As eleições de ontem

Ontem houve eleições em Portugal. Ninguém deu por nada, mas houve. Não abriram tele-jornais, não vêm nas primeiras páginas dos jornais de hoje, não tiveram direito a qualquer painel de comentadores nas televisões. Foram eleições envergonhadas, mas foram eleições.
Não há regionalização, mas foram eleições regionais. Serviram para eleger as lideranças das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), sem regionalização, um dos veículos da descentralização do poder, que vem ganhando peso nos últimos anos, através da gestão de fundos europeus e, mais recentemente, também da coordenação de políticas públicas regionais.
Estas eleições ocorreram pela primeira vez em 2020, quando o poder central decidiu que, em vez de os nomear directamente, os presidentes das CCDR passariam a ser eleitos por um colégio eleitoral de autarcas (presidentes de câmara, vereadores, deputados municipais e presidentes de Juntas de Freguesia).
Enquanto decidia isso, paralelamente, o poder central - o velho centrão - cozinhava os candidatos, escolhendo quem se apresentaria à votação. Pataca a pataca a mim, PS e PSD dividiriam o bolo entre si. Então, em 2020, os cozinheiros foram António Costa e Rui Rio. Os das de ontem foram, naturalmente, Montenegro e Carneiro. Os eleitores, sempre, os obedientes autarcas dos dois partidos espalhados pelo território de cada CCDR que, como prémio, têm a senha de presença na respectiva Assembleia Municipal, reunida para o acto eleitoral.
Enquanto apontavam numa via democrática, os acordos partidários de Lisboa matavam à nascença a legitimidade democrática. Sob a capa de eleger interlocutores da região junto do governo, os dois partidos continuaram a nomear representantes do governo na região.
As eleições de ontem tiveram um novidade. Pela primeira vez, e apenas numa única CCDR, não há um candidato único.
À CCDR Norte apresentaram-se dois candidatos: António Cunha, o presidente em funções, ao que se diz credor de excelente desempenho, "eleito" por indicação de Rui Rio, vetado por Montenegro, ficou de fora do acordo partidário deste ano, mas que não desistiu e reuniu as condições para se candidatar; e Álvaro Santos, acabado de chegar à vice-presidência da Câmara de Gaia, candidato de Montenegro.
Ontem, em 278 Assembleias Municipais, cerca 11 mil autarcas prestaram-se a este embuste, a fazer de conta que há democracia, e não "jobs for the boys", nas CCDR.
Não admira que as eleições de ontem não tenham sido notícia. Admira é que o embuste que são o não seja!
Depois admiram-se com certas coisas ... Já agora cabe-me dizer que, pelo que me apercebi, apenas os (cinquenta) autarcas do Livre se recusaram a participar no embuste.