Derrota imoral
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"Não há vitórias morais"!
Começava assim um texto sobre um jogo com o Chelsea, faz, hoje 10 anos, que então eliminou o Benfica nos quartos de final da Champions. Quando hoje o republiquei aqui, na rubrica "Há 10 anos", não imaginava, nem de perto nem de longe, que no final deste jogo de hoje com o Liverpool pudesse, com algum propósito, repetir essa entrada.
Este Benfica doente não tinha qualquer tipo de hipótese de resistir a este Liverpool pela frente, que só ganha e que nem sequer sofre golos, uma das três melhores equipas do mundo na actualidade, e um dos mais sérios candidatos à reconquista da Champions. E no entanto, não se podendo dizer que o Benfica mereceria ganhar este jogo, poderá bem dizer-se que não o mereceu perder. "Não há vitórias morais", mas há derrotas imorais. Esta, desta noite, foi imoral!
Como se esperava, o Benfica entrou com a preocupação de retardar o golo do Liverpool, tido por toda a gente por inevitável. O primeiro golpe podia ter sido evitável. Resistir como resistiu naquela fase inicial do jogo, e sofrer o inevitável golo num canto, e logo no primeiro, e logo aos 17 minutos, foi um duro golpe na estratégia.
A equipa sentiu-o bem, e as bancadas não menos. E o "inferno da Luz" tornou-se de repente no céu de Anfield. Passados precisamente mais 17 minutos, surgiu o segundo golo, esse sim, inevitável. Porque perfeitamente dentro do padrão do futebol deste Liverpool, e dentro dos riscos que Taarabt sempre traz ao Benfica: mais uma perda de bola do jogador marroquino permitiu uma transição rápida, com tudo feito ao primeiro toque. Inevitável.
Pensou-se então que a goleada, com os cinco da praxe com que os tubarões habitualmente saem de Portugal - mais do Dragão e de Alvalade, é certo - seria uma simples questão de tempo. Bastava fazer contas - um golo a cada 17 minutos, dava em cinco.
Os mais optimistas pensariam então que o ciclo seguinte já só chegaria na segunda parte. E puxariam à memória a segunda parte do jogo com o Ajax, mesmo sabendo que este Liverpool é de outro campeonato.
Nelson Veríssimo é um optimista, já percebemos. Não lhe tem valido de muito, mas é. Deve ter passado isso aos jogadores ao intervalo, e a verdade é que a segunda parte fez lembrar a do Ajax. Rafa deu logo o mote, fazendo tudo bem menos o remate, e anunciou que o golo andava por ali. E chegou, logo aos 4 minutos, numa falha do defesa Kanoté, o gigante que marcara o primeiro golo e que se fartou de abusar do cabedal, que Darwin aproveitou, com concentração e categoria na execução. Dois minutos antes de se completar o tal ciclo de 17 minutos, o terceiro do jogo.
A partir daí o ciclo foi outro, e o 2-2 esteve sempre mais no horizonte do que qualquer passo para a goleado do costume. O próprio Darwin esteve por duas vezes em condições de estabelecer o empate. Everton esteve ainda mais perto, num remate para defesa apertada de Alisson, ficando depois a faltar a recarga.
A Luz voltou a ser inferno, e a equipa ia crescendo. Recuperava todas as bolas no meio campo, muito por força do novo posicionamento de Darwin, agora mais recuado quando em tarefa defensiva, trocando a marcação aos centrais pela pressão no meio campo, e do inesgotável Gonçalo Ramos, e partia rápida para o ataque.
Klopp sentiu o perigo e por volta dos 60 minutos revolucionou a equipa com três substituições de uma só vez. Melhorou a posse de bola, e controlou melhor o meio campo. Mas nem assim secou as saídas do Benfica e, numa delas, aos 69 minutos, o árbitro espanhol Jesús Gil Manzano, que já em muitas circunstancias tinha mostrado ter habilidade portuguesa, não quis ver penálti no empurrão com que, depois de ultrapassado por Darwin, Van Dijk o afastou da bola.
Na Luz, jogadores e bancadas, continuaram a acreditar que haveriam de chegar ao empate, e repetir o resultado do Ajax. O tempo ia passando, e sobrando cada vez menos para isso. Faltavam dois minutos quando, em mais uma saída para o ataque, uma tentativa de combinação entre Grimaldo e João Mário (que entrara havia pouco para substituir o enorme Gonçalo Ramos) resultou numa intercepção de Keita, que arrancou com a bola sem marcação. No passe para a desmarcação de Luis Diaz, a tentativa de intercepção de Otamendi correu o pior que podia ter corrido: deixou Weigl fora da jogada e o pequeno desvio que deu à bola serviu apenas para melhor enquadrar o colombiano para o golo.
O golo imoral , que somou à assistência para o segundo, de Mané, e que fez dele o homem do jogo para a UEFA. Para gáudio de muita gente, imagino.
Houve erros. Muitos deles são recorrentes e inaceitáveis. No campo e no banco. Mas quando os jogadores dão tudo, até esses erros se perdoam. Depois deste resultado, já nada salva a eliminação nestes quartos de final da Champions. Mas também ninguém acreditaria que pudesse ser possível eliminar este Liverpool. Nem mesmo com o 2-2 que os jogadores fizeram por merecer, e o árbitro por negar.