Não aconteceu o que muitos antecipavam nesta última corrida do mundial de Fórmula 1, em Abu Dhabi. Mas nem por isso deixou de ser a mais insólita decisão de um campeonato do mundo de fórmula 1.
Chamo-lhe insólito para não recorrer à estafada expressão de vergonha.
Vamos à estória: Max Verstappen e Lewis Hamilton estavam empatados em pontos à partida. O holandês conquistou a pole, mercê de mais um excelente jogo de equipa. Estratégia pura, em que a Red Bull foi sempre a melhor de todas as equipas do circo. Na circunstância lançou Sergio Perez para gerar o cone de aspiração que permitiria a Verstappen bater o tempo de Hamilton. Uma estratégia que implicaria também largar da pole com pneus macios, mais vantajosos para o arranque.
Onde, surpreendentemente, o inglês partiu muito melhor, e ficou na frente. Na segunda curva, Verstappen não perdeu tempo e fez o que se esperava que viesse afazer - jogo sujo. Atrasou a travagem, e com isso colocou-se ao lado de Hamilton e, uma vez ao lado, ocupou-lhe toda a pista. O hepta-campeão mundial ou batia ou saía de pista. Saiu de pista, seguiu pela escapatória e acabou até por ganhar alguns metros.
Mais uma vez, o crime não compensava. Bem tentou a Red Bull - agora que tudo em corrida é negociado com a direcção da prova - que a posição fosse devolvida ao holandês. Mas tinha ficada clara a manobra de Verstappen, e a direcção da corrida limitou-se a obrigar Hamilton a devolver os metros ganhos. Que lá seguiu, sempre na frente e sempre melhor.
Hamilton, com pneus médios, tinha teoricamente mais pneus que Verstappen, que partida com os macios ditados pela estratégia de ataque à pole position. Estranhamente mudaram de pneus na mesma volta, e a Red Bull voltou a dar baile em estratégia: deixou Sergio Perez em pista, para depois atrasar Hamilton e deixar Verstappen recuperar muito do atraso que já tinha para o inglês. Nesta altura tínhamos Hamilton 10 - Verstappen 0. Mas Red Bull 2 - Mercedes 0.
A meio da corrida entra o safety car virtual, e a Red Bull aproveita para mudar pneus nos dois carros. A Mercedes, com Hamilton na frente com mais de 8 segundos de vantagem, optou por mantê-lo em pista. Perdeu tempo. Tanto que, mesmo com a paragem de Verstappen a mudar de pneus, operação que custa sempre um pouco mais de 20 segundos, a vantagem acabou por se ficar nos 12 segundos.
Hamilton acabou por responder bem e, a quatro voltas do fim, conseguia ainda assim chegar à vantagem de 14 segundos, já depois de dobrar quatro carros que se encontravam a disputar lugares de classificação, que Verstappen ainda teria que dobrar . Só que Latifi bateu e entrou o safety car. O real. Tudo o que a corrida não precisava, e tudo o que Hamilton não merecia. Nesta altura Hamilton 15 - Vestappen 0.
A Red Bull volta a chamar os seus dois carros à box. Vestappen para nova mudança de pneus. Perez, percebeu-se depois, para desistir. Em simultâneo pressiona a direcção da corrida para que o safety car abandonasse a pista na última volta, mas depois de ultrapassado pelos tais quatro carros que separavam os dois primeiros. Red Bul 15 - Mercedes 0!
E assim, em plena última volta, o safety car abandonou a pista com Verstappen colado a Hamilton, no seu cone de aspiração e com pneus novíssimos. Demasiado fácil para Verstappen, aos 24 anos, ganhar e conquistar o seu primeiro campeonato do mundo. Outros se seguirão, porque demonstrou que tem valor para isso. Mas, assim, não!
A Mercedes ganhou, por equipas. Mas apetece dizer que não mereceu. Foi sempre pior nas decisões que a Red Bull. Verstappen ganhou, sendo sempre primeiro, ou segundo, no pior. Mas isso são os resultados. Hamilton é, ainda, muito melhor. E só não ganhou, para além das decisões erradas da sua equipa, pela incrível decisão da direcção da corrida, ao decidir o que decidiu no final da corrida. Hamilton ia muito à frente, não teve nada a ver com o despiste da Latife. Por que razão Verstappen não teve de dobrar os quatro carros que Hamilton tivera de dobrar?
Só porque a Red Bull grita mais alto? Porque Hamilton iria ganhar pela oitava vez? Porque é preciso manter o recorde de campeonatos? Porque isto é cada vez mais à americana, onde vale tudo?
Há um novo campeão do mundo. É certo (ou talvez não, ainda muita tinta vai correr), mas não houve verdade desportiva. Hamilton não merece perder desta forma. Mas é também demasiado grande para, agora, não merecer ganhar de qualquer outra!
Esperavam-se muitas manobras anti-desportivas da Red Bull. Esperava-se que Verstappen repetisse o que fez logo na segunda volta. Esperar-se-ia até que fosse Sergio Perez, quando ficou na frente para dificultar a vida a Hamilton - e como dificultou! - a desencadear uma qualquer manobra que o colocasse fora da corrida. Hamilton nunca sequer permitiu qualquer uma dessas hipóteses Em pista, fez tudo. Só nada poderia fazer contra aquela decisão da direcção da corrida!
Lews Hamilton e Max Verstapen saem da Arábia Saudita em igualdade pontual para discutirem o título mundial na última etapa deste Mundial de Fórmula 1, no Abu Dhabi, no próximo fim de semana. Só por uma vez, em 1974, dois pilotos tinham chegado empatados em pontos à última prova do campeonato - então Emerson Fitipaldi (cujo neto sofreu hoje um grave acidente, neste mesmo circuito, na prova de fórmula 2) e Clay Regazzoni. Isto depois de Hamilton ter vencido o seu 103º Grande Prémio, e o terceiro dos últimos três, que o relançou para o seu oitavo Mundial, que chegou a parecer perdido.
Foi uma grande corrida, este Grande Prémio esquisito e cheio de coisas estranhas. Desde logo com três partidas da grelha de formação, duas bandeiras vermelhas e já nem sei quantas intervenções do safety car. E muita manha, e outras coisas que tais.
A corrida iniciou-se com os dois pilotos da Mercedes, Hamilton e Botas, nos dois primeiros lugares, donde partiram, com Verstapen em terceiro. À décima volta o primeiro acidente, com Mick Schumacher, e primeira entrada do safety car, que os pilotos da frente aproveitaram para mudar pneus. Todos, excepto o holandês, que quando ia entrar recebeu ordens da equipa para não o fazer, ficando na frente da corrida. Percebeu-se que a Red Bull apostava na bandeira vermelha, que interromperia a corrida, e a relançaria para nova partida, donde sairia na pole, que ontem falhara ao embater no muro à saída de uma curva, quando se aprestava para a conquistar. Quatro voltas depois, aí estava a antecipada bandeira
Nova partida, agora com Verstapen a partir na frente, e com pneus novinhos. Hamilton, em segundo, arrancou bem. Como Verstapen e Ocon. Encontravam os três lado a lado na primeira curva onde Hamilton, quem mais tinha a perder, teve se cortar, Verstapen adiantou caminho por fora da pista, e Ocon, ficando em segundo, seria primeiro pela infracção do holandês. Cá atrás duas molhadas de carros, com Perez, o segundo piloto da Red Bull, a ficar fora da corrida. Nova bandeira vermelha, e nova grelha de partida, desta vez negociada, ao vivo e a cores, entre a direcção da corrida e as equipas: Ocon. Hamilton e Verstapen. Que no arranque, tirando partido dos pneus macios escolhidos para o efeito, mas de risco face às voltas em falta, quando os adversários optaram por duros para durarem o resto da corrida, passou de terceiro para primeiro, à frente de Ocon e de Hamilton, que pouco demorou a ficar a trás do seu rival para o título.
Começou então a perseguição, interrompida de quando em vez por acção do safety car virtual, por força de inúmeros toques em pista que a iam pulverizando com os pequenos destroços que daí resultavam. E começaram os já habituais truques de Verstapen para evitar a ultrapassagem. Numa dessas ocasiões empurrou Hamilton para fora de pista. Foi penalizado, com a obrigatoriedade de lhe ceder o lugar. Nada mais que uma nova oportunidade para outro truque: em vez de abrir para o deixar passar, travou à sua frente, para que lhe batesse por trás. Hamilton ficou com a asa dianteira destruída, e portanto com o carro desequilibrado. Não chegou a passar, mas Verstapen contava com o estrago provocado, mesmo que tivesse de voltar a ceder-lhe a passagem. Como aconteceu, para de imediato tirar partido disso, e voltar à frente.
Mas já não tinha pneus. Os que contara para ganhar na partida não lhe davam para ganhar a corrida. E Hamilton, mesmo com o carro naquelas condições, passou para a frente e fez até a melhor volta da corrida, que lhe deu mais um pontinho. E ganhou claramente uma das corridas mais difíceis de ganhar. Em competição, nem sempre a verdade ganha.. Desta vez ganhou!
Verstapen é um extraordinário piloto, disso não há duvidas. Dúvidas há é que seja um verdadeiro desportista. Para mim, evidentemente!
Uma coisa é a manha, o chico-espertismo. Cabem sempre no desporto. Outra é a batota. Quando a Red Bull arrisca na estratégia e Verstapen arrisca na pista, não há nada a dizer. Mas quando lhe acrescentam batota, já é outra coisa. E fazem-no vezes de mais!
É uma lenda da Fórmula 1. Foi mecânico e piloto, mas foi ao leme da escuderia que criou, como o seu próprio apelido, que a lenda cresceu.
Da cadeira de rodas, a que ficou preso depois de um acidente de automóvel nos anos 80, comandou a equipa que dominou a fórmula 1 nas décadas de 80 e 90 do século passado, levando-a à conquista de 9 títulos mundiais de construtores e 7 de pilotos, todos diferentes. Ninguém repetiu. O primeiro campeão ao volante dos carros azuis da Wlliams foi o australiano Alan Jones, em 1980, em disputa acesa com Nelson Piquet, então na Brabham. Dois anos depois, em 1982, seria a vez do filandês Keke Roberg, o piloto que mais anos consecutivos (quatro) lá permaneceu. Em 1987 chegaria Nelson Piquet para ganhar, e alcançar na Williams o seu terceiro título mundial. Em 1992 seria o regresso de Nigel Mansel à equipa, para ser finalmente campeão do mundo. No ano seguinte seria a vez de Alain Prost, no seu quarto e último título mundial, discutido com Senna (Mclaren), que logo a seguir, no fatídico ano de 1994, chegaria à equipa de Frank Williams para também atingir o seu quarto título, mas onde acabaria por encontrar a morte trágica. O penúltimo título de pilotos chegaria em 1996 através de Damon Hill, filho de outra lenda e bicampeão mundial, Graham Hill, em disputa com o seu colega de equipa Jacques Villeneuve - também filho de outra lenda, Gilles - que no ano seguinte fecharia a lista dos campeões no último título mundial de pilotos e o ciclo absolutamente dominador da mítica escuderia de Frank Williams.
Nestes 7 anos juntou o título de pilotos ao de construtores. Que conquistaria ainda em 1981, quando Piquet ganhou pela Brabham, e no trágico 1994, quando Michael Schumacher ganhou com a Benetton, com motores Ford (1980 e 81), Honda (1986 e 87) e Renault, com que dominou a fórmula 1 entre 1992 e 97, período em que só não ganhou em 1995, no segundo título de Schumacher e primeiro da Benetton, também com motor Renault.
Na fórmula 1, este ano tem acontecido de tudo. Só não tinha ainda acontecido um milagre.
Aconteceu hoje, no Grande Prémio do Bahrain. Decorria ainda a primeira volta quando o carro do francês Romain Grosjean se despistou, embateu num dos rails de protecção, partiu-se em dois e incendiou-se. As chamas tomaram de imediato conta do carro da Haas, e durante 30 segundos nada mais se via que uma imensa bola de fogo a crescer a um ritmo alucinante.
É então que se vê sair das chamas o piloto francês, a encaminhar-se para o rail e a saltá-lo, já com a ajuda dos primeiros socorristas. Um milagre, mesmo para quem não acredita neles.
Não se ficaria por aqui, este Grande Prémio do Bahrain. Quando quase duas horas depois se reiniciou a corrida, uma tentativa de ultrapassagem do russo Daniil Kvyat acaba com o Racing Point do canadiano Lance Stroll capotado na pista, e com o piloto a sair a rastejar-
No fim, Hamilton voltou a ganhar, e a dedicar a vitória ao infeliz felizardo Grosjean. Mas nem "esse tudo como dantes", foi como dantes: Hamilton viu a bandeira de xadrez atrás do safety car, mais uma vez em pista. A quatro voltas do fim. o motor do Racing Point de Sergio Perez, que seguia na terceira posição, "entregou a alma ao criador" e deixou muito óleo na pista, obrigando a entrada do safety car, para evitar males maiores.
Lewis Hamilton venceu o Grande Prémio da Turquia, a décima quarta etapa do campeonato, e sagrou-se desde já campeão do mundo, pela sétima vez. Foi a décima vitória da temporada. Só não ganhou quatro corridas, todas elas por razões de circunstância em que a fórmula 1 é fértil.
Hoje ganhou com grande autoridade - 32 segundos, uma eternidade em fórmula 1, sobre os companheiros no pódio, o mexicano Perez e o alemão Vettel, da desilusão Ferrari, o primeiro da temporada para ambos - e com espectáculo. Saiu do sexto lugar de uma grelha de partida atípica, consequência da instabilidade meteorológica em que se decorreu a qualificação, que nas duas primeiras filas tinha apenas um cliente habitual: Vestappen, no segundo lugar que, com uma má partida caiu de imediato para a quinta posição. Da pole position, a primeira da carreira, largou Stroll, da Racing Point, à frente do seu companheiro de equipa Sergio Perez, que estava atrás, na terceira posição da grelha.
Ganhando duas posições na largada, que viria a perder ainda na primeira volta, Hamilton chegou à liderança à trigésima sétima volta, quando ultrapassou Perez. A partir daí a corrida só lhe serviu para ir ganhando avanço sobre os adversários, acabando por dar uma volta de avanço a Bottas, o seu colega da Mercedes, e único que o poderia impedir de se sagrar já campeão. Heptacampeão!
Depois de bater todos os recordes de Michael Schumacher, igualou-o agora nos sete títulos de campeão mundial de fórmula 1. Aos 35 anos, Lewis Hamilton é agora recordista de pódios (162), de ‘pole positions’ (97), de vitórias (94). E o nome maior da História da competição automóvel!
Vinte e quatro anos depois a fórmula regressou a Portugal, e estreou-se em Portimão. Não foi na melhor altura, mas foi quando aconteceu. E é sempre melhor que tenha acontecido.
Com público, e com muita coisa a não correr pelo melhor. Que se portou melhor hoje que ontem, ao que se diz. Muita gente com bilhete terá ficado hoje do lado de fora, talvez para isso.
Independentemente das dificuldades do público, e com o público, da polémica à volta disso, e das inevitáveis comparações que acabam sempre por evidenciar pesos e medidas diferentes para situações que se pretendam idênticas, mesmo quando o não são, o 17º Grande Prémio de Portugal fixa um marco na História da fórmula 1. Ao vencê-lo Lewis Hamilton conquistou a sua 92ª vitória, batendo o que se julgava ser o inatingível recorde de Michael Schumacher, e ficou a um passo de igualar os sete títulos mundiais do infeliz alemão.
A corrida começou atribulada, mesmo que sem os incidentes dos últimos grandes prémios. Logo no arranque Verstappen, que partiu da terceira posição, atrás dos dois Mercedes, lançou a confusão. Logo a seguir foram uns pingos de chuva a suscitar alguma prudência aos da frente, aproveitada por Carlitos Sainz para chegar à liderança, com Hamilton a chegar a andar pelo terceiro lugar. Mas foi sol de pouca dura - e chuva nem chegou a ser - e rapidamente tudo voltou à normalidade. À décima volta já eram os três primeiros da grelha que seguiam na frente, com Bottas a herdar a frente da corrida. E à vigésima já estava tudo como no fim, que era tudo como no início. E como sempre, com o britânico na frente, a dominar completamente a corrida. A da sua 92ª vitória no sua 97ª pole position!
Fantástico este verdadeiro conto de fadas de um menino que nasceu negro e pobre!
A Ferrari comemorou hoje o seu milésimo grande prémio na História da fórmula 1, justamente no Grande Prémio da Toscana, na sua própria pista.
O número é bonito, como bonita foi a festa com, entre outros acontecimentos, uma volta de exibição do filho de Michael Schumacher no bonito Ferrari com que o seu pai correu em 2004. A lendária equipa do cavalino rampante decidiu assinalar este marco histórico com o regresso à cor do carro que iniciou esta História, o Ferrari 125 com que disputou o Grande Prémio do Mónaco de 1950 - o vermelho escuro.
Um vermelho morto que, quando comparado com o seu marcante vermelho vivo, faz jus à realidade actual da equipa, bem escura e sem vida, como hoje ficou mais uma vez demonstrado, com os seus dois carros a serem os autênticos bombos da festa.
O velório Ferrari na sua festa foi uma das mais acidentadas corridas da História, com duas bandeiras vermelhas. Logo no arranque - em que Bottas, na segunda posição da grelha, ganhou a partida a Hamilton, o Red Bull de Verstappen, depois de um bom arranque, falhou logo a seguir e fez com que uma série de carros lhe batessem e batessem entre si.
E logo na primeira volta o safety car foi chamado à pista. Quando saiu, Bottas, na frente, numa daquelas manobras para enganar o perseguidor (Hamilton), tardou no arranque. Lá para trás não contavam com isso, carregaram no acelerador e... nova carambola, com mais uma série de carros a espatifarem-se uns contra os outros. Safety car de regresso e ...bandeira vermelha.
Nova partida. Desta vez era Hamilton o segundo, e foi ele o melhor a arrancar. Sem corrida, nove voltas estavam entretanto consumidas. A partir daí foi o costume, domínio completo dos Mercedes, que deu até para Hamilton trocar de pneus e regressar à pista na liderança.
Faltavam 15 voltas para o fim quando Lance Stroll (pneu rebentado) saiu de pista e destruiu o seu Racing Point. E nova bandeira vermelha. E nova partida. Desta vez com Hamilton a manter o primeiro lugar no arranque e a conquistar o seu 90º grande prémio. Com Bottas a garantir a dobradinha para a Mercedes, e Alexander Albon (Red Bull) a fechar o pódio.
Quando a fórmula um começava a transformar-se numa pasmaceira, com a superioridade da Mercedes a incomodar o próprio Lewis Hamilton, surgiu o Grande Prémio de Itália, disputado ontem em Monza - o último da família Williams, ao fim de 43 anos - pleno de espectacularidade e emoção, como há muito se não via.
Tinha tudo para ser mais uma corrida enfadonha, como vêm sendo quase todas. Com os Mercedes a saírem e a acabarem na frente, pese um ou outro sobressalto de pneus numa rara decisão menos acertada. Mas com a Ferrari sem conseguir acordar do longo pesadelo em que caiu - ontem foi apenas mais uma desgraça, com Vettel a abandonar, sem travões, logo no início, e Leclerc a sair de pista e a bater violentamente nas protecções, felizmente sem outras consequências que não fossem a destruição completa do carro ... e a longa interrupção da corrida - Monza pareceu querer vingar-se na Mercedes.
Logo no arranque qualquer coisa que ninguém percebeu se passou com o carro de Bottas, que caiu de segundo para sexto, donde praticamente nunca mais conseguiu sair. Quem logo aproveitou foi Carlos Sainz, filho, da Mclaren, que ficou com o segundo lugar, atrás do inevitável Hamilton, que mais não fez que dominar confortavelmente durante 25 voltas.
Só que, na primeira entrada do saferty car, por problemas na pista deixados pelo Haas de Magnussen, Hamilton, que tantas vezes tem sido comido nestas circunstâncias, apressou-se a aproveitar para trocar de pneus. Tanta pressa que nem reparou que a via das boxes ainda não estava aberta. Estava já informado da penalização de um stop and go com 10 segundos por essa infracção quando Charles Leclerc espatifou o seu Ferrari, o que trouxe de volta o saferty car, e, logo depois, a bandeira vermelha.
No recomeço Hamilton cumpriu a penalização e caiu para o último lugar. E a corrida foi outra. Ou foram duas: uma na frente, na disputa pela vitória, e outra, de Hamilton, para se saber até onde conseguiria recuperar. Ambas espectaculares. Hamilton ganhou nove lugares, chegou a sétimo e ficou com a volta mais rápida. E lá na frente Gasly e Sainz, especialmente nas duas últimas voltas, discutiram a vitória como há muito não se via.
Gasly, que assumira a liderança na confusão das interrupções, segurou como pôde até ao último metro a sua primeira vitória, também primeira da estreante AlphaTauri, que não a da Honda, que fornece os motores. Sainz, que para o ano estará na Ferrari, fez com o segundo lugar o seu melhor resultado de sempre – e o melhor da McLaren desde 2014. E Lance Stroll fechou o pódio, o seu segundo e o primeiro da Racing Point desde 2018.
Monza foi evidentemente uma excepção que não será fácil de repetir-se. A regra é os Mercedes, e especialmente Hamilton, não caírem em distracções e, por isso, ganharem sempre. E fixarem novos recordes, quando quase todos os de Schumacher já estão batidos.
Partiu um grande campeão, e uma das maiores lendas da fórmula 1. Campeão mundial em 1975, veria o "bi" desfazer-se no meio das chamas que consumiam o seu corpo e o Ferrari que conduzia em Nurenberga, em Agosto de 1976. Renasceu das cinzas e foi ainda discutir o título desse ano, que só perderia na última corrida, no Grande Prémio do Japão, para voltar a ser campeão no ano seguinte, em 1977, ainda na Ferrari.
Depois afastou-se das corridas por alguns anos. Até ser desafiado pela Mclaren a regressar, para fechar o seu "tri" em 1984, em competição frenética com o seu colega de equipa Alain Prost, outro grande campeão, fadado para ter nos colegas de equipa os seus maiores adversários. Senna estava a chegar...
Acaba de terminar, de forma espectacular, o grande prémio do Abu Dhabi, e com ele a septuagésima edição do campeonato do nundo de fórmula um.
Nada estava já em disputa. Lewis Hamilton tinha já assegurado o título de pilotos, na antepenúltima etapa, no México. O quinto, como Fangio, só atrás de Schumcher, com sete. E a Mercedes também já confirmara o título de construtores no último grande prémio, no Brasil.
Hamilton voltou a ganhar, com Vettel na segunda posição, como na classificação final do campeonato, e o extraordinário e irreverente Verstappen em terceiro, quarto no campeonato, atrás de Raikkonen.
Este campeonato do mundo foi espectacular, teve de tudo o que um grande espectáculo de automobilismo tem que ter. Emoção, coragem, força mental, sangue frio, estratégia, sorte e azar, que também fazem parte do desporto. E se Hamilton foi quem teve mais disto tudo, Verstappen, o autor das mais fantásticas recuperações ao longo da época foi, de longe, quem mais aportou emoção, coragem, sangue frio e ... até loucura e mau feitio. Um grande campeão na forja, sem dúvida!
Mas, o que mais de espectacular teve este último grande prémio da época, que já nada tinha para decidir, foi a despedida de Fernando Alonso, o decano campeão e provavelmente o exemplo máximo desta disciplina de élite do que é estar no sítio certo na hora errada. Concluída a última volta da corrida, não sei se programado, se espontâneo - pouco importa -, os dois primeiros esperaram por Alonso e fizeram uma derradeira volta em escolta, ao logo da qual brindaram o público com séries de manobras espectaculares acabada num abraço a três, no mais arrepiante gesto desportivo numa das mais competitivas modalidades individuais do desporto mundial, num abraço que unia os três campeões mundiais que terminaram a corrida. Faltou Raikkonen, o quarto campeão, que não pôde terminar o grande prémio. Não fosse isso, e teria sido ainda mais bonito!
Como bonito foi o desportivismo entre os dois grandes rivais dos últimos anos - Hamilton e Vettel. Bonito como foi juntar-se-lhes Verstappen, o fantástico bad boy!
Para a próxima época a fórmula entra mais pobre, com menos um campeão. Já só três!
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