A percepção é tramada

Há coisas do diabo. No dia em que Cotrim, acertando em cheio no pé, disse - para, antes de dizer dizer que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ter dito que não disse - que poderia votar Ventura na segunda volta, porque nos últimos dias teve a percepção que ele se tinha moderado, nesse mesmo dia, com poucas horas de diferença, Ventura trazia "Deus, pátria e família" de volta à campanha. Porque, esclarecia, "não pode existir medo das palavras".
Nesse mesmíssimo dia, Montenegro, que fez da percepção a bússola da sua governação (o aumento da insegurança e da criminalidade bem podia ser desmentido pela realidade e pelos dados das polícias, que o que contava era a percepção da opinião pública, lembram-se?), na inauguração da sede da Direcção Executiva do SNS, agarrou na realidade caótica das urgências (esperas de dezenas de horas, ambulâncias paradas porque as macas ficam retidas nos corredores das urgências em vez de lhe serem devolvidas para se voltarem a fazer à estrada, etc.) e transformou-a numa percepção. Uma "percepção de caos" que "não é a realidade".
Quando a percepção é enviesada para o lado que dá jeito, a realidade é só cruel. É o diabo!