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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Sentido de regime e sentido de Estado

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Mesmo discordando da presença do Presidente da República na tomada de posse de Bolsonaro, dei-lhe o benefício da dúvida. Não pelos argumentos que Marcelo apresentou, exclusivamente centrados na CPLP, essa coisa que não passa de uma central de negócios falhados pouco dada à vergonha, a que só em Portugal é dada alguma importância. Mas porque ainda admitia alguma lógica de interesses de Estado entre dois países que a História fatalmente juntou, que resistem ao fatalismo das costas voltadas a essa fatalidade...

Hoje não tenho dúvidas que esta visita de Marcelo não o prestigiou nem prestigiou o país. Marcelo voltou, em Brasília, a pôr-se de cócoras e a dar do país uma imagem de servilismo que o empequenece. Falou - melhor, procurou falar - com sotaque, adicionando açúcar do Brasil à língua que trazia de Portugal, como se fosse café que trouxera de Angola. E perante a pouca importância que lhe foi dada por Bolsonaro, obviamente medida pelo pouco tempo da audiência concedida, a melhor saída que encontrou foi que os irmãos precisam de pouco tempo para comunicar.

Decididamente, Marcelo é um bom Presidente da República. Mas não é um estadista. Nele é maior o sentido de regime que o sentido de Estado!

 

As coisas são o que são!

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Todos os que, brasileiros ou não, defendiam que, uma vez eleito, Bolsonaro adquiriria uma postura mais institucional, deixando cair muitas das suas monstruosidades, podem já começar a tirar o cavalinho da chuva.

O sermão da tomada de posse deixou claro que a criatura não tem uma ideia estruturada na cabeça, nem consegue alinhar meia dúzia de palavras que façam sentido. Por isso repetiu - e continuará a repetir - os sloganes e as frases simples e gastas da campanha, mas sempre carregadas de forte simbolismo ideológico. Por isso se esconde atrás de Deus, que invoca (em vão, e por isso em pecado mortal) a todo o momento, e que convoca para tudo e para nada.

Não. Bolsonaro não vai ser diferente do que se anunciou, como se viu nos abraços de Benjamin Netanyahu e Viktor Orban, na primeira fila, ou no twitter de Trump... As coisas são o que são!

Aberração política

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Pode até parecer que é perseguição. Ou falta de assunto. Não é. Apenas as circunstâncias da eleição de Bolsonaro revelam cada vez mais sintomas de aberração política.

Ontem, numa participação de culto evangélico da igreja a que pertence (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), na zona norte do Rio de Janeiro, seguida por todos os jornais brasileiros, entre outras frases de circunstância Bolsonaro disse: “Não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”.

Em circunstâncias que daríamos por normais, em muitos outros países, esta seria uma frase politicamente mortal. Até porque a falta de qualificação para o cargo, agravada pela falta de um programa político e pela recusa na participação em debates é, pelo menos, tão relevante quanto o enquadramento político-ideológico daquilo que fez e disse em campanha. 

No Brasil, neste contexto, não é. É simplesmente mais uma frase pensada, e dirigida aos que o elegeram, em que Bolsonaro se coloca como um deles. Não serei o mais qualificado, mas Deus protege-me e não me vai faltar com ajuda. E isto é mortal, mas, por aberração, justamente o antónimo do mortal do parágrafo anterior. 

O anúncio público - ontem, também - do convite ao juiz Moro para integrar o governo, à luz das mesmas circunstâncias que daríamos por normais em países de maturidade democrática, é um óbvio e evidente atentado aos valores democráticos, em especial do Estado de Direito, e ao princípio da separação de poderes. Nas circunstâncias da eleição de Bolsonaro, é trazer para o governo gente séria, com provas dadas na perseguição à corrupção. 

E não é menos mortal. Nem menor aberração!

 

Que fofinhos!

 

Confesso-me estarrecido com as coisas que tenho visto escritas sobre a decisão eleitoral dos brasileiros. Não me refiro à Margarida Martins, essa deixou-me chocado. Duplamente chocado -  com o soneto e com a emenda!

Nem aos que se tinham declarado apoiantes convictos de Bolsonaro, seja porque defendem o fascismo, seja porque ainda não perceberam muito bem o que andam por cá a fazer. Refiro-me àqueles que, até domingo, juravam que acima de tudo estava a necessidade e a obrigação de defender a democracia. Que, se votassem, fariam como Álvaro Cunhal fez, e aconselhou fazer, em 1986. Que entre um fascista, e um democrata nas antípodas do seu pensamento, sempre o democrata. E que se riam dos brasileiros que diziam que apeariam Bolsonaro se ele viesse a fazer o que dizia que faria.

Mas que, de repente, logo no domingo, passaram a achar que nada poderia ter sido de outra maneira. Que quem está cá deste lado do Atlântico não percebe nada do que passa do lado de lá. Que ódio é ódio, e o que o Lula e o PT fizeram não merece outra coisa. Que o povo é sábio, e nunca se engana. Que o fascismo de Bolsonaro é uma ficção da esquerda. Que a palavra liberdade foi a mais repetida no discurso de vitória. Enfim, que o "cara" não é nada do que pintam. 

Pois. Eu até estava quase a ficar convencido. O diabo é que, de repente, começaram a desfilar pelas passadeiras da minha mente as declarações de voto daquela gente no parlamento que ditou o impeachement da Dilma. Depois aquela "oração" daquele militante evangélico de mãos dadas com o presidente eleito, de mãos dadas com a sua jovem esposa.

E quando sacudia a cabeça para afastar para longe estes pensamentos caem-me os olhos no apelo da jovem deputada Ana Caroline Campagnolo, eleita pelo PSL (percebem por que o outro teve que escolher Aliança?) de Bolsonaro. Que abriu um canal de denúncias e exorta os jovens a filmar os professores inconformados com o resultado eleitoral, e a remeter-lhe esses vídeos... 

Que fofinha... Que fofinhos eles são!

 

 

Coisas extraordinárias

Reprodução

 

Pelo que se vai vendo, inclusivamente pelo próprio papel da juventude na candidatura de Balsonaro, já nada nos pode surpreender no caminho para o inferno que o Brasil está a escolher. Mas, confesso, nunca me passaria pela cabeça encontrar peregrinos desse caminho num concerto de Roger Waters. Nunca os imaginaria "no público" do fundador dos Pink Floyd!

Já perto do fim do concerto de terça-feira, em S. Paulo, Roger Waters, de quem se não esperaria outra coisa, associou-se à contestação mundial àquilo que Bolsonaro representa, exibindo na tela "Ele Não". Contam os jornais que a reacção foi imediata, e que quase todas as 40 mil pessoas que no Estádio assistiam ao concerto explodiram em insultos e vaias, impedindo mesmo o músico de falar com sobreposição de gritos ensurdecedores...

Ontem, no segundo concerto, Rogers Waters subiu a parada e foi mais acutilante com Bolsonaro e seus inspiradores pelo mundo fora, e a reacção do público não foi diferente.

Inacreditável!

 

Ainda não é desta...

capa Jornal i

 

O PSD foi sempre, desde o originário PPD de 74, um partido onde coube tudo, uma espécie de saco de gatos. Lá se incluíam social-democratas, liberais, democratas-cristãos, para além de muita gente sem qualquer ideologia definida, que para lá foi e por lá ficou porque ... sim. E de muita gente alinhada com o antigo regime, de extrema-direita, por convicção ideológica ou por um certo saudosismo mais ou menos bacoco.

Não é fácil gerir um partido com sensibilidades tão divergentes. É possível porque é, e sempre foi, um partido de poder. Ou está no poder ou a sentir-lhe o cheiro, e isso faz o cimento que o segura.

Neste momento, o PSD não está no poder e, no fim da legislatura, não lhe cheira a poder. E, claro, as dificuldades em segurar o partido aumentam, como Rui Rio não deixa diariamente de sentir.

Santana Lopes, um histórico da direita, conservador nos valores e liberal na economia, saltou fora, e criou a Aliança. Não sei se levou muita gente consigo, e até parece que não, mas deixou lá muita gente que, vê-se pelas redes sociais, não lhe escondem o apoio. Agora é um tal de André Ventura, um produto televisivo do Correio da Manha (sem til), um populista de extrema direita que se baba com Jair Bolsonaro, que aproveitou o sucesso eleitoral do fascista brasileiro para anunciar o "Chega", um partido que, pegando no mais elementar cardápio do poulismo. apresenta como bandeiras a "prisão perpétua para homicidas e violadores", a "castração química para pedófilos", a "proibição constitucional da eutanásia" e a "proibição do casamento homossexual". Chega - chega-lhenão é preciso mais!

Não levará também muita gente, e bem menos certamente que o opositor de Rui Rio na última disputa partidária, mas, pelo que também se tem visto nas redes sociais no apoio ao brasileiro, deixa lá também muita gente.

Daí que me pareça que ainda não seja desta, à enésima purga, que o PSD deixe de ser o saco de gatos que sempre foi!

Brasil ou .. Mas... (parte II)

Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que disputam o segundo turno das eleições presidenciais

 

Bolsonaro está à porta do Palácio do Planalto, mas poderá não ser uma formalidade o que falta para que se lhe abra, daqui a três semanas. Chegou até a parecer que teria entrada directa, que tudo ficaria ontem resolvido, logo na primeira volta. Não ficou, e os 46% de votos que atingiu não são, hoje, mais que um copo meio cheio. E a direita portuguesa do "mas", que aqui trouxe há dias, voltou a fazer-se ouvir. Mais hipocritamente, agora que os resultados são conhecidos.

Que Bolsonaro é um fascista - gostam mais de dizer extrema-direita radical -  mas... Que a quase eleição à primeira volta de um candidato de extrema-direita radical mostra que o povo brasileiro está disposto a trocar a liberdade pela segurança. Mas ... ou porque, a verdade é que a insegurança no Brasil atingiu o extremo, e os brasileiros acreditam que só Bolsonaro pode resolver isso.

Sobre os gigantescos interesses da indústria da segurança no Brasil é que nem uma palavra. Sobre o lóbi da segurança, dos carros blindados às armas, é que nada. E sobre de que lado está Bolsonaro nesta "guerra" da segurança, menos ainda... E, da tal troca  a liberdade pela segurança, não vem qualquer mas  para as redes sociais, e a sua manipulação organizada. Nem  para as seitas religiosas. Nem para o bispo Edir Macedo e para a IURD...

 

 

Mas...

 

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As elites da direita portuguesa politicamente correcta assumem-se sempre muito democráticas. Demarcam-se de Trump, de Orban ou de Matteo Salvini ... mas ... sempre com um "mas". 

Eles são nacionalistas.. ...mas a economia cresce. Eles são xenófobos ... mas o desemprego desce. Eles são racistas ... mas também não se pode abrir as portas a toda a gente. Ou, normalmente por fim, na última das últimas alegações, eles até poderão nem ser flores que se cheirem ... mas foram eleitos democraticamente. 

Sabemos que é assim, vemos coisas destas todos os dias. Mas... o mais refinado dos "mas" surgiu agora com Bolsonaro.

Como lhes fica difícil (permitam-me este apropriado toque brasileiro) defender a criatura, atacam-lhe o ataque. Então transformam as gigantescas manifestações deste fim-de-semana do "ele não" num erro estratégico, nem que, para isso, tenham de recorrer a raciocínios "non sense" e a comparações espatafúrdias. 

Não há volta a dar. O "mas" está-lhes na massa do sangue!

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