Sem surpresa, António José Seguro acaba de ser eleito Presidente da República. Sem grande surpresa, com uma votação muito expressiva, à volta dos 70%. Com alguma surpresa, mas ainda assim nem muita, os portugueses acorreram massivamente às urnas. A abstenção, no território nacional, que é o que conta nas actuais circunstâncias, quando delas quiseram fazer valer o (legalmente impossível, mas tentado justamente para abrir brechas no cumprimento da legalidade) adiamento das eleições, foi baixa, provavelmente abaixo dos 40%.
André Ventura, e tudo o que representa, foi claramente rejeitado. Manteve o seu eleitorado, como era esperado e natural. Mas não o alargou, e não ganhou legitimidade para a liderança da direita que tanto reclama.
Enquanto a PaF completa e sem excepções - sim, é como uma praga, subsiste mesmo depois de declarada extinta - com Cristas na crista da onda, lançava apelos lancinantes (inclusivamente a partir do Parlamento Europeu, com Paulo Rangel a ultrapassar todos os limites), à Comissão Europeia para que vergasse o governo português ao chumbo do Orçamento, Paulo Portas pedia "a Bruxelas que não fosse intransigente com Portugal". Em privado, baixinho não fosse alguém ouvir...
Uma coisa é os blogues desaparecerem por cansaço, por terem ficado fora de moda, ou até por despejo, porque as plataformas que os alojaram terem decidido que não estavam mais para isso, como sucedeu no Sapo, que vai despejar todos os seus inquilinos, a grande maioria, entre eles este humilde Quinta Emenda, desde os primórdios da blogosfera. Outra, bem diferente, é desaparecer quem lhes deu vida e alma.
Sendo o primeiro a entrar em cena, ou o último, sempre a mesma resposta. A pressão é apenas a de jogar bem e ganhar. De ganhar bem, por muitos... Categoricamente, sem qualquer sombra de dúvidas. Sem penaltis, nem cotoveladas, nem Tonel... Com tranquilidade, sem confusões no banco. Com árbitros, árbitros assistentes e quartos árbitros em paz... Por três, quatro, cinco ou seis. Jogo após jogo.
É isto, este Benfica. Uma máquina de jogar bom futebol e de marcar golos. Que pega no jogo logo que a bola sai do centro do campo, tocada pela primeira vez, e empurra o adversário lá para trás, encosta-o às cordas e sufoca-o até que comece a cometer erros. Uma espécie de semear terror para colher medos, numa fantástica história cantada numa bela peça de ópera.
Olhando para trás, e apenas para os últimos seis anos, que guardam o melhor da História do Benfica do último quarto de século, e imaginarmos qualquer dessas equipas sem Luisão, Gaitan, Salvio e Maxi (era o que havia, não havia Nelson Semedo). Sem o trinco, fosse lá quem fosse. Sem capitão. Tudo ao mesmo tempo, seria imaginar um cenário de terror. Neste Benfica é apenas mais uma etapa de crescimento, uma oportunidade a dar a novos jogadores, a forma de atingir novos patamares de exigência... Em qualquer desses gloriosos anos, com dois dos três centrais lesionados, recorrer-se-ia sempre a outro dos consagrados. Geralmente recuava o trinco: lembramo-nos de Katsouranis, de Javi e de Fejsa. Neste Benfica, vai-se procurar outro central, tenha lá a idade que tiver. E a experiência que tiver...
Isto, meus amigos, isto é de treinador. Este Benfica, é este Benfica por ser o deste treinador. É mérito indiscutível de Rui Vitória que, à medida que foi - também ele - ganhando confiança, se libertou de tudo o que o peava e se soltou de todas as amarras. Internas e externas!
A propósito: alguém imaginou ver este Mitroglou? Ficou-lhe mesmo bem, este hat-trick do Restelo...
Passa já uma semana sobre uma das maiores catástrofes climatéricas que se abateu sobre o país, na tempestade a que deram o nome de Kristin - que sucedeu à Ingrid e à Joseph -, e estamos já no meio de outra, a Leonardo. Ainda não é a distância para se lhe escrever a História, mas já dá para para muita história.
Tudo começou com um "sms" banal - "vento intenso, fique atento, siga as recomendações" -, a que foi dada exactamente a importância das coisas banais - nenhuma. O "sms" era dirigido à população em geral que, ao não lhe ligar coisa nenhuma, foi apanhada desprevenida.
Já isso foi mau. Pior é que o Governo, a Protecção Civil, e os Autarcas não estavam mais prevenidos. Se os estivessem nem o "sms" teria sido aquele.
O primeiro-ministro preocupa-se com imigrantes, segurança e impostos. Está cá "para resolver os problemas das pessoas", desde que não decorram de catástrofes, bem entendido, e para a evangélica missão de levar os portugueses à "superação", sob a inspiração de CR7. As questões climáticas, de que já ouviu vagamente falar, ficam para os activistas.
A Protecção Civil é o brinquedo que os Governos preservam religiosamente para os seus boys. Cada vez que o brinquedo muda de mãos, chamam-lhe reestruturação. Como os boys são muitos, muda muitas vezes. Está em permanente reestruturação, e não pode estar preparada para muito mais que emitir um "sms" manhoso.
O governo não foi apanhado de calças na mão. Foi apanhado nu, e assim vai ficar.
Maria Lúcia Amaral, a ministra (zombie) da Administração Interna será para sempre o rosto da barata tonta que nos surgiu em forma de governo. Depois de dias de desaparecimento, apareceu-nos a dizer que vinha de um "estado invisível", sem saber o que tinha falhado, para entrar definitivamente no anedotário nacional com a "cena" da "aprendizagem colectiva".
António Leitão Amaro, o ministro da Presidência, não lhe quis ficar atrás, e acentuou a imagem de indigência do governo, naquele vídeo a auto-promover-se, cheio de si, no meio da tragédia.
Seguiu-se Nuno Melo, o Ministro da Defesa, como se de um desfile se tratasse. As Forças Armadas não foram tidas nem achadas na prevenção, nem na intervenção no cenário de crise. Mas o ministro apareceu a mostrar-se ao lado de um mini-contigente militar, num terreno que nada tinha a ver com qualquer cenário de crise. Garantida a fotografia, logo que o contingente de jornalistas e repórteres destroçou, o ministro desapareceu. O ministro e os militares, que ninguém viu mais por ali, porventura mobilizados para a festa de aniversário que um sargento, na missão de sacrifício que tanto sensibilizou o ministro, havia trocado por tão imperativo sentido patriótico.
Manuel Castro Almeida, o Ministro da Economia, e dos fundos europeus, também quis dar o seu contributo. Falou das ajudas às pessoas - do pacote de 2,5 mil milhões para acudir a famílias, empresas e autarquias que, após uns dias a patinar, e depois de ligar para Bruxelas, Montenegro anunciara -, que estariam disponíveis lá para o final do mês. Até lá as famílias têm o “ordenado do mês passado", ainda fresquinho.
Também Luís Montenegro se quis associar à realidade alternativa que os seus ministros apresentaram ao país: não houve mortes, houve apenas pessoas "que não evitaram a trágica consequência de perder a vida".
Uma tragédia dentro da tragédia. Dentro de muitas tragédias ...
Da tragédia do Siresp, a rede de comunicações de emergência do Estado que soma tragédias a cada tragédia. Da tragédia do falhanço completo dos monopólios e oligopólios da electricidade e das comunicações, magras no investimento e gordas nos resultados e nos dividendos. Da tragédia do abandono do interior, mais gritante a cada tragédia. Da trágica ideia de um Estado que falha sempre que não pode falhar.
Só faltava que, com tanta tragédia, tão à flor da pele, as eleições do próximo domingo revelassem mais uma - a tragédia de um povo definitivamente vencido pela descrença e pelo obscurantismo
Percebeu-se que algum travão foi posto nas intenções mais agressivas que osmangas de alpaca de Bruxelas apontavam ao Orçamento de Estado, que hoje lhes será entregue. Diz quem sabe que António Costa fez uma espécie detrade off, com um ligeiro e bem burilado fundo de ameaça. Em bom português seria mais ou menos assim: se chateiam muitolixo-vosesse negócio com os ingleses. E siga para Brexit. Não exactamente neste bom e escorreito português, mas na mais arrevesada e conveniente linguagem diplomática.
Entre quem sabe - e quem o diz - está Wolfgang Münchau, o influente jornalista de negócios alemão, que aplaude a forma discreta e eficaz como António Costa soube diplomaticamente mostrar a força que, em determinadas conjunturas, se tem. E acrescenta mesmo que estranho é que os países da Europa do Sul tenham demorado tanto em "defender os seus próprios interesses."
É hoje aprovado em conselho de ministros o Orçamento de Estado para 2016, o prato principal do menu da direita ressabiada na últimas semanas. Fizeram de tudo: arrasar tudo o que fossem medidas ou contas, liquidar a credibilidade de tudo e de todos, e até anunciaram o colapso eminente de Portugal, geneticamente transformado em Grécia.
Hoje é aprovado - e dada a devida nota de tranquilidade ao ainda Presidente da República - e amanhã será entregue em Bruxelas. Depois, os jornais, jornalistas e comentadores que têm vivido disto, e para isto, vão de férias por uns dias.
De todo este frenesim, assentada a poeira, ficam a calma e o saber de António Costa, e mais uns impostos para pagar. Desta vez sobre o consumo, que dói menos. Mas dói...
Sobre os combustíveis e sobre os automóveis. Quer dizer, sobre quem usa o automóvel, que somos quase todos. Sobre o tabaco, que não somos quase todos, mas também parece que não somos cada vez menos. Sobre o crédito ao consumo, onde voltamos a ser cada vez mais.
Também toca à banca, como é de bom tom, mas nem assim deixa de nos tocar a nós. Desses nunca nos livramos, repercutem-nos tudo menos os lucros... E chega-se finalmente aos fundos imobiliários, que deixam de estar isentos de IMI. Ao contrário da Igreja, que continua.
Nunca comem todos. A moralidade anda pelas ruas da amargura...
E por isso as rendas da energia, agora entregues mensalmente aos chineses, continuam intactas. Limpinhas... Poupada é também a grande distribuição, que até o pouco que paga vai pagar à Holanda. Também não adiantaria muito, voltariamos a ser nós a pagar: ou como consumidores, ou como produtores!
Ao mesmo tempo que, pela calada da noite - perdão: pelo meio do ruído da campanha eleitoral, no Verão - triplicava o vencimento dos gestores do orgão regulador da navegação aérea, que teria de dar parecer positivo à privatização da TAP, o governo de Passos Coelho vendia a Efisa por 38 milhões de euros, depois de lhe entregar 90 milhões para aumento de capital.
No meio do barulho eleitoral, enquanto anunciava a devolução da sobretaxa, o crescimento imparável da economia e do emprego, e anunciava o fim dos cortes extraordinários, que em Bruxelas garantia serem estruturais, o governo de Passos, Portas e Maria Luís entregava 52 milhões de euros a Miguel Relvas para este lhefazer o favorde ficar com o antigo banco de investimentos do BPN.
Todos os governos têm o seu elo mais fraco, que rapidamente se transforma em vítima de uma espécie debullying. É como quesagrado: se não há um gordo - escanzelado também serve - de óculos de fundo de garrafa, que salta logo à vista, a escolha da vítima não perde por isso. De resto, se não há estereótipo tanto melhor - assim escolhe-se quem mais interessa. Normalmente onde dói mais. Ou onde julgam que provoca mais dor...
Este governo já tem o seu elo mais fraco. Já está escolhido: Mário Centeno, evidentemente!
E a partir daí pouco importa se um dos que maismolha a sopaé até um caixa de óculos baixinho e gordinho... Que é como quem diz:o gajo menos credenciado para a vil tarefa!
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