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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #80 MÍSTICA

Eduardo Louro

 

Mística – que aqui veio à baila no último número - é, talvez a par de sistema – que por aqui aparecerá numa das próximas edições - um dos conceitos do futebolês mais difícil de definir. Mas comecemos por tentar!

E comecemos por esclarecer que é uma palavra do género feminino: nada a ver, portanto, com místico. Não tem nada a ver com o sobrenatural, com qualquer aproximação a Deus. Embora tenha tudo a ver com aproximação, talvez o primeiro ponto de partida para perceber a mística. Também nada tem a ver com o sentido de fusão da alma com Deus, bem caro ao misticismo. Embora também tenha tudo a ver com fusão. Também e ainda nada tem a ver com a comunhão, esse ritual católico também envolto de misticismo. Embora também tenha tudo a ver com comunhão!

A mística é pois aproximação: aproximação a um ideal e a uma representação. E fusão: fusão de vontades e sentimentos. E comunhão de interesses, de objectivos, de sonhos e de ideais. É uma chama que alimenta paixões e se transforma numa força colectiva capaz de vencer dificuldades e barreiras. É um dínamo que carrega vontades e liberta sinergias capazes de fazer das fraquezas forças! A mística é a força que vem não se sabe bem de onde mas que enfrenta a adversidade com tal determinação que tudo supera. É uma cultura e uma crença, ou se calhar uma cultura de crença!

A mística amamenta vitórias - e por isso é tão reclamada – mas também se alimenta delas. Sem vitórias morre!

Foi o que aconteceu no Benfica (salvou-se o nome, aproveitado para uma linda revista) - a casa onde nasceu e que fez sua durante décadas – e pluribuns unum – desapareceu! Não que tenha morrido, mas vegeta em estado de coma há longos anos! Alguns dizem que desde aquela fatídica e longínqua assembleia-geral que pôs fim ao exclusivo lusitano na equipa.

Todos percebemos hoje que aquela decisão de abrir a equipa a estrangeiros seria incontornável. Naquela altura ou alguns (poucos) anos depois, mas ainda bem antes da chamada lei Bosman dos anos noventa. Mas lembrarmo-nos hoje que o primeiro estrangeiro do Benfica, logo a seguir a essa assembleia-geral, foi um tal Jorge Gomes – um brasileiro que jogava no Boavista – ajuda-nos a perceber a realidade actual do Benfica, que apresenta, com cada vez mais frequência, equipas sem um único português. E, logicamente, sem um único representante na selecção nacional!

A mística cultiva-se e passa de geração em geração, pela mão dos mais velhos e dos mais carismáticos, como o facho olímpico. No Benfica teima-se em não preservar gente para transportar a mística, para a levar, como o facho olímpico, até à mão seguinte como numa estafeta. Sem jogadores portugueses não há quem a transporte. Com as dezenas de jogadores estrangeiros que todos os anos chegam ao Benfica não há sequer quem a receba!

É neste quadro que assistimos a este degradante episódio do Nuno Gomes: o jogador que ainda segurava um facho - já com pouca chama, é certo – um dos poucos portugueses, com 12 anos de casa e o último jogador símbolo do Benfica. Que entende que tem condições para, aos 35 anos, jogar mais uma época, o que gostaria de fazer na equipa do clube da sua vida. E que - números são números – nas escassas oportunidades que Jorge Jesus lhe deu na época passada foi o mais produtivo jogador da equipa!

É grave que o treinador do Benfica não faça ideia do que é isso da mística e que, por essa ignorância, nem se farte de trazer dezenas de sul-americanos e espanhóis nem se incomode em expulsar Nuno Gomes do Benfica. Mais grave é que o deixem fazer isso, que alinhem nessa loucura de alimentar as filas de chegadas ao aeroporto (agora alguns até ficam detidos no SEF) e que, já que não o possam obrigar a incluir Nuno Gomes no plantel, não saibam tratar do assunto com a dignidade e o profissionalismo exigíveis. A gestão do Benfica não só não soube contrariar a insensata decisão do seu treinador como não soube geri-la. E, com isso, deu o último golpe na moribunda mística benfiquista. A mensagem que ficou para todos os jogadores foi clara: vejam o exemplo do Nuno, o capitão com 12 anos a viver, a sentir e a comungar e partilhar os sonhos e os ideais do Benfica, vejam o que lhe fizemos. É isso que vos está reservado!

Depois admiram-se de haver jogadores que preferem outro destino. E fecham os olhos e tapam os ouvidos quando jogadores que saíram desse outro e outrora destino falam da mística que por lá reina!

Mas isso da mística não interessa nada. O que importa é Artur Morais, Daniel Wass, Leo Kanu, Enzo Perez, Nemanja Matic, Bruno César, Nuno Coelho, Nolito, Rodrigo Mora, Tiago Terroso, André Almeida, Urretavizcaya, Miguel Rosa, Nelson Oliveira, David Simão, Rodrigo, Garay, Dedé, Ansaldi, Lorenzo Melgarejo (o tal que ficou retido no SEF, porque pensava que vinha de férias, e que diz que vem substituir Cardoso, que não sabe que vai embora), Danilo... Ufa!

É isto que, pelos vistos, faz a felicidade de Jesus. Espero que o fantasma de Nuno Gomes não o persiga toda a época… Se der para tanto!

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