Descaramento

Bem sei que estamos em plena silly season, aquele período do ano em que, mesmo que tudo aconteça, não acontece nada.
Acontecem incêndios por todo o interior do norte e centro do país. Acontece que o país arde como sempre, mas mais que quase sempre. Mais de 6 mil incêndios já destruíram mais de 63 mil hectares de floresta. Acontecem situações dramáticas, casas a arder, aldeias isoladas pelas chamas, pessoas evacuadas e pessoas fechadas em igrejas, à espera que o fogo passe. Acontece porque nas televisões não acontece mais nada; se não, não acontecia.
Como não acontece, para o governo. Nem uma palavra. Nem do secretário de Estado, nem da ministra, nem do primeiro-ministro. No final da semana passada ouviu-se a ministra, para declarar o estado de alerta. Ontem, quando o silêncio era ensurdecedor, de repente, o primeiro-ministro surge nos ecrãs das televisões.
- Finalmente o chefe do governo vai falar ao país - pensou-se.
Falou. E despachou o assunto: o estado de alerta é prolongado por mais 48 horas, até ao fim da próxima sexta-feira. Assunto despachado, virou-se para o que era importante, e o que, afinal, o trazia ali - a Faro, bronzeado, de férias, a dois dias do Pontal, o arranque simbólico para a vitória do PSD nas autárquicas -, era a entrega de 26 casas, que o ministro das infra-estruturas, também presente, tal como a do ambiente, designou de "um novo projecto de arrendamento apoiado pelo Município de Faro, que dá o exemplo de não virar as costas aos problemas, mas sim de procurar e implementar soluções". E que Montenegro classificou de "ajuda às famílias, oferecendo uma casa com dignidade, com possibilidade de se projectarem e desenvolverem sonhos".
Ao que chega o descaramento!
Não, o descaramento não está apenas em não haver secretário de Estado, nem ministra, nem primeiro-ministro para falar dos incêndios que assolam o país; mas haver dois ministros e o primeiro-ministro para entregar 26 casas. Nem na "ajuda às famílias para desenvolverem sonhos". Está, com as autárquicas à porta, em apresentá-las como exemplo de que o Município de Faro, em vez de "virar as costas aos problemas, procura implementar soluções".
Na verdade as 26 casas fazem parte de um programa de 49, lançado há mais de dois anos pelo anterior governo, e financiado pelo PRR, para realojar famílias de pescadores que aceitem a demolição das suas habitações na Praia de Faro. Que, na verdade, até agora, apenas 26 dessas famílias aceitaram.
Mas governar por percepções também é isto. Não é apenas procurar soluções manhosas para problemas que não existem. E, pelo que se vai percebendo, resulta!