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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

DERBISEMELHANÇAS

Por Eduardo Louro

 

Dois dias depois do de cá, jogou-se o dérbi aqui do lado, de Madrid.

Também em casa do Sporting de lá, o Athletic. Também o Benfica de lá – o Real – estava obrigado a ganhar depois de, como cá, ter deitado fora uma vantagem confortável – só que bem mais confortável e com bem menos desperdício – arriscando-se a ficar com apenas um ponto de avanço sobre o Barcelona, a poucos dias de lá se deslocar. Também o árbitro começou por perdoar um penalti à equipa da casa.

Mas acabaram-se as semelhanças e os pontos de contacto entre os dois derbis. Até porque, no de lá, ao contrário do de cá, o árbitro assinalaria o segundo penalti que o jogo ditaria a favor dos forasteiros!

O jogo foi muito melhor – o que até nem admira, os jogadores eram melhores – e o Benfica de lá ganhou, como tinha de ganhar. Até talvez por números exagerados (4 a 1), mas disso tem culpa o Cristiano Ronaldo, que fez três – um hattrick, mais um, chegando aos 40 golos e voltando a ultrapassar o Messi – e a assistência para o quarto.

E como o Benfica de lá não é como o de cá, fica com quatro pontos de avanço, enquanto que o de cá tem os mesmos quatro de atraso. E vai certamente ganhar o campeonato, resolvendo um problema ao treinador do de lá. É que, ganhando o campeonato, Mourinho vai querer ir embora sem que os adeptos queiram que parta. Se o não ganhasse, seriam os adeptos de lá a quererem que fosse embora e o treinador a não querer (poder?) ir.

Ah! Afinal aqui está outro ponto de contacto…

DO PESADELO AO SONHO

 

Por Eduardo Louro

 

 

'Remontada' esteve perto, mas é Barça a seguir em frente (SAPO)

 

O Real Madrid por pouco não conseguiu a remontada e foi afastado da Taça do Rei pelo Barcelona. O costume, dirá quem não viu o jogo!

Não. Nada disso!

Estou em crer que hoje Mourinho libertou-se de um fantasma que o perseguia há dois anos. Desde aquela noite em que, com o autocarro neroazurri à frente da baliza, em Campo Nou qualificou o Inter para a final da champions, que viria a ganhar. Era esse fantasma que o levava a inventar sempre que defrontava o arqui-rival, transformando uma grande equipa de futebol num grupo de rapazes em pânico…

Nos jogos anteriores vimos sempre um Real Madrid derrotado e sem nada fazer para merecer a sorte que tinha. Hoje assistimos a um grande jogo onde o Madrid tudo fez para merecer a sorte que não teve… Com coragem, com classe, com vontade e capacidade para claramente vencer um adversário que antes achava imbatível. Que apenas não venceu por factores externos ao jogo. Mais que as contingências da sorte e do azar - o azar de uma bola na barra que cai na linha de golo e sai, de dois golos sofridos nos últimos dois minutos da primeira parte, de forma pouco mais que acidental – fez-se sentir uma arbitragem claramente adversa: um golo mal anulado logo no início do segundo tempo e um penalti claro (mão de Abidal na grande área) por assinalar!

Mourinho hoje ganhou, mesmo sem que tivesse ganho. Morreu na praia mas de pé, com honra e dignidade. E deixou claro que hoje ganhou o campeonato! Desde que não tenha nenhuma recaída, que não deixe que o fantasma volte a ganhar vida!

E O PESADELO CONTINUA...

Por Eduardo Louro 

 

Pepe Guardiola e o Barcelona continuam a fazer a vida negra a Mourinho e ao Real Madrid: um autêntico pesadelo sem fim! Sem fim e sem pausas…

O Barcelona faz do Santiago Barnabéu a casa assombrada dos madrlilistas. Em vez de entrarem com a confiança e o conforto de quem entra em casa, quando do outro lado está o Barça, os jogadores de branco entram borrados de medo, assustadíssimos e vêm fantasmas por todo o lado. Nada os tranquiliza, nem mesmo quando, como aconteceu hoje e já acontecera no último jogo – há pouco mais de um mês, que não consigo deixar de recordar aqui – os deuses estão a seu lado. Pura e simplesmente bloqueiam, como bloqueia o seu líder!

Mourinho transforma-se, como transforma a equipa, nestes jogos. Antes, durante e depois do jogo…

Desta vez, antes do jogo, optou por desvalorizar a Copa do Rei. Que não era importante, tinha sido importante no ano passado – único troféu conquistado, no único jogo que ganhou ao Barcelona – porque era um título que o Real há muito não ganhava. Este ano já não tem importância nenhuma…

Depois, já no jogo, abdica de todos os princípios do seu jogo e, ao atípico mas estandardizado 3X6X1 do adversário, reage com uma espécie de 7X3X0. A equipa fez um único remate em toda a primeira parte: o feliz remate de Cristiano Ronaldo, que deu o golo! No jogo todo fez três,  dois da segunda parte, um ao poste e outro para as núvens.

Um suplício bem evidente nas caras dos jogadores, vergados ao peso da superioridade (mas de 70% de posse de bola) de um adversário que lhes rouba o brilho e os transforma todos em jogadores mais que vulgares. Todos, não. O Pepe não se transforma num jogador vulgar, transforma-se numa besta!

Francamente: não consigo perceber como é que esse tipo tem permissão para continuar a pisar… relvados! As imagens televisivas estão aí: não servem para nada?

E o pesadelo continua. Na próxima semana há mais!

Futebolês #59 TROCA POR TROCA

Por Eduardo Louro

 

O futebolês de hoje não poderia passar ao lado do acontecimento da semana: a aclamação de Mourinho como melhor treinador do Mundo em 2010!

Por isso, e porque o futebolês, ao contrário do que é regra, também tem expressões estapafúrdias, verdadeiramente ininteligíveis, escolhi precisamente para hoje uma delas: a troca por troca!

É utilizada para uma substituição de um jogador por outro que ocupe precisamente a mesma posição. Como se percebe não faz sentido nenhum, por isso vamos ao que interessa!

A FIFA, que até aqui premiava apenas jogadores, instituiu pela primeira vez um troféu destinado a distinguir um treinador. Logo no primeiro ano em que a candidatura de José Mourinho assumia aspectos arrasadores. Em 2010 Mourinho arrasou!

Ganhou tudo o que havia para ganhar e com uma autoridade inquestionável. Que lhe advém de o fazer à frente de uma equipa – o Inter de Milão – que, indiscutivelmente, não integrava o primeiro lote das grandes equipas europeias como, de resto, a sua campanha na presente época demonstra. Mas também porque ganhou o principal e mais decisivo título – a Champions League, perseguido há 45 anos – à custa da melhor equipa (Barcelona) e do melhor plantel (Chelsea) da Europa e, no caso por inerência, do mundo. Não foi um percurso feito entre alas abertas mas sim enfrentando directamente os adversários mais poderosos.

Um prémio indiscutivelmente atribuído com toda a justiça! E recebido em Portugal com grande euforia, a provar que a sua personalidade irremediavelmente polémica não divide já os portugueses. É hoje uma figura consensual no nosso país. Pela sua enorme qualidade profissional – que naturalmente se impõe –, acredito que também pelo recente episódio em torno da selecção mas, sem qualquer dúvida – porque a clubite faz parte da idiossincrasia portuguesa – porque está já há muito tempo afastado de Portugal.

Pelas mesmas razões Mourinho nunca será consensual em mais nenhuma parte do mundo e em especial no espaço geográfico onde trabalhe. Porque tem uma vocação irreprimível para a confrontação, porque precisa de manter permanentemente abertas várias frentes de guerra. Porque, mais do que de adversários, ele precisa de inimigos para manter os altíssimos padrões de competitividade que imprime à sua actividade!

Mourinho é um autêntico predador de títulos. Alimenta-se de vitórias. De resultados. De ultrapassar objectivos e derrubar recordes!

Não é um eminente estratega do futebol. Não tem um modelo de jogo e raramente as suas equipas se preocupam em encantar a plateia. Nunca iremos provavelmente lembrar qualquer equipa de Mourinho como lembraremos o actual Barcelona, ou lembramos o Ajax dos anos 70, ou as selecções da Holanda do mesmo período, da Hungria dos anos 50, do Brasil do México 70 ou da Espanha 82, ou a Espanha da actualidade – campeã europeia e mundial!

Mas iremos sempre lembrar as vitórias de Mourinho. Que constrói as equipas à luz de ritmos competitivos inigualáveis, à custa de uma capacidade única de retirar de cada jogador o máximo que ele tem para dar. Que, pragmático como ninguém, ajusta o modelo de jogo a cada nova realidade e, em particular, às características dos jogadores.

Creio que esteja precisamente aqui o factor crítico do êxito de Mourinho. É que, desta forma, valoriza como poucos os seus jogadores. Mas, mais do que isso: conquista os jogadores como ninguém e transforma-se no mais poderoso gestor de recursos humanos.

É por isso que jogadores desconhecidos passam, nas suas mãos, a estrelas de primeira grandeza. Que não há um único jogador que não o defenda, mesmo os que não conseguiram vingar. E é por isso que, apesar de o ser, foi votado como o melhor do mundo: é que foi a votação reservada aos jogadores que o determinou. Pelos votos de treinadores e jornalistas não seria ele o eleito!

São muitos os que nunca lhe perdoam o carácter conflituoso, o clima de guerrilha que permanentemente alimenta e arrogância que cultiva como poucos. Será persona non grata para muitos, que nunca lhe reconhecerão o estatuto que destinam a treinadores que não fazem da controvérsia um modo de vida.

Será que o seu talento implica esta, chamemos-lhe assim e apenas para simplificar, sua arrogância? Será que num outro registo – mais cordato, simpático e cavalheiro – conseguiria manter a mesma competitividade e a mesma eficácia? Ou será que esta é uma imagem de marca solidamente implantada de que a marca Mourinho, sob pena de desvalorizar, se não pode afastar?

Parece-me que aqui não haveria troca por troca!

Efeito Mourinho?

Por Eduardo Louro

   

 

O Banco de Portugal apresentou hoje o Boletim de Inverno, onde prevê uma contracção da economia portuguesa em 1,3% para este ano. Para o próximo prevê que cresça 0,6%!

Curiosamente revê o crescimento de 2010 e aponta agora para 1,3%. Se não há aqui nenhuma simpatia especial pelo 1,3 ficamos a saber que a nossa riqueza no final deste ano ficará ao nível de 2009. O que não deixará de ser surpreendente, poderia ser bem pior!

Não fosse o habitual discurso do primeiro-ministro, e do ministro das finanças – já não há como separá-los –, e diríamos que, na actual conjuntura – que nos obriga a todos a correr para a porta para não deixar entra o FMI –, fez muito bem em salientar o crescimento de 2010 e em virar a cara para o lado com a retracção da economia para este ano. Uma recessão que toda a gente sabia inevitável mas que o governo preferiu fantasiar e que põe já em causa a execução orçamental – essa sim, a verdadeira barricada à entrada do FMI. As exportações iriam safar o crescimento, diziam!

E aproveitou ainda para encostar mais uma tranca (pequenina mas enfim!) à porta ao afirmar que o défice de 2010 será inferior aos já proclamados 7,3%. Vindo daquela boca nunca sabemos, mas amanhã é dia de voltar ao mercado e, pelo menos, resolve aquele pequeno problema aritmético aqui notado num destes dias: ganhos na receita fiscal, ganhos na despesa e ainda o fundo de pensões da PT, tudo isto a somar e mantinha-se o défice? Não batia mesmo certo!

Uma coisa é certa: a sessão da Bolsa de hoje já fechou positiva! Ah! E a taxa de juro a 10 anos também já está um bocadinho abaixo dos 7%!

Se Cavaco Silva nem passou cartão à desabrida proposta de Alegre isto só pode ser … Mourinho! Bastou que nos puxasse o ego um bocadinho para cima: virou logo a Bolsa, baixaram os juros e as contas até já parece que começam a bater certas.

Por isso é que já vi hoje uma recomendação: imitar o Gilberto Madaíl e pedir ao Florentino Perez que o empreste por dois ou três meses para governar o país!

 

Banho de bola

Por Eduardo Louro

   

Barcelona de sonho em Real pesadelo (SAPO)Por culpa das eleições de ontem na Catalunha (também por lá, os socialistas levaram uma grande banhada:"votar foi um prazer"... mas nos outros) disputou-se hoje o grande clássico do futebol espanhol – um Braça v/s Real Madrid – de enorme expectativa. Lá, onde os bilhetes chegaram a atingir os 3 mil euros no mercado negro, e cá! Também por cá se seguiu o clássico espanhol a par e passo, com os portugueses divididos entre um Barcelona que encanta e fixa as maiores fatias das nossas simpatias – os clubes de fãs culés já vêm dos anos 90, do Barcelona de Robson (e Mourinho), Ronaldo e Rivaldo, – e um Real Madrid, agora transformado no maior fornecedor do onze titular da selecção nacional, onde três portugueses e meio (que me perdoe o Pepe) activam indisfarçáveis sentimentos nacionalistas.

Bastou ver a imprensa do fim-de-semana para nos apercebermos desses corações divididos. Pelo menos dos corações mais mediáticos! Os outros também não interessam…

Em confronto estavam duas coisas antagónicas. Sim, duas coisas e múltiplos sentimentos contrários: duas representações distintas – uma representação de uma comunidade e de uma região em oposição a uma representação de um estado que, em vão, se procura projectar numa nação; duas ideias distintas de construção de uma equipa – uma que o faz a partir das suas escolas de formação, da sua cantera (no onze do Barça apenas dois jogadores haviam sido adquiridos no mercado – Abidal e David Villa) e outra que o faz através de investimentos multimilionários na aquisição de jogadores por esse mundo fora (apenas um jogador da cantera no onze, o guarda-redes Casillas); duas ideias de jogo completamente diferentes – um que privilegia a posse de bola, o jogo rendilhado que encanta o espectador, com quinze a vinte passes antes de chegar à finalização e outro que o faz através de apenas dois ou três, um que encurta o campo e outro que o alonga. E até duas imagens opostas. Duas imagens que as principais figuras de cada lado bem personificam: um Mourinho superstar, arrogante (porque não dizê-lo com frontalidade! como diz o outro) e exuberante a par de um Pepe Guardiola que transpira humildade e recato. Ou um Cristiano Ronaldo de porte altivo e atlético, figura de grande inspiração mediática à custa das mais variadas extravagâncias, de namoradas e até de um filho e um Leonel Messi, atarracado e pacato, que limita o seu protagonismo ao rectângulo verde de jogo.

O jogo rendilhado do Barça, feito de uma interminável cadeia de passes e de uma obscena posse de bola, asfixiou por completo o Real Madrid de Mourinho. Um banho de bola, foi o que foi! Um banho que deixou em êxtase todos os que gostam de futebol, desse espectáculo fabuloso que Messi, Iniesta, Xavi, Pedro e Villa conseguem produzir com uma simples bola. Não sei se o Mourinho já percebeu bem o banho que o Guardiola lhe ofereceu: banho de bola, de humildade ou ambos?

Claro que esperávamos um grande jogo entre as tais duas ideias de jogo: as mesmas duas ideias de jogo que tão bem sucedidas vinham sendo até aqui. Era aí que residia a grande expectativa que rodeava o jogo.

Deu apenas Barcelona! É na frustração dessa expectativa que também está a humilhação de Mourinho!

Futebolês #48 Hat trick

Por Eduardo Louro

   

 

 

É o futebolês a regressar aos anglicismos. Sendo a Velha Albion a pátria do futebol não admira que o futebolês de quando em vez entre por esse caminho e vá beber à fonte.

Parece-me que nem sequer lhe fica mal, não vejo nisso qualquer volúpia elitista! Revejo ali a mesma matriz popular do futebol, ao contrário de outros dialectos. Do economês – outra das linguagens em que também dou uns toques –, por exemplo, que tem nos anglicismos a sua imagem de marca. Enfim, embora não pareça – o que mais vemos por aí é discutir economia exactamente como se discute futebol – economia não é futebol!

Pois bem, um hat trick não é nada do outro mundo. Comparado, por exemplo, com o stock options do economês (ouvi hoje mesmo uma a que achei imensa graça: defining moment!), explica-se em duas palavrinhas que toda a gente percebe: três golos!

Não custa nada a explicar. Custa é a fazer: três golos num só jogo não é para todos! Nem para todos os dias!

Quando alguém, algum jogador naturalmente, se cruza com um desses dias está encontrada a tarde ou a noite perfeita. Se isso acontece num jogo importante e de grande visibilidade então estarão irremediavelmente abertas as portas da glória.

Se o hat trick tem toda esta magia imagine-se o póquer. Que tem a particularidade de já não ser um anglicismo mas um termo bem português. Adaptado e bem aceite no regaço da língua portuguesa que o futebolês não enjeitou!

 Este póquer não é esse jogo que agora está na moda, que está a cativar multidões, incluindo algumas estrelas do futebol. Póquer, em futebolês, é marcar quatro golos – quatro – num só jogo! É a glória apenas ao alcance dos predestinados na tarde ou na noite mais que perfeita!

Para se ter uma noção da dimensão do póquer bastará ver que o nosso CR7 apenas conseguiu por uma vez: foi no passado fim-de-semana, quatro golos nos 6 a 1 do Real Madrid frente ao Racing de Santander!

Foi preciso conjugarem-se uma série de variáveis para que a nossa maior estrela alcançasse o seu primeiro póquer. Antes de tudo a sua grande forma com a grande forma da equipa, ou a mão de … Mourinho.

E aí está a dupla portuguesa de maior sucesso mundial: Mourinho e Cristiano Ronaldo, agora juntos numa das mais notáveis instituições mundiais – o Real Madrid! Ambos esta semana indigitados para os prémios de melhor do mundo, que não deverá fugir a Mourinho mas que, graças à falta de liderança e de ambição de Carlos Queirós na errática campanha da África do Sul, deverá fugir ao CR7.

Uma dupla de sucesso que é apenas um exemplo de muitos outros portugueses de alto mérito espalhados por todo o mundo, que nos permitem fazer muitos golos – alguns hat tricks e mesmo um ou outro póquer – no desafio que nos está lançado e que temos que ganhar.

Portugal sempre teve um problema de dirigismo e de lideranças. Não é novidade nem tão pouco um problema sectorial. É um problema transversal na sociedade portuguesa. No futebol temos dirigentes que permitem que o Cristiano Ronaldo veja o prémio de melhor do mundo voar para alguém aqui ao lado. Que se arrastam há anos, sempre os mesmos, a desperdiçar o enorme talento de gerações dos nossos melhores jogadores. Na vida política é o que sabemos e o que constatamos todos os dias: uma casta dirigente instalada, virada para o seu umbigo, impreparada e incapaz, que afasta e empurra os novos valores, para se alimentar de sucessivas fornadas de pseudo quadros criados, à sua imagem e semelhança, nas juventudes partidárias. Na actividade económica, sempre muito dependente e à sombra do Estado, a maioria da classe dirigente vive em regime de pura promiscuidade com a classe política. A mesma gente e as mesmas regras, restando aos novos valores sair do país e colocar o seu conhecimento ao serviço de outros.

Da mesma forma que para as estruturas do futebol se vai já falando em nomes que ainda há pouco tempo passeavam a sua classe pelos relvados europeus, também para a nossa política, e para a nossa economia, é preciso que se comece a falar dos muitos jovens que espalham talento por esse mundo fora.

 

Com ... tranquilidade

Por Eduardo Louro

 

 

Encerrada que está a disparatada, absurda e achincalhante trapalhada em que o Sr Gilberto Madaíl meteu o nome de Portugal, do futebol português e até de Mourinho (se bem que aí a música seja outra e haja muito por contar) aí está uma nova trapalhada: Paulo Bento!

Quero desde já dizer que nada tenho contra o treinador Paulo Bento. Tenho, no entanto, tudo contra mais esta trapalhada, na sequência directa da trapalhada anterior: ninguém percebe por que é que o Sr Madaíl não tratou discretamente do disparate Mourinho – podia ter almoçado, comido umas tapas ou apenas tomado um chá sem o anunciar aos sete ventos, preservando, como o mais elementar bom senso aconselharia, uma reserva que só faria sentido quebrar em função do sucesso (de todo improvável) de tão disparatada iniciativa – como ninguém poderá perceber a sucessiva exposição do nome de Paulo Bento e os sucessivos avisos (que mais pareciam ameaças) do anúncio de um futuro  contacto. Alguém entende que se avise, dias a fio, que se vai efectuar um contacto?

É para mim claro que é trapalhada atrás de trapalhada. Outra coisa seria difícil de esperar nesta altura do Sr Madaíl.

Trapalhadas à parte, em que Paulo Bento não tem qualquer responsabilidade, convém tentar perceber se esta opção, que parece estar a gerar unanimidade no meio mediático e desportivo, encaixa na actual realidade da selecção nacional.

Vítor Serpa, no Editorial de domingo de A Bola, apontava alguns traços do perfil do novo seleccionador: “mais forte do ponto de vista psicológico do que táctico, mais alegre do que triste, mais extrovertido do que intimista, mais amigável que conflituoso, mais comunicativo do que embezerrado, com mais amigos que inimigos”.

Eu acrescentaria: experiente, com forte capacidade mobilizadora, fortemente de empático, de discurso fácil, simples e directo, de espírito aberto, liberto de dogmas tácticos e … com tranquilidade!

Parece-me que, à excepção da famosa tranquilidade – imagem exclusiva de um discurso amplificado pelos Gato Fedorento e não exactamente uma imagem de marca – não encontramos aqui muitos pontos de contacto com o perfil de Paulo Bento. O que não faz dele um mau treinador nem sequer impede que seja seleccionador nacional! Apenas não encaixa na actual selecção nacional: uma equipa sobre brasas, sem margem de erro, descrente, sem chama e sem público!

Pode ser que corra bem, mas é daquelas soluções que, com toda a tranquilidade, tem tudo para não dar certo. Gostaria de estar redondamente enganado!

Futebolês #42 Falso ponta de lança

Por Eduardo Louro

   

 

O futebolês é uma linguagem com virtudes inimagináveis. Entre elas uma capacidade extraordinária de adaptação aos mais rebuscados conceitos e uma enorme facilidade de transmitir as mais subliminares mensagens. O falso ponta de lança tem um pouco de tudo isso!

Há o ponta de lançao matador –, que já por aqui passou, mas também o falso ponta de lança. Que, ao contrário do falso médico (ou de qualquer outro falsificador), não anda por aí a armar-se no que não é. O falso ponta de lança não é aquele tipo que chega ao aeroporto todos os Verões (e todos os Janeiros, também Verão lá na terra deles) a proclamar aos setes ventos que faz muitos golos, que remata bem com os dois pés e que é muito bom de cabeça mas que, depois … nada. Nem um só desses atributos! Esse, embora pudesse parecer, não é o falso ponta de lança. Esse é o barrete!

O falso ponta de lança não é um impostor. Fazem dele um impostor, não o é ele próprio. É o treinador que cria esse embuste!

Ou porque não tem mesmo um ponta de lança na equipa – às vezes só tem um ou outro desses barretes – e, já diz o povo, quem não tem cão caça com gato; ou porque, mesmo tendo-o, não o utiliza porque tem medinho do adversário. Não é capaz de o enfrentar cara a cara. De disputar o jogo pelo jogo, olhos nos olhos com o adversário. Arma a equipa em bases ultra defensivas e, não lhe sobrando ninguém para servir o ponta de lança – ou assistir, como vimos na assistência –, opta por destinar as tarefas atacantes a um só jogador, normalmente franzino e rápido e de boa relação com a bola.

Aí está o falso ponta de lança!

Que nem sequer é bem uma falsidade. Comparada com as falsidades que por aí andam…

São as falsas partidas do Benfica e da selecção, a colocarem em sérios riscos os respectivos objectivos logo de início. São as falsas soluções e até mesmo os verdadeiros problemas confundidos com falsas questões!

Na selecção, como de resto se esperaria, tudo se resolveu com o despedimento de Queiroz. É falso que Madaíl tivesse algo a ver com o problema, ou mesmo que não seja ele o próprio problema. Basta olhar para a desorientação e o desespero verdadeiramente humilhante da tão disparatada quanto ridícula ideia de ir suplicar a José Mourinho (e ao Real Madrid) que venha treinar a selecção nos dois próximos jogos. Nunca visto!

No Benfica as coisas estão a correr como a partir de certa altura (o tema tem aqui sido abordado desde a 36ª edição) era previsível que corressem.

É visível que não há só falsos pontas de lança. Também há falsos resultados, falseados por arbitragens que, muitas vezes, custam a perceber como meramente infelizes. Objectivamente o Benfica vem sendo duplamente prejudicado: penalizado por decisões erradas nos seus próprios jogos e por decisões erradas que têm beneficiado os seus adversários directos. E os órgãos sociais do Benfica reagiram. Com razão. Mas mal, a meu ver! Mal porque dispararam em todas as direcções, e muito mal quando apelam à desmobilização da sua massa associativa – a sua maior força. Uma força capaz de levar a equipa ao colo – joga praticamente em casa em 27 ou 28 dos 30 jogos do campeonato – como ainda há pouco se via. Apelar aos adeptos para não comparecerem nos campos dos adversários é deitar fora uma das principais vantagens comparativas. Mas é também um espinho na relação de boa vizinhança com a grande maioria dos concorrentes: os pequenos clubes que vêm na visita do Benfica o seu euromilhões!

Não é assim que se mobilizam as tropas!

Ah! E Olegário Benquerença?

Bom, não está em causa a sua seriedade, para mim absolutamente intocável. Mas começa a ser demasiado evidente que não é feliz nos jogos com o Benfica. E como faz infelizes todos os benfiquistas (menos um, que eu conheço e ele também)!

Tudo começou aqui há uns anos, na Luz, com aquele remate do Petit que o Vítor Baía defendeu para além de uma linha que, mais que uma linha de golo, é uma linha que separa benfiquistas e anti benfiquistas. A partir daí é uma história de jogos complicados que, à luz dos dois últimos – o do Dragão do final da época passada e agora este de Guimarães – o melhor mesmo é pôr-lhe ponto final. E que a recente homenagem da A. F. Porto (já quase ninguém se lembrava da sua histórica e tumultuosa relação com a arbitragem) em nada ajudou. É que não é a mesma coisa da homenagem da A.F. Leiria, em que com muito gosto (a convite do tal benfiquista único  que acima referi) participei, na véspera da partida para a África do Sul!

E domingo há derbi. Que parece estar já a aquecer, depois de uma longa semana europeia em que apenas o Braga deu passo em falso!

Mundial da África do Sul #11: Ponto(s) Fina(l)is

 

Por Eduardo Louro

 

 

1. Caiu o pano sobre o mundial!

Precisamente um mês depois – o que quer dizer que o Quinta Emenda cumpre hoje o seu primeiro mês – o primeiro mundial africano chega ao fim.

O primeiro sentimento é de regozijo pelo sucesso organizativo de um acontecimento desta dimensão num continente sempre adiado. É certo que falamos do mais desenvolvido dos seus países, mas representa todo um continente e todo um povo. Que merece e tem de ter crédito!

O segundo é de tributo. De um tributo a Nelson Mandela e ao país que inventou!

Se com o mundial de rugby, em 1995, Nelson Mandela ganhou um país, o seu país mais livre e mais justo, com este mundial de futebol, de que foi o primeiro impulsionador, reforçou a sua identidade nacional. Hoje também brancos jogam futebol e negros também jogam rugby. E não era assim!

Foi com emoção que, depois de impedido pelo destino, tantas vezes cruel, de abrir o campeonato, testemunhamos a tremenda ovação com que Mandela foi brindado no seu encerramento.

2. O sentimento que fica é que desportivamente o mundial foi um êxito. Com grandes espectáculos de futebol e, para nós que o vimos através da televisão, com grandes espectáculos televisivos.

Normalmente retemos as últimas impressões e tendemos a esquecer as primeiras. Mas a verdade é que, salvo poucas excepções, os espectáculos de bom futebol começaram apenas na terceira e última ronda da fase de grupos.

Já vem sendo habitual que a fase inicial de grupos seja enfadonha e desinteressante, o que poderá levar a questionar o modelo. Compreendo, face aos interesses em jogo, que seja difícil encontrar alguma alternativa. Claro que a FIFA, com os meios de que dispõe para a promoção do negócio, consegue contornar este handicap transformando, apesar de tudo, este evento num fenómeno cada vez mais inclusivo, mais abrangente e mais transversal.

Mesmo assim parece-me que haverá que velar pelo espectáculo. Para isso, e para além de eventuais modificações no modelo competitivo da primeira fase, também o timming, no final de uma época desgastante, é inimigo da qualidade do espectáculo. Sei da complexidade que é mexer nos calendários competitivos, mas realizar estas provas em Setembro/Outubro daria certamente outras garantias.

Este foi, ainda, o campeonato do mundo que, depois daquele domingo negro, pode ter levado a FIFA a abrir as portas ao uso das tecnologias na arbitragem.

3. Fica ainda um sentimento de justiça competitiva. As três selecções que ocupam o pódio, exactamente nos lugares que ocupam, são as melhores deste campeonato do mundo. O futebol, como a economia, frequentemente premeia os especuladores. Neste mundial isso não aconteceu, os especuladores foram normalmente penalizados. A excepção, que confirma a regra, foi a Argentina, afastada pelo romantismo e pela ideia de que a Maradona tudo se perdoa!

A Espanha ganhou porque foi a melhor equipa mas também foi sempre fiel aos seus princípios, nunca de descaracterizou para de adaptar ao adversário. Ao contrário de todos os outros …

O Brasil, o grande favorito, foi para casa sem honra nem glória precisamente por isso. Não lhe faltaram jogadores. Tinha lá dos melhores. Quis ser uma equipa europeia, faltaram-lhe os seus princípios, faltou-lhe samba! A Alemanha talvez tenha falhado a final por achar que, contra a Espanha, poderia especular como fizera com a Inglaterra e a Argentina.

4. A final foi um grande jogo de futebol entre as duas equipas melhores equipas da prova. Holanda e Espanha assentam o seu jogo numa mesma matriz com um denominador comum: Johan Cruiff!

É fantástico como uma personagem, mesmo sendo uma das maiores de sempre do futebol consegue, depois de tantos anos de afastamento dos campos, marcar tão fortemente o melhor futebol do mundo na actualidade. Há mais de 30 anos transportou para os relvados uma concepção de jogo nascida no Ajax de Amsterdão. Terminada a carreira de jogador, já em Barcelona, semeou-a cuidadosamente. Deixaram-na crescer, conheceu os melhores tratadores e está hoje melhor que no seu habitat natural!

Uma cópia melhor que o original: esta Espanha é melhor que esta Holanda porque tem muito bons jogadores em maior quantidade, porque é uma equipa muito mais equilibrada (a defesa holandesa tem alguma dificuldade em suportar o resto da equipa, em empurrá-la sustentadamente para a frente) e muito mais trabalhada. Porque assenta num grande bloco (70% da equipa) de um clube – o Barcelona – e porque trabalham juntos nas selecções desde os 16 anos.

5. O novo campeão do mundo é portador do futebol mais apelativo e mais entusiasmante da actualidade. Um futebol nado e criado em Barcelona que a selecção espanhola em boa hora adoptou.

Hoje nuestros hermanos estão em fiesta. É, mais uma vez, um feito extraordinário do futebol: une o que tanta coisa separa!

No meio de tudo isto há um português que, apesar de ir receber três campeões do mundo, poderá não ficar com o trabalho facilitado: sabe-se como o Real Madrid e Mourinho não são muito adeptos do futebol do Barcelona. O futebol que a Espanha e o mundo hoje não se cansam de aclamar como o melhor!

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