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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O Senhor Barroso...

Por Eduardo Louro

 

O Senhor Barroso conhece um a um os portugueses que votarm no PS. E por isso está em condições de garantir o fim último de cada voto... Não sabe apenas isso, sabe ainda que toda a gente sabe a razão de ser de cada voto no PS.

O Senhor Barroso sabe o que é um acordo parlamentar e o que é uma coligação de governo. Mas faz que não sabe... 

O Senhor Barroso deveria estar envergonhado com a dramática condição de milhões de refugiados, por que é também responsável. E muito. Mas o Senhor Barroso não tem vergonha... E por isso ameaça com a Europa, onde felizmente já não está, mesmo que ainda não tenha percebido.

Apetece-me chamar um nome feio ao Senhor Barroso. Mas não encontra nenhum á altura...

 

Nervos à flor da pele

Por Eduardo Louro

 

"O governo de Passos e Portas acabou hoje". Atrevido, não se sabe se tanto quanto prometera, Passos logo anunciou que tinha 20 medidas para oferecer ao PS. Chamou-lhe facilitador porque, para dificultar, já bastava que continuasse sem enviar números.

Da espuma do dia fica muita agitação. Da Conferência Episcopal, do desautorizado secretário geral da UGT, e das televisões em geral, que não se cansam de procurar fantasmas. Como não os encontraram nos juros foram procrá-los no PSI 20...

Quem deve governar? Vamos por partes...

Por Eduardo Louro

 

O líder da força política mais votada deve formar e chefiar o governo. Não está escrito em lado nenhum, mas também não precisa de estar. Quem ganha as eleições deve governar!

É senso comum, é evidência natural que entra pelos olhos dentro...

Pois, uma coisa é o senso comum. Outra, bem diferente, é o funcionamento da democracia e das suas instituições. É aí que começam os problemas, quando afinal a democracia é mais qualquer coisa que votar de quatro em quatro anos ... nos mesmos. Parece que ninguém contava com isso, que tudo se resumia a ganhar as eleições e prontos. Ganhar as eleições também não tem nada que saber - é ter mais votos e prontos!

A Constituição diz que o presidente da República indigita o primeiro ministro depois de ouvidos os partidos políticos e tendo em consideração os resultados eleitorais. Suponhamos que o presidente ouviu a PàF, naturalmente, dizer que ganhou as eleições e quer formar governo, coisa que também ele quer. E que são todos gente muito dialogante, capazes de no parlamento negociar tudo com todos. E ouviu, suponhamos também, PS, Bloco e PC - e já agora o PAN - dizerem que têm uma solução mairitária e estável de governo, e que não há diálogo possível com aquela gente da coligação, que conhecem de gingeira.

Depois de ouvidas as forças políticas, de ouvir isto, tendo  em consideração os resultados eleitorais, o presidente só tem obviamente um caminho. Tudo o que faça fora desse caminho é inconstitucional. E consequentemente anti-democrático!

Ora bem, é a esse único caminho político, a essa única saída constitucional, a esse exercício democrático de solução exacta e única, que vemos toda a direita chamar nomes como golpe de estado, PRECização, aberração e uma infinidade de coisas afins...

Ou, como alguém escreveu num conhecido jornal digital de direita, imediatamente partilhado por uma entusiástica multidão nas redes sociais: "Colocar esse cenário configura uma deturpação de toda a prática política passada que nunca foi questionada em sete das dez eleições legislativas que tivemos nos últimos 30 anos". Como se alguma vez, alguma vez mesmo, e não só nos últimos 30 anos, ou nos que quiserem, tivesse existido em Portugal um cenário, não digo só como o actual, mas como o que nesta actualidade se poderá vir a configurar.

Toda a gente tem legitimidade para defender a sua dama.  Não é legítimo é que subvertam os princípios democráticos, nem que pretendam impôr um entendimento da democracia à exclusiva medida dos seus próprios interesses. 

 

Bluff, predador e caça

Por Eduardo Louro

 

Ninguém terá grandes dúvidas que estamos a atravessar uma das mais fervilhantes fases do jogo político. Estamos perante uma certa pokerização da política, onde o bluff é rei. Imagine-se a excitação de Marcelo, se  fosse já o Presidente da República... 

Ninguém sabe, mas toda a gente admite, que o PS apenas está a manifestar toda a abertura à esquerda para que a coligação de direita suba a parada. Ninguém sabe, mas muita gente admite, que o PCP apenas demonstrou toda a abertura ao PS, roçando a própria emulação, para o encostar ainda mais á parede. E para dar o golpe de mesericórdia em Cavaco. Ninguém sabe, mas já se admite, que o Bloco adiou o seu encontro com o PS apenas para primeiro saber como tinham corrido as coisas com a coligação.

Provavelmente, nem o PCP está tão disposto a entregar um cheque em branco a António Costa, nem este está assim tão interessado nele. E muito provavelmente o Bloco está a perceber que tem pela frente a sua grande oportunidade histórica, e que para não a desperdiçar só tem agora que fazer bluff. Só tem que se mostrar completamente empenhado numa solução de governo com o PS, mesmo que não esteja nada interessado nisso.

Provavelmente é tudo isso. Mas, se o PS não agarrar esta oportunidade que a História lhe depositou nas mãos de formar governo com a esquerda - que não se esgota na obrigação de o formar, mas que não lhe permite quaisquer ambiguidades -  mais provável que tudo isso, é a sua pasokização. No jogo político actual, com tudo o que está em cima da mesa, não há lugar para meias tintas: o PS ou é predador ou é caça. E sendo caça, depois, nem os ossos se lhe aproveitam!

 

 

O que eles dizem que o eleitorado faz

Por Eduardo Louro

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Outro dos disparates desta gente que se acha de mente brilhante, espalhada pelas televisões a fazer política disfarçada de comentário - e estou a dar sequência directa ao texto anterior - é que António Costa perdeu as eleições por ter virado à esquerda. Que - na mesma linha - as eleições se ganham ao centro.

Dizem isto há tanto tempo, e tanta vez, que já nem se pode dizer que é errado. Tem que se dizer que a realidade teima em não aderir à sua - deles - verdade.

Vamos lá a ver: não há mais eleitores, e ao contrário do que as televisões quiseram fazer crer - numa noite cheia de embustes televisivos, o folclore á volta da maior queda da abstenção de sempre foi apenas a maior das aldrabices, de que ninguém, depois, pede desculpa - a abstenção subiu, e foi a maior de sempre.

A coligação - mais o PSD nas duas regiões autónomas - ganhou as eleições com 2.060.186 votos, perdendo 740 mil eleitores (de notar que o PSD sozinho, em 2011, obteve mais 86 mil votos que agora, sozinho e com a coligação). O PS, com António Costa virado á esquerda a perder o eleitorado do centro, como pretendem, obteve ontem 1.740.300 votos, mais 182.050 que há quatro anos. O Bloco duplicou a votação, com mais 261 mil votos, e mesmo a CDU acrescentou 3.400 votos - que lhe renderam mais um deputado - ao resultado das anteriores legislativas. Nesta soma de ganhos e perdas perderam-se 300 mil votos para a abstenção, número que não é certamente alheio ao meio milhão de portugueses que tiveram de sair do país nestes quatro anos. 

Como é que, olhando para estes resultados, alguém poderá dizer que o PS perdeu as eleições porque Costa virou á esquerda. Ou, pior ainda, como dizem estes especialistas, que perante o perigo de um governo de António António Costa com Catarina Martins e Jerónimo de Sousa como vice-primeiro ministros - onde chega o delírio!!!- o eleitorado correu a votar na coligação.

Aritmeticamente, o PS perdeu as eleições à esquerda. Como é demasidado evidente para se poder dizer o contrário, que as perdeu ao centro. Politicamente é outra história... Mas, essa, não me tenho cansado de aqui trazer.

À procura de um fundo...

Por Eduardo Louro

            

Ontem, com os resultados das eleições ainda quentes – em boa verdade as projecções, porque os resultados, por força de mais uma das muitas aberrações que por aí se vêm, ficaram congelados durante horas, pelo que já estavam bem frios quando apareceram – olhei-os à procura de surpresas e novidades. Hoje olho-os como um túnel, lá para o fundo, à procura da luz …

A coligação no governo, mesmo com o pior resultado de sempre, acha que não foi mau. Perderam por poucos, disseram. E isso deixou-os felizes e satisfeitos, prontos para voltar hoje ao trabalho, cheios de coragem e motivação.

Na verdade não perderam por poucos. O pior resultado de sempre não dá para perder por poucos… Apenas olham muito curto, só ali para o lado. Para o adversário que é também parceiro … de partilha do poder!

Pretendem ignorar a derrota escrita nos 28% dos votos, e procurar a vitória nos escassos 4 pontos de vantagem do PS, S de Seguro. Que por sua vez pretende fazer crer que são suficientes para reclamar legitimidades que não se vislumbram e para os festejos patéticos a que assistimos. Realça o pior resultado de sempre da direita, mas quer ignorar que, sobre o ponto mais baixo de sempre do adversário/parceiro, não conseguiu mais que uns escassos 4 pontos, menos do que os 5 que perdeu desde as autárquicas, há apenas 8 meses. E que o resultado que lhe assegura esta vitória está praticamente ao nível do que, há cinco anos, com Sócrates, se traduzira numa das maiores derrotas do partido.  

Quer isto dizer que em boa verdade ambos – e este é um caso de ambos os três – perderam! Uns, perderam perdendo. Outro, perdeu mesmo ganhando!

Estes três partidos que têm dividido entre si o poder, e que por isso se intitulam do arco da governação, ficaram pela primeira vez aquém dos 60% dos votos. Há razões para acreditar que a coligação salvou Portas e o CDS de serem varridos do mapa político, e isso não vai passar despercebido.

Quer isto dizer que a única razão para que a coligação se mantenha para as legislativas do próximo ano é levar o governo até ao fim da legislatura. Se, e quando, Portas perceber que não há coligação faz cair o governo, disso não há qualquer dúvida.

Porque se percebe que a mudança, mesmo que lenta, está em curso e que os portugueses começaram mesmo a responsabizlizar estes três partidos pela destruição do país. PSD e CDS já não são capazes de garantir fórmulas governativas maioritárias, o que devolve o mais pequeno à marginalidade. É agora inevitável que o próximo governo saia do bloco central, e que Portas se torne descartável. A partir de agora, no ponto a que chegou o processo de erosão do campo da governação, apenas PSD e PS juntos conseguem formar soluções governativas maioritárias. Tanto destruíram, cada um para seu lado, que foram ficando sem espaço. Resta-lhes agora um pequeno reduto onde, para sobreviver, ambos, bem juntinhos, se vão acantonar.

Com Seguro e Passos juntos num governo também esse pequeno reduto será rapidamente destruído. Só então se verá o fundo do túnel em que estamos metidos. Se ainda houver país, pode ser que lá esteja alguma luz...

Poucas novidades e menos surpresas ainda

Por Eduardo Louro

 

 

Não há grandes novidades nos resultados eleitorais de hoje. Os partidos que dominam o regime foram bem menos penalizados do que seria necessário. Mas isso já não é novidade…

Como também não é novidade o resultado da coligação de governo levada até às europeias. E que por aí se deve ficar… Novidade é que a conjugação da obrigatória penalização do governo com a miserável campanha que fizeram não tenha dado ainda piores resultados. Porque não é novidade que muita gente continua a votar como se o partido fosse um clube.

O Bloco caiu para metade dos votos e para um terço dos deputados das últimas europeias, há cinco anos. Mas na verdade a queda não foi assim tão abrupta, porque há muito que está em queda livre. Sabe-se bem porquê, e por isso não é também novidade.

Novidade mesmo é o resultado de Marinho Pinto. Que não totalmente surpreendente, a sua eleição era esperada. Porque estas eleições prestam-se a alguns epifenómenos. Porque se trata de uma figura bem conhecida do grande público, por força de uma duradoura e intensa exposição mediática, mas também porque tem um estilo muito próprio, que vai bem com o mercado do voto de protesto. Um estilo apoiado numa imagem de uma certa exuberância salpicada de veemência e frontalidade, que facilmente se pode designar de populismo. Mas que não deixa por dizer as verdades que têm de ser ditas e que o regime esconde. Se a sua eleição não é por isso uma grande surpresa, o mesmo já não se pode dizer da expressão eleitoral que atingiu. O extraordinário score que torna o MPT na quarta força política destas eleições, bem acima do Bloco de Esquerda é, esse sim, a verdadeira surpresa e a grande novidade. Quiçá a única!

Porque nem a abstenção é novidade, está mesmo abaixo dos 70% que chegaram a ser esperados, e dentro da média europeia, nem a meia vitória do PS deixa de ser o que se esperava. Porque Seguro até pode ter ficado seguro, mas não dá para mais que isso. É bom que as bases do PS o percebam, porque a cúpula não está nada preocupada com essas coisas.

O PS vence mas não convence. Não há nenhuma grande vitória, não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira... Mesmo com PSD e CDS – juntos não fazem mais que 28% – no pior resultado de sempre! 

VOTAMOS. E AGORA?

Por Clarisse Louro *

 O país votou e votou pela mudança. Esperemos agora que mude mesmo, que a mudança venha por aí.

O PSD ganhou as eleições, ganhou bem e por números que as sondagens não deixavam antever. O CDS cresceu, não cresceu tão bem quanto tão bem ganhou o que sabe vir a ser o seu parceiro de coligação, mas cresceu. Pela primeira vez cresceu em simultâneo com o PSD, quebrando-se uma regra do nosso sistema político: com o PSD em crescimento o CDS cai, e vice-versa!

A quebra desta regra é a primeira responsável por outra grande novidade, esta sim, bem relevante: uma maioria de direita (chamemos-lhe assim, porque é assim o entendimento geral) a coincidir com um presidente de direita. É um velho sonho da direita portuguesa, enunciado há mais de 30 anos por Sá Carneiro e perseguido durante décadas: uma maioria, um governo e um presidente!

Rompeu-se o dogma de que a esquerda é maioritária na sociedade portuguesa e, mais relevante do que isso, mas também talvez mais surpreendente, reforçou-se o peso dos partidos do regime ou, como Paulo Portas institucionalizou, dos partidos do arco do governo.

Estas são as principais conclusões que os resultados eleitorais projectam, e que gravitam à volta dos vencedores – em eleições há sempre vencedores e perdedores, embora muitas vezes até pareça que não, que ninguém perde – o PSD em primeiríssimo lugar e o CDS num lugar, apesar de tudo, mais modesto do que esperaria e que as sondagens lhe prometiam. Mas há, pelo menos, mais uma conclusão relevante e que gravita em torno de um outro vencedor - que não disputou estas eleições mas que ganhou mais do que todos os que as disputaram: o presidente Cavaco Silva. A mudança que os resultados eleitorais provocaram veio legitimar a sua decisão de dissolver a Assembleia da República. A não ter sido assim sobreviria uma autêntica montanha de problemas que, em cima dos que já temos que enfrentar, tornariam a nossa vida num inferno bem maior do que este que está já aqui à nossa espera.

Então e agora?

Agora vão começar as nossas dificuldades a sério. Agora, que acabou esta festa que já dura há dois meses durante a qual ninguém esteve interessado em falar dos problemas, vamos todos cair na real, como dizem os nossos irmãos brasileiros. O novo governo quando, mais três meses depois da demissão de Sócrates (!!!), acabar de tomar posse, não vai ter mais que, como dizia o libertado ministro Teixeira dos Santos em Nova Iorque, três prioridades: cumprir o programa da ajuda externa, cumprir o programa da ajuda externa e cumprir o programa da ajuda externa. Nem, voltando a referir o enigmático ministro das finanças ainda a partir do lado de lá do Atlântico, terá tempo para se sentar!

Por ironia do destino poderá estar nesta obsessão pelo cumprimento deste programa – obsessão incontornável porque, trimestralmente, eles estão aí para conferir - a chave do ciclo de mudança que se abriu com estas eleições. É que se os resultados permitem a constituição de um governo coerente e com suficiente base parlamentar de apoio, também promoveram um novo ciclo no partido que suportava o governo, com o abandono do líder que, como era óbvio para toda a gente, era um factor de estrangulamento. Fazia parte do problema sem que pudesse ser parte da solução.

Quero acreditar que entramos num ciclo de mudança: a começar com um governo que, não tendo tempo para outra coisa que governar, possa mesmo governar. Mesmo que com um programa imposto de fora mas que, por muito estranho que possa parecer, encontrou eco em 80% dos portugueses que votaram. E este amplo consenso representado na nova Assembleia da República tem, agora sem Sócrates, melhores condições de se materializar.

E esperemos que estejamos conversados de boys! Já chega, e o país já não chega para mais!

 

* Publicado hoje no Jornal de Leiria

OS VENCEDORES

Por Eduardo Louro

Tinha prometido que falaria dos vencedores destas eleições começando precisamente por este dado esmagador: 80% dos eleitores portugueses que votaram fizeram-no nos partidos que se comprometeram com o memorando da troika internacional.

Este é, para mim, um dos resultados mais relevantes destas eleições. Pelo significado político que já tem e pelo que poderá vir a ter ao longo do desgastante e difícil ciclo que se aproxima e quando a rua pretender falar mais alto que o parlamento. E porque, quando tanto se fala de esgotamento do regime e mesmo no descrédito da classe política, o eleitorado votou maciçamente … no regime.

Este dado, conjugado com a consistente e coerente maioria resultante das eleições - afinal o mais relevante de todos –, faz do Presidente da República também vencedor destas eleições. A decisão de, perante o pedido de demissão do primeiro-ministro, dissolver a Assembleia da República e convocar eleições tinha os seus fantasmas. Bem agitados de resto durante toda a campanha, com aquela incompreensível persistência na teoria do empate técnico das sondagens.

Sem que neste momento discuta quem - nem como – a verdade é que logo que arrancou a pré-campanha se começou a querer fazer esquecer que o país vivia em crise política latente desde as eleições de 2009, suspenso de uma antecipação de eleições que tinha tanto de inevitável quanto de arma de ameaça política, que o governo - bem se percebeu - nunca descurou. Uma crise que há muito o país ansiava por resolver precisamente através de eleições. Por isso o Presidente é também um ganhador destas eleições: contra quem apostou em fazer crer que as eleições nada mudariam!

O CDS e Paulo Portas são também vencedores. Só por brincadeira é que, por ficar ligeiramente aquém dos objectivos que, naquela ânsia de crescer – ou de inchar, como aqui referi –, foram sendo lançados (a pouco mais de 1 ponto dos 14% dos votos e, com o mesmo número de deputados que o Bloco e o PC juntos, bem perto do objectivo de os superar), ou por aquela coisa disparatada de se autoproclamar candidato a primeiro-ministro (ainda por cima com a péssima encenação da Teresa Caeiro), alguém poderá dizer o contrário. Mas estas eram umas eleições de que o CDS  só poseria sair a ganhar, como bem claro ficou desde sempre. Para Paulo Portas a campanha serviu apenas para tentar maximizar os proveitos!

E - os últimos são os primeiros – o PSD e em especial Pedro Passos Coelho! Que tem muito mérito numa vitória em toda a linha e que não era tão fácil quanto se quis fazer crer. Basta notar que nunca antes um primeiro-ministro eleito havia perdido eleições e que esta foi a vitória que, pela primeira vez, concretiza o velho (de mais de 30 anos) sonho de Francisco Sá Carneiro e talvez o sonho da sua vida: uma maioria, um governo e um presidente. Que tinha ajudado Mário Soares a criar o mito de que os portugueses não gostavam de pôr os ovos todos no mesmo cesto!

O PSD mudou de estratégia e mudou de discurso. E Pedro Passos Coelho fez o resto, com uma imagem de seriedade e de transparência mostrou-se-nos como um de nós: um homem normal, com uma vida normal, sem sofismas nem sofisticações, afável e educado. Sem nada na manga!

Na sua vitória houve hino nacional e no seu discurso há uma frase que não vamos esquecer: “… o meu compromisso com Portugal é de transparência total…”!

Quero acreditar que Portugal também saiu vencedor destas eleições. Não só porque permitiram ao país livrar-se de uma personalidade que se tinha já tornado num dos seus principais problemas, mas porque estão criadas condições para a estabilidade governativa, assim os dois partidos tenham a inteligência de se concentrarem no essencial. O que nem sequer é exigir de mais, porque o memorando da troika (se calhar teremos de lhe passar a chamar triunvirato, como Portas gosta mais) favorece entendimentos: está lá tudo o que estamos obrigados a fazer, não há muito para discutir.

Claro que o governo irá ser impopular - não é possível outra coisa - e que a rua se vai agitar. Umas vezes a propósito, justificadamente, e outras a completo despropósito. Mas há condições para que tenha a força política requerida para estas alturas, com um apoio largamente maioritário no parlamento e com uma oposição - a que se espera agora da nova liderança do PS que aí vier – comprometida com a missão patriótica a que este governo está obrigado.

Abre-se agora o processo negocial entre PSD e CDS. Seria bom começar por lhes recordar que não temos grandes tradições de sucesso nas coligações. Nunca em Portugal uma coligação cumpriu a legislatura. Mas também nunca um primeiro-ministro em exercício tinha perdido eleições! Acreditemos que estamos em tempos de mudança!

 

 

OS PERDEORES

Por Eduardo Louro

 

O país votou e, mais uma vez, uma boa parte não votou: não está para isso, não acha que valha de alguma coisa, não quer saber ou acha que eles são todos iguais.

São cerca de 40%, muita coisa, dizem os números. Tenho dúvidas! Esta abstenção parte de uma base eleitoral de cerca de 9,6 milhões de portugueses: acho portugueses a mais! Porque, se assim for, temos apenas um milhão de portugueses com menos de 18 anos. Não me parece! Por isso acharia interessante que se desse uma volta aos cadernos eleitorais e que, em tempo de simplex, de empresas na hora e do Magalhães se resolvesse um tão pequenino e tão simples problema quanto este: um interface entre as Conservatórias do Registo Civil e as bases de dados eleitorais do Ministério da Administração Interna. Asseguro que não é nada de complicado. Bom, e quando vemos que qualquer cidadão eleitor pode aceder a essas bases de dados através de um IPad e ficar a saber exactamente onde vota, rapidamente percebemos que é muito mais fácil descarregar lá uma certidão de óbito entregue no Registo Civil.

Porque isto de andarmos sempre a dizer que a abstenção é esta ou aquela começa a cheirar ao mesmo do empate técnico das sondagens. Todos nós percebíamos que os resultados do PS anunciados pelas sondagens não batiam certo. Era fácil: no meu círculo do dia-a-dia só encontrava gente que se queria ver livre de Sócrates. Saía de fora do meu círculo para entrar no de outros e o resultado era o mesmo! Não dava para perceber: ou as pessoas mentiam para as sondagens ou mentiam para mim!

As eleições permitiram-me perceber que a dicotomia era outra: ou as pessoas mentiam para as sondagens ou as sondagens mentiam para nós?

Porque, evidentemente, a malta queria mesmo era ver-se livre de Sócrates. Quanto mais não fosse para lhe ouvir um discurso a soar a música aos ouvidos da maior parte de nós: um discurso aplaudido por toda a gente como uma das boas coisas da noite eleitoral, mesmo que sem um mea-culpa, sem um erro, nem sequer um equívoco. E, como não somos de rancores, ficamos contentes de saber que ele vai agora ser feliz, mesmo sabendo que nos deixou a nossa felicidade bem adiada!

E, como rei morto rei posto, logo surgiu António José Seguro. Saído de trás do arbusto onde tem andado escondido – agora bem disfarçado de elevador do Altis – lá veio ele dizer que existia, que a máquina bem sabia onde ele andava e do que era capaz e que, claro, não podia deixar ali aquela nesga de terreno por marcar. Nem que para isso tivesse que lançar mão de uns truques da politiquice: mandar avisar os jornalistas para, depois, lhes dizer que eles é que estavam ali, quais paparazi, à sua espera! Começa bem, sim senhor!

Mais perdedor que o PS de Sócrates foi o Bloco de Louçã. Que nem se foi embora nem deu grande sinais de autocrítica, mas deixou muita gente em reflexão. A sensação que fica é que há uma elite dirigente, que vem da fundação do partido, que não tem condições de perceber a oportunidade e o espaço que se abria ao partido. Que não consegue perceber que há um espaço para os valores da esquerda – da tal esquerda moderna – do lado de dentro do regime, que se não esgota no protesto e nas ditas questões fracturantes. Que não consegue perceber que a política também se faz de pragmatismo, de escolhas perante alternativas concretas, fora de espartilhos ideológicos. É confrangedor que esta direcção do Bloco nunca tenha percebido que cresceu porque o eleitorado o tinha por diferente do PCP. Que para fazer o mesmo já lá está o PCP, que o faz melhor e com outra implantação no terreno: o original é sempre melhor que a cópia!

Não posso dizer que o PCP tenha perdido. Por duas razões: em primeiro lugar porque nunca perde - é o único partido que não perde eleições, encontra sempre uma saída para a vitória – e, em segundo, porque em relação às eleições de 2009, até ganhou um deputado. Não por ter mais votos mas porque lhe calhou o deputado que Faro ganhou, o que não impediu nem limitou a festa. E no entanto o PC não ganhou coisa nenhuma. Porque nunca poderá ganhar quando os seus adversários políticos ganham em toda a linha: a propalada troika interna que apoiara a troika externa representa 80% dos votos dos portugueses!

É por aqui que começarei o texto de amanhã, quando falar dos vencedores. Por hoje fiquemo-nos pelos perdedores: a abstenção, as sondagens, o PS – Sócrates, mas também António José Seguro –, o Bloco de Esquerda (Louçã, Luís Fazenda e Migue Portas) e o PCP, com a ressalva apresentada. Os pequenos partidos também foram perdedores, resta saber se vítimas do sistema ou de si próprios.

E perdemos todos nós com estas leis que obrigam a arrastar estes períodos de vazio político: Sócrates apresentou a demissão em 23 de Março! Três meses depois ainda  estaremos sem governo!

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