Gelo do Bessa e as coisas do costume
Saí de casa para regressar à Luz, certamente cheia de fome de bola, depois de três meses sem nada. Numa viagem tranquila, a ouvir música no meio da conversa com os meus dois companheiros de jornada, o primeiro pensamento foi mesmo para o desperdício destes três meses de interregno, sem nada. Nem jogo de apresentação, nem Eusébio Cup. Nada.
Isto para dizer que não ouvi notícias, não olhei para o telemóvel. Nada. Cheguei ao Estádio faltava pouco mais de um quarto de hora para o jogo, já os jogadores tinham regressado às cabines, depois do aquecimento. Estava perto de cheio, mas percebiam-se aqui e ali umas pequenas, mas surpreendentes clareiras. Esperava uma enchente na Catedral, depois de tanto tempo às moscas. Pensei logo que seriam efeitos da água gelada do Bessa.
Tinha acabado de me sentar e aconchegar na cadeira quando dos altifalantes começaram a anunciar a constituição das equipas. Primeiro da do Estrela da Amadora. Os nomes iam saindo, pouco me diziam e a minha atenção continuava destinada àquelas pequenas, mas intrigantes clareiras. Só delas se desviou quando o tom de voz do speaker subiu para anunciar a do Benfica. E logo uma bomba: "com o número 24, Samuel Soares".
O quê?
Terminado o "onze", passou aos suplentes: "com o número 1, Trubin"!
Os efeitos da água gelada do Bessa eram afinal outros. E bem mais graves do que aquelas pequenas clareiras, que afinal nem impediam que a casa estivesse bem perto dos 60 mil.
É certo que Vlachodimos não tinha estado nada bem no Bessa. E que parte dos benfiquistas não tinham sido nada meigos para ele ao longo da semana. Mas isso são os adeptos. E nem sequer a maioria, que bem se lembra de quanto foi importante na época passada. Que sabe o que é gratidão, e que sabe que acima de tudo lhes cabe defender os seus jogadores. Os responsáveis, e Roger Schemidt como responsável-mor da equipa, não podem pensar, e menos ainda agir, dessa forma.
Assim sendo, algo de grave se teria passado. E nesta altura tudo o que não precisamos é de fracturas no seio da equipa. De rupturas no balneário.
Não sei até que ponto isto marcou a equipa, mas a verdade é que ela nem parecia a mesma. E aquela convicção no 39 que aqui reproduzi após a derrota do Bessa, ficou abalada. E isso notou-se isso na Luz.
O Estrela trazia uma estratégia de encurtar o campo. E instalou-a no jogo. Com a defesa muito adiantada retirou 30 a 40 metros ao meio campo atacante do Benfica, e o jogo disputava-se em pouco mais de 20 metros de cada lado do meio campo. Com 20 jogadores em tão pouco espaço de terreno, não havia por onde jogar.
Ao Benfica não faltava bola, faltava era engenho (rotinas e automatismos) e arte (aos jogadores) para desmontar aquela teia, e saltar para as costas da defesa estrelista, onde havia tanto espaço para explorar. Ao Estrela não faltava nada do que pretendia e sobrava-lhe ainda conforto.
Foi assim toda a primeira parte, e mais confrangedoramente assim na primeira meia hora. Só no último quarto de hora o Benfica começou a encontrar forma de contrariar o esquema adversário, e a aqui e ali a furar a teia. Apenas por duas ou três vezes esteve perto do golo: primeiro pelo estreante Arthur Cabral, faltando-lhe arte para contornar a mancha do guarda-redes Brígido, que atingiu pela primeira vez o brilhantismo ao negar o golo no excelente remate de Di Maria, o único que ia remando contra a maré, e o único verdadeiramente capaz de destruir a estrutura defensiva amadorense. Antes, João Mário, sempre muito apagado, rematara ligeiramente por cima da barra.
Nada mais haveria de registo nesta primeira parte não fosse o árbitro - Gustavo Correia, um desconhecido, mas naturalmente do Porto - mostrar que estava ali não para arbitrar mas para fazer mal. E fez tudo para isso, para fazer mal.
Ao intervalo Roger Schemidt trocou João Neves, justamente uma das vítimas de do árbitro do Porto, já "amarelado" por Florentino. Mas deixou em campo João Mário, outro dos contemplados. E o jogo lá continuou mais ou menos na mesma toada da primeira, com os jogadores do Benfica com as mesmas dificuldades, e o árbitro com as mesmas habilidades. Até assinalar um penálti contra o Benfica, já perto do fim do primeiro quarto de hora.
Era, mais uma vez, a terrível lei de Murphy. Valeu o VAR - às vezes vale mesmo, e como o Hugo Miguel (que na véspera tinha validado o golo em fora de jogo ao Sporting, que lhe valeu 3 pontos) foi para a jarra, este achou por por bem valer - a contrariá-la.
Ficou o aviso, mas nem parecia suficiente para convencer Roger Schemidt a mudar qualquer coisa. Foi preciso um quarto de hora para finalmente ver - o que toda a gente via - que precisava de Neres na equipa. E que João Mário, não é para estes jogos. Neres mudo o jogo do avesso, as oportunidades de golo regressaram, e sucediam-se a uma cadência nunca antes vista, resgatando as bancadas da Luz. O guarda-redes do Estrela ia defendendo tudo, até o que parecia indefensável, como mais um extraordinário remate de Di Maria. Gritou-se golo, mas afinal a bola foi à rede mas pelo lado de fora.
Pouco depois trocou Arthur Cabral, muito desligado da equipa e em estreia discreta, apesar de um ou outro bom pormenor, precisamente quando acabara de assinar o seu melhor remate, indefensável que mais uma vez Brígido converteu em defensável, por Tengstedt. Que viria a marcar o golo que fez explodir a Luz, depois de mais uma brilhante jogada de Neres, precisamente 10 minutos depois de ter entrado. Então ao 22º segundo remate do Benfica, que na primeira meia hora do jogo tinha feito apenas um!
Poderiam ter-se seguido mais quatro ou cinco, mas a bola acabou por voltar a entrar apenas por mais vez na baliza de Brígido. Em mais uma jogada pintada pela magia de Neres, concluída, com classe, pela classe de Rafa. E a Luz acabou em festa, quando esteve tão perto da depressão!