Eclipse total
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Casa cheia na Luz para o clássico, à 27ª jornada. E cheia de crença, com mais de 60 mil a vibrar nas bancadas, convencidos que o 38 estava já ali, ao virar da esquina.
O jogo da passada semana em Vila do Conde não deixara de mostrar que a forma da equipa não era a mesma de há semanas atrás, antes da paragem para as selecções. Sempre de má memória nesta época de exibições empolgantes. Mas, na Luz, a memória que contava era a das últimas exibições que lá se tinham visto. E essas justificavam todo aquele entusiasmo, que desde bem cedo se sentia ao redor do Estádio. É que, antes de o encherem, os benfiquistas encheram tudo ali à volta.
Frente a frente estavam um Benfica demolidor, e um Porto titubeante, separados por 10 pontos na classificação. Um Benfica convincente, afirmativo e exuberante, e um Porto que vinha de exibições fraquinhas e resultados apertados, frequentemente melhores que as prestações dentro de campo. Mas um Porto que à custa da crença e do querer, mas também de estratégia competitiva, consegue quase sempre atingir níveis de extras de competitividade nos clássicos, e em especial nos jogos com o Benfica.
E, no apito, o inevitável Artur Soares Dias. Invariavelmente habilidoso, cedo incendiou a Luz. Começou logo aos 2 minutos, quando António Silva, depois de ser assistido após um "chapadão" de Taremi, teve de sair do campo e de esperar "uma eternidade" pela autorização para reentrar, enquanto o Porto ia construindo sucessivas jogadas de ataque. Depois foi o amarelo a Florentino, logo a seguir, condicionando-o logo de início.
O Porto entrou pressionante. Ao contrário, o Benfica abdicou da pressão e da decisão de mandar no jogo, para se deixar ficar a ver. E marcou na primeira vez que chegou à baliza de Diogo Costa,logo aos 9 minutos. Mas nem o golo - de Gonçalo Ramos, que acabou até creditado como auto-golo, porque a bola acabou de seguir da barra para dentro da baliza depois de bater na nuca do guarda-redes portista - disfarçou as primeiras indicações que o jogo ia dando. Na Luz, o golo era de Gonçalo Ramos, e catapultava-o para liderança dos marcadores. E era a confirmação de todo aquele ambiente de festa. O resto não interessava para nada.
Mas interessava. A jogar daquela forma, falhando nas decisões e falhando passes ia entregando o jogo ao Porto. Ao jogar daquela forma, com a desinspiração generalizada, mas mais acentuada ainda em Rafa e Grimaldo, e com Gonçalo Ramos muitas vezes atrás da linha da defesa adversária, a impedir melhores decisões ao portador da bola, a equipa não tinha dinâmica, empastava o jogo e permitia que facilmente os jogadores do Porto cortassem as linhas de passe. Como se tudo isso não fosse suficientemente mau, os jogadores faltavam aos duelos, e deixavam o Porto ganhar as todas as segundas bolas.
E foi assim ... Foi assim que o Porto chegou ao empate no golo de Uribe, em cima do minuto 45. E que só não passou para a frente ainda antes do intervalo porque, nos últimos dos seis minutos de compensação da primeira parte, o golo foi anulado a Galeno por fora de jogo. De 6 centímetros.
Não podia ser assim a segunda parte. Mas foi. E quando o Porto fez o que o Benfica havia feito na primeira parte, marcando no mesmo minuto 9 - numa jogada em que toda a defesa falhou, incluindo Odysseas que, apesar do remate de Taremi ter saído muito chegado ao seu poste direito, pareceu que poderia ter feito melhor - percebeu-se que o Benfica de hoje não dava para ganhar ao Porto.
Poderia não haver muito a fazer para alterar esse cenário. Quem ainda não tinha percebido percebeu que o plantel não tem profundidade para alterações desse tipo. Mas na verdade Roger Schemidt também não fez nada para o alterar, e afundou-se com a equipa.
Logo a seguir ao golo, trocou Florentino por Neres. Que começou por trazer alguma coisa ao jogo, mas pouco. Depressa foi engolido pela espiral de desacerto de toda a equipa. E só voltou a mexer muito tarde, aos 87 minutos, para trocar Rafa por Musa, para uns minutos finais de, finalmente, alguma agressividade. Que não deram para nada, a não ser para deixar a ideia que, se pelo menos essa intensidade final tivesse chegado bem mais cedo, o jogo poderia ser bem diferente.
Quando as coisas não correm bem há que querer. Que lutar. Hoje, sem a qualidade e os automatismos de há poucas semanas, o Benfica - jogadores e treinador - conformou-se e abdicou de outras as armas para lutar pelo resultado.
Não é fácil que esta derrota - e esta paupérrima exibição, ao nível, se não mesmo pior, da de Braga - não deixem marcas. Para já, para o jogo com o Inter. Se este eclipse não se der por "extinto" na próxima terça-feira, para que a equipa retome os padrões da época, tudo se pode complicar.
É que a margem de 7 pontos esgota-se numa derrota e dois empates. Bastam dois ou três jogos a este nível para se repetir a história que já conhecemos por duas vezes nos últimos anos.