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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

A DUAS VELOCIDADES

Por Eduardo Louro 

 

Há muito que se ouve falar na Europa a duas velocidades. Ou, numa linguagem ciclística, no pelotão da frente, deixando perceber que para trás vão ficando outros.  

Sempre percebemos que era assim, que havia uma Europa rica, uma outra assim-assim, e a pobre. Onde sempre soubemos que estávamos e de onde chegamos a pensar que iríamos sair, não por qualquer esforço de recolagem mas porque, aquando do alargamento a leste, olhámos para trás e vimos que estava achegar um novo pelotão que nos deixava aquele conforto ilusório de não ser último. Mas, sem pernas para aquela pedalada, limitamo-nos a, um a um, vê-los passar todos.

Com a chegada do euro, e com o estatuto de fundador, voltamos a encher o peito e a sentirmo-nos lá à frente. Essa poderia até ter sido uma boa oportunidade para um último esforço de recolagem, como acontece àqueles ciclistas que, de repente e depois de uma curva, avistam o pelotão da frente e, indo buscar forças onde nem imaginam que existam, se lançam num esforço gigantesco para se lhes juntar. Mas não a aproveitamos! Em vez disso relaxamos ainda mais, convencidos que seriam eles a esperar por nós para depois nos rebocarem.

Esta situação de corrida deixou agora de ser circunstancial para passar a ser irreversível. Merkel e Sarkozy – e acredito mesmo que mais Sarkozy, preocupado que está em manter o periclitante triple A da França, vital para as suas aspirações eleitorais – estão a preparar-se para se livrarem dos grupos atrasados, restringindo o euro ao pelotão da frente, para o qual convidarão um restrito grupo dos seus melhores aguadeiros. Nove ao todo, onde parece que a Espanha será o único corpo estranho. Talvez pelo peso do seu ciclismo, quem sabe?

É sintomático que sejam os responsáveis institucionais da Europa – os presidentes da comissão (Barroso), do eurogrupo (Junker, que ainda ontem cá em Lisboa jurava que o euro não existia sem Portugal) e do conselho (Von Rompuy) – a negar a constituição deste clube do euro. Logo eles que foram os primeiros a ser engolidos pela dupla que veio para a frente tomar conta da corrida…

 

BRINCAR COM O FOGO

Por Eduardo Louro 

 

O bluff - ou o ensaio de roleta de russa, como também lhe chamei - de Papandreou chegou ao fim, como ontem aqui avançava. Aquilo que alguns socialistas da nossa praça se apressaram a louvar – Manuel Maria Carrilho achou mesmo que se tratou de uma jogada de mestre – não passou, afinal, de um tiro de canhão nos próprios pés.

Percebeu-se que, por trás do espalhafatoso anúncio do referendo ao acordo que tinha acabado de assinar com a UE, Papandreou não tinha outras preocupações que não as da sua própria sobrevivência política, como facilmente se percebe quando, agora, recusa demitir-se e abrir caminho a uma outra qualquer espécie de solução governativa. Aquilo que poderia estar sustentado pelos mais elogiáveis princípios da democracia – sempre arredados do processo europeu – da liberdade e da dignidade dos povos não passava, afinal, de uma das mais simples manobras do cardápio da baixa política.

Foi grande o susto! Espera-se que se tirem sérias conclusões. Se foi assim com a Grécia, o que será com a Itália? E com a Espanha? E com a Bélgica? E (com Itália e a Bélgica) com a França?

A Europa poderá ter aproveitado alguma coisa com este susto, porque viu bem ali à mão aquilo que, sem lideranças, fazia por não ver, preocupado que estava cada um com a sua vidinha.

A Grécia nada ganhou com este disparate de Papandreou. A nível interno – independentemente do que mais logo aconteça no Parlamento, com a votação da moção de confiança, e do que seja o futuro político de Papandreou, a sua grande preocupação, mas de mais ninguém – as condições pioram significativamente. A rua terá naturalmente argumentos mais fortes e decisivos para aumentar a contestação. O povo, depois de prometido o referendo, sente-se enganado e traído, mais uma vez. E o poder político mais desacreditado ainda: toneladas de gasolina lançadas naquelas ruas que há muito estão a arder!

Mas também no plano externo a Grécia sai a perder. Perde qualquer réstia de margem de manobra, porque agora só pode contar com a desconfiança dos parceiros. E assinou a guia de marcha para a saída do euro! Que sendo dolorosa poderá vir a ser a menos má de todas as dores…

Papandreou brincou com o fogo, coisa que hoje na Grécia é muito, muito perigosa!

PUNIÇÃO

Por Eduardo Louro 

 

Não tenho tido oportunidade de me aperceber das opiniões publicadas sobre a decisão do governo grego de submeter a referendo o plano de apoio financeiro comunitário, mas não me custa nada admitir que as opiniões se dividirão. Que haverá quem ache que Papandreou assumiu uma atitude com tanto de cobardia quanto de ingratidão, como quem ache que assumiu a única atitude que lhe era possível tomar: procurar a legitimidade democrática para suportar um dos mais violentos ataques à soberania e à dignidade de um povo! Que haverá quem o ache um louco e quem o ache muito esperto!

Sou dos que acham que, na realidade, não lhe restavam muitas alternativas. E também dos que acham que a democracia é sempre solução! E que os problemas crescem desmesuradamente quando se escondem dela!

Mas o ponto que me traz aqui não é esse exactamente esse. É a ironia da história!

É muito provável que o “não” ao pacote saia vencedor deste referendo, com o consequente abandono da moeda europeia e o regresso à velhinha dracma. E que os gregos venham a cair num buraco muito negro, com o empobrecimento imediato brutal e a garantia da perda contínua de poder de compra, com taxas de inflação verdadeiramente assustadoras. Cairão num inferno profundo, do qual nunca se saberá quando sairão!

Circunstâncias em que o euro, muito provavelmente, implodirá. Dificilmente resistirá a esta desgraça mas, se o conseguir, o sistema financeiro europeu sofrerá um abalo do qual demorará muitos anos a recompor-se!

Toda a gente perde. E muito! E é a vitória definitiva do espírito punitivo que marcou a estratégia que a UE escolheu para fazer frente à crise das dívidas soberanas. É a punição da Grécia por todos os seus abusos, ao longo de anos e anos. Mas também a punição da União Europeia pelas suas hesitações, pela falta de capacidade de decisão e pela ausência de liderança!

 

GOVERNO ECONÓMICO EUROPEU DE AGOSTO

Por Eduardo Louro

 

Sarkozy e Merkl anunciaram ontem, depois da cimeira franco-alemã de emergência, a constituição de um governo económico europeu, para a zona euro.

A cimeira, que apenas serviu para dar a entender aos franceses e aos alemães que eles é que mandam nisto - deixando-os porventura muito felizes - não serviu para nada. Nada de novo, nadinha mesmo!

Nem o novo governo económico? Não! Nem o governo económico, nem o chefe desse governo – Van Rampuy (sabem quem é? Sim, é esse, o dito presidente do conselho europeu, parido pelo tratado de Lisboa!) – nem o atestado de incapacidade permanente passado à Comissão Europeia e ao seu presidente, o nosso Durão Barroso! Nem a taxa Tobin. Nem a morte da esperança nos eurobonds, nem os atentados à democracia nos processos de decisão. Nem a hegemonia alemã servida em bandeja francesa. Nem sequer a sensação de que isto tudo chegou ao fim!

Foi bonito enquanto durou!

JUIZINHO - PARTE II

Por Eduardo Louro

 

Ontem o Der Spiegel divulgava que Helmut Kohl teria confidenciado que ”Merkel estava a dar cabo da Europa que ele ajudara a construir”.

Hoje é Hortst Teltschik – antigo conselheiro para a política externa de Kohl – a criticar, em entrevista à revista DerTagesspiegel, a actuação de Merkel e a dizer, sem papas na língua, que “a chanceler não apresenta qualquer ideia sobre o futuro da Europa”. E a reclamar uma intervenção imediata, lembrando que é preciso uma política orçamental comum, uma política comum para combater as dívidas soberanas, e uma política financeira comum.

E a oposição social-democrata – o SPD – acaba de manifestar o apoio que Merkel necessite para as medidas (impopulares) de intervenção na actual crise.

Parece que uma aragem de juizinho está a passar pela classe política alemã. Não é sem tempo!

 

JUIZINHO

Por Eduardo Louro

 

 

José Poças EstevesAcabei de ouvir o meu amigo José Poças Esteves – responsável da SAER (subsidiária da Companhia Portuguesa de Rating, que pode desempenhar um papel naquela ideia de uma agência de rating europeia), em declarações difundidas pela Antena 1 – chamar a atenção para a necessidade da Alemanha, finalmente, adoptar, no seu próprio interesse, uma posição de defesa dos países da União mais pobres e vulneráveis à complexidade da actual crise.

Dizia que, se o não fizer, a Alemanha põe em causa a sua própria estratégia de crescimento e começa, também ela, a empobrecer. Parece-me que toda a gente percebe isto, que também por aqui tem sido defendido. Daí que tenha recomendado à classe política alemã que se preocupe em explicar isto muito bem ao seu eleitorado. Que explicasse muito bem que a Alemanha ganha com o euro a competitividade que não ganha com uma moeda própria: com o marco!

E é aqui que, a meu ver, está o ponto!

Os dirigentes alemães não têm só que alterar a atitude institucional da sua política europeia, saindo rapidamente e em força, sem mais hesitações, em defesa dos seus parceiros periféricos e fragilizados. Têm que explicar muito bem aos seus eleitores – o que, depois de tanto tempo a fazer crer que os do sul são uns ineptos, incapazes e preguiçosos que vivem do trabalho alemão, não irá ser nada fácil – o que ganham com o Euro e com os PIGS. E o que perdem sem eles!

O risco de países como a Grécia, Irlanda e Portugal (e a Espanha, e a Itália e a Bélgica…) abandonarem a união monetária é elevadíssimo. Mas, como tenho denunciado, não é menor o de ser a própria Alemanha a fazê-lo, o que daria no mesmo: a implosão do euro!

Com eleições em 2013, nas actuais condições, creio que pouca gente terá dúvidas que, se surgir algum aventureiro a candidatar-se com um programa de restaurar o marco, terá grandes probabilidades de as vir a ganhar. Foi assim que, há perto de 80 anos, Hitler chegou ao poder. Salvaguardadas as devidas distâncias, nada nos garante que não possa surgir outro kaiser!

É por isso, meu caro Zé, que fizeste muito bem em lhes recomendar que tenham juizinho. Que eles te ouçam!

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