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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Como é bonito quando tudo corre bem

O Darwin não é egoísta, tenho de lhe retribuir as assistências» |  MAISFUTEBOL

O Benfica saiu de Paços de Ferreira, uma deslocação de acentuado grau de dificuldade - ´sempre difícil jogar lá, e esta época mais ainda dado o excelente futebol da equipa treinada por Pepa, e extraordinária carreira que está a fazer nesta Liga, com o quinto lugar, e o acesso à Liga Europa praticamente garantido - com uma belíssima exibição. e com o mais expressivo resultado da época.

As esperadas dificuldades começaram a sentir-se logo com o arranque do jogo. Por um lado porque o Paços entrou bem, a pressionar alto e, por outro, porque logo se percebeu que o árbitro Hugo Miguel - pois claro - estava ali para dar continuidade à aplicação da lei máxima deste campeonato, contrariada apenas no último jogo, com o Marítimo. Logo aos três minutos, na mesma jogada, e depois da primeira arrancada de Seferovic, não há um penalti a favor do Benfica. Há dois. Primeiro, carga do defesa pacense nas costas de Waldschemidt que, imediatamente depois, voltou a ser carregado pelo guarda-redes, que saiu lesionado do lance, e levou à primeira grande interrupção no jogo.

Curiosamente a história repetir-se-ia à entrada do último quarto de hora da partida, então com o defesa e capitão, Marcelo, sobre Everton, que entrara pouco antes. Primeiro desviou a bola com a mão e. logo a seguir, derrubou o avançado do Benfica.

Logo depois de retomado o jogo, o restabelecido guarda-redes Jordi abalroou Seferovic, isolado à entrada da área, mas foi assinalado fora de jogo. O primeiro de quatro seguidos, um dos quais acabaria em golo. Intervenção do VAR, e nova paragem prolongada.

Aos 22 minutos do relógio, mas para aí aos 10 de jogo, surgiu o momento que marcaria o jogo. Eustáquio, depois de perder uma bola, entrou de pitons sobre a perna de apoio de Weigl, só não lha partindo porque não calhou. Lance indiscutível para vermelho. O árbitro Hugo ficou-se pelo amarelo, e o VAR teve de voltar a intervir, chamando-o a visionar as imagens. Então sim, o árbitro não teve alternativa, mostrou-lhe o vermelho, e o Paços ficou reduzido a dez jogadores, circunstância de que havia escapado pelo tal fora de jogo assinalado a Seferovic.

Na maior parte dos jogos em que as equipas grandes defrontam as pequenas, jogar contra dez não faz grande diferença de jogar contra onze. Como só defendem, defender com 10 ou com 9 não é muito diferente. Não foi a circunstância deste jogo. Desde logo porque o jogador nazareno é um dos bons jogadores deste campeonato - diz-se que o Porto já o terá apalavrado - e o mais influente desta equipa de Pepa. E depois porque o Paços não faz parte dessas equipas que só defendem, mas das poucas que disputam o jogo no campo todo.

Nunca se poderá saber se, sem essa expulsão, a exibição do Benfica e o resultado seriam os mesmos. O contra factual não é passível de prova. E o que estava para trás no jogo, tantas e tão prolongadas tinham sido as interrupções, não permite formular quaisquer hipótese. Há apenas um dado: é que o Paços não tinha feito qualquer remate, e contava então com apenas um ataque, no primeiro minuto. 

Não vale portanto a pena especular, e o que fica para contar é o que aconteceu, o que foi o jogo. É aí que entra a boa exibição do Benfica, os cinco golos marcados, e o sétimo jogo consecutivo a ganhar. E sem sofrer golos, naquele que é o novo recorde na Europa, batido o anterior, que pertencia ao Manchester City, ao minuto 14.

Jorge Jesus voltou aos três centrais, voltando a incluir Vertonghen. Não se sabe por entender que o Paços impunha respeito para tanto, se apenas por ser a forma mais limpa de nos livrar do Everton Cebolinha. Tenha sido pelo que for, resultou bem. E nem contra dez, e com o Paços inofensivo - fez apenas um remate, e fraquinho, à figura de Helton Leite, e ao minuto 85 - desfez o trio.

Correu bem porque tudo correu bem, mas também correu bem porque qualquer dos três centrais participou bem no início da construção do jogo da equipa. Começou sempre aí o futebol ofensivo e vistoso do Benfica, se bem que sempre marcado pelos seus dois grandes pecados capitais - a linha de fundo e os remates de meia distância. Mas como tudo correu bem nem se deu por eles.

O primeiro golo só surgiria aos 37 minutos, por Digo Gonçalves, resultado directo da forte pressão alta da equipa. Mas antes já Jordi negara dois golos certos a Waldschemidt e a Rafa. Que pouco depois marcaria o segundo, num contra-ataque em que Seferovic - grande exibição, o melhor em campo -, ainda no meio campo defensivo faz um passe sensacional para Rafa se desmarcar também, e ainda, antes da linha de meio campo. Nos 9 minutos de compensação Seferovic fez dois golos, mas só um contou. Em mais uma belíssima jogada de futebol, concluída com um grande passe de Taarabt, e uma grande desmarcação e uma finalização com classe do internacional suiço.

Com 3-0 ao intervalo, a equipa não abrandou, e só uma grande exibição do guarda-redes Jordi evitou que o marcador fosse evoluindo para números que já não se usam. As substituições começaram cedo, e desta vez todas a preceito. Logo ao intervalo entrou Gilberto para a saída de Diogo Gonçalves, amarelado e com um árbitro de mão leve para cartão amarelo (cinco, a jogadores do Benfica). Depois, ainda antes da hora de jogo, entraram Pizzi e Everton e, já nos 10 minutos finais, Darwin e Cervi.

E o melhor que se pode dizer é que todos, até Everton, estiveram a bom nível. A boa exibição colectiva decorreu naturalmente das boas exibições individuais, com destaque claro para Seferovic. Marcou dois golos e assistiu para outros dois, os de Rafa e de Darwin, festejado com lágrimas pelo jovem uruguaio. Mas Seferovic não fez apenas isso. Ao contrário do que fizera no último jogo, em que por egoísmo e individualismo penalizou a equipa no escasso 1-0, foi sempre um jogador do colectivo, sem se mostrar preocupado com essas coisas dos melhores marcadores, que agora já é.

E aquela forma como festejou o golo com Darwin foi do mais bonito que tenho visto. E como é bonito quando tudo corre bem!

 

Momentos históricos

 

O Benfica regressou ao campeonato, mas não regressou ao ponto donde partira. Regressou mais atrás, onde estava em Fevereiro.

Foi mais uma pobre exibição, perante um Marítimo a caminho da segunda Liga, na última posição da tabela classificativa. Tão pobre que até nem parecia que aquele Marítimo estava assim tão mal.

Teve uma novidade, este jogo. Duas, mas vamos à primeira, e mais significativa. Teve o primeiro penalti marcado a favor do Benfica. Foram precisas vinte e cinco jornadas para vermos alguém do Benfica com a bola à frente, parada ali na marca dos 11 metros. Foi Luca Waldschmidt, aos 20 minutos da primeira parte.

E que penalti! Foi tão claro quanto desnecessário, cometido por Hermes sobre Rafa, a sair da grande área, e naturalmente de costas para a baliza. O Benfica ainda não tinha criado qualquer oportunidade de golo, e mesmo remates, apenas dois. E valeu três pontos. Visto de agora, percebe-se que só assim o Benfica poderia marcar, tantas foram as oportunidades desperdiçadas. E quase sempre da mesma maneira, com jogadores isolados frente ao guarda-redes do Marítimo.

Apesar de ter jogado mal, o Benfica criou quatro ou cinco oportunidades claras de golo. E se fosse noutra altura da época, como acontecia há dois, três ou quatro meses, não teria ganho o jogo. Nesses tempos os adversários marcavam na primeira vez que chegassem à baliza, tal o desacerto defensivo de então. Agora já não é assim, a equipa defende bem, e o azar não está sempre atrás da porta. É que a equipa do Funchal teve duas ou três boas oportunidades para marcar, com Helton Leite a fazer duas boas defesas e, já no período de compensação, pela primeira vez batido, teve a sorte de o remate ter saído um pouco ao lado do seu poste esquerdo.

O futebol apresentado não foi muito diferente daquele velho estereotipo de passe para o lado e para trás, sem linha de fundo, com pouca presença na área e sem remates de fora da área. E os jogadores pareceram desconcentrados em muitos momentos do jogo, e desinspirados em tantos outros.

A segunda novidade foi o aparecimento, pela primeira vez, de uma jogada trabalhada, daquelas ditas de laboratório, na cobrança de um livre. E que jogada!

Mas como a equipa não encontrava forma de marcar, também essa foi perdida. Na circunstância por Otamendi, digna de ir directamente para os "apanhados". Fica também para a história deste campeonato, e logo no dia do também histórico penalti.

Também as antigamente famosas transições ofensivas de Jorge Jesus apareceram. A subida do Marítimo na segunda parte permitiram-no. E permitiram muitas mais do aquelas três. Se na primeira, por Rafa, e na última, por Chiquinho, acabado de entrar e já dentro dos cinco minutos finais de tempo extra, ainda se pode dizer que acontece, na segunda é apenas obra do egoísmo de Seferovic, a pensar na lista dos melhores marcadores. Tinha mais dois companheiros ao lado, todos sozinhos na cara do guarda-redes, e só tinha que desviar a bola para qualquer um deles. mas preferiu rematar e permitir a defesa (mais uma) ao guarda-redes do Marítimo, que lhe fez a mancha escancarando a baliza aos outros dois.

Com o resultado em 1-0, é imperdoável.

E assim se manteve o resultado magríssimo, fruto do tal penalti histórico. Mas com sofrimento desnecessário, e com Jorge Jesus - as substituições também não correram nada bem - a acabar o jogo com três centrais, com a entrada de Vertonghen, nos minutos finais.

Pode ser que seja o regresso das selecções. Os entendidos dizem que é sempre difícil. Que é difícil o regresso das selecções, e que é difícil o regresso das competições europeias. Como já não temos nada disso, pode ser que tenhamos agora o regresso àquele bocadinho de qualidade dos últimos jogos de Março.

 

Em estado de recuperação

 

Era a jornada de manifestação contra o racismo, uma luta que infelizmente continua a justificar-se. Em vez do nome, os jogadores ostentavam nas costas "racismo não". Não os de todas as equipas, a equipa do desordeiro - espero sentado pelas reacções da Liga à pouca vergonha de Portimão - não participou nesta manifestação. Dali não dá para esperar manifestações de desportivismo, fair play e outras coisas da educação e do civismo, como se tem visto. Apenas grosseria, deselegância e faltas de respeito!
 
Mas era também a jornada decisiva para o Benfica, com esta deslocação a Braga de grande expectativa. Desde logo porque era decisiva, não ganhando este jogo o Benfica ficaria decisivamente arredado da luta por um lugar de acesso à Champions, com tudo o que isso representa. Mas também para aquilatar se a equipa está realmente em recuperação. Era a prova do algodão, como aqui dissera a semana passada.
 
Este jogo de Braga disse que  - o algodão não engana - o Benfica está em recuperação. Não se pode dizer que esteja recuperado, porque esta época já não tem recuperação possível. Este estado de "em recuperação" já só dá para acalentar esperanças para o segundo lugar e para a Taça.
 
O Benfica entrou bem no jogo, de novo com três centrais e com os jogadores confiantes, a jogar bem. E sempre por cima do Braga. A princípio chegou a parecer que seria um jogo sem balizas, com ambas as equipas a trocarem bem bola, e com boas dinâmicas de jogo, mas sem remates. Ideia que só a partir de meio da primeira parte começou a ser contrariada, mesmo que o primeiro remate tenha surgido aos 7 minutos, e com ele a primeira oportunidade de golo. Para o Benfica, claro. Grimaldi, isolado, permitiu a defesa a Matheus. Porque não rematou de primeira, como devia, e como Rafa, a assistência de Seferovic, fez a fechar a primeira parte, no primeiro golo. 
 
O meio da primeira parte não trouxe apenas os remates. Trouxe também o remake de um facto histórico, com o árbitro Luís Pinheiro a assinalar um penalti a favor do Benfica, infringindo a lei, e com o VAR a voltar a impedir essa infracção. Exactamente como há uma semana. Então o VAR inventou que a falta se marca onde se inicia, e não onde acaba. Agora, com a ajuda das linhas manhosas, inventou um fora de jogo de 10 centímetros a Seferovic, que nem as imagens nem as linhas confirmam. Portanto, tudo normal - não há penaltis a favor do Benfica!
 
Com a expulsão de Fransérgio, com segundo amarelo, a cinco minutos do fim da primeira parte, a superioridade que o Benfica vinha demonstrando acentuou-se ainda mais. Naturalmente, mesmo que o Braga se tenha sempre batido bem.
 
Na segunda parte o tom do jogo manteve-se, e cedo, logo aos 56 minutos o Benfica chegou ao segundo golo, por Seferovic, agora com troca de papéis com Rafa. E fechou o resultado, porque o guarda-redes bracarense negou mais dois ou três golos (a  defesa ao espectacular remate de cabeça de Sefeverovic, aos 67 minutos é de outro mundo). Porque Waldschmidt, Seferovic, Rafa, Taarabt e Pizzi desperdiçaram excelentes ocasiões. Mas também porque num livre de João Novais a bola bateu na barra, sem que Helton Leite pudesse fazer grande coisa para evitar o golo, na segunda e última oportunidade do Braga em todo o jogo.
 
De resto, do jogo, para além da vitória e da subida ao terceiro lugar, ficam três notas. Duas positivas, e uma negativa. A segurança defensiva - o quinto jogo consecutivo sem sofrer golos - e a forma como a equipa controlou o jogo - e o resultado - com bola (contra 10 é mais fácil, bem sei!) contra uma das equipas que melhor sabe estar em campo. Pela negativa, o velho problema da linha de fundo. A equipa continua sem chegar à linha final para cruzar. Neste jogo só lá chegou por uma vez, por Grimaldi. Mas, la chegado, logo a bola voltou para trás. Porque a equipa não está mecanizada para este tipo de lances, fundamentais e decisivos num jogo de futebol.
 
Não está a arrasar, nem lá chegará. Mas está a correr bem. Defender bem impede que o adversário marque na primeira vez que chega à baliza, como acontecia há uns meses, e isso ajuda muito. Vamos a ver se esta paragem para os compromissos das selecções não vai estragar…

Aconteceu História, e muitas estórias

Aos cinco minutos do jogo da recepção ao Boavista - onde há quatro meses e onze dias começou o descalabro desta equipa de Jorge Jesus nesta Liga - aconteceu História: um árbitro assinalou, pela primeira vez neste campeonato, um penalti a favor do Benfica.

É certo que o VAR logo se encarregou de cumprir a lei. A da Liga, que proíbe penaltis a favor do Benfica, porque da outra, que faz parte das leis do jogo, e que diz textualmente que "se um defensor começa a agarrar um atacante fora da área de grande penalidade e prossegue a sua acção para o interior da área, o árbitro deve conceder um pontapé de grande penalidade", fez letra morta. Deve ser uma questão de hierarquia jurídica, com a Lei da Liga a sobrepor-se às do jogo.

O árbitro Manuel Mota, que mesmo assim ficará na História desta Liga, reverteu a decisão e acabou por assinalar a falta fora da área, onde na realidade começara. E trocou o cartão amarelo ao defesa do Boavista pelo vermelho, como se não devesse ter sido essa a cor a mostrar da mesma forma com o penalti. Enfim...

Por isso o Benfica começou praticamente o jogo a jogar contra dez. Mas não a ganhar, como aconteceria se o primeiro penalti a favor tivesse surgido - ao 26º jogo do campeonato, um recorde mundial - e tivesse sido convertido. 

Um jogador a menos, e logo a partir do início, é evidentemente condicionante decisiva para qualquer equipa discutir um jogo. Mas não tem importância de maior quando uma equipa não decide discutir o jogo mas apenas defender. Aí não faz grande diferença, dez jogadores atrás da bola e à frente da baliza chegam para defender e evitar golos. Como se tem visto em tantos e tantos jogos.

Foi isso que o Boavista fez, sob o comando do ainda grande Javi Garcia, e provavelmente mais se lhe não poderia pedir. E fazer isso perante este futebolzinho de Jorge Jesus nem sequer é muito difícil. Ao Benfica, sim, podia exigir-se mais que aquele futebol estereotipado de Jesus onde, como já aqui referi algumas vezes, a linha final pica e a área adversária queima.

Com aquele futebol era difícil criar condições para marcar golos. Mas lá surgiu um, já à beira dos 40 minutos, de um remate de Taarabt de fora da área, outra das coisas que faltam a este futebol de Jesus. Mas lá estava o árbitro para entender que o jogador marroquino, como o velho brandy Constantino com uma fama que vem de longe, deu uma chapada no adversário quando abriu os braços. Mas nem tocou em ninguém.

Mais uma vez o árbitro Manuel Mota mandou a lei às ortigas. E quando a bola se encaminhava a grande velocidade irreversivelmente para o golo, apitou. Ao apitar um milésimo de segundo antes da bola entrar, invalidou a hipótese de intervenção do VAR. O que lhe deve ter dado um jeitão!

Três minutos depois a bola entrou, finalmente. Na primeira vez que a bola chegou à linha de fundo, Diogo Gonçalves - finalmente a afirmar-se, e hoje o melhor jogador em campo - cruzou para Seferovic atacar a bola de frente, com os defesas contrários com ela por trás. É para isso que é importante chegar com a bola à linha final, a tal que parece picar.

Quem viu percebeu, no entanto, que não foi uma jogada trabalhada. Quem viu, viu claramente que Diogo Gonçalves só chegou à linha final porque, para fugir de doois adversários, ela foi lá parar. E ele correu atrás dela. Foi sem querer, não faz parte do plano de jogo. Simplesmente aconteceu.

Logo a seguir, dois minutos depois, a bola volta de novo a chegar à linha final, agora do outro lado, e Grimaldo cruza nas mesmas condições. E, claro, nova oportunidade de golo. Que desta vez o guarda-redes defendeu como pôde.

Depois acabou-se. A bola não mais voltou a chegar à linha final, a não ser para marcar cantos. Que foram muitos e nunca deram em nada.

O segundo golo não tardou muito na segunda parte. Aos sete minutos, com os mesmos protagonistas. Diogo Gonçalves não chegou à linha, mas na circunstância também isso não necessário, porque já tinha transportado a bola para além da linha defensiva do Boavista. O que dá no mesmo: Seferovic de frente para a baliza, e adversários com a bola por trás.

Depois do segundo golo, mesmo sem jogar bem - houve períodos francamente maus, sucedendo-se os passes errados, outra das imagens de marca da equipa - o Benfica criou mais umas quantas oportunidades de golo. E Seferovic chegou até ao hat trick, mas as linhas manhosas disseram que estava em fora de jogo por 7 centímetros. O resultado ficou curto. E nisso também a arbitragem teve culpa. Influenciou-o, e muito. 

São três vitórias consecutivas, e sem sofrer golos. É pouco para festejar, mas já há quem faça disto uma festa. Há jogadores a subir de forma - Diogo Gonçalves, Rafa, Otamendi e Lucas Veríssimo - mas não se vê uma subida de forma generalizada e consistente. 

O próximo jogo vai ser a prova  de fogo. A deslocação a Braga vai ser o algodão. Esse não engana!

O espaço procura-se onde ele está

 

O Benfica entrou no lastimável relvado do Jamor - a quem interessa esta prolongada degradação do Estádio Nacional? Presumo que interesse a quem interessa retirar de lá definitivamente, sem apelo nem agravo, a final da Taça - debaixo de fortes expectativas de recuperação. As últimas exibições, mesmo que a espaços, alimentavam alguma esperança na recuperação, pelo menos, de um nível exibicional minimamente compatível com os pergaminhos e a História do Benfica.

Rapidamente percebemos que as expectativas seriam goradas, e que a esperança teria de esperar por melhores dias. A equipa entrou a repetir tudo o que de mau tem vindo a fazer ao longo da época. A passo, passes para trás e para o lado, e mesmo assim falhados, boa parte das vezes. Sem ideias, sem querer e sem crer. E sem rematar. 

O primeiro remate surgiu já a primeira parte ia a meio. E com ele a primeira oportunidade, das duas que o Benfica criou nos primeiros 45 minutos. Tantas quantas as da equipa do B SAD, que se sentiu sempre confortável com as suas duas linhas defensivas muito juntas, e com o adversário exclusivamente apostado em explorar o espaço entre elas que, assim, obviamente não existia. Como por ali ninguém passava, bastava aos de azul esperar pelos passes errados ou que a bola acabasse por sobrar no meio daquelas barreiras defensivas para lançar as suas saídas para o ataque.

Tudo muito fácil para os rapazes de Petit e, ao invés, muito difícil para os de Jesus. E para a recuperação em que ainda queremos acreditar.

Na segunda parte tudo foi diferente. Nem sempre muito bom, mas diferente. O Benfica regressou dos balneários a perceber que não havia espaço entre as linhas adversárias, mas que ele estava atrás delas. E que, se era lá que estava, era lá que o tinha de procurar. Chamam-lhe os entendidos o ataque à profundidade. Mas é mais fácil do que aquilo que os entendidos querem fazer crer: é uma simples questão de visão, de ver o espaço onde ele está, em vez de insistir em procurá-lo onde ele não está. E depois um bocadinho de velocidade a procurá-lo.

De repente o futebol do Benfica transformou-se, e o jogo passou a ser outro, sem nada a ver com o que fora a primeira parte. Em 10 minutos chegou ao primeiro golo, por Seferovic, com assistência de Grimaldo. O segundo, com o suíço a bisar, desta vez servido por Diogo Gonçalves, tardou apenas mais três. E o terceiro, o primeiro de Lucas Veríssimo, com nova assistência do espanhol, mais seis minutos. E ainda com tempo para, de permeio, poder fazer mais dois golos. Três golos em 9 minutos, com três assistências dos laterais, e mais três ocasiões para fazer outros tantos, antes de passar à fase de gerir o jogo e o resultado, o mais gordo de há uns largos meses para cá.

E de novo a esperança que o imprescindível segundo lugar ainda possa ser possível, e que a Taça possa ser ganha, para ganhar qualquer coisinha nesta época. Que era de arrasar!

 

 

Maldita covid

 

O Benfica regressou hoje às vitórias, ganhando por 2-0 na Luz, ao Rio Ave, mercê da sorte do jogo na primeira parte, e de uma exibição já aceitável na segunda.

Na primeira parte, à excepção dos primeiros 10 minutos, em que até teve uma bola nos ferros, precisamente no ângulo entre o poste (direito) e a barra, num remate de Everton que merecia golo,  o Rio Ave foi sempre melhor em todos os capítulos do jogo, mesmo que apenas com um terço da posse de bola.

Nos insucessos desta época, e particularmente na Luz, o Benfica tem sempre podido queixar-se de o adversário marcar sempre na primeira vez que chega à baliza. Foi quase sempre assim, a jeito de cada cavadela cada minhoca. Tivesse hoje sido assim e provavelmente estaríamos agora a lamentar mais um desaire. Não foi. O Rio Ave teve - também - uma bola no poste, e teve ainda mais três oportunidades claríssimas para marcar. Quatro, ao todo, contra apenas aquela do Everton para o Benfica. 

Mas nem foi só isso, nem o Rio Ave apenas rematou o dobro do Benfica. Deu um verdadeiro banho de bola. 

Sabemos que a culpa é do covid. É pelo covid que a equipa não joga nada e é vulgarizada por qualquer adversário. É também por culpa do covid que a equipa não sabe o que fazer com as bolas paradas,  as únicas ocasiões que, depois dos 10 minutos iniciais, o Benfica teve para responder ao melhor futebol do Rio Ave. Foi simplesmente ridícula a forma como foram cobrados os cantos e os três ou quatro livres laterais de que a equipa dispôs.

Sabe-se lá por quê, o covid foi para os balneários ao intervalo e ficou lá. Não regressou, e a segunda parte foi outro jogo completamente diferente. Mesmo sem nunca chegar - nem lá perto - a um nível exibicional que satisfaça os adeptos e galvanize os jogadores, o Benfica superiorizou-se claramente ao adversário que, pelo tempo que demorou a regressar ao relvado, parecia estar a adivinhar o que iria suceder. A não ser que se tenha atrasado apenas para não se cruzar com o covid que tinha ficado nas cabines.

No primeiro quarto de hora da segunda parte o Benfica fez o dobro dos remates que fizera na primeira, e criou o triplo das oportunidades de golo, com o Rio Ave sem conseguir sair da sua área. Porquê tamanha diferença? Pelo covid?

Não. Apenas porque os jogadores puseram intensidade no jogo, coisa que nunca tinham feito na primeira parte. O primeiro (Seferovic) chegou mesmo no fim desses primeiros quinze minutos, e já era sobejamente justificado. Esperar-se-ia que o golo espevitasse os jogadores, e os fizesse embalar para uma exibição bem conseguida. Fosse pelo tempo que demorou a validar, que arrasa por completo os factores motivacionais do golo, fosse pelo covid da primeira parte, o que se seguiu ao golo não bateu certo com o que o antecedera, e o Rio Ave teve oportunidade de se mostrar e de lembrar o que fizera até ao intervalo.

Foi sol de pouca dura, o Benfica conseguiu reequilibrar-se, também com as substituições que, desta vez viradas para o desgaste da condição física dos jogadores, bateram certo. Mesmo que a saída de Waldschmidt, que não está fisicamente muito castigado, e que estava então a jogar bem, tivesse sido pouco compreensível. 

O segundo golo (Pizzi, que entrara na primeira leva para o lugar de Taarabt) apareceu já à entrada do quarto de hora final, depois de dois ou três falhanços (de Seferovic e do próprio Pizzi), e antes de outros tantos e de mais duas ou três grandes defesas do guarda-redes vila-condense, que até é polaco, nos dez minutos finais.

Pode ser que o covid se vá embora de vez. E que agora só falte mesmo jogar mais um bocado à bola.

Proezas e azias

Farense 0-0 Benfica: Águia volta a empatar e fica a 15 pontos da liderança

 

De proeza em proeza lá vai o Benfica neste campeonato. Hoje, em Faro, mais uma - conseguiu tornar-se na primeira equipa a não marcar ao Farense.
 
O jogo foi de grande intensidade, de parada e resposta, como os narradores gostam de dizer. E muito rasgadinho, cheio de duelos intensos. Especialmente na primeira parte. Não foi sempre bem jogado, mas foi sempre muito bem disputado
 
Se não se puder dizer que foi uma grande primeira parte, tem de se dizer que foi muita boa, para as circunstâncias. Pelas indicações que a equipa vinha dando sobre a sua condição física não se esperaria que o Benfica tivesse condições para responder à intensidade que foi lançada no jogo.  
 
O Benfica foi então superior, mesmo que o Farense tivesse sempre sido um adversário vivo no jogo. Teve até a primeira oportunidade de golo, negada por Helton Leite, com uma boa defesa. E chegou até a introduzir a bola na baliza do Benfica, mas não valeu, por fora de jogo de Licá. À pele.
 
O Benfica teve mais oportunidades e rematou muito, ao contrário do que tem acontecido. Mas quase sempre para fora do rectângulo da baliza. Na única vez que lá acertou (Everton) o Defendi ... defendeu. Uma grande defesa. De resto só mais uma oportunidade clara, só que em vez de entrar a bola entrou Darwin pela baliza dentro, depois de bater no poste. E os pecados capitais deste futebolzinho de Jorge Jesus. Se calhar não é culpa dele, a linha final é que tem espinhos, e a área adversária queima.
 
A segunda parte foi menos viva, também não era fácil manter o ritmo e a intensidade da primeira. Percebia-se por isso  que Jorge Jesus tivesse que iniciar cedo o jogo duas substituições. Não se imaginaria é que seria sempre para piorar. Ainda não se tinham esgotado os primeiros dez minutos e lá vinham as primeiras: o ineficaz Darwuin era trocado pelo ainda menos eficaz Waldschmidt; e o desastrado  Gilberto pelo mais desastrado Diogo Gonçalves. Pouco mais de cinco minutos depois mais duas trocas, mas também Pizzi e Grimaldo não acrescentaram nada ao que Gabriel e Nuno Tavares tinham feito. E que não tinha sido muito, especialmente o lateral esquerdo. Só mais tarde, já à entrada do último quarto de hora (!!!), é que Jorge Jesus tirou o Everton. Decidiu trocá-lo pelo Cervi, naquela altura do jogo. Ele é que sabe, e pelo ganha, deve saber muito. Mas não o suficiente para perceber que aquele futebol do craque que trouxe da selecção brasileira não é deste tempo. Hoje já não se joga assim.
 
É certo que a equipa criou mais três oportunidades claras de golo - Rafa, logo no início, e salva pelo guarda-redes, depois Seferovic, ao poste, e finalmente Pizzi, ligeiramente ao lado. E que o Farense, que tantas ameaças fizera na primeira parte, só por uma vez, aos 77 minutos, num remate de Ryan Gold, levou perigo à baliza de Helton. Ele andou por lá, à saída dos primeiros dez minutos, mas aí foi o próprio guarda-redes do Benfica a criar as aflições.
 
O treinador do Benfica não percebe o que se está a passar. Diz que é azar, que os jogadores do Benfica não marcam golos porque estão sem sorte. Também não marcam, nem nunca ficam perto disso, nos lances de bola parada. Certamente por azar. 
 
A arbitragem também não ajuda, diz agora Jesus. A arbitragem de hoje de Hugo Miguel teve os seus equívocos, é verdade. Coisa pouca, umas faltas sempre marcadas, e outras nunca marcadas. Uma dessas até acabou bem cedo num amarelo ao Gabriel, que ficou logo condicionado. No resto, cumpriu a lei. Quando o Rafa foi tocado no pé, e com isso derrubado, dentro da área do Farense, limitou-se a cumprir os regulamentos desta liga. Mas pronto, talvez também o Nuno Tavares tenha cometido um penalti estúpido sobre o Licá...
 
Tenho um amigo - sportinguista, mas para o caso não interessa - que diz que deixo transportar para aqui a minha azia. É verdade que não é fácil digerir quinze pontos de diferença. Mas ver o Braga o jogar à bola, como hoje se viu no melhor recital de futebol que esta época se viu em Portugal, e perceber que distância do seu futebol para este do Benfica, não se mede em pontos, mas em anos luz , é que dá azia a sério. Olhar para o Paços e para o que joga, e imaginar como vai ser dura a luta pelo quarto lugar, já só dá para uma ligeira indisposição. Porque essa é apenas mais uma proeza deste arrasador Benfica de Jesus.

A janela

Jorge Jesus:

Cada sinal de melhorias já só serve para aumentar a desilusão. Sempre que se lhe abre uma janela, o Benfica fica sem saber o que fazer.
 
O jogo de hoje em Moreira de Cónegos abria uma janela de oportunidade, não para o relançamento da luta pelo título,  que sobre isso já não há ilusões, mas para a discussão do segundo lugar, que sendo sempre o primeiro dos últimos, dá acesso à Champions. A equipa do Benfica olhou para essa janela e só viu que era uma oportunidade para para se mandar dela abaixo.
 
A equipa surgiu com a surpresa de Helton na baliza, e sem a surpresa de Pizzi no banco. Sem nunca chegar a um nível exibicional que confirmasse as melhorias anunciadas, o Benfica entrou no jogo dando sinal de queria ganhar e aproveitar a janela que se abrira com mais um empate do Porto, na véspera. E para se manter agarrada ao Braga, que ganhara nos Açores, no terceiro lugar. Não jogou propriamente mal, e criou algumas oportunidades de golo, perante um adversário que só defendia em cima da sua baliza.
 
Chegou ao golo aos 25 minutos (Seferovic), quando já o justificava. Continuou a dominar o jogo e o adversário, e poderia ter ampliado o marcador. Não o fez e, em cima do intervalo, aconteceu o que tem sido costume: na primeira vez que o Moreirense chegou à área do Benfica fez golo. Na história desse golo não entra apenas o minuto, o marcador, e o facto de ter sido a primeira chegada da equipa minhota à área adversária.
 
Tem mais história. Começa num lançamento longo para o ponta de lança do Moreirense, sobre a esquerda. Que à vista desarmada estava em claríssimo fora de jogo. Recebeu a bola, fez uma humilhante cueca ao Grimaldo que, quando meio atordoado ainda tentou recuperar a posição, ficou com os braços nas costas do jogador do Moreirense. Que não se fez rogado e caiu bem dentro da área. Penalti!
 
Penalti claro, sem quaisquer dúvidas. Penalti, essa coisa que, ao que se vai vendo, terá de constar de uma qualquer alínea de um qualquer artigo dos regulamentos da Liga proibindo-o sempre que a favor do Benfica.
 
A mão de Grimaldo nas costas do avançado do Moreirense teve intensidade suficiente para o derrubar? Não interessa, a intensidade não se discute. Estava fora de jogo, como as imagens que víamos mostravam claramente? Não, mostraram-nos as imagens do VAR. Estava - não 10 ou 11 - por 46 centímetros em jogo!
 
E lá foi o jogo para intervalo, com 1-1 no marcador.
 
Na segunda parte o jogo foi substancialmente diferente, e acima de tudo muito mais mal jogado. Teve largos momentos, em especial entre os  mais próprios de 60 e os 80 minutos, um "casados-solteiros" do que um jogo de  futebol do sexto mais importante campeonato da Europa. O Moreirense subiu no terreno, e disputou mais o jogo em todos os metros quadrados do terreno. E o Benfica foi cada vez mais caindo na mediocridade habitual do seu futebol, agravando-se com o estoiro físico da maioria dos jogadores. 
 
Mas teve mais histórias. Aos 60 minutos Vertonghen foi carregado dentro da área do Moreirense. Penalti? Não! Para além de estar proibido na tal alínea do tal artigo dos regulamentos da Liga, também aquilo não é falta. Só que minutos depois - que azar! - o Taarabt faz exactamente aquilo a meio do campo e... falta. Já ontem no Dragão víramos o mesmo: uma carga nas costas de um jogador do Boavista dentro da área do Porto, não foi falta. Poucos minutos depois, uma carga igual sobre Corona, a meio do meio campo de ataque portista, já foi falta.
 
Dois minutos depois, o árbitro Manuel Oliveira assinalou penalti, por falta sobre Weigl. Não podia ser, isso é contra os regulamentos da Liga. Mas víamos as imagens, e não tínhamos dúvidas: o defesa do Moreirense empurrou Weigl, mas sem intensidade. A tal. De tal forma que o jogador do Benfica não caiu, como tinha caído o do Moreirense. Desequilibrou-se, apenas. Continuamos a ver as imagens e vemos que acaba por cair, quando leva um toque no pé esquerdo, o que antes o mantinha de pé.
 
Nunca mais vimos essa imagem, a Sport TV fez o favor de não o voltar a mostrar. O VAR chama Manuel Oliveira para ir ver as imagens que tinha para lhe mostrar. E mostrou, só não mostrou a do toque no pé esquerdo do alemão do Benfica. Manuel Oliveira não teve dúvidas que o Weigl o quis enganar, reverteu a decisão do penalti e mostrou-lhe o cartão amarelo, quando o enganador era o VAR. E agora volto ao fora de jogo no lance do penalti que deu o empate ao Moreirense. Depois de ver esta falta de escrúpulo do VAR na manipulação de imagens, nunca mais acredito nas linhas de fora de jogo que nos impingem. E fiquei sem qualquer dúvida que aqueles 46 centímetros com que este VAR validou aquele penalti são uma das mais evidentes mentiras do VAR.
 
E lá seguiu tranquilo. Daí até ao fim foi o resto do calvário que é esta equipa do Benfica atravessa. Podia ter chegado ao golo da vitória, aos 79 minutos, na única jogada de futebol digna desse nome na última meia hora do jogo, concluída com uma excelente cabeçada de Darwin. Que o guarda-redes do Moreirense, evitou com uma defesa incrível. 
 
Os últimos minutos foram apenas penosos, com os jogadores do Benfica de rastos. Já só iam, nunca mais vinham. E o Moreirense só não acabou por ganhar o jogo porque não calhou. 
 
E no entanto Jorge Jesus achou que a equipa fez um grande jogo. O que torna tudo ainda mais preocupante. 
 
O Benfica podia, e devia, ter vencido o jogo. A arbitragem foi o que foi - imagine-se o que por aí iria se o que se passou se tivesse passado com outros -, o erro de Grimaldo é inaceitável, e sabe-se que a equipa não tem condição mental para tanta contrariedade. Posso admitir que, sem o erro de Grimaldo, e sem os erros da arbitragem, tudo poderia ter sido diferente. Mas isso não esconde o estado lastimável deste Benfica, nem a realidade de um Jorge Jesus definitivamente fora de prazo de validade.
 
A janela não serve só para nos mandarmos dela abaixo. Também serve para dizer adeus!

 

Sacudir culpas

O Benfica ganhou, finalmente. Depois de quatro jogos sem ganhar, que valeram o afastamento da luta pelo título, ganhou. Ao Famalicão, penúltimo classificado, com a pior defesa do campeonato.

Ganhou, mas não foi melhor do que tem sido. Não ganhou por ter sido melhor do que tem sido; ganhou por ter tido a pontinha de sorte que lhe tem faltado. Ganhou porque nos dois primeiros ataques fez três remates e dois golos, o segundo na recarga ao segundo remate, depois de uma grande defesa do guarda-redes do Famalicão. Tudo isto com pouco mais de um minuto de jogo jogado.

Aos seis minutos o Benfica ganhava por dois a zero, mas cinco desses seis minutos foram gastos pelo VAR a validar os golos. Nunca me tinha passado pela cabeça que o VAR também pudesse servir para isso, para uma espécie de pausa técnica a que os treinadores do futebol não podem recorrer. O que pareceu foi que Hugo Miguel, um árbitro com currículo, quis quebrar a avalanche do Benfica e dar oxigénio ao Famalicão.

Não se sabe o que teria acontecido se com aqueles dois golos tivesse acontecido o que seria normal acontecer - bola ao centro, e segue jogo. Sabe-se o que aconteceu. E o que aconteceu foi que os golos não empolgaram os jogadores. Fosse pelo gelo que VAR lhes despejou em cima, fosse porque já nada os empolga.

Porque o jogo acabou por ser o que foi, e não o que eventualmente poderia ter sido sem o saco de gelo despejado pelo VAR, acabam por não ficar grandes dúvidas que o Benfica ganhou porque teve a sorte que não tem tido. Desde logo a sorte de fazer os dois golos do jogo nos três primeiros remates. Ou, na prática, nos dois primeiros remates, dos dois primeiros ataques, nos dois primeiros minutos de jogo jogado.

Mas também porque, depois, a equipa voltou a cair na mediocridade do seu futebol, onde se foi afundando à medida que o tempo ia passando. Passes falhados, incapacidade de ligar as jogadas, perdas de bola, faltas...

Foi sendo assim, e foi mais gritantemente assim na segunda parte. O Famalicão começou a subir no terreno e a discutir o jogo a partir dos vinte minutos no relógio do jogo, e na segunda parte passou mesmo a estar por cima do jogo. E foi então, como já tinha sido nos últimos jogos, que se viu a mediocridade do futebol desta equipa do Benfica. 

Jogando no campo todo, o Famalicão - penúltimo classificado e a pior defesa do campeonato, repito - deixava espaço para os jogadores do Benfica imporem a sua suposta superioridade técnica. Mas o que se viu foi uma completa incapacidade para aproveitar esses espaços, falhando sucessivamente as transições ofensivas. Uma, apenas uma, foi concluída. Mas mais valia que o não tivesse sido - Darwin, numa chocante falta de classe (ou será apenas de confiança?), a dois metros da baliza, completamente escancarada, atirou para as nuvens.

E só não foi a única oportunidade de golo do Benfica na segunda parte porque, já mesmo no fim, o guarda-redes famalicense fez uma grande defesa, a remate de Everton. O cheiro a golo morou sempre na baliza de Vlachodimos, onde o golo não surgiu porque - lá está - a sorte desta vez, ao contrário das outras, não virou costas. Foram cinco as oportunidades que o Famalicão construiu. Quatro na segunda parte. A primeira tinha levado a bola ao poste, ainda antes da meia hora de jogo. 

Cinco oportunidades. Cinco! Ainda se não tinha visto tal coisa na Luz . 

Jorge Jesus resume tudo isto ao covid. Claro que não se pode ignorar o seu efeito devastador na equipa. E menos se pode ignorar que aconteceu, e a dimensão com que aconteceu, depois do jogo no Dragão. É um facto, e factos são factos. Não se pode é justificar o estado a que o futebol do Benfica chegou dessa maneira, até porque o eclipse da equipa já vinha de trás.

Já Otamendi, o capitão e que até marcou hoje o seu primeiro golo de águia ao peito, tem outra opinião. E falou de compromisso, de empenho e de partir para outra, mudar de rumo.

Não, mister. Não é tudo culpa da covid. A catástrofe que se abateu dobre o Benfica é mais da sua responsabilidade do que da covid. E mais ainda de Vieira e de Rui Costa do que sua.

Ontem estava a ver o banho de bola do City ao Liverpool e, extasiado com a classe de João Cancelo e Bernardo Silva, com a imponência de Rúben Dias e com a categoria e segurança de Ederson, via que, ali, numa das duas ou três melhores equipas do mundo, estavam quatro que saíram do Seixal. Quase meia equipa. Daí o pensamento saltou-me para a selecção nacional, e numa das melhores selecções do mundo, conto mais três ou quatro - João Felix, Gonçalo Guedes, Nelson Semedo, André Gomes... Espreitou para grandes equipas europeias - nisto do futebol a Europa é o mundo, o resto é paisagem - e lá estavam Oblak, Witsel, Cristante, Lindelof, Matic, Raúl Jimenez, Di Maria...

Só aqui estão quinze. só nos últimos anos. Dir-me-ão: pois, mas era impossível segurá-los. Não seria possível segurá-los todos, admito, mas não era impossível segurar boa parte deles. Não ter jogadores deste nível, nem os largos  milhares de milhões de euros que eles renderam, é que não deveria ser possível. Mas é a realidade.

Pior só olhar para essa realidade e perceber que disso já não há mais. Já não há no Seixal, nem há já departamento de scouting para os ir buscar fora. 

Sim, é esta a obra feita de Vieira. É este o legado de Vieira, Rui Costa, Jesus e Jorge Mendes... Sem jogadores, sem dinheiro, sem rumo. E sem honra!

Já não há toalha

O Benfica encerrou a primeira volta do campeonato com mais um desaire. Coisa assim já não se via há vinte anos, no 2001 da  pior classificação de sempre. Coisa assim, no ano de maior investimento de sempre, que Luís Filipe Vieira anunciara ser o da conquista da Europa, e Jorge Jesus de arrasar, nunca se tinha visto.

Fechava o calendário com a recepção ao Vitória, de Guimarães - que o outro já foi -, depois da derrota de Alvalade e do empate do Porto, na véspera, no Jamor com a equipa do B SAD, de Petit. E depois de Rui Costa, sem mais nada para dizer, se limitar pateticamente a proclamar que ninguém atirava a toalha ao chão. Quando já nem toalha há. Não podia passar pela cabeça de ninguém outra coisa que não fosse ganhar este jogo. Não havia espaço para outro resultado que não fosse a vitória, depois de quatro ou cinco jogos sem saber o que era isso. Só assim poderia amenizar a diferença para o Porto, manter o Braga à vista e, pelo menos, manter aberta uma engra da porta de acesso à Champions da próxima época.

O que se começou a ver com o arranque do jogo parecia indicar que a equipa estava consciente disso. Que queria e podia cumprir com essa tarefa. Mas rapidamente se percebeu que aquele futebol era como uma linda e vistosa vinha, cheia de parras viçosas, mas com muito poucas uvas. Para logo se conferir que aquelas poucas uvas não tinham sequer sumo.

Foi essa a imagem do futebol do Benfica da primeira parte. E não demorou a perceber que bonito aspecto da vinha nem sequer resultava do tratamento dos seus dirigentes, técnicos ou jogadores. A vinha parecia assim, bonita, apenas porque o adversário deixava que fosse assim. O Vitória chegou à Luz de autocarro - naturalmente - mas não o deixou na garagem. Levou-o para o campo. 

Acantonou-se na sua área defensiva e de lá não saiu. Deixou mais de 75 metros do comprimento do campo para os jogadores do Benfica, e fixou-se nos últimos 30. Foi isso que criou a ilusão da vinha bonita, que por baixo daquela parra havia de estar uvas, e uvas bem sumarentas e doces, capazes de dar bom vinho.

O Benfica fez quinze remates. Mais, só nos jogos, também na Luz, com o Tondela e com o Moreirense,  no único bom jogo desta época na Catedral. Mas, claras oportunidades de golo, nada... Uma, dizem as estatísticas do jogo.

Na segunda parte o treinador do Vitória achou por bem adiantar a equipa, e arriscar em dividir um pouco o jogo. E logo se viu claramente que o futebol do Benfica era só parra. Nem uvas tinha. E não foi por o adversário não deixar. Pelo contrário, com os jogadores mais adiantados, e a pressionarem mais a saída de bola, deixavam espaço para os jogadores do Benfica jogarem à bola. Se pudessem. Ou - sei lá - se soubessem...

Mas nada. Só que um nada mais incompreensível ainda. É que não marcar, e nem criar oportunidades para isso, contra uma equipa que defende com onze jogadores dentro da área, em que são tantas as pernas que a bola encontra muita dificuldade em se desviar delas, acontece muitas vezes. E às vezes acontece até aos melhores. Não criar uma real oportunidade de golo, não criar sequer um desequilíbrio, quando o adversário discute o jogo no campo todo, com a equipa obrigada a ganhar, é incompreensível.

Foi já no período de compensação, aos 92 minutos, que o Benfica criou a única oportunidade da segunda parte. Mas com aquela finalização do Pedrinho, a atirar a bola para a bancada a dois metros da baliza, nem dá vontade de lhe chamar oportunidade de golo. Ao contrário, no minuto seguinte, da do Mark Edwards, no terceiro remate da equipa minhota em todo o jogo. De resto foi nesses cinco minutos da compensação que o Vitória fez os três remates, que conquistou os dois cantos, e que Vlachodimos fez a sua única defesa.

E lá estamos sem toalha para atirar ao chão. O Sporting já lá vai, onze pontos pontos à frente. Coisa assim já não se via há ... 70 anos! O Porto já tinha também fugido, com cinco de avanço. O Braga também já passou. E o Paços já encostou. Veremos se demora muito a passar...

É responsabilidade do Luís Filipe Vieira? É, claro. Embebedou-se com o tetra, e achou que a partir daí os títulos cairiam do céu. Destruiu tudo o que o tinha levado até lá. Embrulhou a sua vida privada com o clube, fez dele o seu bunker de sobrevivência.

É responsabilidade de Jorge Jesus? É, claro. É hoje um treinador ultrapassado, preso a ideias de jogo do passado e prisioneiro das suas limitações. 

É responsabilidade de Rui Costa? É claro. Aceitou ficar refém de Vieira, e assistiu e assiste à  destruição do clube. É cúmplice, e estoirou com consensualidade de que durante muito tempo suscitou.

Mas é também responsabilidade nossa. De nós, benfiquistas. E especialmente daqueles que, com tudo à vista, escolheram não ver, e reeleger Vieira, há apenas três meses.

 

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