Diário do regresso à vida
O país vai-se abrindo. Entramos ontem na terceira fase de desconfinamento, e a malha vai esticando. Já não há praticamente sectores fechados - os centros comerciais na área da grande Lisboa são a excepção, que não sei se faz a regra se a ponta do icebergue.
Os voos começam a aterrar nos aeroportos e, ao que se diz, sem grandes constrangimentos restritivos. À vontade, à vontadinha... Mas também a levantar voo e, ao contrário de tudo o resto, sem quaisquer restrições de lotação, sem distâncias entre os passageiros. Distâncias indispensáveis ao ar livre, nas praias e parques, mas desnecessárias dentro de um avião. Os espectáculos já recomeçaram, e até o futebol já não quer regressar sem público. Ontem, com o primeiro-ministro na plateia, Bruno Nogueira abriu a temporada no Campo Pequeno, com um espectáculo esgotado em 11 minutos. Hoje repete a dose, desta vez com a presença garantida do Presidente da República.
Entretanto nos hospitais as coisas vão-se complicando, sem que ninguém fale muito disso. As transmissões do vírus não baixam, estão mesmo claramente a subir. Na grande Lisboa, mas não só. Testa-se mais, muito mais agora que anteriormente, é certo. E sempre se soube que quantos mais se testassem mais positivos surgiriam. Como quanto maior for a abertura maior é o contágio, porque a "estória do civismo dos portugueses" está mal contada. O bom comportamento dos portugueses durou enquanto durou o medo. E esse acabou!
Acresce que, ao contrário do que se andou durante muito tempo a dizer, o vírus não é democrático. Não toca a todos da mesma maneira. Bate muito mais nos mais desfavorecidos, e instala-se e circula com muito mais à vontade entre a pobreza e a miséria. Nos bairros mais degradados, nas casas mais insalubres, nos trabalhos mais precários... Entre aqueles que se deslocam para o trabalho em transportes públicos sobre-lotados, como sardinha em lata...
As urgências dos hospitais, até aqui vazias e a permitirem inteira afectação de recursos aos covidários, voltaram a encher-se. Injustificadamente, na maioria dos casos. E as mesmas estruturas têm agora, em vez de uma, duas frentes activas. Porque na propagação do vírus o planalto mantém-se, a altitude é que não. Essa é cada vez maior!