Do céu ao inferno
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Do céu ao inferno. Foi esta a viagem que o Benfica fez, esta noite, na Luz. Do céu, da primeira parte, ao inferno, da segunda.
O céu não foi tão celestial quanto o 3-0 ao intervalo poderia fazer crer. Foi uma boa exibição, mas não foi daquelas exibições arrebatadoras, de destroçar o adversário, de vertigem e magia. Mas foi a prova de que se podem fazer grandes exibições sem se ser avassalador.
Sem grande exuberância, mas com uma equipa competente, o Benfica deixava a ideia de ter feito uma grande exibição, deixando no ar a sensação de ter chegado à Champions só depois de já ter visto a porta de saída. O Inter, com uma equipa inicial onde faltavam as maiores estrelas, teve mais bola, manteve as suas rotinas e nunca foi um adversário verdadeiramente submetido. A grande diferença, e a tal ilusão de ter chegado ao céu, foram os golos, os três de João Mário, em 45 minutos inesquecíveis. Não tem sucedido nada de parecido em termos de aproveitamento.
O intervalo mudou tudo. E aí vêem-se os treinadores. A perder por 3-0, Simeone mandou os mesmos jogadores para a segunda parte. Deve ter-lhes dito que, tendo sido eles a caírem no seu inferno, eram eles que de lá teriam de sair.
Não faço ideia do que terá dito Roger Schemidt aos seus jogadores. O que se viu é que, coisas que, antes, saíam bem, começaram logo a sair mal.
O passe de ruptura de João Neves, que na primeira parte teria chegado ao destino, foi interceptado e deu em contra-ataque, interrompido, em falta, pelo próprio João Neves, provocando um livre a pouco mais de 20 metros da baliza. O pontapé de Alexis Sánchez assustou de tal forma Trubin que, podendo perfeitamente agarrar a bola, desviou-a por cima da trave. Do canto surgiu o primeiro golo do Inter. A segunda parte ia apenas com 5 minutos e já se via que o jogo tinha mudado por completo. E o segundo golo veio logo a seguir.
Exactamente como acontecera na primeira parte com os golos do Benfica: aos 5 e aos 13 minutos.
Simeone deu então por cumprida a tarefa dos seus rapazes. Tinham eles próprios saído do inferno, e fez então entrar as principais figuras para fazerem o resto. Fez as cinco substituições em tempo útil. Thuram, Cuadrado e Barella todos de uma vez, logo a seguir ao segundo golo. Lautaro e di Marco dois minutos depois.
No Benfica nada acontecia. Mas ao Benfica tudo acontecia. Os golos que na primeira parte aconteceram com toda a facilidade, e felicidade, passaram a oportunidades flagrantes perdidas. O guarda-redes do Inter, que na primeira parte praticamente não tocara na bola, passou a defender tudo. O central Bisseck , de andar de cabeça à roda, passou a cortar tudo. E quando Di Maria e Tengstedt poderiam ter feito o quarto e o quinto golos, a sorte já tinha sido toda esgotada por João Mário.
E como tudo acontecia, de um atropelamento a João Neves à entrada da área adversária, que a arbitragem - mais uma, desastrada, na linha do que também tem acontecido nesta Champions - não quis ver, resultou um contra-ataque que acabou num penálti assinalado a Otamendi, sobre Thuram, e transformado por Alexis Sánchez no golo do empate.
Havia ainda muito tempo para jogar - na realidade houve ainda mais de meia hora - e o inferno ficaria ainda mais profundo com a expulsão de António Silva, ditada pelo VAR, e provavelmente exagerada.
Com dez, durante perto de um quarto de hora, ainda que no inferno, o Benfica conseguiu apenas resistir e salvar o empate. Que, só por isso, pela resistência no inferno, não é ainda mais amargo.
Interessam pouco as contas para Sazburgo. Foi com esse adversário, logo no primeiro jogo, que o Benfica abriu as portas do inferno, de que já não tem salvação. Interessa é perceber como a equipa vai do céu ao inferno em apenas 45 minutos. Perceber a inconsistência sistemática desta época.
Quero crer que alguém responsável ande à procura dessas explicações. Espero que sejam dadas porque, explicar tudo por sorte e azar, e por arbitragens, valha o que valer, só pode servir para o exterior. Para a equipa não pode servir!