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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Este sim, foi de Champions!

Antes de mais: que grande jogo, o desta noite na Luz. Daqueles que têm tudo o que se pode esperar, e desejar, de um jogo de futebol. Se há "jogos de Champions", este, sim, foi um deles!

Começo pelo adversário, que já não é simplesmente o PSG de Messi, Mbapé e Neymar. É hoje uma verdadeira equipa de futebol, cheia de jogadores de qualidade extra, e que, ainda por cima, tem Messi, Mbapé e Neymar.

Nada melhor para o tal teste que as más línguas vêm insistindo em dizer que faltava ao Benfica. E para isso nada melhor que a entrada da equipa no jogo - personalizada, sem medo e, acima de tudo, fiel ao seu futebol. Sem concessões de qualquer espécie, e com o seu onze inicial habitual.

E foi assim que o Benfica enfrentou esta super equipa, recheada de grandes estrelas. Os primeiros vinte minutos foram um regalo para os olhos e para o coração dos benfiquistas, com um Benfica dominador e a criar oportunidades de golo. Claras, e duas delas negadas pela grande categoria de Donaruma.

Estava o jogo nisto, com o Benfica a jogar, a criar oportunidades de golo, mas sem conseguir bater o guarda-redes adversário quando, aos 22 minutos, no primeiro remate do PSG à baliza, Messi marcou. Um golo ingrato, e que só não poderemos considerar injusto, porque resulta de uma extraordinária jogada de futebol, ao primeiro toque, construída por aquele fabuloso tridente. E concluída com um remate simplesmente extraordinário, só mesmo ao alcance do génio de Messi. 

Os jogadores do Benfica sentiram o golo, e não era caso para menos. Jogar como tinham jogado, para na primeira vez em que os adversários pegaram na bola fazerem, e daquela maneira, o que eles com tanto trabalho não tinham conseguido, arrasa qualquer um. E seguiram-se 15 minutos diabólicos, em que os jogadores do Benfica tiveram de se limitar a correr atrás da bola que aqueles craques trocavam a preceito. E a sofrer. 

Foi um quarto de hora em que o PSG teve controlo absoluto sobre o jogo. No entanto, com apenas um remate à baliza. Inofensivo, de Vitinha. Passado esse quarto de hora, o Benfica ressuscitou. E voltou a superiorizar-se. E voltou a ter que contar com a categoria de Donaruma.

O golo do empate surgiu já perto do intervalo, e muito atrasado. A falta de sorte nas quatro oportunidades de golo negadas por Donaruma era atenuada com o auto-golo de Danilo, na disputa de bola, no ar, com Gonçalo Ramos. Ao intervalo o empate era desajustado da realidade do jogo, em que o Benfica  tinha sido superior em dois terços do tempo jogado.

Na segunda parte nem a intensidade, nem a qualidade do jogo baixou. A superioridade do PSG foi mais constante, e surgiu então a vez de Vlachodimos discutir com Donaruma a influência no jogo e no resultado. E de o PSG equilibrar as oportunidades de golo criadas por ambas as equipas. Mesmo que o Benfica tenha ainda acrescentado mais três à contabilidade da primeira parte.

A mais clara acabou por pertencer a Rafa, aos 80 minutos. A partir daí o PSG voltou a forçar. E, a partir daí, começou a parecer que o relógio tinha parado, que os ponteiros não se mexiam, e que o minuto 90 nunca mais chegava. Mas chegou, e chegaram também os 4 minutos de compensação, já muito bem geridos pela equipa do Benfica, a ter bola, a jogar no campo todo, e já de volta à aproximação à baliza de Donaruma. E com os jogadores do PSG constantemente obrigados a fazer faltas, e algumas bem duras, sobre os do Benfica.

Que não ganhou, é certo. Mas fez um grande jogo, deu uma enorme resposta, depois da medíocre exibição de Guimarães, e alcançou um resultado importante no contexto deste grupo de apuramento. Não será fácil repetir tudo isto na próxima semana, em Paris. Mas o Benfica mostrou que o poderá fazer!

E que dizer mais do menino António Silva?

É oficial: a Juventus é uma equipa fraca!

É oficial: esta Juventus é a mais fraquinha dos últimos 3500 anos!

E o Benfica continua a não ser verdadeiramente testado.

Saindo da ficção para a realidade: o Benfica foi a Turim presentar os italianos com um recital de futebol, naquela que terá sido a melhor a exibição da época e, numa superior demonstração urbi et orbi de classe e categoria, reduziu a Juventus à dimensão da vulgaridade.  

Percebeu-se logo no arranque do jogo que o Benfica sabia o que queria fazer em Turim, no Juventus Stadium. Percebeu-se que ia para jogar o seu futebol, sem medo de coisa nenhuma, e portanto sem razões para abdicar da sua identidade. E percebeu-se ainda que teria um apoio massivo nas bancadas, bem preenchidas de adeptos benfiquistas (falou-se em 14 mil), vindos certamente de todo o lado. E que foram, também eles, fantásticos. Mas também se percebeu logo que a Juventus entrava com uma agressividade fora do comum, que claramente surpreendia os jogadores do Benfica.

O primeiro contratempo surgiu logo aos 4 minutos: uma falta despropositada de João Mário, a meio do meio campo defensivo, provocou um livre lateral, bem cobrado pelo Paredes (um jogadorzito!), mas mal defendido (anda a frio?) que acabou com Milik (outro jogadorzeco!) a marcar, ao primeiro remate. Como tanta vez acontece.

Foi um soco no estômago. A equipa cambaleou, ficou meio abananada e, com superioridade no meio campo, sempre com grande agressividade na disputa da bola, e moralizada com o golo, a Juventus levou o jogo para 10 minutos de grande dificuldade para o Benfica. Não acertou qualquer remate na baliza, mas não é por isso que se poderá negar que criou uma ou duas oportunidades para marcar.

Foi mais ou esse o tempo que o Benfica demorou a equilibrar-se. A partir daí passou gradualmente a comandar o jogo, e a empurrar a Juventus para a sua área. À meia hora da primeira parte já o jogo era do Benfica. Já tinha mais remates, mais cantos e mais posse de bola. A juventus continuava com um único remate enquadrado, o do golo!

Depois foi o poste a negar o golo - que seria um grande golo - a Rafa. E o penálti sobre Gonçalo Ramos - que o árbitro alemão com uma ligeira costela italiana, nas pequenas mas também nas grandes coisas - não quis ver (teve se ser o VAR a obrigá-lo) - que João Mário transformou no já mais que justificado empate. No festejo voltou a ver um cartão amarelo. Não foi por despir a camisola, mas também não se percebeu por que foi. Se calhar vai ter de deixar de festejar os golos que marca. 

O melhor estaria reservado para a segunda parte. A superioridade do Benfica foi-se acentuando e a exibição foi ganhando brilho, com os jogadores - todos -, e a equipa, no seu todo, a espalharem magia e classe pelo relvado. Mas a desperdiçarem oportunidades de golo, umas atrás das outras.

O próprio golo da vitória,  aos 10 minutos da segunda parte, é o exemplo vivo dessa onda de desperdício. Só à terceira, a bola, então rematada por Neres, acabou por entrar na baliza de Perin. Que foi, seguido de Bonucci, o melhor jogador da Juventus. 

A partir daí, do golo da reviravolta, o ritmo das situações de golo do Benfica aumentou ainda mais. No quarto de hora que se seguiu ao golo, até aos 70 minutos - um quarto de hora de sonho - o Benfica criou cinco oportunidades para marcar!

A perder, e a levar um banho de futebol que deixava desesperados os tiffosi da Juve, Allegri tentou tudo no jogo das substituições. Lançou o nosso Di Maria, que mexeu com o jogo, mas não o alterou. Voltou a mexer na equipa, e voltou a não o alterar. 

E o jogo acabou precisamente com a última oportunidade do Benfica, em cima do quarto e último minuto da compensação. E com a quarta vitória tangencial consecutiva, quando poderia ter terminado em goleada. 

Claro que a Juve também teve uma bola no poste. Mas essa foi um corte do fantástico António Silva para não dar canto. E poderia até ter empatado quando, a três minutos dos 90, o central brasileiro Bremer, num grande cruzamento de Di Maria, dominou no peito e, frente a Vlachodimos, atirou por cima. Seria de uma injustiça gritante, mas esses são os riscos que uma equipa absolutamente dominadora acaba por correr quando, desperdiçando uma goleada, prolonga um resultado na diferença mínima.

 

 

 

 

 

A fazer dos fortes fracos

O Benfica entrou a ganhar na Champions. E vão dez ... Dez jogos ... dez vitórias. E por agora, no fim da primeira jornada, o primeiro lugar do grupo (o PSG ganhou por 2-1 à Juventus, em Paris). 

Dirão os do costume que ... nada. Que o Benfica só encontrado adversários frágeis. E que este Maccabi Haifa é mais uma equipa fraca. A mais fraca do grupo, será em teoria. Veremos se a prática o vai confirmar.

Só que esta equipa israelita é tudo menos fraca. É mesmo muito forte. Fisicamente fortíssima e, do ponto de vista táctico, um adversário muito difícil.

A primeira parte mostrou claramente as dificuldades deste adversário. O Benfica não fez - é verdade! - uma boa primeira parte, e chegou a parecer que este seria mais um jogo na linha dos dois últimos do campeonato. 

As dificuldades do futebol do Benfica nesses dois últimos jogos mantiveram-se, em particular no que se refere à velocidade e ao afunilamento do jogo para a zona central do ataque, com total ausência de chegadas à linha de fundo - as que mais desequilíbrios provocam nas defesas adversárias. Só que desta vez percebia-se que essas dificuldades eram mais provocadas pelo adversário que propriamente por demérito dos jogadores.

A equipa israelita dificultou mesmo muito a tarefa do Benfica, com uma dimensão física que lhe permitia marcar individualmente em todo o campo, sempre com enorme pressão sobre cada jogador adversário e, com isso, encher de areia a engrenagem do futebol de Roger Schemidt, muito especialmente pelo que entupiu as ligações de Enzo e de Florentino. Depois, essa dimensão física permitia-lhe fazer que saía a jogar, e com isso chamar os jogadores do Benfica para, depois, lançar para a frente à procura das segundas bolas.

E este foi o desafio que, na primeira parte, o Benfica conseguiu ganhar. Muito por mérito dos dois centrais - o miúdo, o António Silva, e o seu avô, Otamendi, foram absolutamente soberbos. O resultado era um empate, a zero. E apenas uma oportunidade de golo, nos pés de Rafa, e negada pelo guarda-redes. Mas o controlo sobre o jogo que, naquelas condições, o Benfica sempre manteve era um grande resultado ao intervalo.

Não se poderá dizer que na segunda parte tudo mudou. Mas mudou muita coisa. Começou por mudar com a troca ao intervalo de Gonçalo Ramos por Muza. Não que o croata seja melhor, mas porque é diferente. Joga de costas para a baliza, como dizem. Mas o que de mais relevante trouxe ao jogo foi o posicionamento. Mais fixo, fixou mais os centrais adversários, e abriram-se mais espaços. E, com eles, a inspiração de Grimaldo e Rafa. Mas também Enzo Fernandez, e até de João Mário.

E os golos acabaram por aparecer. Dois, em apenas 5 minutos, e ainda dentro dos primeiros dez da segunda parte. Primeiro numa excelente jogada colectiva, com Grimaldo (lá está, já perto da linha de fundo) a cruzar para a entrada de Rafa, bem junto à linha de golo. E, depois, aquela obra de arte - arrisco mesmo que esteja desde já encontrado um dos maiores candidatos ao prémio Puskas - do espanhol. Um golo de grande espectáculo que encheu de brilho a vitória do Benfica!

Em apenas 10 minutos ficou resolvido um problema que até parecia bem difícil de resolver. Com o problema dos golos resolvido, o resultado da primeira parte - o controlo do jogo - alargou-se. Com nova intervenção de Schemidt que, para isso, trocou Neres - que não fora bafejado pela inspiração - por Aursnes. E com o António e o Nico sempre lá bem em cima, sem darem qualquer hipótese de susto.

Esperava-se a estreia de Draxler, mas foram Chiquinho e Diogo Gonçalves a entrar para subsistirem o esgotado Rafa - que, se na altura de decidir e definir os lances tivesse metade da qualidade que tem a romper com bola, seria hoje um dos melhores do mundo - e o esforçado João Mário. É o que temos ... e, pelos vistos, ainda teremos de esperar pelo internacional e campeão mundo alemão. 

E o terceiro golo, que melhor definiria a superioridade do Benfica sobre mais este "fraco" adversário, só não surgiu porque o poste direito da baliza do guarda-redes americano do Maccabi o roubou a Enzo Fernandez.

E daqui a uma semana vamos a Turim. Esperemos que para defrontar uma fraquinha Juventus!

Carimbar em fato de gala

A Luz encheu-se e engalanou-se para se tornar no palco da certificação da entrada do Benfica na Champions. E a equipa retribuiu com uma exibição de gala, a melhor deste início da época.

E comecemos por aí, pela qualidade da exibição do Benfica desta noite. Não só a mais espectacular até ao momento, mas também a mais consistente. De jogo inteiro, sem quebras. Sem descansos, nem facilitismos. Sempre a sério, sempre a alto ritmo, e sempre com qualidade, mesmo depois das substituições.

É certo que o resultado acabou fechado ao intervalo, como na partida de Lodz, há uma semana. Mas não foi por a equipa ter desistido de procurar o golo, e de criar situações para o atingir.

A primeira nota alta para o jogo surgiu ainda antes do seu início, com a calorosa recepção que a Luz fez ao Dínamo de Kiev. Merecida, pelo que a equipa ucraniana fez ao longo desta fase de apuramento mas, evidentemente, pela mensagem de apoio à equipa da capital da Ucrânia, na véspera dos seis meses sobre a invasão russa.

Depois, logo que a bola começou a rolar, começou o espectáculo. Aos três minutos já a Luz vibrava com uma grande jogada de futebol a anunciar o golo. Depois ... foi seguir. Pela esquerda, pela direita, pelo meio. Com Rafa e Neres a pintarem a manta, mas com todos os jogadores em alto nível. Todos, os mesmo onze habituais, sem excepção.

Tanto futebol, e de tanta qualidade, não desaguava no entanto no golo. O adversário jogava "à portuguesa", muito fechado lá atrás, e toda aquela avalanche de futebol acabava em cantos. Até um deles, bem trabalhado, acabar finalmente no golo - de Otamendi -, ainda antes da meia hora, e depois de Grimaldo já ter rematado ao poste, e de Neres ter executado uma notável bicicleta que só por acaso acabou com a bola a sair na direcção do guarda-redes.

O golo não mudou nada. Nem a equipa ucraniana saiu lá de trás, nem os jogadores do Benfica desligaram. Fizeram, isso sim, por puxar os adversários mais para frente. Isso, e não a gestão cómoda do jogo.

E foi nesse registo que fabricou os dois restantes golos. O segundo, treze minutos depois do de Otamendi, por Rafa, na intercepção de um passe para o guarda-redes. E o terceiro, passados apenas mais três minutos, e a outros tantos do intervalo, talvez na mais esplendorosa jogada de toda a partida, toda construída ao primeiro toque, de uma baliza à outra, e concluída na perfeição por Neres.

Tinha caído o pano sobre o resultado, mas o espectáculo tinha ainda mais 45 minutos. A segunda parte arrancou mesmo a garanti-lo, e nem o arrepiante choque entre Rafa e Gonçalo Ramos em que acabou mais uma empolgante jogada daqueles minutos iniciais - e tinham passado apenas três - que chegou a fazer temer pelo estado de ambos, o colocaria em causa.

Rafa acabou por recuperar, e só Gonçalo Ramos teve de sair. Surpreendentemente substituído por Muza, que ainda não tínhamos visto jogar. E que, sem surpresa, e apesar da qualidade global da exibição da equipa, não convenceu quem nunca tinha estado convencido do mérito da sua contratação. Foram-lhe servidas três oportunidades para marcar, não aproveitou nenhuma. As duas primeiras foram mesmo desastradamente desaproveitadas. Só na última, já no primeiro minuto dos 3 de compensação - o árbitro entendeu, e bem, não prolongar o sofrimento da equipa ucraniana - acabou num remate defendido pelo guarda-redes, já com pouco ângulo e quando a decisão deveria ter sido outra.

O minuto 69 foi o das ovações. Merecidas, para Rafa, Neres e Florentino, substituídos por Henrique Araújo, Diogo Gonçalves e Weigl. Mudaram os jogadores, mas não mudou o jogo.

E o espectáculo prosseguiu, agora com estes. Mesmo sem os golos que João Mário, Enzo (ambos por duas vezes) e Musa tiveram nos pés. Com que os jogadores ucranianos, com apenas dois remates (um deles completamente desconchavado, a "quilómetros" do enquadramento da baliza), nem poderiam sonhar. Mesmo que um deles o tenha sonhado, naquele chapéu do meio campo que passou por cima da barra, com Vlachodimos, já na sua posição, a controlar o destino da bola.

Não foi com mangas de alpaca que o Benfica carimbou o passaporte para a fase de grupos da Champion. Foi com fato de gala. Como o Quinito se apresentou no Jamor, há mais de 30 anos, para disputar uma final da Taça de Portugal.

Para isto, para acabar assim, até dá vontade de dizer que o terceiro lugar da desgraçada época passada foi melhor que o segundo, que esteve sempre longe.

A Champions está perto. Mas há coisas que se querem longe!

Esta noite, em Polza, na Polónia - casa emprestada ao Dínamo de Kiev, em função da situação de guerra em que vive o país - o Benfica regressou ás boas exibições, interrompidas no último jogo, em Leira, com o Casa Pia. E deixou dito que esse jogo foi mesmo uma excepção no nível exibicional da equipa neste início de época, justificada pelo que é o campeonato nacional ... e o estado do(s) relvado(s) do Municipal de Leiria.

Ganhar fora por 2-0 é sempre um bom resultado. Quando acontece no "play off" para a Champions, só pode ser ainda melhor, mesmo quando o resultado foi provavelmente o pior que saiu deste jogo.

Com o onze preferencial de Roger Schemidt, agora com Neres recuperado, depois de ter falhado os últimos jogos, o Benfica dominou completamente o jogo, e exibiu uma superioridade sobre o adversário bem maior do que aquela que já era esperada. Com o habitual bom futebol, bem desenhado e cheio de movimento, e com a habitual pressão alta.

Se bem que já uma pressão alta diferente, eventualmente menos notória, mas mais inteligente. Mais posicional, mais estratégica e menos enérgica. O que não é uma má notícia, porque, desta forma, é bem menor os desgaste exigido aos jogadores, e por isso mais consistente e mais coerente. E isso é evolução e progresso!

A primeira parte foi uma bela demonstração de tudo isso, com um Benfica absolutamente dominador, sempre em crescendo, acabando com a equipa ucraniana do experimentado e astuto Lucescu literalmente encostado às cordas.

Na altura em que, em Munique, Pichardo saltava para a medalha de ouro europeia, os seus colegas de clube, do futebol, asfixiavam a briosa e competente equipa ucraniana.

O primeiro golo, mais um de Gilberto, chegou cedo, aos 9 minutos. A partir daí foi sempre em crescendo, e esperava-se o segundo, o terceiro, e até que não parasse por aí. Só deu para mais um - também mais um de Gonçalo ramos - já aos 37 minutos. Mas, antes e depois, bem mais poderiam ter surgido.

A equipa dominava o jogo a seu belo prazer, criava oportunidades e deliciava os espectadores, especialmente os benfiquistas, como é natural. O seu futebol enchia o campo e, desta vez, eram Florentino e João Mário a brilhar com mais intensidade, com Neres a deixar o perfume do seu futebol, e mostrar que, com ele em campo, tudo fica melhor.

A segunda parte não teve nem a mesma intensidade, nem a mesma qualidade. E houve momentos em que a equipa se desligou o que, não sucedendo pela primeira vez, terá de merecer mais atenção a Roger Schemidt.

É certo que, em termos absolutos, e como comecei por dizer, o resultado era bom. E quando assim é há a tendência para trocar a intensidade e a velocidade pela contenção e controlo do jogo. Nada a opor, desde que a concentração competitiva não seja negligenciada. E houve momentos em que foi. Valeu então Vlachodimos, para que um belo jogo não tivesse acabado por descambar para um resultado nada condizente.

Com a clássica metamorfose para o 4x4x2, na última meia hora, com a entrada da dupla Yaremchuk/Henrique Araújo, e com o jogador ucraniano - que certamente desejaria fazer bem melhor num jogo como este - a continuar a não ser capaz de nos entusiasmar, a qualidade do futebol também caiu, e acabou por contaminar o desempenho global da equipa. Mesmo assim, com uma segunda parte bem abaixo do nível da primeira, não faltaram oportunidades para mais dois ou três golos.

No fim fica um bom resultado, que praticamente garante a imprescindível entrada na Champions. Mas fica também, e continua, o alerta para a tendência da equipa facilitar e cair em momentos de desconcentração. Hoje por hoje, o maior reparo que se pode fazer à equipa.

Até porque não se sabe o que acontecerá ao primeiro resultado negativo. Sabe-se é o que tem acontecido nos últimos anos. E isso não se pode repetir!

Brilho nos golos

Poderia perceber-se que houvesse quem achasse que o Benfica cumpriu hoje na Dinamarca a sua obrigação de eliminar o Midtjylland nesta terceira pré-eliminatória da Champions, e até de ganhar este jogo de hoje, sem grande brilho. Uma visão geral do jogo poderia deixar essa ideia. Basta porém ver os golos - todos os três do Benfica - para encontrar neles o brilhantismo que pode ter parecido que o jogo, e a vitória, poderia não ter mostrado.

No primeiro, a meio da primeira parte, o passe de Gonçalo Ramos e a desmarcação de Enzo Fernandez para o golo, são momentos de brilho a grande intensidade. No segundo, aos 10 minutos da segunda parte, o cruzamento de João Mário e a cabeçada de Henrique Araújo para o golo, são igualmente dois momentos brilhantes. Bom ... e que dizer do fabuloso golo de Diogo Gonçalves, que surgiu pela primeira vez na equipa, onde entrou para substituir Chiquinho, já perto do fim do jogo?

Se outras coisas não houvesse - e houve, desde logo os outros dois - bastaria este extraordinário golo para abrilhantar a exibição menos empolgante com que o Benfica cumpriu a sua obrigação.

No resto foi um jogo marcado pelo resultado da primeira mão na Luz, há uma semana, e talvez mais ainda pela superioridade então demonstrada, com os jogadores convencidos que não era preciso apertar muito. Depois, no jogo, o facto de, sempre que a equipa apertou mais, com pressão e com velocidade, vir claramente ao de cima a superioridade sobre o adversário, também ajudou.

Os adeptos não gostam que assim seja. Que a displicência substitua o rigor e a concentração, seja em que condições for. Até porque há sempre o risco de destas coisas se instalarem na equipa. É esse o maior perigo destas intermitências por excesso de confiança, ou por critérios de poupança.

Podem compreender-se estes comportamentos, mas não podem deixar de ser lembrados. Custaram um golo, e poderiam ter até custado mais. E ficou a ideia que Roger Schemidt tomou nota disso.

No resto lá estiveram os atributos deste futebol do Benfica de Schemidt que passam pela rápida recuperação da bola para depois a jogar a um ou a dois toques. E lá estiveram Florentino e Enzo Fernandez, os dínamos daquele futebol.

Fica agora a faltar o Dínamo de Kiev, no play-off final. Que, sem competição interna por força da guerra, está em regime de dedicação exclusiva na tarefa de chegar à Champions. Por enquanto  bem sucedida, depois de eliminar o Fenerbahçe, de Jorge Jesus - a quem parece que as coisas continuam a não correr bem - e, também hoje, os austríacos do Sturm Graz. 

  

De luxo!

De luxo!

É o que se pode dizer da estreia oficial do Benfica nesta época. À excepção dos primeiros 10 minutos, em que o Midtjylland surpreendeu com uma pressão muito alta e com uma equipa muito compacta, com o Benfica a ter que ter alguma paciência na procura da resposta, o resto do jogo foi uma exibição de gala, apenas ofuscada por um resultado escandaloso à luz da qualidade do jogo benfiquista e das oportunidades de golo criadas - quinze, nada mais, nada menos.

Quando uma vitória por 4-1 fica como resultado escandaloso, está tudo dito sobre o domínio que o Benfica exibiu esta noite na Luz, no jogo da primeira mão da terceira pré-eliminatória de apuramento para a Champions, com esta equipa dinamarquesa.

Esteve uns bons furos acima do que apresentara nos seis jogos de preparação, a todos os níveis. Individual e colectivamente, técnica e tacticamente. E mostrou que a máquina está afinada.

Roger Schemidt apresentou o onze expectável, aquele que foi sendo apresentado por titular nas primeiras partes dos jogos de preparação, na sua vertente 4x2x3x1, com Gonçalo Ramos como único ponta de lança. E foi esse onze, e esse dispositivo táctico, que produziu o futebol empolgante a que esta noite se assistiu na Luz.

Logo que o Benfica se soltou daquelas amarras que a equipa dinamarquesa tinha preparado para a entrada no jogo, começou o vendaval exibicional de Neres, Enzo, Gonçalo Ramos, Rafa, Gilberto, Grimaldo, João Mário, Florentino, bem apoiados pelos centrais, Otamendi e Morato. E começaram a chover as assistências de Neres e os golos de Ramos, primeiro aos 16 minutos, e depois 16 minutos mais tarde. 

O terceiro tardou mais 7 minutos, e foi obra de Enzo Fernandez. O quarto era esperado a todo o momento, quando os jogadores do Midtjylland já só ansiavam pelo intervalo. Só ele os poderia libertar daquele sufoco. Para sorte da equipa dinamarquesa o intervalo veio primeiro.

Mas não lhes acabou com a tormenta. Para o Benfica foi como se não tivesse havido intervalo - bola de saída ... e para cima deles!

Chegou então o quarto. Muito atrasado, mas chegou. De novo por Gonçalo Ramos, para chegar ao seu primeiro hat-trick. E passou a esperar-se pelo poker, que esteve ali à mão por quatro vezes. Como esteve o golo que Neres merecia, e que a barra lhe roubou.

Em vez do quinto, sexto, oitavo, nono ou décimo golo do Benfica surgiu, através de um penálti caído do céu num lance inofensivo, o golo do Midtjylland, convertido por Sisto, provavelmente o melhor jogador da equipa dinamarquesa, à Panenka. Faltava um quarto de hora para o fim do jogo, e ficava fechado um dos mais mentirosos resultados de uma partida de futebol.

Até porque nesses 15 minutos finais o Benfica ficou a dever à exibição mais três ou quatro golos, mesmo depois de Roger Schemidt ter voltado ao alternativo 4x4x2, o tal plano B com Henrique Araújo e Yaremschuk. E com Chiquinho, para a ovação a Neres.

A eliminatória está evidentemente resolvida. Há acidentes, mas não há milagres. E, a jogar assim, só um acidente grave poderá impedir o Benfica de assegurar a presença na fase de grupos desta Champions, independentemente do adversário (Dínamo de Kiev, que eliminou o Fenerbahçe, de Jorge Jesus, ou o Sturm Graz) para o play-off.

 

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