Acabou por se não dar muito pela moção de censura. Nada de especialmente bombástico, nem sequer um soundbyte. O mesmo de sempre, sem nenhuma novidade…
Claro que emergiu Paulo Portas, mas isso não é novidade. Faz parte da sua queda para submarinos: submerge durante largos períodos, para de vez em quando regressar à superfície.
A maior novidade acabou por ser a data da carta de Seguro, a sossegar as entidades europeias. A tão apregoada carta, há tanto anunciada, afinal levou a data de hoje. Uma brincadeira, mais uma!
Mas, para que nem tudo ficasse na mesma, e já que o Tribunal Constitucional – quem sabe se para tapar com uma peneira os mais de três meses que leva para se pronunciar por qualquer coisa que, posta noutros termos (em fiscalização preventiva), teria de decidir em 20 dias – anunciara dar notícias das suas decisões sobre o orçamento depois da apresentação da moção de censura, ficamos agora a saber que o segredo será desvendado já na sexta-feira.
Ninguém percebe o que é que uma coisa tem a ver com a outra, nem por que razão o Tribunal Constitucional decidiu não comunicar a sua decisão antes da votação da moção de censura. O destino desta iniciativa parlamentar era conhecido, nenhum tipo de suspense havia para alimentar e não havia bancada parlamentar que fizesse depender o seu sentido de voto da constitucionalidade ou não das normas do orçamento que esperam pelo veredicto. Mas, mesmo se em tese houvesse, isso só tinha que passar ao lado do Tribunal Constitucional. Não podia ser de outra forma!
Mas enfim, se calhar estas trapalhadas todas existem para isso mesmo: para que alguma coisa fique desta moção de censura!
A temperatura política subiu bem mais que a meteorológica nesta parte final da semana. E não teve nada a ver com a chegada da Primavera, o equinócio não trouxe nada de novo ao nível das condições climatéricas.
É a moção de censura ao governo que o PS – o antigo Partido de Soares, que foi Partido de Sócrates, e é agora Partido de Seguro – anunciou ao final da noite da passada quinta-feira, anúncio solenemente confirmado ontem no Parlamento, na discussão quinzenal com o governo que, evidentemente, mais faz subir o mercúrio do termómetro político do momento. Sabe-se qual é o destino de uma moção de censura a um governo que dispõe de maioria parlamentar, e nessa medida há sempre alguma dificuldade em desenquadrar a decisão de uma daquelas medidas folclóricas que fazem parte do jogo político. Não servem para nada mas têm significado político: os media animam-se, os comentadores excitam-se e os políticos levam-se a sério!
A anunciada moção de censura do PS é tudo isso e ainda mais alguma coisa. António José Seguro apresenta-a exactamente no registo que, no passado, utilizou nas suas abstenções violentas dos dois orçamentos anteriores. Ou no que usou para a violenta declaração do seu voto de aprovação do tratado orçamental imposto por Merkel, aquele que impõe o défice zero. Défice que Portugal não consegue baixar dos 5%, nem depois de secar os bolsos dos seus pobres contribuintes, nem de esgotar a imaginação com artifícios contabilísticos, mas que, pelas mãos desta maioria e do PS, foi o primeiro, pela ratificação do tratado, a comprometer-se a anular.
É por isso que Seguro anuncia a apresentação da moção de censura sem anunciar a data da sua apresentação. Uma moção de censura para data incerta, que denuncia a pressa – gato escondido com rabo de fora - com que foi decidida. Recordando o soundbyte de Seguro de há dois meses atrás - Qual é a pressa? – dir-se-á que a pressa veio de Sócrates. Diria que, gerido o dossiê António Costa, o regresso de Sócrates obrigou Seguro a mexer-se!
E é também por isso que, enquanto anunciava a moção de censura para daqui a umas semanas, Seguro tranquilizava a troika. Que a moção de censura não punha em causa qualquer compromisso, que tudo seria integralmente respeitado!
O problema não está, evidentemente, se o PS poderia dizer o contrário. O problema está apenas no simples facto de que não há solução para o país sem rever ou renegociar os compromissos assumidos. E que o PS, apenas porque anunciara uma moção de censura inconsequente, não precisava nada de ir a correr para a troika com juras de amor e fidelidade eternos!
O anúncio da moção de censura sem data está para a abstenção violenta na votação do orçamento como a carta logo enviada à troika está para a votação do tratado orçamental. Tudo na mesma, portanto!
No debate das moções de censura o governo foi acusado de roubo fiscal e de fraude eleitoral. Não ouvi acusá-lo de assassínio, mas desconfio que hoje assassinou o CDS!
Ah! E temos o melhor povo do mundo... Vindo de Vítor Gaspar é de desconfiar que não seja calúnia!
Mas afinal serviu. Serviu para o Pedro Silva Pereira lembrar que a actual direcção do PS é que não serve para nada. Serviu para Pedro Silva Pereira passar um atestado de incompetência a António José Seguro. E serviu para ficarmos a saber que o Socratismo está de volta, mesmo que Sócrates vá renovando matrículas em Paris!
O PCP anunciou uma moção de censura ao governo. António José Seguro acha que o governo merece ser “duramente criticado”, mas que “ninguém compreenderia” a queda do governo nesta altura. Lá nisso tem razão!
Mas será que sabe fazer contas? Então esta moção de censura – ou qualquer outra neste cenário parlamentar - serve para derrubar o governo ou para o “criticar duramente”?
E achará que faz algum sentido dizer que espera pelo texto da moção para decidir o sentido de voto?
Abriu o campeonato das moções de censura. O Bloco de Esquerda apressou-se na conquista do pole position. Razão tinha Paulo Portas quando, sem saber o que havia dizer sobre a matéria, atirou uma das suas: “ as moções de censura apresentam-se, não se anunciam”!
Sabemos que o PC não é muito dado a conselhos do Paulo Portas mas, desta vez, fez mal em não lhe ligar nenhuma… Paciência! Terão que partir em segundo lugar … se chegarem mesmo a arrancar. Agora digam que é azar!
É claro que este é um campeonato virtual, daqueles que, como Jorge Jesus dizia há uns anitos, só na play station!
O Bloco quis ganhar a pole ao PC que, por isso mesmo, não a irá votar: há-de arranjar-se uma boa desculpa, nem que seja uma que os atire para fora da corrida. Claro que o PSD não vai atrás do Bloco, como não iria atrás do PC. O CDS até nem se importaria, mas como não chegaria a lado nenhum, arranjará também uma boa desculpa. O que nem é difícil!
E lá teremos que aguentar o governo até ao fim do ano… Então sim, o Orçamento para o próximo ano resolverá isto… Antes, nem pensar. Porque o PR também não irá querer meter-se nisso. Dará um jeito ou outro, mas nunca mais que isso!
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