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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

FUTEBOLÊS#128 MODELO DE JOGO

Por Eduardo Louro

 

Por muito que o segredo seja a alma do negócio – regra que no futebol vale mais que em qualquer outro lado -, que a surpresa – o tão valorizado factor surpresa – seja tantas vezes um dos grandes desequilibradores de jogo, a verdade é que lá está sempre o modelo de jogo como forma de sistematizar a abordagem do dito.

O modelo de jogo não se esgota na estratégia, e muito menos na táctica escolhida para cada jogo. Quer isto dizer que o modelo de jogo é algo de mais profundo, é aquilo que vai para além da estratégia e da táctica. Porque é a forma como se faz, como se executa uma determinada estratégia. Traduz-se numa ideia de jogo ou, mais do que isso, numa filosofia para o próprio jogo.

É, nessa medida, a matriz, o lado institucional e estrutural do jogo. Sem modelo de jogo a equipa anda à deriva, sem guião. Pode saber o que quer fazer, mas não sabe como fazer. Sem noção de colectivo, com cada jogador por si, perdido num colectivo que não comunica, sem fio condutor…

È por isso o lado do jogo que não permite surpresas nem guarda segredos. O mais famoso – e também o mais bem afinado – modelo de jogo é, sem dúvida, o do Barcelona. É tão óbvio que nem vale a penas gastar mais uma linha a justificá-lo!

A selecção nacional, que em breve irá dar o pontapé de saída no euro 2012, tem um modelo de jogo. Que há muito tempo está definido e instalado, e que só em momentos de desvario – que não têm sido assim tão poucos como isso, basta lembrarmo-nos do período de desnorte de Carlos Queiroz – é esquecido. Tem a ver com o próprio perfil do jogador português, de base mais técnica que física. É um modelo de passe curto, de posse de bola e de repentismo, de pensamento e de execução rápida.

Daí Hugo Viana. Que tinha feito uma boa época no Braga, onde foi decisivo naquele modelo de jogo e que, só por isso, mereceria, na óptica de muitos dos adeptos do futebol – e aqui sem clubismos que invariavelmente cegam e turvam a lucidez da análise -, a convocação para o europeu. Merecimento que teria de ser visto precisamente como um prémio ao seu desempenho durante a época!

Paulo Bento justificou, logo na apresentação das suas opções de convocatória, que Hugo Viana não cabia no modelo de jogo da selecção. E, friamente, toda a gente teria de lhe dar razão: Hugo Viana não se integra no modelo do passe curto e de posse da bola, do drible e da velocidade, com bola ou em desmarcação. Pelo contrário, faz da visão e da precisão do passe longo a sua grande vantagem comparativa!

Acontece aos melhores. São muitos os exemplos de jogadores de excelência que se não integram em determinados modelos de jogo. Lembramo-nos de Ibrahimovic, que não cabia claramente no modelo do Barcelona!

Claro que há jogadores que, por si só, impõem a definição de um modelo de jogo ajustado às suas características. Mas, para isso, terão que ser eles próprios maiores que a equipa. E umas vezes não o são e, outras, é a equipa que não permite que o sejam. Lembremo-nos de Jardel que, sendo nos seus tempos áureos o fabuloso goleador que o mundo conheceu, nunca teve oportunidade de jogar numa grande equipa europeia e mundial, nem de chegar à selecção do seu país.

É por tudo isto que a convocação de Hugo Viana, logo que a oportunidade surgiu, é estranha. Não pelas suas qualidades, nem sequer porque, na tal lógica de prémio, não o merecesse. Apenas porque o modelo de jogo da selecção, ao que se saiba, não vai ser alterado. E porque não fazem sentido nenhum as suas próprias palavras, segundo as quais se iria esforçar para se adaptar ao jogo da selecção!

Assim sendo, não fazendo sentido, só resta admitir que a sua convocação se deve a factores externos ao processo de decisão do seleccionador. Que não terá resistido às pressões que sofreu para o convocar!

Se o que parece é, estaremos perante o colapso de um dos principais pilares do edifício de Paulo Bento. E sabe-se como é: quando um pilar cede, os restantes não são suficientes para manter a coisa de pé.

E por falar em pé, o mais provável é que Hugo Viana não o chegue a pôr nos relvados da Ucrânia. Se assim for esperemos que o lugar que está a ocupar entre os 23 não venha fazer falta nenhuma. Que nunca nos lembremos que só lá está um lateral esquerdo... Porque o Miguel Veloso tem mais vocação para modelo (e não é de jogo) que para lateral esquerdo!

Futebolês #102 GRUPO DE TRABALHO

Por Eduardo Louro

É frequente encontrar expressões do futebolês exactamente iguais às do português corrente. Nunca querem dizer o mesmo, têm significados completamente distintos. Poderíamos dizer que são expressões homófonas, que é coisa que não existe mas poderia muito bem existir!

Grupo de trabalho é uma expressão frequente na linguagem portuguesa. Por tudo e por nada em Portugal se cria um grupo de trabalho. É, muitas vezes, o primeiro passo para se não fazer nada, mas isso são contas de outro rosário. Com pior fama só mesmo as comissões parlamentares de inquérito. Não sei se será por isso – por nem sempre dar os melhores resultados, como ainda esta semana foi o caso do do serviço público de rádio e televisão, ou simplesmente pela moda dos anglicismos - que se tenha começado a substituir o grupo de trabalho por task force!

O grupo de trabalho é, em linguagem corrente, marcado pelo circunstancialismo. Cria-se um grupo de trabalho para uma tarefa específica – daí que a expressão inglesa faça mesmo sentido – que se esgota com a própria tarefa. Já em futebolês o grupo de trabalho é permanente. Não é um grupo construído para desempenhar uma determinada tarefa, mas um conjunto de equipas multidisciplinares integradas numa organização com missão, objectivos e estratégia.

Em futebolês o grupo de trabalho integra os jogadores - o plantel - e as equipas técnica, médica e administrativa, donde emerge o treinador com uma liderança absoluta. Seja na estrutura inglesa, onde o treinador – coach - é substituído pelo manager (o líder da organização que integra grupo de trabalho – Mourinho, no Real Madrid, para atingir esse desiderato não descansou enquanto não afastou o director desportivo, Jorge Valdano) seja na estrutura à portuguesa, que espalhou directores desportivos por tudo o que é sítio, mas quem manda é o treinador.

Em qualquer circunstância é claro que plantel e treinador são as peças fundamentais e a chave do grupo de trabalho. O resto, quanto menor visibilidade menor. Pede-se-lhe descrição e eficácia!

Vejamos o caso da selecção nacional. Porque está em alta, agora que tem na mão o guest card dos convidados de última hora para a festa de Junho na Polónia e na Ucrãnia, e porque, estando integrada numa organização de grande dimensão e dispondo de todas as estruturas, é actualmente um dos mais flagrantes exemplos do poder absoluto do treinador. No grupo de trabalho está lá tudo: um vice-presidente da Federação, um director desportivo, um departamento médico, etc.. Mas quem manda é o Paulo Bento! Para o bem e para o mal. Demasiadas vezes para o mal…e sempre em nome da defesa do grupo de trabalho! No futebol toda a gente põe a defesa do grupo de trabalho acima de tudo...

Para defender o grupo de trabalho foi inflexível com Ricardo Carvalho. Mas o grupo de trabalho é que deveria ter evitado o caso Ricardo Carvalho. Deveria haver lá gente que percebesse que a corda estava a esticar para intervir antes que ela partisse. Com Bosingwa deveria ter sucedido o mesmo. Logo que se percebeu que havia mosquitos por cordas alguém deveria ter actuado.

Quando, na terça-feira, Paulo Bento não resistiu ao inebriante odor do sucesso para desferir o golpe final nos dois proscritos, mostrou que não sabe liderar. Mostrou que poderá ser um bom sargentão, mas nunca um líder natural e, por muito que esta opinião vá contra a corrente, terá hipotecado um futuro de sucesso. Porque, hoje, a linha que separa a capacidade de liderança do autoritarismo gratuito é a mesma que separa o sucesso do insucesso.

O plantel da selecção nacional é a única estrutura do grupo de trabalho que não pertence à Federação. Os jogadores não são propriedade da Federação, chegam lá por empréstimo. Mas constituem os principais activos de alguns dos maiores clubes do mundo. Ora, com a sua história no Sporting e com estas posições na selecção, que grande clube poderá estar interessado em lhe entregar a gestão dos seus principais activos?

Se o caso Ricardo Carvalho se precipitou rapidamente, deixando a Paulo Bento pouca margem de gestão, já no de Bosingwa teve todo o tempo e toda a tranquilidade. Tudo começa em Fevereiro. Há um mês Paulo Bento diz que tem dois laterais direitos melhores, sabendo que toda a gente percebia o tamanho da mentira. Logo depois comunica: com ele, Bosingwa nunca mais. Finalmente, já em festejos do apuramento, explica: porque simulou uma lesão para não jogar no particular com a Argentina, em Fevereiro. Depois do jogador provar, e do médico do grupo de trabalho ter confirmado, que nada lhe permitia concluir da simulação da lesão, de ter exigido um pedido de desculpas e de, por fim, dizer que com com este seleccionador não voltará a jogar na selecção, Paulo Bento tem a lata de dizer que, com esta declaração, o Bosingwa é que se afastou a ele próprio da selecção.

Paulo Bento transformou-se, dentro e fora do jogo, num novo Scolari. Duro que nem o sargentão, desenvolve uma estratégia de grupo baseada na cumplicidade alimentada a fidelidade canina. Teimoso e fechado que nem o sargentão, concentra-se nos jogadores em vez dos conceitos de jogo. Arregaça as mangas e, incapaz na planificação técnica e táctica aposta no conflito e nas emoções. Tal como no declínio de Scolari…

 

PORTUGAL APURADO PARA O EURO 2012

Por Eduardo Louro 

 Não foram lasers, foram seis golos (SAPO)

E pronto lá vamos nós ao europeu do leste, na Polónia e na Ucrânia. Bem à portuguesa, bem sofrido, bem já no fim…

É a nossa sina, o que é que se há-de fazer?

O jogo de hoje, a última oportunidade que tínhamos de lá estar em Junho, permitiu-nos rever o filme de todo o apuramento: uma superioridade imensa que às vezes parecia não servir para nada, a troca das voltas da sorte e do azar, momentos de altíssima concentração logo seguidos de outros de completa descompressão, sempre penalizadores e, finalmente, golos, espectáculo e festa. Atravessamos ao longo deste jogo todos os momentos da fase de apuramento: o espectro do primeiro jogo – o inacreditável empate a 4 com o Chipre –, o azar do jogo na Noruega, a desconcentração dos dois últimos jogos - com a Islândia e com a Dinamarca – e o brilhantismo dos jogos caseiros com a Dinamarca e a Noruega.

Durante a maior parte do tempo a selecção jogou 10. Jogar com 10 não ajuda, convém não esquecer. Paulo Bento insiste em jogar com dez. Coloca sistematicamente o número 23 na ficha de jogo, manda mesmo uma camisola com esse número para dentro do campo, mas … quem jogue à bola é que não!

Mas é nestas coisas que o futebol é o que é. Isto mesmo! À entrada do último quarto de hora toca pela primeira vez na bola e… golo. Pouco depois, na segunda vez que toca na bola, o segundo golo. Em paralelo com o adversário, que fez dois golos nas duas vezes que rematou à baliza. Mas que também não jogou nada. Não deu para perceber que equipa é esta da Bósnia, que nem de perto nem de longe, conseguiu justificar o receio que por aí se vendeu. Nem as estatísticas que ostentava! Nem as dificuldades que impusera à selecção francesa!

Ah! E um grande Cristiano Ronaldo. Hoje foi tudo nesta equipa…

TEIAS QUE AS BIRRAS TECEM

Por Eduardo Louro 

 

Bosingwa – titularíssimo no Chelsea – não é opção para a selecção porque, para Paulo Bento, está a léguas da qualidade do João Pereira (que não é bom, é bestial, como ontem mais uma vez demonstrou, ao pisar selvaticamente o adversário) e de Sílvio.

Danny - vá lá, desta vez veio cá – estava lesionado, regressou à Rússia e, para o seu lugar, chega da Grécia o Vieirinha: um médio de ataque. Faz sentido! O lateral direito Sílvio, que é melhor que Bosingwa mas não tão bom como João Pereira, também chegou lesionado. Para o seu lugar Paulo Bento chamou o Eliseu, do Málaga, que é um lateral esquerdo adaptado… E que fez aquela exibição na Dinamarca! Não faz sentido substituir um lateral direito por um esquerdino que, às vezes, se adapta a lateral esquerdo. É absurdo!

Grande futebol este nosso, que permite que as birras de um seleccionador deixem de fora dois dos melhores do mundo nas sua posições. Um dos melhores laterais direitos do mundo e um dos melhores centrais do planeta, que jogam em duas das mais fortes equipas do futebol mundial, estão capturados numa teia de birras!

 

Futebolês #100 INVENTAR

 Por Eduardo Louro

 

Não é por este ser o Futebolês nº 100, que não a centésima edição – essa foi na passada semana, como se viu – que vou inventar o que quer que seja.

Inventar é o expoente máximo do processo criativo e o ponto de partida para os maiores saltos da civilização e da História da Humanidade. Se no português corrente a palavra é frequentemente usada em circunstâncias que pouco têm a ver com essa super dimensão criativa servindo, ao contrário, para caricaturar muitas das fraquezas humanas, no Futebolês restringe-se praticamente à caricatura do ridículo.

Os jogadores ainda conseguem inventar alguma coisa de jeito. Embora em regra saia asneira, e se exponham ao ridículo quando inventam, alguns jogadores conseguem por vezes inventar coisas fantásticas: um golo, um passe, um remate, uma finta ou um drible, e até espaços. Os grandes jogadores, os Messis, os Ronaldos e mais um ou outro fazem-no naturalmente com mais frequência. Outros, eventualmente de menor capacidade inventiva, não lhes querendo ficar atrás, inventam penaltis. Nas garagens das Antas, e agora nas do Dragão, trabalha-se afincadamente nestas invenções, com preciosas colaborações de alguma gente de fora. Agora também em Alvalade há jogadores com esses atributos inventivos. Bem úteis, como se tem visto, para garantir notáveis séries de vitórias… Parou na décima, mas apenas porque encontraram um adversário romeno de respeito, daqueles que só o nome deixa os adversários a tremer!

Os treinadores é que, coitados, não têm sorte nenhuma. Para eles inventar é mesmo asneirar! “Lá está o JJ a inventar” – é frequente ouvir-se na Luz. E sai asneira!

Nem vale a pena lembrar algumas das suas mais famosas invenções… Quem não lhe fica muito atrás nesta arte de inventar é o Paulo Bento. Mas inventam de forma muito diferente. Enquanto Jorge Jesus inventa em cima das suas próprias sebentas de mago da táctica, e a partir de congeminações que só ele consegue perceber, Paulo Bento é bem mais linear: inventa exclusivamente a partir da sua teimosia. Enquanto toda a gente percebe o Paulo Bento a inventar, ninguém consegue apanhar a ideia quando o Jesus inventa!

Ninguém percebeu qual foi a ideia de lançar o miúdo - Luís Martins - num jogo decisivo da Champions. A ideia até se percebia, o que se não percebia muito bem era que fosse lançado às feras assim, sem qualquer ensaio em competição, quando não faltaram oportunidades: um jogo da taça e dois do campeonato. Mas o que se não percebeu de todo foi a sua substituição, que tinha deixado programada: mais uma invenção!

Já, por exemplo, toda a gente percebeu quando Paulo Bento inventa, não um, mas dois laterais direitos melhores que Bosingwa. É uma birra teimosa e está tudo dito! Não sabemos o que é que o Bosingwa terá feito ao Paulo Bento, mas sabemos que o seleccionador não vai com a cara dele. E por isso inventa um Sílvio e um João Pereira melhores, nem que para isso tenha que inventar critérios… Condição mental, não é?

Mas é a Vítor Pereira que eu tiro o chapéu. E não pensem que é por ele ter inventado a maneira de transformar uma grande equipa do futebol europeu num conjunto de jogadores perdidos dentro do campo, que nem a uma equipa de Chipre consegue ganhar. Não é por isso, até porque ele também conseguiu inventar maneira de, por cá, mesmo sem jogar nada, continuar a ganhar. Coisa que, como em Paulo Bento, também não temos grande dificuldade em perceber…Ver imagem em tamanho real

Não! É por uma invenção á séria, o tal expoente máximo do processo criativo de que falava acima, bem enquadrada numa estratégia de criação de valor. Inventar por inventar não tem grande sentido; inventar apenas contribui para os grandes saltos civilizacionais num quadrado estratégico sustentado. Sabe-se que Vítor Pereira desenhou um quadro estratégico que tem por objectivo exclusivo salvar a pele, tudo vai dar aí. Lançou-se à sua matriz SWOT e, no lado das ameaças – o lado das oportunidades ainda está em branco – lá estava, logo em cima, o problema de mexer na equipa. As substituições, onde nunca acertava! Foi aí que nasceu a sua grande invenção, que há-de revolucionar o futebol mundial e cuja patente já registou. Que, como todas as grandes invenções que revolucionaram a civilização, nasce de uma ideia muito simples. Esta: “sendo o meu problema acertar nas substituições, resolvo-o se deixar de fora os três melhores jogadores. Quando tiver que fazer substituições, saia quem sair, os que entram são sempre melhores”!

E pronto, era só passar a deixar de fora o Guarin, o João Moutinho e o James. Brilhante! Como é que ninguém se tinha lembrado disto antes?

 

ASSIM NÃO, PAULO BENTO. ASSIM NÃO!

Por Eduardo Louro 

Tanta tranquilidade também não (SAPO) 

Uma decepção enorme. O que se dizia fácil, afinal não era|

Paulo Bento não tem culpa de nenhum dos jogadores portugueses atravessar momentos exuberantes de forma. Também não tem culpa que Pepe, Coentrão e Hugo Almeida (sim, é o que temos) estejam incapacitados. Não tem seguramente toda a culpa que Raúl Meireles nunca tenha jogado tão mal, que Moutinho - de quem se diz não saber jogar mal – não esteja a jogar nada, ou que Danny tenha feito não sei o quê para não vir. Mas terá alguma!

E Paulo Bento tem culpa – toda a culpa – quando apresenta uma equipa com Hélder Postiga. E com João Pereira. E com Rolando. Tem culpa quando deixa de fora um jogador como Bosingwa. E tem a máxima culpa quando diz que não precisa dele porque está bem servido. E tem a máxima culpa quando coloca a sua mania de mauzão acima dos interesses da selecção. Refiro-me a Ricardo Carvalho, como é evidente! Não é rijo quem quer, é rijo quem pode, e Paulo Bento, aqui, não pode. Simplesmente não pode!

Nunca a selecção jogou tão mal como nestes dois últimos jogos. Nem nos dois primeiros jogos deste apuramento, que eram os tais da desgraça e dos tempos que tinham ficado para trás, enterrados nas culpas de Carlos Queirós.

Assim não, Paulo Bento. Assim não!

Futebolês #96 GOLO MADRUGADOR

Por Eduardo Louro

Cedo erguer – madrugar – é um dos indicadores geralmente associados ao trabalho e à produtividade. É normal, sabemos que é de manhã que começa o dia e sabemos que é de manhã, pela fresquinha, que as nossas capacidades estão mais disponíveis.

Nos países mais desenvolvidos, mais ricos e mais produtivos o dia de trabalho começa cedo, bem cedo. Coisa que cá mais pelo sul não é assim tão bem vista.

Temos também a ideia que o inverso, a propensão para as noitadas - os noctívagos nunca serão madrugadores – é coisa de foliões, de gente mais dada á folia que ao trabalho. Claro que sabemos que há muito boa gente que não gosta de madrugar sem que sejam exactamente uns calões e preguiçosos, há pessoas que são mais produtivas à noite e há muitos que simplesmente não gostam de dar os bons dias a ninguém. E há até gente que trabalha por turnos, umas vezes de dia outras de noite, e há mesmo quem tenha de trabalhar de noite para que os outros, os tais madrugadores, quando madrugam, já possam contar com um sem número de coisas sem as quais nunca poderiam fazer aquele figurão.

Mas nada disto invalida aquela velha ideia de que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Os méritos do madrugador serão sempre mais reconhecidos que os do noctívago!

Com os golos as coisas não se passam exactamente assim. Pelas simples razão que todas as alturas são boas para os marcar, um dos mais usados lugares comuns do futebolês.

Daqui se percebe que um golo madrugador não é o que se marca de madrugada, bem cedo, logo pela manhã. Mesmo sendo todas as alturas boas para marcar golo, a madrugada nunca será tempo de marcar golos pelas simples razão que também os jogos de futebol não gostam de dar os bons dias a ninguém, só conhecem a tarde e a noite. Ia dizer que nunca a manhã, mas já não é verdade, porque as televisões já vão impondo também jogos nessa primeira parte do dia. Bem, mas é já uma manhã bem alta, nada madrugadora. O golo madrugador é o golo logo no início do jogo, independentemente da hora a que for marcado, todas boas como já vimos; o golo tanto pode madrugar às três da tarde como às nove da noite.

Também o golo madrugador dá saúde e faz crescer. Quer dizer, dá saúde psicológica à equipa retirando-lhe a pressão do resultado, e fá-la crescer, dando-lhe mais confiança e tornando-a, assim, maior.

Já o golo noctívago, tardio – mesmo já no final do jogo – pode ter várias caras. Será épico se vier reverter um resultado negativo e pôr um ponto final no sofrimento e na ansiedade que foi dramaticamente crescendo ao longo do jogo. Será pouco mais que indiferente se nada vier alterar.

O Sporting é já o campeão dos golos madrugadores neste campeonato. Não há jogo que não comece com um golo do Sporting. Ou com dois e até já com três! Quem chegar um tudo-nada atrasado aos jogos do Sporting já não tem hipótese de ver golos. E lá seguem eles de vento em popa, cheios de moral, no seu oitenta até que o oito regresse.

E no entanto tudo isto começou com aqueles três golos noctívagos, bem tardios, de Paços de Ferreira. Andavam eles pelo seu profundo oito quando, de repente, lhes caem do céu aqueles três golos fora de horas. Logo a seguir fizeram jackpot em Vila do Conde: dois golos madrugadores de nada lhes teriam valido não fosse o vadio que lhe apareceu já alta noite. Desde então, sempre a encher até ao actual oitenta, foram quatro ou cinco jogos consecutivos de golos madrugadores. Daí que tenham entrado agora na fase de passar mais de metade dos jogos a defender com dez, todos de unhas bem afiadas, o seu precioso golo madrugador!

0 Portugal-IslândiaTambém a selecção, no jogo com a Finlândia que há pouco acabou, usufruiu de um golo madrugador. Não tanto pelo tempo de jogo, porque aí quem ia madrugando eram os finlandeses, mas porque foi logo ao primeiro remate. Depois as coisas ainda se complicaram – no 3-2 - mas lá acabou por chegar a tranquilidade do Paulo Bento com dois golos já noite dentro e antes do último daqueles rapazes da terra do vulcão - através de um penalti escusado e cometido pelo Rolando que, com jogo no Dragão, não se lembrou do Fucile nem que o árbitro não era português - já quando, bem alta, a noite fechava a porta.

Golos são golos, madrugadores, noctívagos, ou certinhos e de bons costumes. E sofrer sete golos em dois jogos é mau de mais para uma selecção como a nossa. Mas sofrê-los com as selecções de Chipre e da Finlândia…

 

LUGAR CATIVO: POST SCRIPTUM

Por Eduardo Louro

 

O Ricardo Carvalho já veio dizer de sua justiça. Mas disse pouco. E mal!

O que nem deixa de continuar a soar a estranho nem deixa tudo esclarecido. Diz que, de cabeça quente, errou, o que na circunstância não é suficiente. De cabeça fria, tinha obrigação de dizer mais e de não acusar o outro de mercenário, porque não tem cabimento. Diz que fizeram que se sentisse mal, o que, nem sendo claro, nem suficiente – ou simplesmente não sendo suficientemente claro – poderá não ser mais que uma escapatória para um beco sem saída. Se a história de Paulo Bento nos permite admitir que ele sabe como se fazem essas coisas, esta de Ricardo Carvalho não nos impede de concluir que esteja apenas a procurar tirar precisamente partido disso.

Futebolês #91 LUGAR CATIVO

Por Eduardo Louro

  

Lugar cativo: desconfio bem que estejam já todos a adivinhar do que é que estamos a falar!

Acredito até que lugar cativo passe a partir de agora a ter outros assentos no futebolês. Que, a partir de agora, tenhamos de acrescentar mais qualquer coisa ao lugar cativo para sabermos de que é que estamos a falar. Mesmo falando em futebolês!

Se eu falar do meu lugar cativo no Benfica toda a gente percebe que estou a falar do assento, do sítio onde sento o rabo na Catedral. Sei que aquele é o meu lugar, está reservado para mim. Mas se for, por exemplo, o Javi Garcia a falar do seu lugar cativo no Benfica, percebe-se que não está a falar do mesmo que eu.

São lugares cativos completamente distintos. Os clubes gostam dos primeiros, daqueles que servem para acomodar o rabo dos adeptos, e são cada vez mais criativos para serem bem sucedidos nos seus esforços de venda dessa parte da lotação do estádio. Alguns, os maiores entre os maiores, conseguem ter a lotação toda vendida e mesmo listas de espera para novos cativos, nome dado aos associados com lugar cativo. É assim, enquanto o Sporting, por exemplo, para conseguir vender uma cadeirinha chama-lhe game box, acrescenta-lhe ainda uns vídeos e brindes de toda a espécie (creio que até um assobio para quem não saiba assobiar), o Barcelona dá-se ao luxo de não aceitar mais ninguém.

E não gostam, ou não deveriam gostar, dos segundos. Dos jogadores que têm lugar cativo na equipa, cuja titularidade está assegurada à partida, independentemente do rendimento nos jogos, ou mesmo do trabalho nos treinos. E os adeptos também não!

Pois é! É deste lugar cativo que, como adivinharam logo de início, vamos a falar. É incontornável e está na ordem do dia: Ricardo Carvalho… Que, repentinamente ao que dizem, abandonou o estágio da selecção nacional no dia da partida para Chipre e nas vésperas do jogo que Portugal acabaria por ganhar por quatro a zero. Ao que se diz por lhe ter sido dito que não teria lugar cativo na equipa. Porque, na narrativa de Cristiano Ronaldo, na selecção não há lugares cativos!

A coisa começa a não bater certo logo por aqui. Ninguém acredita que não haja lugares cativos na selecção, mesmo nesta de Paulo Bento. Por que é que o Hélder Postiga - que ninguém quer em lado nenhum e que, juntamente com o Djalo, deu esta semana a melhor notícia que os sportinguistas receberam pelo menos nos últimos cinco anos – lá está? Se não é por ter lugar cativo é por quê?

Mas também não bate certo quando espreitamos pelo buraco da fechadura da história do Paulo Bento e da do Ricardo Carvalho. É que, por esse buraco, descobrimos em Paulo Bento um treinador de conflito fácil com os jogadores, com um rasto que vai de meros arrufos pouco mais que inconsequentes – Miguel Veloso e Djalo, por exemplo – a autênticas certidões de óbito (Stojkovic), passando choques frontais de grande violência e graves consequências com Ismailov ou Vukcevic.

Espreitando pelo outro, nada! Nenhum registo. Um ligeiríssimo desaguisado com Mourinho, no Chelsea, prontamente resolvido e sem qualquer tipo de consequências, como é público e constatável: Mourinho, que continua a proclamá-lo o melhor central do mundo, quis levá-lo para o Inter e levou-o mesmo, já em fim de carreira, para o Real Madrid. E vemos, todos, independentemente da filiação clubística, uma pessoa afável e educada, com uma imagem pública de grande serenidade.

Não conseguimos perceber ali uma pessoa irresponsável, uma personalidade instável ou o carácter de um desertor, como Paulo Bento acusou. E, no entanto, ele teve uma atitude inqualificável e altamente condenável. Que mancha, não se sabe se irremediavelmente, uma das mais brilhantes carreiras de um jogador de futebol; se não o melhor – porque isto do melhor não existe - um dos melhores centrais do mundo da última década. Que não bate certo com a imagem que temos do Ricardo Carvalho!

Por isso desconfio da história que foi contada. Por isso não acredito que a história se resuma a um simples lugar cativo… E acredito que o Ricardo Carvalho vai conseguir explicar isto e manter o seu lugar cativo, que conquistou por direito próprio, na história do futebol mundial!

Futebolês #51 QUEIMAR

Por Eduardo Louro

 

          

O verbo queimar é seguramente um dos mais ricos do futebolês. No futebolês, como numa incineradora, tudo se queima!

Não muito longe do que também acontece no futebol: muito se queima e muita coisa arde. Incendeia-se! Por tudo e por nada, ou mesmo por dá cá aquela palha, coisa altamente inflamável, como se sabe!

Incendiários são coisa que não falta no futebol. Sempre prontos a incendiar os ânimos, em quaisquer circunstâncias. São os meninos das claques, que vivem obcecados por chamas e que queimam que se fartam: já não são só as verdadeiras queimadas que fazem nas bancadas, chegam até a queimar autocarros. São os dirigentes, sempre prontos a atear fogo com declarações incendiárias. E são os jornalistas (?), que na maioria das vezes são autênticos pirómanos. Não têm apenas intervenções provocatórias. São verdadeiramente incendiárias. Cirurgicamente!

Então os das televisões constituem autênticos case studies. Se um jogo até nem correu mal de todo – foram lançados para o campo um ou dois telemóveis, duzentas ou trezentas bolas de golfe e o árbitro expulsou dois ou três jogadores, assinalou ou deixou de assinalar, mal, três ou quatro foras de jogo e dois ou três penaltis – está tudo bem. Quer dizer, está tudo devidamente incendiado, e eles limitam-se a manter a chama acesa, não vá o diabo tecê-las e aquilo entrar rapidamente em fase de rescaldo. Mas se o jogo correu mesmo mal – os adeptos portaram-se todos bem e da arbitragem não há nada dizer –, o que é raro mas às vezes acontece, então é vê-los desenfreadamente à procura de um problema, um pequenino problema, o suficiente para libertar uma pequena labareda que seja. 

Para garantir a arte de bem foguear convidam ainda uns comentadores, os chamados paineleiros – atenção que escrevi paineleiro –, membros de um painel, constituído por representantes dos chamados três grandes, dispostos a mandar as suas achas para a fogueira. Não estão lá para outra coisa, apesar de uns mais passarinhos e outros mais passarões!

Não admira pois que, no jogo a sério, no jogo jogado, hajam jogadores a queimar tempo: apanham-se com o resultado que lhes dá jeito e pronto. Tudo serve para fazer com que o relógio ande e o jogo pare: rebolam-se no chão por tudo e por nada, o guarda-redes nunca mais repõe a bola, fogem com a bola para a sombra da bandeirola de canto … Enfim, mais umas coisas capazes de incendiar … as bancadas!

Enquanto isto, do outro lado, queimam-se os últimos cartuchos. Lança-se mão, com inevitável dramatismo, de todos os meios que permitam, à última da hora ou já mesmo fora-de-horas, inverter o tal resultado que, ao contrário, não lhes dá jeito nenhum. Nesta fase tudo é altamente inflamável.

Ao mínimo rastilho tudo se incendeia!

Se a bola queima a linha está lançada a confusão – saiu ou não saiu? Entrou ou não entrou? Se é uma falta a queimar a linha da grande área, a fogueira ateia-se mesmo: foi dentro, para uns. Fora, para outros. Queimar a linha é coisa de incendiário, está visto!

E quando o fumo, de tanto incêndio, deixa tudo negro, no campo a bola passa a queimar. A bola queima, os jogadores não a querem nos pés, querem ver-se livre dela como quem se quer livrar da batata quente. Era o que se via na selecção nacional ainda há bem pouco tempo. A mesma selecção, que não a mesma equipa, que tão mal estivera na África do Sul, que empatava com a selecção do Chipre e perdia com a Noruega, com a bola a queimar tudo e todos, dá um banho de bola e goleia a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo.

Só porque se mudou o treinador. Um treinador que queima jogadores (queimou os que levou para o Mundial mas também os que por cá deixou) torna-se rapidamente num treinador queimado pelos jogadores! Claro que um treinador pode queimar um jogador. Para queimar um treinador não basta um só um jogador. Mas uma equipa tem muitos!

Claro que há outras formas de queimar treinadores, os dirigentes também sabem da coisa. Há mesmo cemitérios de treinadores, com crematórios e tudo!

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