. Nem sequer se atrevia a ir à luta!

Era o tempo em que José Maria Pedroto – “um Deus” (porque ao fim de 19 anos os ressuscitou) para os portistas, mas com obra (que se visse) deixada em Setúbal – celebrizou o problema do último terço ao proclamar que faltavam 30 metros ao futebol português. Era verdade, uma verdade que ele denunciou mas à qual se acomodou. Nada fez para a corrigir e com ela conviveu como Deus com os Anjos. Nos seus tempos de seleccionador nacional um empate a zero era uma vitória!

Hoje, e de há alguns anos a esta parte, não é assim. Nem na selecção nem nos clubes, como ainda ontem se viu nos quartos de final da Liga Europa, com Benfica e Porto a golearem os campeões holandês e russo. E com, em especial o Benfica, instalado durante todo o jogo no último terço e a ganhar o jogo aí. Onde se ganham os jogos, mesmo quando o guarda-redes cuida mal do seu primeiro terço. Contas de outro rosário…

Mas não é o campo que o futebolês divide em três terços. Também o próprio campeonato se divide dessa forma, sendo que aqui cada terço corresponde a dez jornadas.

E como comecei com analogias, termino com analogias. Que são muitas: também aqui tudo se decide no último terço. Também aqui o Benfica teve problemas no primeiro terço. Ironia das ironias: nas primeiras quatro jornadas, bem no início do primeiro terço – na baliza do campeonato! Problemas de arbitragens, é certo. Mas maiores eram já os da baliza!

Mas há mais: foi aí que o Benfica perdeu o campeonato e foi aí que o Porto o começou a ganhar. Ganhá-lo é que, como não podria deixar de ser, foi mesmo no último terço. Bem cedo, mesmo ao fechar a primeira metade do último terço!

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