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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

VAMOS VOTAR!

Por Clarisse Louro *

 

Vamos voltar a ser chamados a votos dentro de um mês. Das últimas vezes que o fizemos não nos sobraram grandes motivos de satisfação: receio que, desta vez, nos sobrem ainda menos! A abstenção tem sido grande, num claro atestado do divórcio entre a maior parte de nós e a política. Na clara demonstração do desencanto dos portugueses com a sua democracia e, pior - neste dramático momento da nossa História - num triste sinal de desinteresse dos portugueses pela resolução dos seus gravíssimos problemas. Numa imagem de um país derrotado e descrente que dificilmente poderá estar em condições de honrar a sua História!

Temo que no próximo dia 5 de Junho a abstenção repita valores que só nos podem envergonhar. Tudo, infelizmente, aponta nesse sentido, num ciclo vicioso a que urge pôr fim: uma classe política sem prestígio nem honra, presa nas malhas de um compadrio intolerável, enredada nas teias da mentira e da corrupção e atada nas cordas da demagogia e da retórica da baixa política, feita de insulto e de irresponsabilidade, mina o débil espírito de participação cívica dos portugueses e afasta-os dos regimes mínimos de intervenção que transportam e impõem padrões mínimos de exigência à classe política e que promovam a sua renovação.

Acrescem ainda as circunstâncias próprias destas eleições que muitos desejaram e, agora, não menos temem. Todos as desejaram, em particular Sócrates e o PS, como já toda a gente percebeu. E todos as temem, em particular o Presidente da República, que já percebeu que foi um erro – e desta vez reconheceu-o, precisamente com o apelo à unidade, à união nacional que Passos Coelho denunciou e que logo toda a gente armadilhou -, quando dispunha de legitimidade fresquinha para lançar mão de um amplo quadro de intervenção, partir para eleições que poderão nada clarificar. É até bem provável que delas resulte um quadro político mais complicado!

Os últimos 15 anos do século passado pareciam ter-nos indicado o caminho da desejada estabilidade política, com um ciclo de três legislaturas consecutivas completas: as duas maiorias absolutas de Cavaco Silva e o primeiro governo Guterres que, sem maioria, conseguiria levar a bom porto uma legislatura de vacas gordas. Foi sol de pouca dura: reconfirmado Guterres, à beira da maioria com um inédito empate parlamentar, logo se seguiria o pântano que o levaria a abandonar o país. Seguir-se-ia Durão Barroso que, também sem maioria nas eleições, recorreria ao CDS de Portas para a assegurar no parlamento. Seria então Durão Barroso a abandonar o país, pelas razões conhecidas, deixando a Santana Lopes um poder que não conquistara. Falta de legitimidade, e não só – como se sabe -, levariam a nova interrupção da legislatura, que viria a abrir as portas a nova maioria absoluta. De Sócrates, que não soube o que fazer com ela e que, mesmo perdendo-a em 2009, nos trouxe até aqui: ao mais dramático momento da nossa História depois do Ultimato Britânico. E a umas eleições surrealistas que, quanto muito, decidirão quem chefiará o governo que executa o programa da Troika para os próximos 4 anos.

Não o programa que PS tirou da gaveta e mostra agora, a querer convencer-nos que aquilo é a sério – como se fosse possível, nesta altura, ver ali alguma coisa séria! Nem o que o PSD não teve tempo para preparar ao longo de todo este último ano e que o PS agora lhe reclama. É apenas o programa que a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI prepararam para nós, estão à beira de nos apresentar, e pelo qual, sensata e realisticamente, o PSD agora aguarda.

Parece-me que a decisão por eleições não foi a melhor. Mas, em democracia, dar a palavra ao povo nunca poderá ser uma má solução. Por isso vamos todos votar: é este o apelo que, ainda à distância de um mês – porque poderei não ter outra oportunidade –, aqui quero deixar!

 

* Publicado hoje no Jornal de Leiria

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