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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

A violência ignorada*

Convidada: Clarisse Louro

 

O país tem vindo a ser assolado por uma onda de violência que já não se sabe bem onde irá parar. Sucedem-se os assassinatos a ritmos nunca vistos, por tudo e por nada. Mata-se por desavenças familiares, mata-se por ciúmes, mata-se por intolerância, mata-se por dá cá aquela palha e mata-se sem que se saiba por quê.

Matam-se velhos e jovens… Matam jovens e velhos!

Mostram-se vídeos de jovens que agridem jovens. Tão gratuita quanto selvaticamente. Nem a própria polícia escapa, entrando também ela no domínio da selvajaria, mesmo que escondida atrás do futebol. Onde a fronteira entre a festa e a violência é uma membrana ténue, facilmente rompida por um qualquer provocador, sempre pronto a servir de ignição para incendiar ambientes que rapidamente se convertem em campos de batalha. E pouco depois em autênticos cenários de guerra.

Multiplicam-se os suicídios por todo o país, porventura o expoente máximo da violência. A violência extrema de acabar com a própria vida. A violência do fim da linha…

Não sei se se poderá dizer que tudo tem a ver com a situação que o país há muito atravessa, e que, teimosamente e contrariando o discurso que nos querem impingir, persiste em manter-se. Não acredito que um país possa empobrecer e sofrer, como empobreceu e sofreu nestes últimos anos, sem que a violência se manifeste… Não acredito que uma sociedade possa perder as suas referências e equilíbrios na enxurrada que lhe destruiu a classe média, sem qualquer tipo de reacção.

Não acredito que a violência que foi imposta aos portugueses não gere violência. Não gerou violência social, nem sequer pequenas ondas de agitação. Não gerou movimentos inorgânicos de grande protesto. Nem sequer orgânicos. Somos um povo de brandos costumes, diz-se. Mas é sempre pior quando não há redes de escoamento das frustrações, quando o sofrimento não encontra forma de expressão…

Tenho por claro que este clima de violência não está a ser devidamente tido em conta. Nem sequer se pode dizer que o país esteja chocado. Tudo isto lhe passa ao lado, com a mesma facilidade com que vimos tanta gente desviar-se e passar ao lado de quem, no chão, precisa e clama por ajuda. É a marca da desumanização, cada vez mais cravada na sociedade portuguesa.

Bem sei que muitos dirão que não há razões para alarme. Que tudo isto se circunscreve a fenómenos comunicacionais: que não há hoje mais sinais de violência, o que há é mais notícias deles. Que hoje as notícias correm outra velocidade, chegam de todo lado e a todo o lado.

Não me parece que tenham razão. É verdade que hoje as notícias voam, e chegam-nos de todas as formas. Notícias de violência entram-nos em casa sem pedir licença. Mas isso apenas a banaliza. Isso apenas faz com que lhe demos menos importância. Que nos desviemos, para passar ao lado… Permite-nos fingir que não vemos… Mas só isso. E isso não resolve nada. Como temos obrigação de saber! 

 

* Publicado na edição de hoje do Jornal de Leiria

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