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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Valeu o resultado

 

Não foi muito diferente o Benfica que hoje se apresentou hoje no Estádio Olímpico de Roma, onde estranhamente - se é que nestes intermináveis tempos da pandemia ainda há coisas para estranhar, em particular no futebol - para disputar o jogo que lhe cabia na condição de visitado, na disputa com o Arsenal pelo acesso aos oitavos de final da Liga Europa. Na realidade o Benfica não dá para mais e, nestas circunstâncias, o que se passou em Toma nem sequer foi das piores coisas que têm acontecido nos últimos (largos) tempos.
 
Quando digo que não foi diferente refiro-me naturalmente ao desempenho da equipa e, em particular, à qualidade do seu jogo. Porque o onze, e a sua disposição em campo, foi diferente. Dssde logo porque se apresentou com três centrais, desta vez a sério, e com a estreia do sebastiânico Lucas Veríssimo. E depois porque jogou sem alas. As faixas laterais seriam teoricamente ocupadas pelos laterais, o Diogo na direita e o Grimaldo na esquerda, para justificar aquela opção táctica pelos três centrais. No meio campo não houve grandes alterações, com Weigl ao lado Taarabt, e Pizzi na ligação à frente, onde reapareceu a dupla Darwin e Waldschemidt.
 
As coisas não começaram a correr muito bem, e percebeu-se facilmente que aquilo não estava trabalhado. E, pior, que os jogadores não conviviam lá muito confortavelmente com o sistema. Mas como a primeira parte foi morna, e na única grande oportunidade, Aubameyang falhou o golo, a equipa lá se foi aguentando.
 
A segunda parte foi mais mexida, e só por isso um bocadinho mais entusiasmante. E cedo, dez minutos depois do regresso dos balneários, chegou ao golo e à vantagem. Não porque, em boa verdade, a justificasse, mas porque felizmente as leis da UEFA não são as da Liga Portuguesa, e lá não é proibido assinalar penaltis a favor do Benfica. Isso. Penalti, Pizzi e golo.
 
O jogo estava então mais equilibrado e poderia admitir-se que, em vantagem, os jogadores do Benfica pudessem reforçar a confiança, e abrirem-se novas perspectivas à equipa. Só que a vantagem durou dois minutos, menos tempo que o necessário para discorrer aquele raciocínio. Envolvimento atacante do Arsenal em cima da área, como em tantas vezes durante o jogo e defesa do Benfica atrapalhada. Pizzi tira a bola mas ela vai bater em Weigl, e ressalta para um adversário, que noutra circunstância até estaria em fora de jogo, cruzamento (de Cedric) para a área, com toda a defesa do Benfica batida, e golo fácil do miúdo Saka.
 
O Benfica ainda conseguiu duas boas oportunidades de golo, numa boa jogada de Rafa (entrara ao intervalo) que a conclui com um excelente remate de trivela. Leno negou o golo. E à entrada do último quarto de hora, dessa vez com o remate de Everton a sair perto do poste, com Leno batido. Mas o Arsenal esteve sempre mais por cima, e criou mais oportunidades.
 
À medida que o jogo se aproximava do fim os jogadores do Benfica iam rebentando, uns atrás dos outros. Valeu o resultado, que não é bom. E valeu que o Arsenal achou que o resultado não estava mal de todo. E que também já não podia muito mais!

A janela

Jorge Jesus:

Cada sinal de melhorias já só serve para aumentar a desilusão. Sempre que se lhe abre uma janela, o Benfica fica sem saber o que fazer.
 
O jogo de hoje em Moreira de Cónegos abria uma janela de oportunidade, não para o relançamento da luta pelo título,  que sobre isso já não há ilusões, mas para a discussão do segundo lugar, que sendo sempre o primeiro dos últimos, dá acesso à Champions. A equipa do Benfica olhou para essa janela e só viu que era uma oportunidade para para se mandar dela abaixo.
 
A equipa surgiu com a surpresa de Helton na baliza, e sem a surpresa de Pizzi no banco. Sem nunca chegar a um nível exibicional que confirmasse as melhorias anunciadas, o Benfica entrou no jogo dando sinal de queria ganhar e aproveitar a janela que se abrira com mais um empate do Porto, na véspera. E para se manter agarrada ao Braga, que ganhara nos Açores, no terceiro lugar. Não jogou propriamente mal, e criou algumas oportunidades de golo, perante um adversário que só defendia em cima da sua baliza.
 
Chegou ao golo aos 25 minutos (Seferovic), quando já o justificava. Continuou a dominar o jogo e o adversário, e poderia ter ampliado o marcador. Não o fez e, em cima do intervalo, aconteceu o que tem sido costume: na primeira vez que o Moreirense chegou à área do Benfica fez golo. Na história desse golo não entra apenas o minuto, o marcador, e o facto de ter sido a primeira chegada da equipa minhota à área adversária.
 
Tem mais história. Começa num lançamento longo para o ponta de lança do Moreirense, sobre a esquerda. Que à vista desarmada estava em claríssimo fora de jogo. Recebeu a bola, fez uma humilhante cueca ao Grimaldo que, quando meio atordoado ainda tentou recuperar a posição, ficou com os braços nas costas do jogador do Moreirense. Que não se fez rogado e caiu bem dentro da área. Penalti!
 
Penalti claro, sem quaisquer dúvidas. Penalti, essa coisa que, ao que se vai vendo, terá de constar de uma qualquer alínea de um qualquer artigo dos regulamentos da Liga proibindo-o sempre que a favor do Benfica.
 
A mão de Grimaldo nas costas do avançado do Moreirense teve intensidade suficiente para o derrubar? Não interessa, a intensidade não se discute. Estava fora de jogo, como as imagens que víamos mostravam claramente? Não, mostraram-nos as imagens do VAR. Estava - não 10 ou 11 - por 46 centímetros em jogo!
 
E lá foi o jogo para intervalo, com 1-1 no marcador.
 
Na segunda parte o jogo foi substancialmente diferente, e acima de tudo muito mais mal jogado. Teve largos momentos, em especial entre os  mais próprios de 60 e os 80 minutos, um "casados-solteiros" do que um jogo de  futebol do sexto mais importante campeonato da Europa. O Moreirense subiu no terreno, e disputou mais o jogo em todos os metros quadrados do terreno. E o Benfica foi cada vez mais caindo na mediocridade habitual do seu futebol, agravando-se com o estoiro físico da maioria dos jogadores. 
 
Mas teve mais histórias. Aos 60 minutos Vertonghen foi carregado dentro da área do Moreirense. Penalti? Não! Para além de estar proibido na tal alínea do tal artigo dos regulamentos da Liga, também aquilo não é falta. Só que minutos depois - que azar! - o Taarabt faz exactamente aquilo a meio do campo e... falta. Já ontem no Dragão víramos o mesmo: uma carga nas costas de um jogador do Boavista dentro da área do Porto, não foi falta. Poucos minutos depois, uma carga igual sobre Corona, a meio do meio campo de ataque portista, já foi falta.
 
Dois minutos depois, o árbitro Manuel Oliveira assinalou penalti, por falta sobre Weigl. Não podia ser, isso é contra os regulamentos da Liga. Mas víamos as imagens, e não tínhamos dúvidas: o defesa do Moreirense empurrou Weigl, mas sem intensidade. A tal. De tal forma que o jogador do Benfica não caiu, como tinha caído o do Moreirense. Desequilibrou-se, apenas. Continuamos a ver as imagens e vemos que acaba por cair, quando leva um toque no pé esquerdo, o que antes o mantinha de pé.
 
Nunca mais vimos essa imagem, a Sport TV fez o favor de não o voltar a mostrar. O VAR chama Manuel Oliveira para ir ver as imagens que tinha para lhe mostrar. E mostrou, só não mostrou a do toque no pé esquerdo do alemão do Benfica. Manuel Oliveira não teve dúvidas que o Weigl o quis enganar, reverteu a decisão do penalti e mostrou-lhe o cartão amarelo, quando o enganador era o VAR. E agora volto ao fora de jogo no lance do penalti que deu o empate ao Moreirense. Depois de ver esta falta de escrúpulo do VAR na manipulação de imagens, nunca mais acredito nas linhas de fora de jogo que nos impingem. E fiquei sem qualquer dúvida que aqueles 46 centímetros com que este VAR validou aquele penalti são uma das mais evidentes mentiras do VAR.
 
E lá seguiu tranquilo. Daí até ao fim foi o resto do calvário que é esta equipa do Benfica atravessa. Podia ter chegado ao golo da vitória, aos 79 minutos, na única jogada de futebol digna desse nome na última meia hora do jogo, concluída com uma excelente cabeçada de Darwin. Que o guarda-redes do Moreirense, evitou com uma defesa incrível. 
 
Os últimos minutos foram apenas penosos, com os jogadores do Benfica de rastos. Já só iam, nunca mais vinham. E o Moreirense só não acabou por ganhar o jogo porque não calhou. 
 
E no entanto Jorge Jesus achou que a equipa fez um grande jogo. O que torna tudo ainda mais preocupante. 
 
O Benfica podia, e devia, ter vencido o jogo. A arbitragem foi o que foi - imagine-se o que por aí iria se o que se passou se tivesse passado com outros -, o erro de Grimaldo é inaceitável, e sabe-se que a equipa não tem condição mental para tanta contrariedade. Posso admitir que, sem o erro de Grimaldo, e sem os erros da arbitragem, tudo poderia ter sido diferente. Mas isso não esconde o estado lastimável deste Benfica, nem a realidade de um Jorge Jesus definitivamente fora de prazo de validade.
 
A janela não serve só para nos mandarmos dela abaixo. Também serve para dizer adeus!

 

Melhoras que revelam doença

 

É um Benfica em crescendo, este que hoje se apresentou na Amoreira, para dar início à discussão com o Estoril do acesso à final do Jamor. Notam-se - notaram-se - algumas melhoras, mas também se nota que permanecem os pecados capitais do seu futebol. 

Claro que quando a equipa está mal, quando defende mal, quando os jogadores jogam devagar, devagarinho e parados, quando falham passes e recepções, acaba por não revelar tão flagrantemente esses pecados. O que salta aos olhos é a falta de movimentação, a apatia, os erros grosseiros e a descrença. Só quando essas limitações desaparecem é que podemos ver então o resto, aquilo que é mais estrutural no futebol de Jorge Jesus.

Os jogadores não são tão maus como se pinta, e é normal que, contra equipas como esta do Estoril - o tomba-gigantes desta Taça, que se bateu muito bem, que sabe defender como a maioria das equipas da primeira liga e que sai em transições melhor que muitas dessas -, estando a um nível físico, técnico e mental aceitável, a sua valia venha ao de cima. Às vezes podem até dar a ideia que estão a fazer uma bela exibição.

O jogo de hoje no Estoril retrata bem aquilo que quero dizer. 

Comecemos pela entrada no jogo. Nos primeiros dez minutos a bola esteve na posse dos jogadores do Benfica perto de nove. Perto dos 90% a posse de bola. Os jogadores passaram e receberam bem a bola e ela circulava entre eles. Mas nem um remate, o primeiro do jogo foi do Estoril que, nesse período, tiveram a bola cerca de um minuto. Que lhes deu para a recuperar duas ou três vezes e ainda para fazer um remate. Nesse mesmo período o Benfica até criou uma oportunidade clara de golo, quando Darwin surgiu isolado frente ao guarda-redes adversário e tentou passá-lo, para entrar com a bola pela baliza dentro.

Não foi muito diferente o resto da primeira parte. Remates, só de Rafa, hoje claramente infeliz nesse capítulo. Na única vez que acertou na baliza, já na fim do primeiro quarto de hora da segunda parte, o golo foi anulado, por fora de jogo. Que não pareceu nada, e que mais dúvidas deixou quando as famigeradas linhas deram por 10 centímetros um fora de jogo que o fiscal de linha tinha assinalado com convicção só comparável ao que pareceu ser o erro.

Um futebol que até poderia ter parecido bonito em alguns momentos, mas confrangedoramente estéril. E repetitivo, de passe para o lado e para trás, uma e outra vez, sucessivamente. Alas que em vez de irem à linha de fundo, para abrir espaços, fogem para o meio, onde não os há. Quando lá chegam, ou perdem a bola ou voltam com ela para trás.

Se tinha sido o primeiro a rematar, não admiraria que o Estoril fosse também o primeiro a marcar, precisamente a meio da primeira parte. Bastou-lhe chegar uma vez à área do Benfica, numa jogada, de resto, muito bem concebida. Jorge Jesus chama-lhe azar. Pode até ser, mas aquele futebol é muito propício a azares.

Aí já Rafa rematava. A rasar o poste e à barra. 

O golo intranquilizou os jogadores do Benfica, que pareciam voltar a entrar na espiral de desacerto que parecia ter ficado para trás. Salvaram-se por pouco. Só nos últimos cinco minutos da primeira parte a equipa voltou a mostrar que aparentava melhoras. Primeiro foi Pizzi, com um grande remate à engrada da área, a estar perto do golo. Logo a seguir foi o guarda-redes do Estoril a negar o golo de Darwin. Que finalmente marcou, empatando o jogo, já em cima do minuto 45. 

Na segunda parte o jogo foi mais rasgadinho, e também mais repartido. E começaram as mexidas nas duas equipas que, para o lado benfiquista, desta vez até correram bem, com destaque para Taarabt, Seferovic e Weigl, bem melhores que Gabriel, Pedrinho e Everton, que teimam em desiludir. Para além de refrescarem a equipa.  Poucos minutos depois de entrar em campo Seferovic rematou ao poste, e outros tantos depois, marcou, consumando a reviravolta.

O Estoril subiu no terreno, e passou a deixar mais espaços na suas costas. Os sinais de melhoras também vêm do terceiro golo, com Taarabt justamente a aproveitar esse espaço numa transição rápida, como há muito se não via, para assistir Darwin. A bisar.

O caminho para o Jamor está aberto. Para melhores exibições, também parece. Para o sucesso é que é preciso mais. 

 

 

Sacudir culpas

O Benfica ganhou, finalmente. Depois de quatro jogos sem ganhar, que valeram o afastamento da luta pelo título, ganhou. Ao Famalicão, penúltimo classificado, com a pior defesa do campeonato.

Ganhou, mas não foi melhor do que tem sido. Não ganhou por ter sido melhor do que tem sido; ganhou por ter tido a pontinha de sorte que lhe tem faltado. Ganhou porque nos dois primeiros ataques fez três remates e dois golos, o segundo na recarga ao segundo remate, depois de uma grande defesa do guarda-redes do Famalicão. Tudo isto com pouco mais de um minuto de jogo jogado.

Aos seis minutos o Benfica ganhava por dois a zero, mas cinco desses seis minutos foram gastos pelo VAR a validar os golos. Nunca me tinha passado pela cabeça que o VAR também pudesse servir para isso, para uma espécie de pausa técnica a que os treinadores do futebol não podem recorrer. O que pareceu foi que Hugo Miguel, um árbitro com currículo, quis quebrar a avalanche do Benfica e dar oxigénio ao Famalicão.

Não se sabe o que teria acontecido se com aqueles dois golos tivesse acontecido o que seria normal acontecer - bola ao centro, e segue jogo. Sabe-se o que aconteceu. E o que aconteceu foi que os golos não empolgaram os jogadores. Fosse pelo gelo que VAR lhes despejou em cima, fosse porque já nada os empolga.

Porque o jogo acabou por ser o que foi, e não o que eventualmente poderia ter sido sem o saco de gelo despejado pelo VAR, acabam por não ficar grandes dúvidas que o Benfica ganhou porque teve a sorte que não tem tido. Desde logo a sorte de fazer os dois golos do jogo nos três primeiros remates. Ou, na prática, nos dois primeiros remates, dos dois primeiros ataques, nos dois primeiros minutos de jogo jogado.

Mas também porque, depois, a equipa voltou a cair na mediocridade do seu futebol, onde se foi afundando à medida que o tempo ia passando. Passes falhados, incapacidade de ligar as jogadas, perdas de bola, faltas...

Foi sendo assim, e foi mais gritantemente assim na segunda parte. O Famalicão começou a subir no terreno e a discutir o jogo a partir dos vinte minutos no relógio do jogo, e na segunda parte passou mesmo a estar por cima do jogo. E foi então, como já tinha sido nos últimos jogos, que se viu a mediocridade do futebol desta equipa do Benfica. 

Jogando no campo todo, o Famalicão - penúltimo classificado e a pior defesa do campeonato, repito - deixava espaço para os jogadores do Benfica imporem a sua suposta superioridade técnica. Mas o que se viu foi uma completa incapacidade para aproveitar esses espaços, falhando sucessivamente as transições ofensivas. Uma, apenas uma, foi concluída. Mas mais valia que o não tivesse sido - Darwin, numa chocante falta de classe (ou será apenas de confiança?), a dois metros da baliza, completamente escancarada, atirou para as nuvens.

E só não foi a única oportunidade de golo do Benfica na segunda parte porque, já mesmo no fim, o guarda-redes famalicense fez uma grande defesa, a remate de Everton. O cheiro a golo morou sempre na baliza de Vlachodimos, onde o golo não surgiu porque - lá está - a sorte desta vez, ao contrário das outras, não virou costas. Foram cinco as oportunidades que o Famalicão construiu. Quatro na segunda parte. A primeira tinha levado a bola ao poste, ainda antes da meia hora de jogo. 

Cinco oportunidades. Cinco! Ainda se não tinha visto tal coisa na Luz . 

Jorge Jesus resume tudo isto ao covid. Claro que não se pode ignorar o seu efeito devastador na equipa. E menos se pode ignorar que aconteceu, e a dimensão com que aconteceu, depois do jogo no Dragão. É um facto, e factos são factos. Não se pode é justificar o estado a que o futebol do Benfica chegou dessa maneira, até porque o eclipse da equipa já vinha de trás.

Já Otamendi, o capitão e que até marcou hoje o seu primeiro golo de águia ao peito, tem outra opinião. E falou de compromisso, de empenho e de partir para outra, mudar de rumo.

Não, mister. Não é tudo culpa da covid. A catástrofe que se abateu dobre o Benfica é mais da sua responsabilidade do que da covid. E mais ainda de Vieira e de Rui Costa do que sua.

Ontem estava a ver o banho de bola do City ao Liverpool e, extasiado com a classe de João Cancelo e Bernardo Silva, com a imponência de Rúben Dias e com a categoria e segurança de Ederson, via que, ali, numa das duas ou três melhores equipas do mundo, estavam quatro que saíram do Seixal. Quase meia equipa. Daí o pensamento saltou-me para a selecção nacional, e numa das melhores selecções do mundo, conto mais três ou quatro - João Felix, Gonçalo Guedes, Nelson Semedo, André Gomes... Espreitou para grandes equipas europeias - nisto do futebol a Europa é o mundo, o resto é paisagem - e lá estavam Oblak, Witsel, Cristante, Lindelof, Matic, Raúl Jimenez, Di Maria...

Só aqui estão quinze. só nos últimos anos. Dir-me-ão: pois, mas era impossível segurá-los. Não seria possível segurá-los todos, admito, mas não era impossível segurar boa parte deles. Não ter jogadores deste nível, nem os largos  milhares de milhões de euros que eles renderam, é que não deveria ser possível. Mas é a realidade.

Pior só olhar para essa realidade e perceber que disso já não há mais. Já não há no Seixal, nem há já departamento de scouting para os ir buscar fora. 

Sim, é esta a obra feita de Vieira. É este o legado de Vieira, Rui Costa, Jesus e Jorge Mendes... Sem jogadores, sem dinheiro, sem rumo. E sem honra!

Já não há toalha

O Benfica encerrou a primeira volta do campeonato com mais um desaire. Coisa assim já não se via há vinte anos, no 2001 da  pior classificação de sempre. Coisa assim, no ano de maior investimento de sempre, que Luís Filipe Vieira anunciara ser o da conquista da Europa, e Jorge Jesus de arrasar, nunca se tinha visto.

Fechava o calendário com a recepção ao Vitória, de Guimarães - que o outro já foi -, depois da derrota de Alvalade e do empate do Porto, na véspera, no Jamor com a equipa do B SAD, de Petit. E depois de Rui Costa, sem mais nada para dizer, se limitar pateticamente a proclamar que ninguém atirava a toalha ao chão. Quando já nem toalha há. Não podia passar pela cabeça de ninguém outra coisa que não fosse ganhar este jogo. Não havia espaço para outro resultado que não fosse a vitória, depois de quatro ou cinco jogos sem saber o que era isso. Só assim poderia amenizar a diferença para o Porto, manter o Braga à vista e, pelo menos, manter aberta uma engra da porta de acesso à Champions da próxima época.

O que se começou a ver com o arranque do jogo parecia indicar que a equipa estava consciente disso. Que queria e podia cumprir com essa tarefa. Mas rapidamente se percebeu que aquele futebol era como uma linda e vistosa vinha, cheia de parras viçosas, mas com muito poucas uvas. Para logo se conferir que aquelas poucas uvas não tinham sequer sumo.

Foi essa a imagem do futebol do Benfica da primeira parte. E não demorou a perceber que bonito aspecto da vinha nem sequer resultava do tratamento dos seus dirigentes, técnicos ou jogadores. A vinha parecia assim, bonita, apenas porque o adversário deixava que fosse assim. O Vitória chegou à Luz de autocarro - naturalmente - mas não o deixou na garagem. Levou-o para o campo. 

Acantonou-se na sua área defensiva e de lá não saiu. Deixou mais de 75 metros do comprimento do campo para os jogadores do Benfica, e fixou-se nos últimos 30. Foi isso que criou a ilusão da vinha bonita, que por baixo daquela parra havia de estar uvas, e uvas bem sumarentas e doces, capazes de dar bom vinho.

O Benfica fez quinze remates. Mais, só nos jogos, também na Luz, com o Tondela e com o Moreirense,  no único bom jogo desta época na Catedral. Mas, claras oportunidades de golo, nada... Uma, dizem as estatísticas do jogo.

Na segunda parte o treinador do Vitória achou por bem adiantar a equipa, e arriscar em dividir um pouco o jogo. E logo se viu claramente que o futebol do Benfica era só parra. Nem uvas tinha. E não foi por o adversário não deixar. Pelo contrário, com os jogadores mais adiantados, e a pressionarem mais a saída de bola, deixavam espaço para os jogadores do Benfica jogarem à bola. Se pudessem. Ou - sei lá - se soubessem...

Mas nada. Só que um nada mais incompreensível ainda. É que não marcar, e nem criar oportunidades para isso, contra uma equipa que defende com onze jogadores dentro da área, em que são tantas as pernas que a bola encontra muita dificuldade em se desviar delas, acontece muitas vezes. E às vezes acontece até aos melhores. Não criar uma real oportunidade de golo, não criar sequer um desequilíbrio, quando o adversário discute o jogo no campo todo, com a equipa obrigada a ganhar, é incompreensível.

Foi já no período de compensação, aos 92 minutos, que o Benfica criou a única oportunidade da segunda parte. Mas com aquela finalização do Pedrinho, a atirar a bola para a bancada a dois metros da baliza, nem dá vontade de lhe chamar oportunidade de golo. Ao contrário, no minuto seguinte, da do Mark Edwards, no terceiro remate da equipa minhota em todo o jogo. De resto foi nesses cinco minutos da compensação que o Vitória fez os três remates, que conquistou os dois cantos, e que Vlachodimos fez a sua única defesa.

E lá estamos sem toalha para atirar ao chão. O Sporting já lá vai, onze pontos pontos à frente. Coisa assim já não se via há ... 70 anos! O Porto já tinha também fugido, com cinco de avanço. O Braga também já passou. E o Paços já encostou. Veremos se demora muito a passar...

É responsabilidade do Luís Filipe Vieira? É, claro. Embebedou-se com o tetra, e achou que a partir daí os títulos cairiam do céu. Destruiu tudo o que o tinha levado até lá. Embrulhou a sua vida privada com o clube, fez dele o seu bunker de sobrevivência.

É responsabilidade de Jorge Jesus? É, claro. É hoje um treinador ultrapassado, preso a ideias de jogo do passado e prisioneiro das suas limitações. 

É responsabilidade de Rui Costa? É claro. Aceitou ficar refém de Vieira, e assistiu e assiste à  destruição do clube. É cúmplice, e estoirou com consensualidade de que durante muito tempo suscitou.

Mas é também responsabilidade nossa. De nós, benfiquistas. E especialmente daqueles que, com tudo à vista, escolheram não ver, e reeleger Vieira, há apenas três meses.

 

O copo do dérbi

Foi com um onze estranho que o Benfica surgiu hoje em Alvalade para o eterno dérbi do futebol nacional. Só não tão estranho porque nesta fase já nada é estranho. Estranho é até que tenha vindo a conseguir fazer alinhar onze jogadores nos últimos jogos.

Mais estranho ainda que o onze foi a defesa a três, que decididamente entrou na moda. Já o tinha feito no jogo com o Braga, nas meias-finais da Taça da Liga, mas aí, como era o Weigl a jogar mais recuado, disfarçava. Era uma espécie de defesa a três envergonhada. Hoje, não. Era assumida: Jardel, Otamendi e Vertonghen.

Estranho porque não há tempo para treinar. E, sem tempo para treinar - parece que nunca houve-, estranha-se a implementação de um sistema não trabalhado, logo num dérbi e, mais do que isso, sem margem para experiências. Não ganhar este jogo significava o mais que provável adeus ao título. E até ao apuramento directo para a Champions.

Não durou muito, a experiência. Ainda antes do ponteiro do relógio chegar aos 10 minutos já Jardel era obrigado a sair, com uma lesão muscular. Recuou Weigl, e entrou Gabriel, mas já não era a mesma coisa.

Do lado do Sporting, é diferente. Há tempo para treinar, e Rúben Amorim sabe fazê-lo. Por isso entrou sem Palhinha, despenalizado à última da hora. Que entraria no início da segunda parte, quando normalmente o treinador do Sporting retira o João Mário, de pilhas gastas. Costuma entrar o Matheus Nunes mas, como desta vez já lá estava, entrou então o despenalizado Palhinha.

Com as equipas encaixadas, muita disputa de bola e poucos espaços, as equipas equivaleram-se e o jogo foi equilibrado. Com o Sporting a espaços um bocadinho melhor, muito pelo mérito de gerir melhor os espaços. Geriu bem o espaço nas costas da sua defesa, empurrando quase sempre Darwin para o fora de jogo. Entre as vezes que estava mesmo, e as que não estaria, o avançado do Benfica passou o tempo todo que esteve em jogo em "off-side". E trabalhou bem as mudanças de flanco. 

Foram estas duas armas que lhe deram uma ligeira superioridade na primeira parte. Sem remates (enquadrados) à baliza, e com duas espécies de oportunidades de golo. Primeiro foi Pizzi, em posição para marcar, a desperdiçar com um remate a sair ao lado do poste, com Adan batido. Já perto do intervalo foi Neto, de baliza aberta, a cabecear sem nexo muito ao lado da baliza.

A segunda parte foi diferente. Os espaços apareceram, o jogo abriu e, sem que passasse a ser um grande jogo, foi mais emotivo e espectacular. Os primeiros dez minutos foram quase espectaculares. O Benfica entrou melhor e esteve então por cima do jogo e do Sporting. Por volta do quarto de hora já tudo estava outra vez equilibrado.

A ideia que fica do jogo, e especialmente destes 15 ou 20 minutos, é que, tivessem estado alguns jogadores do Benfica perto do seu melhor nível, e o jogo e o resultado poderiam ter sido diferentes. Cervi e Grimaldo estiveram longe do que tinham vindo a fazer. Como Pizzi, e mesmo Rafa, que enquanto esteve em campo foi dos melhores, mesmo que quase sempre mal na última decisão. Já de Darwin não se pode dizer o mesmo. Esteve desaparecido em fora de jogo, como já foi referido, mas desaparecido já está há muito. Dizem que está a jogar lesionado, mas isso é simplesmente inaceitável. Se está lesionado só tem que se tratar, não pode jogar!

A partir da meia hora começou entrou-se naquela fase dos jogos em que as equipas começam a pensar que, se não dá para ganhar, o importante é não perder. Foi visível em ambas as equipas. Só que, se o Sporting podia pensar assim, o Benfica não devia. Até porque devia saber que há uma estrelinha que acompanha Rúben Amorim, e que não parado de brilhar. Mas pensou ... e pagou a factura. Só por isso mereceu perder o jogo!

No segundo minuto do tempo de compensação Weigl falhou, depois fez falta, mas o Artur Soares Dias, que sempre apitou a tudo, desta vez não apitou. E bem, apenas aplicou a lei. Depois ... aconteceu o que sempre acontece em todos os jogos - a defesa andou aos papeis. Primeiro, três contra um dentro da área e permitiram o cruzamento para a outra ponta da área. Novo cruzamento, que Vlachodimos desfez para a frente, com a bola a ficar à mercê da cabeça do Matheus Nunes, à frente da baliza escancarada.

E pronto. Uma equipa que ia arrasar está neste momento no quarto lugar, a nove pontos do primeiro e a cinco do segundo. E provavelmente não merece mais. O Sporting é primeiro, mas não é a equipa que a meu ver joga o melhor futebol. Essa é a do Braga. Mas é, de longe, a mais consistente. Dessa consistência apenas o Porto, provavelmente a mais forte, se aproxima. 

É curioso que a imprensa se refira à equipa mais consistente do campeonato como os miúdos. Foi um mito bem construído pela sagacidade de Rúben Amorim. Na realidade o Sporting tem dois miúdos na equipa. Mas são apenas miúdos no bilhete de identidade. No resto, o Tomás Tavares e o Nuno Mendes, são jogadores completos, de inegável categoria, que há largas dezenas de jogos que largaram as fraldas, e que já sabem tudo de bola. Sabem-na toda, como hoje se viu.

Já para o Benfica resta olhar para o copo meio vazio, e é uma desgraça. Ou meio cheio, e só pode melhorar. Mesmo que não dê para arrasar ninguém!

 

 

 

Sem condescendência

Foto: EPA/Manuel de Almeida

Estávamos preparados para uma certa condescendência para com a exibição do Benfica nesta recepção ao Nacional, que não aceitara adiar o jogo, ao contrário do que, em condições que nada tinham a ver com as que o Benfica atravessa, com mais de uma equipa de jogadores impedidos por covid, tinha já aceitado, como fora o caso do jogo com o Guimarães, na altura com seis jogadores do plantel  impedidos pelas mesmas razões. Condescendência com a equipa, que não com a estrutura, que pura e simplesmente assiste, impávida, a tudo o que se está a passar neste momento do futebol nacional.

Mas até essa condescendência com a equipa desapareceu de repente. A equipa entrou no jogo a dizer-nos que não era preciso, que não havia razões para termos pena. Nem receios.

Atacou o jogo como se nada se estivesse a passar. Como se não tivesse que estar a jogar com o terceiro guarda-redes, nem sem qualquer titular na defesa. A equipa movimentava-se e jogava bem. Jogadores antes apagados, como Chiquinho, brilhavam nas alturas. Logo aos sete minutos chegou ao golo, numa fantástica jogada de futebol, concluído com classe justamente por Chiquinho.  

Seria anulado. Por 17 centímetros de fora de jogo do João Ferreira, no início da jogada, disseram eles. Nada que abalasse a equipa, e cinco ou seis minutos depois, lá estava Chiquinho de novo, agora de cabeça. E agora a valer. 

O futebol que a equipa apresentava era de boa qualidade, e grande movimentação, competitivo e pressionante. Trazia até à memória aqueles 10-0 da última visita da equipa madeirense. Saltava no entanto à vista um problema: em toda aquela avalanche de futebol não havia avançados. Eram os médios e os laterais que alimentavam aquele turbilhão. Seferovic e Darwin andavam lá, mas não estavam lá. Nada daquilo passava por eles.

Ora, com aquela equipa de recurso, jogar com nove, era impossível. Percebia-se isso já quando as coisas ainda estavam a correr bem. Confirmou-se logo que se esgotou o primeiro quarto de hora. Com uma excepção ou outra, esta época o Benfica tem jogado apenas uma parte do jogo. A primeira, numas vezes, a segunda noutras. Hoje também jogou apenas uma, só que foi a primeira terça parte da primeira.

O descalabro começou mesmo quando foi preciso chamar os avançados ao jogo. Não seguraram uma bola, perdiam-na de imediato. Um problema técnico básico - recepção. Logo a seguir, veio o do passe. Recepção e passe, as chaves mestras do futebol, começaram a falhar e nunca mais foram reparadas.

Foi assim até ao fim do jogo. Logo no arranque da segunda parte o Nacional empatou, na sequência de ... um canto. Pois claro. O costume. 

Faltava jogar quase toda a segunda parte, mas percebia-se que só mais um milagre evitaria nova escorregadela. Esteve para acontecer por duas vezes, mas não aconteceu. Primeiro, pouco depois do golo do empate, num penalti, mais um, que árbitro e VAR não quiseram assinalar. Sim, um penalti a favor do Benfica neste campeonato é um verdadeiro milagre. Em quinze jogos ainda não aconteceu nenhum. E depois, já na parte final do jogo, quando Taarabt furou por ali dentro e deu o golo a Seferovic. Mas aí eram precisos dois milagres. O internacional marroquino conseguiu o de bater a defesa do Nacional. Era preciso ainda outro para que Seferovic, que mais pareceu sempre um defesa adversário que um avançado, hoje, no dia em que passam 17 anos sobre a morte de Feher, e 79 sobre o nascimento de Eusébio,  fizesse um golo. E dois era de mais! 

É certo que o árbitro Rui Costa usou sempre de critérios diferentes para assinalar e punir as faltas, e que de penaltis estamos conversados. Isso conta. Pesa, mas não justifica a forma como a equipa entregou o jogo e o resultado. Nem o desaparecimento da famosa estrutura quando a equipa mais precisa dela.

 

Sorte a azar

A BOLA - SC Braga – Benfica DIRETO (Taça da Liga)

Foi em condições muito difíceis que o Benfica chegou a Leiria para disputar esta meia final da Taça da Liga, como é igualmente difícil o cenário que se avizinha para os próximos jogos, no campeonato e na Taça de Portugal. A pandemia, que aterroriza o mundo, e em particular o nosso país, e que no futebol, como, bem, disse ontem o presidente do Sporting, se transformou numa questão de azar, atingiu fortemente toda a equipa, roubando-lhe sete jogadores dos habituais titulares, e espalhando-se por todo o staf técnico.
 
Tem razão o presidente do Sporting. A pandemia, no futebol nacional, é uma questão de azar. E como o azar de uns é a sorte de outros... A do Porto, por exemplo, que na sexta-feira passada jogou com jogadores livres de covid que, no dia seguinte, estavam infectados. E, por sorte, os que mais precisavam de descansar. Por azar, os sete jogadores do Benfica e os elementos da equipa técnica que participaram nesse jogo, ficaram depois infectados. Por sorte e azar os laboratório que a Liga seleccionou para efectuar os testes é o que é, e dirigido por quem é. 
 
Às dificuldades de uma semana sem treinar, de ter que se apresentar sem sete titulares, com uma defesa toda remendada, com jogadores que nunca tinham jogado juntos, e com uma equipa técnica reduzida ao treinador principal, somavam-se as de defrontar a equipa que melhor futebol tem apresentado em Portugal, a mais mecanizada de todas, e a de processos de jogo mais consolidados.
 
Tarefa complicada, pois. Para minimizar os problemas da defesa, Jorge Jesus, que prefere Todibo (vá lá perceber-se por quê, até porque esteve o tempo todo a tentar corrigi-lo) a Ferro, que até já jogou muitas vezes com  o capitão Jardel, acrescentou-lhe Weigl. E a coisa até parecia funcionar, porque o alemão está a atravessar um bom momento, e a confirmar finalmente que tem condições para ser, no Benfica, o grande jogador que promete ser.
 
No arranque da partida o Braga quis confirmar as suas próprias qualidades e as dificuldades do Benfica. Entrou a querer mandar no jogo, e nos primeiros (sete) minutos fez parecer que o conseguia. Foi sol de pouca dura, como é próprio da altura. A partir daí o Benfica tomou conta do jogo, e virou o feitiço contra o feiticeiro. 
 
Era o Benfica que jogava e que criava oportunidades. O Braga resignava-se a espreitar o contra-ataque, em que por duas vezes criou situações de perigo para a baliza de Helton Leite. Só que, na sequência de um livre curto, à beira da meia hora, chegou ao golo. Ricardo Horta recebeu a bola sem marcação e cruzou-a para a área e... primeira falha da defesa do Benfica. Falha no posicionamento e falha na marcação. O Braga colocou três jogadores no sítio onde a bola iria cair, sem nenhum defesa a marcá-los. Dois em posição de fora de jogo, e o terceiro, Abel Ruiz, colocado em jogo por Todibo, que ficou para trás.
 
O Benfica reagiu bem, e o Braga continuou a defender bem, o que não impedia no entanto que as oportunidades de golo continuassem a surgir. A mais clara acabou num excelente remate de Darwin, devolvido pelo poste. As outras iam sendo resolvidas por São Matheus, que em vez de se dedicar aos evangelhos dedicou-se aos milagres. O empate acabaria por surgir já muito perto do final da primeira parte, num penalti (aleluia!) claro, convertido com classe por Pizzi.
 
Do mal, o menos. 
 
A segunda parte foi de nível bem inferior. Logo de entrada Matheus fez mais um milagre, ao evitar novo golo de Pizzi. E pouco depois, mais do mesmo. Quase a papel químico do primeiro, o Braga voltou a marcar. Canto da esquerda, Helton Leite desfaz o cruzamento com uma palmada e a bola foi parar direitinha aos melhores pés do Braga. Esses, de Ricardo Horta que, sem parecer, é dos melhores entre os melhores jogadores do nosso futebol. E claro, novo erro de marcação e de posicionamento. com os mesmos autores. É novamente Todibo que coloca em jogo David Carmo, adiantado a Jardel, que bem se esforçou, ainda raspou com a cabeça na bola, mas não consegui evitar que o defesa bracarense lhe acertasse em cheio. 
 
Estava-se em cima do primeiro quarto de hora, com muito tempo ainda para que o Benfica reagisse. Jorge jesus deu então início às substituições. Três de uma vez. Uma para trocar o infeliz (ou incompetente, saber jogar a bola é muito curto para um central, confirmou-se hoje) Todibo por Ferro. Outra para tirar Rafa (por Pedrinho) que estava a ser, como é geralmente, o maior desequilibrado. E outra para trocar Seferovic por Everton, deixando Darwin sozinho na frente de ataque. Taarabt, esse, continuou lá. A fazer o que sempre faz. Nada. À espera de ser trocado por Chiquinho, de igual rendimento.
 
E o muito tempo que faltava foi passando, com a defesa do Braga a chegar perfeitamente para as encomendas. 
 
E assim acabou um jogo em que não ganhou quem jogou mais. Não ganhou quem mais oportunidades de golo criou. Nem talvez tenha ganho quem mais quis ganhar, porque não se viu falta de vontade nos jogadores do Benfica. Nem ganhou quem mais atacou. Ganhou quem melhor defendeu!
 
Foi a defesa do Braga que ganhou e a do Benfica que perdeu. A defesa bracarense ganhou todas as bolas altas na sua área. A defesa remendada do Benfica não ganhou nenhuma. O guarda-redes do Braga fez quatro ou cinco defesas de golo. O do Benfica fez uma, e já em cima dos noventa minutos.
 
Por isso se percebe que o título não tem nada a ver com o jogo. Nem com o Benfica ter perdido o hábito de ganhar a  Taça da Liga. Tem a ver com o resto!
 
 

Tudo na mesma? Não!

Este foi um clássico diferente dos anteriores, e especialmente muito diferente do último, há menos de um mês. O Benfica está a melhorar, está a melhorar a sua qualidade de jogo, como se vinha tenuemente percebendo nos últimos dois jogos, melhorou a sua consistência e melhorou muito a atitude.

O Benfica hoje surgiu no Dragão sem medo, com vontade de lutar pelo jogo, com a agressividade que ainda se não tinha visto e, a espaços, com bom futebol. Igualando o Porto na competitividade e e na capacidade de disputar a bola e os espaços. E quando assim acontece, porque globalmente, em grande parte das posições tem melhores jogadores, é melhor que o Porto. E em grande parte do jogo foi muito melhor.

O Porto entrou à Porto, mas rapidamente o Benfica mostrou que é melhor. Logo aos 8 minutos, na primeira vez que contrariou a entrada à Porto do adversário, e chegou à baliza adversária, criou a primeira e clara oportunidade de golo, desperdiçada por Seferovic.

Perceberam-se então as surpresas de Jorge Jesus na constituição da equipa. A entrada de Nuno Tavares,  para o lado esquerdo em simultâneo com Grimaldo, e a própria inclusão de Seferovic. Ambos tinham sido titulares, e jogado praticamente o tempo todo, no jogo da Taça, com o Estrela. E, diziam os entendidos, quem tinha feito esse jogo, não seria hoje titular.

Percebeu-se que o poder físico de Nuno Tavares era importante para enfrentar Marega. Que a capacidade técnica de Grimaldo era importante para jogar em zonas mais interiores, como se viu no golo. E que a profundidade que Seferovic pode dar ao jogo era também importante para esta partida.

Desta vez Jesus não inventou. Acertou.

A partir desse minuto 8 a superioridade do Benfica foi sempre clara, e poderia ter-lhe permitido chegar ao intervalo claramente na frente do marcador. Para além do golo de Grimaldo, muito bem construído, e logo aos 17 minutos, o Benfica dispôs ainda de mais três claras ocasiões de golo. Uma delas numa jogada extraordinária, com a bola a sair de Vlachodimos, a passar por vários jogadores e pelo campo todo, sem que os jogadores do Porto a cheirassem, e a acabar, rematada pelo Darwin, no poste da baliza de Marchesin, já depois do golo do empate do Porto.

Que tardou apenas 8 minutos relativamente ao golo do Benfica. Um daqueles golos que não se podem sofrer, numa das raras oportunidades do Porto, num erro colectivo, de total desconcentração - resultou de um lançamento da linha lateral - mas também individual. De Gilberto que, primeiro, é passarinho dentro da área face a Corona e, depois, fica deitado no chão, colocando Marega em jogo, o que lhe permitiu desviar para o poste, e  daí para a baliza, o remate de Taremi que ia para fora. 

Nem se percebe como é que o golo foi atribuído ao iraniano.

O Porto atrasou o regresso para a segunda parte, deixando a equipa do Benfica à espera no relvado. E percebeu-se que, face ao que se tinha passado na primeira parte, trazia ideias de empurrar o jogo para a quezília, variante em que se sente como peixe na água. O primeiro quarto de hora foi passado assim, no meio do lamaçal da quezília. E da fita, tão cara aos seus jogadores.

Começou a poder-se jogar futebol, e mesmo assim a espaços, aos 60 minutos. E o Benfica jogou-o sempre que pôde, sempre melhor. O jogo pedia então Waldshmidt, mas Jorge Jesus achou melhor fazer entrar Chiquinho, deixando o avançado alemão apenas para os últimos minutos. Talvez o seu maior erro neste jogo.

Pouco mais de dez minutos depois, o árbitro Luís Godinho, que assinalava faltas e faltinhas aos jgadores do Benfica, mas sempre mais condescendente com os do Porto, não viu (o que toda gente viu) que Taremi teve uma entrada sobre Otamendi para vermelho directo. Era tão evidente que não podia passar despercebida ao VAR, e o jogador do Porto lá foi para a rua. E o domínio do Benfica acentuou-se ainda mais, com Sérgio Conceição a reforçar a defesa e, acantonado lá atrás, a refinar o seu futebol de pontapé para a frente e a estratégia de queimar tempo.

O árbitro deu 8 minutos de compensação, que não compensou nem com um segundo, nem com as substituições que o treinador do Porto efectuou nesse período. E assim acabou num empate um jogo que o Benfica poderia ter ganho por larga margem.

O mesmo resultado que o Sporting alcançou com o Rio Ave, em Alvalade. Pelo que, para os três primeiros, ficou tudo na mesma. Mesmo que a exibição personalizada e competitiva do Benfica deixe entender que nada está na mesma. 

Nos quartos, com a história dos oitavos

Benfica derrota Estrela da Amadora e passa aos quartos da Taça de Portugal  - O Jogo

Neste jogo dos oitavos de  final da Taça de Portugal, na Amadora, no velho José Gomes, com o restaurado Estrela, meio filho, meio irmão, do Sintra Futebol Club, mas herdeiro do velho Estrela da Amadora, o Benfica apresentou uma equipa alternativa. Dos mais frequentes titulares, apenas Tarabt surgiu no onze. De resto tudo gente que habitualmente não calça

Na primeira parte as coisas não resultaram. O onze em campo imitou bem o que de pior tem feito o onze habitual, com alguma exibições individuais ao nível do deplorável. Nuno Tavares, Samaris, Chiquinho, para não dizer mais, estiveram a um nível intolerável. Mas nenhum dos restantes esteve perto do que deveria ser aceitável para quem veste aquela camisola.

Daí que rapidamente os jogadores do Estrela, do terceiro escalão do futebol nacional, tivessem percebido que aquelas camisolas não assustavam ninguém e, passados os primeiros dez minutos, passaram a dividir o jogo. 

Aproximava-se já o final da primeira parte quando o Benfica chegou ao golo. Ironicamente por Chiquinho, numa recarga depois de uma grande defesa do guarda-redes adversário a remate de Seferovic. Antes disso praticamente só uma grande perdida de Pedrinho, o que a melhor nível se exibiu até à sua substituição, pouco depois da hora de jogo.

A segunda parte foi diferente. Com os mesmos jogadores, a equipa surgiu completamente transformada, francamente para melhor. Samaris subiu particularmente de rendimento e Pedrinho chegou a momentos de brilhantismo. O resultado começou a engordar e só acabou nos quatro golos porque o desperdício foi grande.

Nos últimos vinte minutos Jorge Jesus começou a lançar no jogo alguns dos jogadores mais utilizados na equipa principal (Waldchmidt, Weigel, Rafa e Grimaldo) provavelmente com a ideia lhes dar ritmo, sem cansar, para o clássico de sexta-feira, no Dragão.

No fim ficam na retina algumas boas movimentações, daquelas que não enganam, de Gonçalo Ramos - retirado muito cedo do jogo, foi o primeiro a sair para entrar... Ferreyra -, e muita qualidade de Pedrinho. Mas também Todibo, na estreia, revelou grande qualidade no trato da bola. Provavelmente com um adversário superior não poderá dar largas à sua exuberância nesse capitulo, e poderão ser-lhe exigidas outras competências que hoje não lhe foram requeridas. Mas jogar bem à bola é sempre bom indicador.

E fica o apuraamento para os quartos de  final. Onde o Sporting já não está, eliminado na Madeira, pelo Marítimo. E onde está também o Porto, porque, também na Madeira, mas contra o Nacional, se apurou à custa de mais uma arbitragem escandalosa. Que expulsou (segundo amarelo) um defesa do Nacional quando acabara de virar o resultado para 2-1, a meia hora do fim, que nem falta fez. Que evitou o segundo amarelo a dois jogadores do Porto (Zaidu e Taremi) em situações claras de punição disciplinar e, que, não fosse isto pouco, validou o golo do empate, em cima do minuto 90, iniciado num lance de mão de Taremi, lançando o Porto, com 11 em vez de 9, para o prolongamento de 30 minutos contra uma equipa que jogou mais de uma hora com um jogador a menos, e mal expulso.

Mas não se passa nada. Nunca se passa nada nestas coisas...

 

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