OS VENCEDORES
Por Eduardo Louro
Tinha prometido que falaria dos vencedores destas eleições começando precisamente por este dado esmagador: 80% dos eleitores portugueses que votaram fizeram-no nos partidos que se comprometeram com o memorando da troika internacional.
Este é, para mim, um dos resultados mais relevantes destas eleições. Pelo significado político que já tem e pelo que poderá vir a ter ao longo do desgastante e difícil ciclo que se aproxima e quando a rua pretender falar mais alto que o parlamento. E porque, quando tanto se fala de esgotamento do regime e mesmo no descrédito da classe política, o eleitorado votou maciçamente … no regime.
Este dado, conjugado com a consistente e coerente maioria resultante das eleições - afinal o mais relevante de todos –, faz do Presidente da República também vencedor destas eleições. A decisão de, perante o pedido de demissão do primeiro-ministro, dissolver a Assembleia da República e convocar eleições tinha os seus fantasmas. Bem agitados de resto durante toda a campanha, com aquela incompreensível persistência na teoria do empate técnico das sondagens.
Sem que neste momento discuta quem - nem como – a verdade é que logo que arrancou a pré-campanha se começou a querer fazer esquecer que o país vivia em crise política latente desde as eleições de 2009, suspenso de uma antecipação de eleições que tinha tanto de inevitável quanto de arma de ameaça política, que o governo - bem se percebeu - nunca descurou. Uma crise que há muito o país ansiava por resolver precisamente através de eleições. Por isso o Presidente é também um ganhador destas eleições: contra quem apostou em fazer crer que as eleições nada mudariam!
O CDS e Paulo Portas são também vencedores. Só por brincadeira é que, por ficar ligeiramente aquém dos objectivos que, naquela ânsia de crescer – ou de inchar, como aqui referi –, foram sendo lançados (a pouco mais de 1 ponto dos 14% dos votos e, com o mesmo número de deputados que o Bloco e o PC juntos, bem perto do objectivo de os superar), ou por aquela coisa disparatada de se autoproclamar candidato a primeiro-ministro (ainda por cima com a péssima encenação da Teresa Caeiro), alguém poderá dizer o contrário. Mas estas eram umas eleições de que o CDS só poseria sair a ganhar, como bem claro ficou desde sempre. Para Paulo Portas a campanha serviu apenas para tentar maximizar os proveitos!
E - os últimos são os primeiros – o PSD e em especial Pedro Passos Coelho! Que tem muito mérito numa vitória em toda a linha e que não era tão fácil quanto se quis fazer crer. Basta notar que nunca antes um primeiro-ministro eleito havia perdido eleições e que esta foi a vitória que, pela primeira vez, concretiza o velho (de mais de 30 anos) sonho de Francisco Sá Carneiro e talvez o sonho da sua vida: uma maioria, um governo e um presidente. Que tinha ajudado Mário Soares a criar o mito de que os portugueses não gostavam de pôr os ovos todos no mesmo cesto!
O PSD mudou de estratégia e mudou de discurso. E Pedro Passos Coelho fez o resto, com uma imagem de seriedade e de transparência mostrou-se-nos como um de nós: um homem normal, com uma vida normal, sem sofismas nem sofisticações, afável e educado. Sem nada na manga!
Na sua vitória houve hino nacional e no seu discurso há uma frase que não vamos esquecer: “… o meu compromisso com Portugal é de transparência total…”!
Quero acreditar que Portugal também saiu vencedor destas eleições. Não só porque permitiram ao país livrar-se de uma personalidade que se tinha já tornado num dos seus principais problemas, mas porque estão criadas condições para a estabilidade governativa, assim os dois partidos tenham a inteligência de se concentrarem no essencial. O que nem sequer é exigir de mais, porque o memorando da troika (se calhar teremos de lhe passar a chamar triunvirato, como Portas gosta mais) favorece entendimentos: está lá tudo o que estamos obrigados a fazer, não há muito para discutir.
Claro que o governo irá ser impopular - não é possível outra coisa - e que a rua se vai agitar. Umas vezes a propósito, justificadamente, e outras a completo despropósito. Mas há condições para que tenha a força política requerida para estas alturas, com um apoio largamente maioritário no parlamento e com uma oposição - a que se espera agora da nova liderança do PS que aí vier – comprometida com a missão patriótica a que este governo está obrigado.
Abre-se agora o processo negocial entre PSD e CDS. Seria bom começar por lhes recordar que não temos grandes tradições de sucesso nas coligações. Nunca em Portugal uma coligação cumpriu a legislatura. Mas também nunca um primeiro-ministro em exercício tinha perdido eleições! Acreditemos que estamos em tempos de mudança!